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                       Uma vida interrompida
                      Memrias de um Anjo Assassinado




        ALICE SEBOLD




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                                Livro: Uma Vida Interrompida - Memrias de um ANJO ASSASSINADO

                                                                                    Autor: Alice Sebold

                                                                                       Editora: Ediouro.

                                                                                           Pginas: 354

                  Diviso do livro: Aba da Frente/ Aba de trs/ Contra capa/ Dedicatria/ prefcio/ +23
                                                                   captulos+Restos+Agradecimentos




ABA DA FRENTE




              Quando encontramos Susie Salmon pela primeira vez, ela
         j est no cu. Enquanto observa a Terra desse estranho e
         novo lugar, ela nos conta, com a voz jovial e animada de uma
         menina de 14 anos, uma histria ao mesmo tempo comovente
         e cheia de esperana.
              Nas semanas que se seguem a sua morte, Susie v a vida
         continuar sem ela -- seus amigos de colgio trocam boatos
         sobre seu desaparecimento, sua famlia nutre esperanas de
         ela ser encontrada, seu assassino tenta no deixar pistas. A
         medida que os meses passam sem pistas, Susie v o
         casamento de seus pais ser arruinado pela perda, sua irm se
         endurecer em um esforo para ser forte, e seu irmo caula
         tentar entender o significado da palavra morte.
              E ela explora o lugar chamado cu. Ele se parece um
         pouco com o ptio do seu colgio, com o tipo certo de
         balanos. H orientadores para ajudar os recm-chegados a se
         adaptar e amigas para dividir o quarto. Tudo o que ela sempre
         quis aparece no instante em que ela pensa -- exceto o que ela
         mais quer: estar novamente junto das pessoas que amou na
         Terra.




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ABA DE TRS




               Com compaixo, saudade e uma compreenso cada vez
         maior, Susie v suas pessoas queridas superarem a dor e
         comearem a se curar. Seu pai embarca em uma busca
         arriscada para capturar seu assassino. Sua irm realiza um
         feito de notvel ousadia. E o menino de quem Susie gostava
         continua sua vida, e acaba se vendo envolvido em um
         acontecimento milagroso.
               Uma Vida Interrompida  luminoso e surpreendente, um
         romance que constri, a partir da dor, a mais esperanosa das
         histrias. Pelas mos de uma brilhante nova escritora, essa
         histria sobre a pior coisa que uma famlia pode enfrentar 
         transformada em um romance cheio de suspense, e at
         engraado, sobre o amor, a memria, a alegria, o cu e a cura.




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CONTRA CAPA




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                                                             "Para sempre, Glen."




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                                     PREFCIO


      No comece a ler Uma Vida Interrompida se tiver alguma coisa para fazer
logo em seguida. A histria de Susie Salmon ("como o peixe", diz ela, na
primeira linha do romance), quando comea a se desvelar na sua frente, faz os
compromissos, assim como os amigos, a famlia, a fome, o sono e at o celular
tocando, parecerem bem pouco interessantes e menos urgentes.
       preciso muita ousadia para escrever um livro assim. O original, em
ingls, chama-se The Lovely Bones, ou "Os ossos adorveis", numa traduo
bem livre. Ossos no so adorveis, a no ser que a protagonista seja uma
paleontloga. Mas a narradora desta histria tem apenas 14 anos e sonhava ser
fotgrafa enquanto ainda tinha toda a vida pela frente. O livro  em si uma
contradio: cheio de humor e esperana, apesar de ter como pontap inicial o
estupro e assassinato de uma adolescente.
      Os "ossos" do ttulo em ingls no so os restos de Susie, a menininha
que conta a histria depois de morta. So a estrutura sobre a qual a vida 
construda.  uma idia abstrata, positiva e ousada a medida em que  quase
um clich, mas virado de pernas para o ar. Outra audcia  a de colocar Susie
Salmon no cu. Sim,  para cima que vai nossa protagonista. E  para baixo
que ela olha, com olhos atentos, enquanto conta a histria de sua famlia,
agora traumatizada,de como seu assassino planeja os detalhes minuciosamente
para no ser descoberto, de como a polcia no tem nenhuma pista sobre
como chegar a ele.
      Susie Salmon conta sua saga em primeira pessoa, com todo o calor e o
envolvimento e a parcialidade de uma histria narrada assim. Mas, como est
no cu, tambm tem a liberdade de uma narradora onisciente e acesso a coisas
que nunca veria ou saberia de qualquer outro ponto de vista. Ento sabe dos
sentimentos inadequados que sua me comea a ter depois da morte da filha,
o jeito desesperado como seu pai comea a agir, a vergonha de sua irm mais
nova, que agora  a garota mais popular e ao mesmo tempo mais rejeitada do
colgio, e o desnorteamento de seu irmozinho de 4 anos, que simplesmente



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quer ver os pais pararem de chorar e saber quando sua irm mais velha chega
"de viagem".
      O incio da histria se d no inverno de 1973. Antes, portanto, da
descoberta do DNA, quando uma gota de sangue e um fio de cabelo ainda
no eram suficientes para desvendar um mistrio. O que foi um grande passo
para a humanidade no representa necessariamente uma esperana para as
artes. O que seriam dos livros de Raymond Chandler, dos filmes de Alfred
Hitchcock e das peas de Frederick Knott na era do DNA?
      Mas no  justia o que busca Alice Sebold, a autora do livro. No nesta
obra. Aqui,  o pai da menininha morta, Jack Salmon, e o chefe da polcia
local, Len Fenerman, os que mais querem vingana. A prpria autora, que
com a publicao deste livro, seu primeiro romance, virou celebridade nos
EUA (Uma Vida Interrompida foi o livro de fico mais vendido nos EUA
em 2002, com 1,5 milho de cpias) e alcana agora sucesso mundial (os
direitos do romance j foram vendidos para mais de vinte pases), s queria
contar uma boa histria.
      A escolha do tema, no entanto, tem a ver com a sua vida. Nascida em
Madison, Estado do Wisconsin, em 1963, Alice Sebold se parece com a atriz
australiana Cate Blanchett, s que morena e mais madura. Hoje em dia, fala
com serenidade sobre o processo que a levou a escrever este romance. Mas
no foi sempre assim.
      Aos 19 anos, quando estava no primeiro ano da faculdade e ainda
sonhava ser poeta, foi estuprada em ura beco do campus da universidade. Ao
chegar  delegacia, machucada, assustada e no mais virgem, ouviu de um dos
investigadores que vrias mulheres haviam sido estupradas e mortas no
mesmo beco antes dela. Em comparao, disse que ela tinha muita sorte.
"Lucky"  sortuda em ingls e  tambm o nome do livro que Alice Sebold
escreveu contando sua prpria histria. Lucky: a memoir, ou "Sortuda: uma
histria real" (de novo em traduo bem livre), foi lanado em 1999, dois anos
antes deste.
      Alice Sebold queria criar um romance de fico quando pensou na
histria que viria a se transformar em Uma Vida Interrompida. No escreveu
seu livro de memrias para desabafar ou por um desses impulsos de escritor



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que vez por outra aparecem em entrevistas. Escreveu por considerao  Susie
Salmon, sua personagem principal.
     J haviam passado 15 anos desde o incidente violento quando ela criou
Susie. Entre uma coisa e outra, a autora trancou a matrcula da faculdade e foi
morar em Manhattan, onde se envolveu com drogas e com todo tipo de
maluco que perambulava pelo East Village nos anos 80 e 90, antes do furaco
Giuliani varr-los todos da cidade. "No levava em Nova York um tipo de
vida l muito voltado para a reflexo", brincou ela em uma entrevista ao site
www.powells.com. Mas nunca parou de escrever. Poesia  sua primeira paixo
(ou seu "combustvel", como gosta de dizer). As palavras so seu legado.
     No por acaso, so escritores os seus amigos mais ntimos. Entre os que
mais a inspiraram e estimularam, esto Jonathan Franzen, o valente autor de
"The Corrections" que fez polmica quando recusou ser colocado na lista dos
preferidos de Oprah Winfrey; Anna Quindlen ("Um Amor Verdadeiro",
"Pequeno Grande Guia para Uma Vida Feliz"); Aimee Bender "The Girl in
the Flamable Skirt: Stories", indito no Brasil); e Raymond Carver (1938-1988,
autor de "Fique Quieta, Por Favor" e "Short Guts: Cenas da Vida" -- este
ltimo virou um filme genial dirigido por Robert Altman).  casada com Glen
David Gold, autor de um dos livros de maior sucesso do ano 2001, "Carter
Beats the Devil", uma verso fictcia da vida e da obra do mgico Charles
Carter, que teve certa fama nos anos 20, mas no  to lembrado nem
reverenciado quanto seu contemporneo Houdini.
     Nova York est para os escritores como Los Angeles para as estrelas de
cinema, ou seja, quase todos os que fazem sucesso, assim como absolutamente
todos que sonham virar um sucesso de uma hora para outra, vivem l. Hoje
Alice Sebold e seu marido vivem em Long Beach, uma praia afastada de Los
Angeles, onde podem escrever em paz, sem fazer parte da "comunidade". Foi
l que nasceu Susie Salmon, como um conto que a autora escreveu num dia
em que no tinha nada importante para fazer. Depois, ao l-lo cora calma, se
apaixonou pela personagem e decidiu transformar a histria em um livro.
     Comeou pelo comeo. Descreveu o estupro e o assassinato, e fez a
apresentao dos membros da famlia e de alguns amigos fundamentais. A
experincia pessoal da autora, porm, estava comeando a querer entrar no



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seu livro de fico, e essa no era a proposta. Para se livrar de uma vez por
todas e poder contar a histria de Susie Salmon como queria, decidiu
interromper o romance e escrever um livro de memrias. Assim nascia
"Lucky".
      Como em Uma Vida Interrompida, o primeiro captulo de "Lucky"
descreve detalhadamente o ataque. Ao contrrio de Uma Vida Interrompida,
porm, o primeiro captulo do livro de memrias foi o ltimo a ser escrito.
"Sinto que 'Lucky' foi uma parte do meu processo de escrever Uma Vida
Interrompida. Ele existe por si s, mas no acho que o teria escrito se no
fosse to importante para o romance", disse a autora.
      Um livro  completamente diferente do outro, apesar da bvia
semelhana. O de no fico  uma histria dura, contada por uma jovem
universitria que continua a se sentir violentada pelo processo lento das leis
norte-americanas. Enquanto espera o julgamento, ela encontra o homem que a
atacou algumas vezes na rua, se v alvo de curiosidade entre os colegas da
faculdade e da esquisitice familiar que se segue quando um fato inexplicvel
acontece a um dos membros da famlia.
      Tudo isso acontece tambm em Uma Vida Interrompida, mas desta vez
os fatos so narrados por algum que tem ao menos a certeza de que nada
mais pode atingi-la. A histria de Susie Salmon, por paradoxal que seja,  cheia
de esperana, navega quase sempre contra a corrente da realidade. Aqui, Alice
Sebold transforma uma tragdia inaceitvel, o luto de uma famlia e a
impossibilidade da justia em boa literatura.
      Por isso tudo e por muitas outras razes que voc s vai entender ao
folhear as pginas deste livro,  melhor desligar o telefone, desmarcar os
compromissos e tirar o resto do dia de folga. Vai valer a pena.


                                                                               TET RIBEIRO




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          D
                    entro do globo de neve na escrivaninha do meu pai
                    havia um pingim usando um cachecol listrado de
                    vermelho e branco. Quando eu era pequena, meu
          pai me punha no colo e pegava o globo de neve. Virava-o de
          cabea para baixo, fazendo toda a neve se acumular na parte
          de cima, depois o desvirava depressa. Ficvamos os dois
          olhando a neve cair suavemente em volta do pingim. Eu
          pensava que o pinguim estava sozinho l dentro, e me
          preocupava com ele. Quando disse isso ao meu pai, ele
          respondeu: "No se preocupe, Susie; ele tem uma vida boa.
          Est preso dentro de um mundo perfeito."




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                                        Captulo 1




M               eu sobrenome era Salmon, salmo, igual ao peixe; meu
                primeiro nome era Susie. Eu tinha 14 anos quando fui
                assassinada no dia 6 de dezembro de 1973. Nas fotos de
meninas desaparecidas que saam nos jornais nos anos 70, a maioria delas se
parecia comigo: meninas brancas de cabelos castanhos cor de camundongo.
Isso foi antes de crianas de todas as raas e sexos comearem a aparecer nas
caixas de leite ou na correspondncia diria. Ainda era na poca em que as
pessoas acreditavam que coisas assim no aconteciam.
     No meu livro de classe do ginsio coloquei a citao de um poeta
espanhol a quem a minha irm tinha me apresentado, Juan Ramn Jimnez.
Dizia mais ou menos o seguinte: "Se algum lhe der uma folha de papel
pautado, escreva no sentido contrrio." Escolhi essa citao tanto porque ela
expressava meu desprezo pelos ambientes estruturados do tipo sala de aula e
porque, j que no era uma citao ridcula de alguma banda de rock, pensava
que ela mostrasse meus dotes literrios. Eu fazia parte do Clube de Xadrez e
do Clube de Qumica e queimava tudo o que tentava ler na aula de prendas
domsticas da Sra. Delminico. Meu professor preferido era o Sr. Botte, que
lecionava biologia e gostava de animar os sapos e lagostins que tnhamos de
dissecar fazendo-os danar em suas tigelas enceradas.
     A propsito, eu no fui morta pelo Sr. Botte. No pensem que todas as
pessoas que vo encontrar aqui so suspeitas.  esse o problema. Nunca se
sabe. O Sr. Botte compareceu  minha homenagem (assim como, devo
acrescentar, quase todo o colgio em que eu estudava -- nunca fui to
popular) e chorou bastante. Ele tinha uma filha doente. Todo mundo sabia
disso, ento quando ele ria das prprias piadas, que j eram velhas muito
antes de ele virar meu professor, ns tambm ramos, s vezes nos forando,




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s para deix-lo feliz. A filha dele morreu um ano e meio depois de mim. Ela
tinha leucemia, mas nunca a vi no meu cu.
      Meu assassino foi um homem do nosso bairro. Minha me gostava das
flores dos canteiros dele, e meu pai uma vez conversou com ele sobre
fertilizantes. Meu assassino acreditava em coisas antiquadas como casca de
ovo e borra de caf, que segundo ele sua prpria me tinha usado. Meu pai
chegou em casa sorrindo, fazendo piadas sobre como o jardim do cara podia
ser lindo, mas que teria um fedor insuportvel quando chegasse o calor.
      Mas no dia 6 de dezembro de 1973 estava nevando, e na volta do ginsio
eu peguei um atalho pelo milharal. Estava escuro na rua porque os dias eram
mais curtos no inverno, e eu me lembro de como os ps de milho quebrados
dificultavam minha passagem. A neve caa fraca, parecendo uma poro de
mozinhas, e eu estava respirando pelo nariz at ele comear a escorrer tanto
que tive de abrir a boca. A dois metros de onde o Sr. Harvey estava, pus a
lngua para fora para sentir o gosto de um floco de neve.
      -- No fique assustada -- disse o Sr. Harvey.
       claro que dentro de um milharal, no escuro, eu fiquei assustada. Depois
de morta pensei em como o ar tinha um leve cheiro de colnia, mas que eu
no estava prestando ateno ou pensei que o cheiro viesse de alguma das
casas mais  frente.
      -- Sr. Harvey -- disse eu.
      -- Voc  a filha mais velha dos Salmon, no ?
      -- Sou.
      -- Como vo seus pais?
      Embora fosse a mais velha da minha famlia e fosse boa em testes de
cincias, nunca tinha me sentido realmente confortvel na presena de
adultos.
      -- Bem -- respondi. Eu estava com frio, mas a autoridade natural da
idade dele e o fato suplementar de ele ser um vizinho e conversar com meu
pai sobre fertilizantes me prenderam ali.
      -- Eu constru uma coisa ali atrs -- disse ele. -- Quer ver?
      -- Estou com um pouco de frio, Sr. Harvey -- respondi --, e minha me
gosta que eu volte antes de escurecer.
      -- J escureceu, Susie -- disse ele.



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     Agora gostaria de ter percebido que isso foi estranho. Eu nunca tinha dito
meu nome para ele. Acho que pensei que meu pai tinha lhe contado alguma
das constrangedoras piadas que pensava serem apenas provas de amor por
seus filhos. Meu pai era o tipo de pai que coloca uma foto sua pelada aos 3
anos de idade no banheiro do andar de baixo, o banheiro de hspedes. Ele fez
isso com minha irm caula, Lindsey, graas a Deus. Pelo menos fui poupada
dessa indecncia. Mas ele gostava de contar uma histria sobre como, quando
Lindsey nasceu, eu fiquei com tanto cime que um dia quando ele estava no
telefone no quarto ao lado fui at o outro lado do sof -- ele conseguia me
ver de onde estava -- e tentei fazer xixi em cima da Lindsey, que estava dentro
do moiss. Essa histria me humilhava sempre que ele a contava, para o pastor
da nossa igreja, para nosso vizinho, o Sr. Stead, que era terapeuta e cuja
opinio a respeito ele gostaria de ouvir, e para qualquer pessoa que um dia
dissesse: "A Susie tem muita coragem!"
     -- Coragem! -- dizia meu pai. -- Voc nem imagina como -- e comeava
imediatamente a contar a histria de quando Susie-fez-xixi-na-Lindsey.
     Mas o fato  que meu pai no tinha falado de ns para o Sr. Harvey nem
contado para ele a histria de quando Susie-fez-xixi-na-Lindsey.
     O Sr. Harvey mais tarde diria as seguintes palavras para minha me,
quando a encontrasse na rua:
     -- Fiquei sabendo da terrvel, terrvel tragdia. Qual era mesmo o nome
da sua filha?
     -- Susie -- respondeu minha me, controlando-se para agentar o peso
daquilo, peso que ela esperava ingenuamente que um dia fosse diminuir, sem
saber que ele apenas seguiria doendo de maneiras novas e variadas pelo resto
de sua vida.
     O Sr. Harvey falou o de sempre:
     -- Espero que peguem o miservel. Sinto muito por sua perda.
     A essa altura eu estava no meu cu, juntando os pedaos dos meus
membros, e no pude acreditar na audcia dele.
     -- Esse homem no tem vergonha -- disse eu a Franny, minha
orientadora de recepo.
     -- Com certeza -- disse ela, e foi s o que disse. O meu cu no tinha
muitos rodeios.



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     O Sr. Harvey disse que aquilo ia demorar s um minuto, ento eu o segui
at um pouco mais adiante no milharal, onde havia menos ps quebrados,
porque ningum usava aquele caminho como atalho para o colgio. Minha
me tinha dito a meu irmo menor, Buckley, que o milho do milharal era
incomvel quando ele perguntou porque ningum do bairro o comia.
     -- O milho  para cavalos, no para gente -- disse ela.
     -- Nem para cachorros? -- perguntou Buckley.
     -- No. -- respondeu minha me.
     -- Nem para dinossauros? -- perguntou Buckley. E assim por diante.
     -- Eu fiz um esconderijozinho -- disse o Sr. Harvey.
     Ele parou e se virou para mim.
     -- No estou vendo nada -- disse eu. Eu tinha conscincia de que o sr.
Harvey estava me olhando de um jeito estranho. Homens mais velhos j
tinham olhado assim para mim depois de eu ter perdido minhas gordurinhas
de criana, mas geralmente eles no ficavam enlouquecidos comigo quando
eu estava vestindo minha parca azul e minhas calas amarelas boca-de-sino.
Os culos dele eram pequenos e redondos com uma armao dourada, e os
seus olhos olhavam para mim por cima deles.
     -- Voc deveria ser mais observadora, Susie -- disse ele.
     Eu estava era com vontade de observar o caminho para longe dali, mas
no o fiz. Por que no? Franny disse que essas perguntas eram inteis.
     -- No fez e pronto. No fique quebrando a cabea. No adianta nada.
Voc morreu e tem de aceitar isso.
     -- Tenta outra vez -- disse o Sr. Harvey, e agachou-se e bateu no cho.
     -- O que  isso? -- perguntei.
     Minhas orelhas estavam congelando. Eu no queria usar o gorro colorido
com pompom e sininhos que minha me tinha feito para mim em algum
Natal. Em vez disso eu o tinha enfiado no bolso da parca.
     Lembro-me que cheguei perto e pisei com fora no cho perto dele. O
cho parecia ainda mais duro do que a terra congelada, que j era bem dura.
     --  madeira -- disse o Sr. Harvey. -- Impede a entrada de desabar. Fora
isso  tudo feito de terra.




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     -- O que  feito de terra? -- perguntei. Eu no estava mais com frio nem
achando esquisito o jeito como ele tinha me olhado. Era como se eu estivesse
na aula de cincias: eu estava curiosa.
     -- Vem ver.
     Era difcil entrar l dentro, ele reconheceu isso quando estvamos os dois
dentro do buraco. Mas eu estava to maravilhada ao ver como ele tinha
construdo uma chamin capaz de deixar a fumaa sair se ele um dia quisesse
fazer uma fogueira que nem pensei na dificuldade de entrar e sair do buraco.
Pode-se acrescentar a isso que fugir no era um conceito no qual eu tivesse
alguma experincia de verdade. O mais perto que eu tinha chegado de fugir
tinha sido do Artie, ura menino estranho do colgio que era filho de um
agente funerrio. Ele gostava de fingir que andava carregando uma agulha
cheia de formol. Ficava desenhando no caderno agulhas com gotas pretas
pingando.
     -- Que chocante! -- disse eu ao Sr. Harvey. Ele podia ter sido o corcunda
de Notre Dame, sobre o qual tnhamos lido na aula de francs. Eu no estava
nem a. Regredi completamente. Eu era meu irmo Buckley no dia da excurso
ao Museu de Histria Natural de Nova York, onde ele tinha se apaixonado
pelos enormes esqueletos exibidos. Eu no usava a palavra chocante em
pblico desde o primrio.
     -- Como tirar um doce de uma criana -- disse Franny.
     Ainda posso ver o buraco como se fosse ontem, e foi. A vida para ns 
um eterno ontem. Era do tamanho de um quartinho, a lavanderia da nossa
casa, por exemplo, onde deixamos nossas botas e capas de chuva e onde
mame tinha conseguido espremer uma lavadora e uma secadora de roupas,
uma em cima da outra. Eu quase podia ficar em p l dentro, mas o Sr. Harvey
tinha que ficar curvado. O jeito como ele tinha cavado o buraco tinha formado
um banco na lateral. Ele se sentou imediatamente.
     -- Pode olhar -- disse ele.
     Fiquei olhando maravilhada para a prateleira escavada acima dele na qual
ele tinha posto fsforos, uma fileira de pilhas e uma lanterna fosforescente 
pilha que era a nica luz l dentro -- uma luz mortia que tornava seus traos
difceis de distinguir mesmo quando ele estava em cima de mim.




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     Na prateleira tinha um espelho, uma navalha e creme de barbear. Achei
aquilo estranho. Por que ele no fazia isso em casa? Mas acho que pensei que
um homem que tinha uma tima casa de vrios andares e construa um quarto
subterrneo a menos de um quilmetro de distncia devia ser meio biruta.
Meu pai tinha uma boa maneira de descrever gente como ele: "O homem 
excntrico, s isso."
     Ento eu acho que estava pensando que o Sr. Harvey era excntrico, e
bastei do quartinho, e ali estava quente, e queria saber como ele tinha
construdo aquilo, qual era a mecnica da coisa e onde ele tinha aprendido a
fazer algo assim.
     Quando o cachorro dos Gilbert encontrou meu cotovelo, trs dias depois,
e o levou para casa preso a uma palha de milho reveladora, o Sr. Harvey tinha
fechado o buraco. Eu estava em trnsito nessa poca. No o vi suar, retirar o
reforo de madeira, pr todas as provas dentro de sacos junto com as partes
do meu corpo, com exceo daquele cotovelo. Quando comecei a ser capaz
de observar os acontecimentos na Terra, estava mais preocupada com a minha
famlia do que com qualquer outra coisa.
     Minha me estava sentada em uma cadeira ao lado da porta de entrada
com a boca aberta. Seu rosto plido estava mais plido do que eu jamais tinha
visto. Seus olhos azuis estavam fixos. Meu pai estava tomado por um af.
Queria saber detalhes e passar o pente fino no milharal junto com a polcia. Eu
ainda agradeo a Deus por um inspetorzinho chamado Len Fenerman. Ele
destacou dois oficiais uniformizados para levar meu pai at a cidade e faz-lo
mostrar todos os lugares a que eu costumava ir com meus amigos. Os policiais
mantiveram meu pai ocupado em um shopping durante todo o primeiro dia.
Ningum contou para Lindsey, que tinha 13 anos e idade suficiente, nem para
Buckley, que tinha 4 e, para ser honesta, nunca entenderia totalmente.
     O Sr. Harvey me perguntou se eu queria beber alguma coisa. Foi o que ele
disse. Eu disse que precisava ir para casa.
     -- Seja educada e tome uma Coca -- disse ele. -- Tenho certeza de que
as outras crianas fariam isso.
     -- Que outras crianas?
     -- Eu constru isso para as crianas do bairro. Pensei que poderia ser uma
espcie de clube.



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     Acho que mesmo naquela hora eu no acreditei nisso. Pensei que ele
estava mentindo, mas achei que era uma mentira lamentvel. Imaginei que ele
estivesse se sentindo s. Tnhamos lido sobre homens assim na aula de sade.
Homens que nunca se casavam e comiam comida congelada toda noite e
tinham tanto medo de rejeio que sequer tinham animais de estimao. Senti
pena dele.
     -- Tudo bem -- disse eu. -- Vou tomar uma Coca.
     Depois de algum tempo ele disse:
     -- No est com calor, Susie? Por que no tira sua parca? -- Tirei.
     Depois disso ele falou:
     -- Voc  muito bonita, Susie.
     -- Obrigada -- disse eu, mesmo que ele estivesse me olhando de um
jeito que minha amiga Clarissa e eu tnhamos apelidado de calafrio.
     -- Voc tem namorado?
     -- No, Sr. Harvey -- respondi. Engoli o resto da Coca, que era muita, e
disse: -- Preciso ir, Sr. Harvey. Este lugar  bacana, mas eu preciso ir.
     Ele se levantou e ficou parecendo um corcunda na frente dos seis degraus
escavados que conduziam de volta ao mundo.
     -- No sei por que voc acha que vai embora.
     Falei para no precisar encarar o seguinte fato: o Sr. Harvey no era um
excntrico. Ele me dava calafrios e fazia eu me sentir esquisita agora que
estava bloqueando a porta.
     -- Sr. Harvey, eu tenho mesmo que ir para casa.
     -- Tira a roupa.
     -- O qu?
     -- Tira a roupa -- disse o Sr. Harvey. -- Quero verificar que voc ainda 
virgem.
     -- Eu sou, Sr. Harvey -- disse eu.
     -- Quero ter certeza. Seus pais vo me agradecer.
     -- Meus pais?
     -- Eles s querem meninas boazinhas -- disse ele.
     -- Sr. Harvey -- disse eu --, por favor, me deixe ir embora.
     -- Voc no vai embora, Susie. Voc agora  minha.




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     Naquela poca os exerccios fsicos no estavam na moda; aerbica mal
era uma palavra. As meninas tinham de ser macias, e s as meninas que
desconfivamos serem lsbicas conseguiam subir nas cordas no colgio.
     Eu lutei muito. Lutei o mximo que pude para no deixar o Sr. Harvey me
machucar, mas meu mximo no foi forte o suficiente, no chegou nem perto,
e eu logo estava deitada no cho, com ele por cima de mim ofegando e
suando, depois de perder os culos durante a briga.
     Eu estava to viva nessa hora. Pensei que era a pior coisa do mundo estar
deitada de costas com um homem suando em cima de mim. Estar presa
debaixo da terra sem ningum saber onde eu estava.
     Pensei na minha me.
     Minha me estaria olhando os ponteiros do relgio do seu forno. Era um
forno novo e ela adorava o fato de ele ter ura relgio.
     -- Posso medir at os minutos -- disse ela para sua prpria me, uma
me que no dava a mnima para fornos.
     Ela ficaria preocupada, mas mais zangada do que preocupada, com meu
atraso. Quando meu pai entrasse com o carro na garagem, ela se agitaria,
preparando-lhe um drinque, um xerez, e faria cara de irritada:
     -- Sabe como  o ginsio -- diria ela. -- Talvez seja um carnaval fora ir
poca.
     -- Abigail -- diria meu pai --, como pode ser um carnaval fora de poca
se est nevando?
     Sem ter tido sucesso, minha me poderia trazer Buckley para a sala
depressa e dizer:
     -- Vai brincar com o seu pai -- enquanto se recolhia para a cozinha e
tomava um gole de xerez tambm.
     O Sr. Harvey comeou a apertar os lbios nos meus. Eles estavam
inchados e molhados e eu queria gritar, mas estava com medo demais e
exausta demais de lutar. Eu j tinha sido beijada uma vez por algum de quem
gostava. O nome dele era Ray e ele era indiano. Tinha sotaque e a pele escura.
No era para eu gostar dele. Clarissa chamava seus olhos grandes de
plpebras semicerradas de "esquisites", mas ele era legal e inteligente e me
ajudou a colar na prova de lgebra fingindo no ter ajudado. Ele me beijou na
frente do meu escaninho na vspera do dia em que entregamos nossas fotos



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para o livro de classe. Quando o livro saiu no final do vero, vi que embaixo da
sua foto ele tinha respondido  pergunta habitual "Meu corao pertence a"
com "Susie Salmon". Acho que ele tinha planos. Lembro-me que seus lbios
estavam rachados.
     -- No, Sr. Harvey -- consegui dizer, e continuei dizendo aquela palavra
muitas vezes. No. E disse, por favor, muitas vezes tambm. Franny me disse
que quase todo mundo implorava, por favor," antes de morrer.
     -- Eu quero voc, Susie -- disse ele.
     -- Por favor -- disse eu. -- No. -- disse eu. Algumas vezes eu combinava
os dois. "Por favor, no" ou "No, por favor". Era como insistir que uma chave
funciona quando ela no funciona ou gritar "Deixa que eu vou, deixa que eu
vou, deixa que eu vou" enquanto uma bola passa voando por cima de voc e
vai parar na arquibancada.
     -- Por favor, no.
     Mas ele cansou de me ouvir suplicar. Ps a mo no bolso da minha parca
e embolou o gorro que minha me tinha feito para mim, enfiando-o dentro da
minha boca. O nico som que fiz depois disso foi um fraco tilintar de sinos.
     Enquanto ele beijava meu rosto e meu pescoo com seus lbios molhados
e depois comeava a enfiar as mos por baixo da minha blusa, eu chorei.
Comecei a deixar meu corpo; comecei a habitar o ar e o silncio. Chorei e me
debati para no sentir. Ele rasgou minhas calas, sem conseguir encontrar o
zper invisvel que minha me tinha costurado cuidadosamente na lateral.
     -- Calcinha branca grande -- disse ele.
     Eu me senti imensa e deformada. Era como se eu fosse um mar em que
ele estivesse mijando e cagando. Senti os cantos do meu corpo se abrindo e se
fechando, como em uma cama de gato, de que eu brincava com Lindsey s
para faz-la feliz. Ele comeou a se movimentar em cima de mim.
     -- Susie! Susie! -- ouvi minha me chamar. -- O jantar est na mesa.
     Ele estava dentro de mim. Estava grunhindo.
     -- Tem vagem e cordeiro. Eu era a tigela, ele era o pilo.
     -- Seu irmo fez uma nova pintura a dedo, e eu fiz bolo de ma.
     O Sr. Harvey me fez ficar quieta debaixo dele e ouvir o seu corao bater
e o meu corao bater. Ouvir o meu pulando como o de um coelho, e o dele
batendo forte, como um martelo por baixo da roupa. Ficamos ali deitados com



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nossos corpos se tocando e, enquanto eu tremia, percebi uma coisa incrvel.
Ele tinha me feito aquilo e eu tinha sobrevivido. Era s isso. Eu ainda estava
respirando. Ouvia seu corao. Sentia seu hlito. A terra escura  nossa volta
tinha o cheiro do que era, uma terra mida, onde vermes e animais viviam
suas vidas cotidianas. Eu poderia ter gritado durante horas.
     Eu sabia que ele ia me matar. No percebi naquela hora que era um
animal que j estava morrendo.
     -- Por que voc no se levanta? -- perguntou o Sr. Harvey enquanto
rolava para o lado e depois se agachava acima de mim.
     Sua voz era suave, a voz de um amante acordando tarde. Uma sugesto,
no uma ordem.
     Eu no conseguia me mexer. No conseguia me levantar.
     Quando eu no me levantei -- ter sido s isso, o fato de eu no aceitar
sua sugesto? -- ele inclinou o corpo para o lado e tateou, por cima de sua
cabea, pela prateleira em que estavam sua navalha e seu creme de barbear.
Trouxe de l uma faca. Nua, ela sorria para mim, curvando-se em um esgar.
     Ele tirou o gorro da minha boca.
     -- Diz que me ama -- falou ele.
     Gentilmente, eu disse.
     O fim chegou assim mesmo.




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                                          Captulo 2




   Q        uando cheguei no cu pela primeira vez, pensei que todo mundo
            via o que eu via. Que no cu de todo mundo tinha traves de
            futebol ao longe e mulheres lanando pesos ou dardos em cmera
lenta. Que todos os prdios se pareciam com ginsios suburbanos do nordeste
americano construdos nos anos 60. Prdios grandes e atarracados espalhados
por terrenos arenosos com projetos paisagsticos ruins, e anexos e espaos
abertos para faz-los parecer modernos. Minha parte preferida era como os
blocos coloridos eram turquesa e cor de laranja, iguaizinhos aos blocos do
cientfico de Fairfax. Algumas vezes, na Terra, eu fazia meu pai passar de carro
na frente cientfico de Fairfax para poder me imaginar estudando l.
      Depois da sexta, stima e oitava sries do ginsio, o cientfico teria sido
um novo comeo. Quando eu chegasse no cientfico de Fairfax, insistiria para
ser chamada de Suzanne. Usaria os cabelos escovados  Ia Farrah Fawcett ou
presos em um coque.Teria um corpo que os meninos desejassem e as meninas
invejassem, mas seria tambm to legal que eles se sentiriam culpados por
fazer qualquer outra coisa a no ser me adorar. Eu gostava de pensar em mim
mesma -- depois de chegar a uma espcie de status de rainha -- protegendo
alunos desajustados no refeitrio. Quando algum gozasse de Clive Saunders
por andar feito uma menina, eu o vingaria imediatamente chutando as partes
pudendas do gozador. Quando os meninos provocassem Phoebe Hart por
causa de seus peitos grandes, eu faria um discurso sobre porque piadas de
peito no eram engraadas. Precisava esquecer que eu tambm tinha feito
listas na margem do meu caderno quando Phoebe passava: tetas, marquises,
peitarras. No final dos meus devaneios, eu estava sentada no banco de trs do
carro enquanto meu pai dirigia. Tinha feito tudo certo. Eu passaria pelo
cientfico em questo de dias, no anos, ou, inexplicavelmente, ganharia um
Oscar de Melhor Atriz no primeiro ano. Eram esses meus sonhos na Terra.




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                                               12
      Depois de alguns dias no cu, percebi que as lanadoras de dardos e de
pesos e os meninos jogando basquete no asfalto rachado estavam todos em
suas prprias verses do cu. S que as deles combinavam com a minha --
no a duplicava exatamente, mas tinha uma poro das mesmas coisas
acontecendo.
      Conheci Holly, que virou minha colega de quarto, no terceiro dia. Ela
estava sentada no balano. (No questionei o fato de um cientfico ter
balanos: era isso que fazia aquele lugar ser o cu. E no eram balanos de
fundo chato -- todos tinham braos e eram feitos de uma borracha preta dura
que envolvia o corpo e sobre a qual se podia pular um pouco antes de
balanar.) Holly estava sentada lendo um livro em um alfabeto estranho que
associei ao arroz com carne de porco que meu pai trouxe para casa do Hop
Fat Kitchen, um restaurante do qual Buckley adorava o nome, adorava tanto
que gritava "Hop Fat!" com toda fora. Agora sei o que  um vietnamita, e sei
que Herman Jade, dono do Hop Fat, no era vietnamita, e que Herman Jade
no era o nome verdadeiro de Herman Jade e sim um nome que ele tinha
adotado ao chegar nos Estados Unidos vindo da China. Holly rne ensinou tudo
isso.
      -- Oi -- disse eu. -- Meu nome  Susie.
      Mais tarde ela me diria que tirou seu nome de um filme, Bonequinha de
luxo. Mas naquele dia ela apenas disse o nome naturalmente.
      -- Meu nome  Holly -- disse ela. J que no cu dela ela no queria ter
nenhum sotaque, no tinha.
      Fiquei olhando para seus cabelos negros. Brilhavam como as promessas
das revistas.
      -- H quanto tempo voc est aqui? -- perguntei.
      -- Trs dias.
      -- Eu tambm.
      Sentei no balano ao seu lado e virei meu corpo vrias vezes para enrolar
a corrente. Depois soltei e girei at parar.
      -- Voc gosta daqui? -- perguntou ela.




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     -- No.
     -- Nem eu.
     Foi assim que comeou.
     No nosso cu, nossos sonhos mais simples tinham sido realizados. O
colgio no tinha professores. Nunca tnhamos de entrar a no ser para a aula
de artes no meu caso e para tocar na banda de jazz no caso de Holly. Os
meninos no beliscavam nossa bunda nem nos diziam que cheirvamos mal;
nossos livros-texto eram as revistas Seventeen, Glamour e Vogue.
     E nossos cus se expandiam  medida que nosso relacionamento crescia.
Queramos muitas das mesmas coisas.
     Franny, minha orientadora de recepo, tornou-se a nossa guia. Franny
tinha idade suficiente para ser nossa me -- quarenta e poucos anos -- e
Holly e eu levamos um tempo para perceber que isso era uma das coisas que
queramos: nossas mes.
     No cu de Franny, ela prestava servios e era recompensada com
resultados e gratido. Na Terra, tinha sido assistente social para os sem-teto e
os pobres. Trabalhava para uma igreja chamada Santa Maria que servia
refeies s para mulheres e crianas, e fazia tudo ali, desde operar os
telefones at matar as baratas -- usando golpes de carat. Ela levou ura tiro
na cara de um homem que procurava a mulher.
     Franny foi falar com Holly e eu no quinto dia. Ela nos estendeu dois copos
descartveis de refrigerante de lima e ns bebemos.
     -- Estou aqui para ajudar -- disse ela.
     Olhei para seus pequenos olhos azuis rodeados por rugas de expresso e
disse-lhe a verdade.
     -- Isto aqui est um tdio.
     Holly estava ocupada tentando esticar a lngua longe o bastante para ver
se tinha ficado verde.
     -- O que vocs querem? -- perguntou Franny.
     -- No sei -- disse eu.
     -- Tudo o que precisam fazer  desejar alguma coisa, e se desejarem o
bastante e realmente souberem por qu, a coisa vai se realizar.
     Parecia to simples, e era. Foi assim que Holly e eu conseguimos nosso
duplex.



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     Eu odiava nossa casa na Terra. Odiava os mveis dos meus pais e o jeito
como nossa casa tinha vista para outra casa e outra casa e mais outra -- um
eco da mesma coisa se repetindo at o outro lado do morro. Nosso duplex
tinha vista para um parque, e ao longe, perto o suficiente para sabermos que
no estvamos sozinhas, mas no perto demais, podamos ver as luzes de
outras casas.
     Depois de algum tempo comecei a desejar mais. O que achei estranho foi
o quanto eu desejava saber o que no sabia na Terra. Queria poder crescer.
     -- As pessoas crescem vivendo -- disse eu a Franny. -- Eu quero viver.
     -- Isso est fora de cogitao -- disse ela.
     -- A gente pode pelo menos olhar os vivos? -- perguntou Holly.
     -- J esto olhando -- respondeu ela.
     -- Acho que ela quer dizer vidas inteiras -- disse eu -- do comeo ao fim,
para ver como . Conhecer os segredos. Assim a gente pode fingir melhor.
     -- Vocs no vo viver essas coisas -- esclareceu Franny.
     -- Obrigada, sabichona -- disse eu, mas nossos cus comearam a
crescer.
     Ainda havia o cientfico, toda a arquitetura de Fairfax, mas agora havia
estradas saindo de l.
     -- Sigam as estradas -- disse Franny -- e encontraro o que precisam.
     Foi ento que Holly e eu comeamos. Nosso cu tinha uma sorveteria em
que, quando pedamos picol de hortel, ningum nunca dizia: "No est na
poca"; tinha um jornal em que nossas fotos apareciam sempre e nos faziam
parecer importantes; tinha homens de verdade e belas mulheres tambm,
porque Holly e eu adorvamos revistas de moda. Algumas vezes Holly parecia
no estar prestando ateno, e outras vezes quando eu ia procur-la ela havia
sumido. Era quando ela ia a uma parte do cu que no compartilhvamos. Eu
sentia saudade dela nessas horas, mas era uma saudade estranha porque a
essa altura eu j conhecia o significado de para sempre.
     Eu no podia ter o que mais queria: o Sr. Harvey morto e eu viva. O cu
no era perfeito. Mas passei a acreditar que, se observasse com ateno, e
desejasse, poderia mudar as vidas das pessoas que amava na Terra.

                                               12
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     Foi meu pai quem recebeu o telefonema no dia 9 de dezembro. Era o
comeo do fim. Ele informou  polcia meu tipo sangneo, teve de descrever a
alvura da minha pele. Eles lhe perguntaram se eu tinha algum sinal particular.
Ele comeou a descrever meu rosto em detalhes, perdendo-se na descrio. O
inspetor Fenerman o deixou continuar, j que a notcia seguinte era horrvel
demais para que ele o interrompesse com ela. Mas ento ele disse:
     -- Sr. Salmon, ns s achamos um pedao de corpo.
     Meu pai estava em p na cozinha e foi tomado por um calafrio nauseante.
Como poderia dizer aquilo para Abigail?
     -- Ento no pode estar certo de que ela est morta? -- perguntou ele.
     -- Nada nunca  certo -- disse Len Fenerman.
     Foi essa frase que meu pai disse  minha me: "Nada nunca  certo."
     Durante trs noites, ele no tinha sabido como tocar minha me nem o
que dizer. Antes, eles nunca tinham ficado arrasados juntos. Geralmente era
um precisando do outro, mas no os dois precisando um do outro, e assim
tinha sido possvel, tocando-se, tomar emprestado a fora do mais forte. E eles
nunca tinham compreendido, como compreendiam agora, o significado da
palavra horror.
     -- Nada nunca  certo -- disse minha me, agarrando-se a isso como ele
esperava que ela fosse fazer.
     Minha me era a pessoa que conhecia o significado de cada amuleto da
minha pulseira -- onde os tnhamos comprado e por que eu gostava deles. Ela
fez uma lista meticulosa do que eu estava carregando e vestindo. Se fossem
encontradas a quilmetros de distncia isoladas em alguma estrada, essas
pistas poderiam levar um policial de l a relacion-las com a minha morte.
     Na minha mente, eu oscilava entre a alegria doce e amarga de ver minha
me enumerar todas as coisas que eu carregava e amava e sua esperana ftil
de que essas coisas tivessem importncia. De que um desconhecido que
encontrasse uma borracha com um personagem de quadrinhos ou um broche
de um astro de rock fosse entreg-los  polcia.
     Depois do telefonema de Len, meu pai estendeu a mo e os dois ficaram
sentados juntos na cama, olhando fixamente para a frente. Minha me
agarrando-se entorpecida quela lista de coisas, meu pai com a sensao de
ter entrado em um tnel escuro. Em determinado momento, comeou a



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chover. Nesse instante pude sentir os dois pensando a mesma coisa, mas
nenhum dos dois falou. Que eu estava em algum lugar l fora, na chuva. Que
eles esperavam que eu estivesse bem. Que estivesse em algum lugar seco e
quente.
     Nenhum dos dois soube quem dormiu primeiro; com os ossos doendo de
exausto, eles caram no sono e acordaram culpados ao mesmo tempo. A
chuva, que havia mudado vrias vezes conforme a temperatura caa, agora era
granizo, e seu barulho, o barulho de pedrinhas de gelo batendo no telhado
acima deles, os acordou juntos.
     Eles no falaram. Olharam um para o outro na luz tnue produzida do
abajur deixado aceso do outro lado do quarto. Minha me comeou Chorar e
meu pai a abraou, enxugou suas lgrimas com os polegares enquanto
segurava seu rosto, e a beijou com muita delicadeza nos olhos. Desviei os
olhos deles enquanto se tocavam. Voltei meus olhos para o milharal, vendo se
havia alguma coisa que a polcia pudesse encontrar de manh. O granizo
vergava os ps de milho e fazia todos os animais entrarem em seus buracos.
No to fundo debaixo da terra estavam os tneis dos coelhos selvagens que
eu tanto adorava, os coelhinhos que comiam os legumes e flores pelo bairro e
que algumas vezes, sem saber, levavam veneno de volta para os ninhos. Ento,
debaixo da terra e muito longe do homem ou da mulher que havia posto iscas
de veneno no seu jardim, uma famlia inteira de coelhos se encolhia e morria.


                                               12
     Na manh do dia 10, meu pai derramou o usque na pia da cozinha,
Lindsey lhe perguntou por qu.
     -- Tenho medo de beber -- disse ele.
     -- Que telefonema foi aquele? -- perguntou minha irm.
     -- Que telefonema?
     -- Ouvi voc dizer aquilo que sempre diz sobre o sorriso da Susie. Sobre
extrelas explodindo.
     -- Eu disse isso?
     -- Voc ficou esquisito. Era um policial, no era?
     -- Sem mentiras?




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     -- Sem mentiras -- concordou Lindsey.
     -- Eles encontraram uma parte de um corpo. Pode ser da Susie. Foi um
violento soco no estmago.
     -- O qu?
     -- Nada nunca  certo -- tentou meu pai. Lindsey se sentou  mesa da
cozinha.
     -- Eu vou passar mal -- disse ela.
     -- Querida?
     -- Pai, quero que me diga o que eles encontraram. Que parte do corpo, e
depois vou precisar vomitar.
     Meu pai pegou uma grande tigela de metal. Levou-a at a mesa e a
colocou ao lado de Lindsey antes de se sentar.
     -- Est bom -- disse ela. -- Fala.
     -- Foi um cotovelo. O cachorro dos Gilbert encontrou.
     Ele segurou a mo dela e ento, como tinha prometido, ela vomitou
dentro da brilhante tigela prateada.


                                               12
     Mais tarde naquela manh o tempo clareou, e no muito longe da minha
casa a polcia isolou o milharal e comeou sua busca. A chuva, o gelo, a neve e
o granizo derretidos e misturados tinham deixado o cho empapado; mesmo
assim, havia uma rea visvel onde a terra havia sido recentemente mexida.
Eles comearam por ali e cavaram.
     Em alguns lugares, conforme o laboratrio descobriu mais tarde, havia
uma densa concentrao do meu sangue misturada com a terra, mas na hora a
polcia foi ficando cada vez mais frustrada, vasculhando o cho molhado e frio
 procura de uma menina.
     Junto  beirada do campo de futebol, alguns dos meus vizinhos
mantinham uma distncia respeitosa da fita da polcia, perguntando-se o que
faziam aqueles homens, vestidos com pesadas parcas azuis, manejando ps e
ancinhos como se fossem instrumentos mdicos.
     Meu pai e minha me ficaram em casa. Lindsey ficou no quarto. Buckley
estava ali perto na casa de seu amigo Nate, onde passava bastante tempo




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ultimamente. Eles tinham dito a ele que eu estava dormindo na casa da
Clarissa por alguns dias.
      Eu sabia onde meu corpo estava, mas no podia dizer a eles. Fiquei
olhando, esperando para ver o que eles iam achar. Ento, como um raio, o
final da tarde, um policial levantou o punho envolto em lama e gritou:
      -- Aqui! -- disse ele, e os outros oficiais correram para rode-lo.
      Os vizinhos tinham ido para casa, com exceo da Sra. Stead. Depois de
confabular em volta do policial descobridor, o inspetor Fenerman quebrou sua
rodinha escura e se aproximou dela.
      -- Sra. Stead? -- disse ele por cima da fita que os separava.
      -- Sim.
      -- A senhora tem um filho no colgio?
      -- Tenho.
      -- Poderia vir comigo, por favor? Um jovem oficial conduziu a sra. Stead
por baixo da fita da polcia e pelo milharal esburacado e revirado at onde
estava o resto dos homens.
      -- Sra. Stead -- disse Len Fenerman --, isso lhe parece familiar? -- Ele
levantou um exemplar de No matem a cotovia. -- As crianas leem isso no
colgio?
      -- Leem -- disse ela, com o rosto perdendo a cor enquanto pronunciava
aquela palavra curta.
      -- Se importa se eu lhe perguntar... -- comeou ele.
      -- Oitava srie -- disse ela, olhando para os olhos cor de ardsia de Len
Fenerman. -- Na srie da Susan. -- Ela era terapeuta e confiava em sua
capacidade para ouvir notcias ruins e discutir racionalmente os detalhes
difceis da vida de seus pacientes, mas se viu apoiando-se no jovem policial
que a havia conduzido at ali. Eu podia ouvi-la desejando ter voltado para
casa junto com os outros vizinhos, desejando estar na sala de estar junto com
o marido, ou l fora no quintal dos fundos com o filho.
      -- Quem  o professor da turma?
      -- A Sra. Dewitt -- respondeu a Sra. Stead. -- As crianas esto achando
isso um tremendo alvio depois de Otelo.
      -- Otelo!




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     --  -- disse ela, com suas informaes sobre o colgio adquirindo
subitamente extrema importncia -- e todos os policiais escutando. -- A Sra.
Dewitt gosta de modular sua lista de leitura, e logo antes do Natal d um
grande estiro com Shakespeare. Depois d Harper Lee como recompensa. Se
a Susie estava carregando No matem a cotovia na bolsa, isso quer dizer que
ela j deve ter entregado o trabalho sobre Otelo.
     Tudo isso foi confirmado.
     A polcia deu telefonemas. Eu vi o crculo se abrir. A Sra. Dewitt estava
com o meu trabalho. Acabou devolvendo-o aos meus pais, sem nota, pelo
correio. "Pensei que gostariam de ficar com isso", escreveu a Sra. Dewitt em
um bilhete que mandou junto com o trabalho. "Sinto muitssimo." Lindsey
herdou o trabalho porque l-lo era doloroso demais para minha me. "O
ostracizado: O homem s" era como eu o havia intitulado. Lindsey tinha
sugerido "O ostracizado" e eu inventei a outra metade. Minha irm fez trs
furos na lateral e prendeu cada pgina cuidadosamente manuscrita em um
caderno vazio. Guardou-o no armrio debaixo do estojo da Barbie e da caixa
que continha seus bonecos Raggedy Ann e Andy em perfeitas condies que
eu tinha invejado.
     O inspetor Fenerman ligou para meus pais. Eles haviam encontrado um
livro de colgio que, segundo acreditavam, poderia ter-me sido entregue
naquele ltimo dia.
     -- Mas poderia ser de qualquer um -- disse meu pai para minha me
enquanto eles comeavam outra viglia inquieta. -- Ou ela poderia ter deixado
cair pelo caminho.
     As provas estavam se acumulando, mas eles se recusavam a acreditar.
     Dois dias depois, no dia 12 de dezembro, a polcia encontrou minhas
anotaes da aula do sr. Botte. Os animais tinham tirado o caderno do lugar
em que ele havia sido enterrado inicialmente -- a terra no correspondia s
amostras prximas, mas o papel pautado, com anotaes das teorias que eu
nunca conseguia entender, mas mesmo assim registrava diligentemente, tinha
sido encontrado quando um gato derrubou um ninho de corvo. Havia pedaos
do papel entre as folhas e gravetos. A polcia separou o papel pautado, junto
com pedaos de outro tipo de papel, mais fino e rugoso, sem pauta.




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     A menina que morava na casa em que ficava a rvore reconheceu a
caligrafia. No era a minha caligrafia, mas sim a do menino que estava a fim de
mim: Ray Singh. No papel de arroz especial de sua me, Rav tinha me escrito
um bilhete de amor, que eu nunca li. Ele o tinha colocado dentro do meu
caderno durante nossa aula de laboratrio da quarta-feira. Sua caligrafia era
caracterstica. Quando os oficiais chegaram, tiveram de destrinchar os
fragmentos do meu caderno de biologia e do bilhete de amor de Ray Singh.
     -- O Ray no est se sentindo bem -- disse sua me quando um inspetor
telefonou para sua casa e pediu para falar com ele. Mas descobriram que
queriam saber graas a ela. Ray assentiu quando ela repetiu as perguntas que
o policial queria fazer a seu filho. Sim, ele tinha escrito um bilhete de amor
para Susie Salmon. Sim, ele o tinha colocado dentro do seu caderno depois de
o sr. Botte ter pedido a ela para recolher o teste-surpresa. Sim, ele tinha
chamado a si mesmo de Mouro.
     Ray Singh se tornou o suspeito nmero 1.
     -- Aquele menino adorvel? -- disse minha me a meu pai.
     -- O Ray Singh  legal -- disse minha irm durante um jantar montono
naquela noite.
     Eu via minha famlia e sabia que eles sabiam. No era Ray Singh.
     A polcia foi at a casa dele e o interrogou com mo pesada, insinuando
coisas. Eram estimulados pela culpa que liam na pele escura de Ray, pela raiva
que sentiam diante de seus modos, e por sua me bela e, no entanto, extica
e indisponvel demais. Mas Ray tinha um libi. Todo um batalho de naes
podia ser chamado para depor a seu favor. Seu pai, que lecionava histria ps-
colonial em Penn, tinha chamado o filho para representar a experincia
adolescente em uma palestra que deu na International House no dia em que
eu morri.
     De incio, a ausncia de Ray do colgio tinha sido vista como prova de sua
culpa, mas quando a polcia recebeu uma lista dos quarenta e cinco presentes
de que haviam escutado Ray falar em "Subrbios: A experincia americana" foi
obrigada a reconhecer sua inocncia. Do lado de fora da casa dos Singh, a
polcia retirou pequenos gravetos das cercas-vivas. Teria sido to fcil, to
mgico, como se a resposta literalmente casse do cu de uma rvore no colo
deles. Mas os boatos se espalharam e, no colgio, o fraco progresso social que



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Ray tinha feito se reverteu. Ele comeou a voltar para casa imediatamente
depois da aula.
     Tudo isso me deixou louca. Ver tudo e no ser capaz de guiar a polcia em
direo  estufa to perto da casa dos meus pais, onde o sr. Harvey sentado
esculpia ornamentos para uma casa de bonecas gtica que estava
construindo. Ele ouvia o noticirio e examinava os jornais, mas vestia a prpria
inocncia como um confortvel casaco velho. Houvera uma rebelio dentro
dele e agora ele estava calmo.
     Tentei encontrar consolo em Holiday, nosso cachorro. Sentia sua falta
como ainda no tinha me permitido sentir da minha me e do meu pai, da
minha irm e do meu irmo. Aquele tipo de saudade significaria a aceitao de
que eu nunca mais estaria com eles; podia parecer bobo, mas eu no
acreditava nisso, jamais acreditaria. Holiday passava as noites com Lindsey, e
ficava ao lado do meu pai toda vez que ele abria a porta para um novo
estranho. Participava alegremente de qualquer alimentao clandestina da
minha me. Deixava Buckley puxar seu rabo e suas orelhas dentro da casa de
portas trancadas.

                                               12
     Havia sangue demais na terra.
     No dia 15 de dezembro, em meio s batidas na porta alertando minha
famlia que ela precisava se anestesiar ainda mais antes de abrir a casa a
desconhecidos -- os vizinhos gentis, mas pouco  vontade, os reprteres
hesitantes, mas cruis --, veio a batida que finalmente fez meu pai acreditar.
     Era Len Fenerman -- que tinha sido to gentil com ele -- e um oficial
uniformizado.
     Eles entraram, a essa altura conhecendo a casa o suficiente para saber que
minha me preferia que entrassem e dissessem o que tinham a dizer na sala
ntima para que minha irm e meu irmo no escutassem.
     -- Encontramos um objeto pessoal que acreditamos ser da Susie -- disse
Len. Len era cuidadoso. Eu podia v-lo pesando as palavras. Ele fez questo de
ser preciso para meus pais descartarem seu primeiro pensamento -- que a
polcia tinha encontrado meu corpo, que eu estava, com certeza, morta.




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      -- O qu? -- perguntou minha me, impaciente. Ela cruzou os braos e se
preparou para outro detalhe inconsequente ao qual as outras pessoas
atribuam significado. Ela era um muro. Cadernos e romances no eram nada
para ela. Sua filha podia sobreviver sem um brao. Muito sangue era muito
sangue. No era um corpo. Jack tinha dito e ela acreditava: nada nunca 
certo.
      Mas quando eles suspenderam o saco plstico com meu gorro dentro
alguma coisa nela se partiu. O fino muro de cristal pesado que tinha protegido
seu corao -- que a tinha anestesiado de alguma maneira, fazendo-a no
acreditar -- se esfacelou.
      -- O pompom -- disse Lindsey. Ela havia entrado em silncio na sala de
estar vinda da cozinha. Ningum a tinha visto chegar a no ser eu.
      Minha me emitiu um som e estendeu a mo. O som era um ganido
metlico, o som de uma mquina humana se quebrando, emitindo os ltimos
sons antes de o mecanismo inteiro travar.
      -- Ns testamos as fibras -- disse Len. -- Parece que quem quer que
tenha abordado a Susie usou isso durante o crime.
      -- O qu? -- perguntou meu pai. Ele estava impotente. Estavam lhe
dizendo algo que ele no conseguia compreender.
      -- Para faz-la ficar calada.
      -- O qu?
      -- O gorro est coberto com a saliva dela -- esclareceu o oficial
uniformizado, que at agora havia guardado silncio. -- Ele o usou como
mordaa.
      Minha me arrancou o gorro das mos de Len Fenerman, e os sininhos
que ela havia costurado no pompom reuniram quando ela caiu ajoelhada no
cho. Ela se inclinou sobre o gorro que tinha feito para mim.
      Vi Lindsey se retesar na porta. Nossos pais estavam irreconhecveis para
ela; tudo estava irreconhecvel.
      Meu pai conduziu o bem-intencionado Len Fenerman e o oficial
uniformizado at a porta da frente.
      -- Sr. Salmon -- disse Len Fenerman --, com a quantidade de sangue que
encontramos, e a violncia que ele parece implicar, assim como outros indcios




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materiais sobre os quais conversamos, devemos trabalhar com a suposio de
que a sua filha foi morta.
     Lindsey ouviu o que j sabia, o que j sabia havia cinco dias, quando meu
pai lhe falou sobre meu cotovelo. Minha me comeou a chorar.
     -- Daqui para a frente vamos trabalhar com o caso como uma
investigao de assassinato -- disse Fenerman.
     -- Mas no tem corpo -- tentou dizer meu pai.
     -- Todos os indcios apontam para a morte da sua filha. Eu sinto muito.
     O oficial uniformizado tinha o olhar fixo  direita dos olhos suplicantes do
meu pai. Eu me perguntei se aquilo era alguma coisa que eles aprendiam no
colgio. Mas Len Fenerman olhou meu pai nos olhos.
     -- Mais tarde vou telefonar para saber como vocs esto -- disse ele.
     Quando meu pai se virou de volta para a sala de estar, estava arrasado
demais para chegar perto da minha me sentada no carpete ou da forma
tensa da minha irm ali perto. No podia deixar que elas o vissem. Subiu as
escadas, pensando em Holiday no tapete do escritrio. Ele o tinha visto pela
ltima vez ali. Na densa juba de pelos em volta do pescoo do cachorro, meu
pai se permitiria chorar.

                                               12
     Os trs passaram aquela tarde caminhando na ponta dos ps, como se o
som de seus passos pudesse confirmar a notcia. A me de Nate bateu na
porta para devolver Buckley. Ningum respondeu. Ela se afastou, sabendo que
alguma coisa tinha mudado dentro da casa, que se parecia exatamente com as
outras ao seu lado. Ela se tornou a co-conspiradora do meu irmo, dizendo-
lhe que iam sair para tomar sorvete e arruinar seu apetite.
     As quatro, minha me e meu pai se viram juntos no mesmo cmodo no
trreo. Haviam entrado por portas opostas.
     Minha me olhou para meu pai:
     -- Mame -- disse ela, e ele aquiesceu. Ele deu o telefonema para minha
nica av viva, a me da minha me, vov Lynn.


                                               12

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      Fiquei preocupada que, se a deixassem sozinha, minha irm fizesse
alguma coisa impensada. Ela ficava sentada em seu quarto no velho sof do
qual meus pais haviam desistido e fazia o possvel para se endurecer. Respire
fundo e prenda a respirao. Tente ficar parada por perodos cada vez pais
longos. Torne-se pequena e como uma pedra. Dobre as suas extremidades para
dentro e esconda-as onde ningum possa ver.
      Minha me tinha lhe dito que ela podia decidir se queria voltar ao colgio
antes do Natal -- faltava s uma semana -- mas Lindsey decidiu ir.
      Na segunda-feira, na sala de chamada, todo mundo a encarou enquanto
ela se aproximava da frente da sala.
      -- O diretor gostaria de ver voc, querida -- confidenciou-lhe a sra.
Dewitt em um tom contido.
      Minha irm no olhou para a sra. Dewitt enquanto ela falava. Estava se
aperfeioando na arte de conversar com algum olhando atravs da ressoa.
Essa foi minha primeira pista de que alguma coisa teria que acontecer. A sra.
Dewitt tambm era a professora de ingls, mas o mais importante era que ela
era casada com o sr. Dewitt, o tcnico de futebol dos meninos que tinha
incentivado Lindsey a tentar entrar para o time. Minha irm gostava dos
Dewitt, mas naquela manh comeou a olhar nos olhos apenas das pessoas
com quem podia brigar.
      Enquanto juntava suas coisas, ouviu sussurros por toda parte. Tinha
certeza de que logo antes de ela deixar a sala Danny Clarke havia sussurrado
alguma coisa para Sylvia Henley. Algum deixou cair alguma coisa perto do
fundo da sala. Eles faziam isso, pensava ela, para, ao se abaixarem para pegar
o objeto e tornarem a se levantar, poderem dizer uma ou duas palavras para o
vizinho sobre a irm da menina morta.
      Lindsey percorreu os corredores e entrou e saiu do meio das fileiras de
escaninhos -- esquivando-se de qualquer pessoa que pudesse estar por perto.
Eu queria poder andar com ela, imitar o diretor e o jeito como ele sempre
iniciava as reunies no auditrio: "O diretor  um amigo seu com princpios!",
gemia eu em seu ouvido, fazendo-a comear a rir.
      Mas embora ela tenha sido abenoada com corredores vazios, ao chegar
 sala da diretoria foi amaldioada com os olhares vazios de secretrias




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consoladoras. No importava. Ela havia se preparado em casa, no quarto.
Estava armada at os dentes contra qualquer ataque de simpatia.
      -- Lindsey -- disse o diretor Caden --, eu recebi um telefonema da
polcia hoje de manh. Sinto muito pela sua perda.
      Ela olhou bem para ele. No era bem um olhar, e sim um raio laser.
      -- Qual  exatamente a minha perda?
      O Sr. Caden achava que precisava tratar diretamente questes ligadas a
crises dos alunos. Ele saiu de trs da mesa e conduziu Lindsey at o que era
conhecido pelos alunos como O Sof. Ele acabaria substituindo O Sof por
duas cadeiras, depois que a poltica se espalhou pelo distrito do colgio e lhe
disse: "No  bom ter um sof aqui -- cadeiras so melhores. Sofs passam a
mensagem errada."
      O sr. Caden se sentou no Sof e minha irm tambm. Gosto de pensar
que ela estava um pouco animada, naquele momento, por mais que estivesse
abalada, por estar sentada no verdadeiro Sof. Gosto de pensar que no a
tinha privado de tudo.
      -- Estamos aqui para ajudar de todas as maneiras que pudermos -- disse
o sr. Caden. Ele estava se esforando ao mximo.
      -- Eu estou bem -- disse ela.
      -- Quer conversar a respeito?
      -- De qu? -- perguntou Lindsey. Ela estava sendo o que meu pai
chamava de "petulante", como quando dizia: "Susie, no fale comigo nesse
tom petulante."
      -- Da sua perda -- disse ele. Estendeu a mo para tocar o joelho da
minha irm. Sua mo era como um ferro em brasa marcando sua pele.
      -- Eu no sabia que tinha perdido alguma coisa -- disse ela, e com um
esforo hercleo fez os gestos de apalpar a saia e examinar os bolsos.
      O sr. Caden no soube o que dizer. No ano anterior, Vicki Kurtz havia uma
crise. Tinha sido difcil, sim, mas agora, retrospectivamente, Vicki Kurtz e sua
me morta pareciam uma crise administrada com habilidade. Ele tinha levado
Vicki Kurtz para o sof -- no, no, Vicki apenas tinha andado direto para l e
se sentado -- e dito: "Sinto muito por sua perda", e Vicki Kurtz tinha desatado
a chorar como um balo superinflado. Ele a abraou enquanto ela soluava
sem parar, e naquela noite levou o terno para o tintureiro.



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      Mas Lindsey Salmon era um caso totalmente diferente. Ela era boa,
inteligente, um dos vinte alunos de seu colgio selecionados para o Simpsio
dos Talentos estatal. A nica mancha em sua ficha era uma pequena altercao
no incio do ano quando uma professora a tinha repreendido por levar
literatura obscena -- Medo de voar-- para a sala de aula.
      "Faa-a rir", eu queria dizer para ele. "Leve-a para ver um filme dos irmos
Marx, sente-se em uma almofada que peida, mostre-lhe a cueca samba-
cano que est usando, estampada com diabinhos comendo cachorro-
quente!" Tudo o que eu podia fazer era falar, mas ningum na Terra conseguia
me ouvir.

                                               12
      O distrito escolar fez todo mundo fazer testes e depois decidiu quem era
inteligente e quem no era. Eu gostava de aconselhar Lindsey, que ficava
muito mais puta com seus cabelos do que com minha condio de burralda.
Ns duas tnhamos nascido com fartos cabelos louros, mas os meus
rapidamente caram e foram substitudos por ralos tufos castanhos claros. Os
de Lindsey ficaram e passaram a ocupar uma espcie de lugar mtico. Ela era a
nica verdadeira loura da nossa famlia.
      No entanto, uma vez chamada de inteligente, isso a havia levado a fazer
jus ao nome. Ela se trancava no quarto e lia livros grossos. Enquanto eu lia
Voc est a, Deus? Sou eu, Margaret, ela lia Resistncia, rebelio e morte, de
Camus. Pode no ter entendido a maior parte, mas carregava o livro para cima
e para baixo, e isso fez as pessoas -- incluindo os professores -- comearem a
deix-la em paz.
      -- O que estou dizendo, Lindsey,  que todos sentimos falta da Susie --
disse o sr. Caden. Ela no respondeu.
      -- Ela era muito inteligente... -- insistiu ele.
      Ela ficou olhando para ele com uma expresso vazia.
      -- Tudo depende de voc agora. -- Ele no fazia ideia do que estava
dizendo, mas pensava que o silncio pudesse significar que estava chegando a
algum lugar. -- Voc agora  a nica menina Salmon.
      Nada.




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     -- Sabe quem veio me ver hoje de manh? -- O sr. Caden tinha guardado
seu grand finale, que estava certo de que ia funcionar. -- O sr. Dewitt. Ele est
pensando em treinar um time feminino -- disse o sr. Caden. -- A ideia toda
surgiu por sua causa. Ele viu como voc  boa, to competitiva quanto os
meninos dele, e acha que outras meninas a seguiriam se voc desse o
exemplo. O que me diz?
     L dentro, o corao da minha irm se fechou como um punho.
     -- Eu diria que seria bem difcil jogar futebol no campo que fica a mais ou
menos seis metros de onde minha irm foi supostamente assassinada.
     Gol!
     A boca do sr. Caden se abriu e ele a ficou encarando.
     -- Mais alguma coisa? -- perguntou Lindsey.
     -- No, eu... -- O sr. Caden tornou a estender a mo. Ainda havia um fio
-- um desejo de entender. -- Quero que voc saiba o quanto lamentamos --
disse ele.
     -- Estou atrasada para o primeiro tempo -- disse ela.
     Naquele instante ela me lembrou de um personagem dos filmes de
faroeste que meu pai adorava, daqueles filmes a que assistamos juntos na
televiso tarde da noite. Havia sempre um homem que, depois de atirar, levava
o revlver aos lbios e assoprava o cano. Lindsey se levantou e saiu da sala do
diretor Caden devagar. As horas em que se afastava eram seus nicos
momentos de descanso. Do outro lado da porta havia secretrias, na frente da
turma havia professores, havia alunos em todas as carteiras, em casa havia
nossos pais, e a polcia passava l. Ela no se deixaria abater. Eu a observava,
sentindo as frases que ela no parava de repetir para si mesma. Tudo bem.
Est tudo bem. Eu estava morta, mas era uma coisa que acontecia o tempo
todo -- as pessoas morriam. Ao deixar a sala da diretoria naquele dia, ela
parecia estar olhando as secretrias nos olhos, mas na verdade estava
prestando ateno em seu batom borrado ou em seu terninho de crepe
estampado.
     Em casa,  noite, ela se deitava de costas no cho do quarto e prendia os
ps debaixo da escrivaninha. Fazia dez sries de abdominais. Depois se
preparava para fazer flexes. Sem ser do tipo para meninas. O sr. Dewitt tinha
lhe falado sobre as flexes que fazia no exrcito, com a cabea levantada, ou



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com uma mo s, batendo palmas entre uma e outra. Depois de fazer dez
flexes, ela ia at a estante e escolhia os dois livros mais pesados -- seu
dicionrio e um almanaque do mundo. Fazia flexes de bceps at seus braos
doerem. Prestava ateno apenas na respirao. Inspira. Expira.


                                               12
     Sentada no mirante da praa principal do meu cu (nossos vizinhos, os
O'Dwyer, tinham um mirante; eu tinha crescido morta de vontade de ter um),
eu via minha irm se encher de raiva.
     Horas antes de eu morrer, minha me pendurou na geladeira um desenho
que Buckley tinha feito. No desenho, uma grossa linha azul separava o ar do
cho. Nos dias seguintes, vi minha famlia passar inmeras vezes na frente
daquele desenho e me convenci de que aquela grossa linha azul era um lugar
real -- um Meio-Termo, onde o horizonte do cu se encontrava com o da
Terra. Eu queria entrar l, no azul-violeta do Crayola, no azul-vivo, no turquesa,
no cu.

                                               12
      Muitas vezes eu me via desejando coisas simples e conseguindo-as.
Tesouros em pacotes peludos. Cachorros.
      Todos os dias no meu cu cachorros pequenos e cachorros grandes,
cachorros de todos os tipos, corriam pelo parque do lado de fora do meu
quarto. Quando eu abria a porta via cachorros gordos e felizes, magros e
cabeludos, e at esbeltos e pelados. Pitbulls rolavam pelo cho, com as tetas
das fmeas inchadas e pretas, implorando para seus filhotes virem mamar,
felizes ao sol. Basss tropeavam nas prprias orelhas, tentando andar,
cheirando o traseiro dos daschunds, os tornozelos dos galgos e as cabeas dos
pequineses. E quando Holly pegava seu sax tenor, ia se sentar do lado de fora
da porta que dava para o parque e tocava blues, todos os cachorros corriam
para formar seu coro. Eles se sentavam e ficavam uivando. Ento outras portas
se abriam,e mulheres saam de onde moravam sozinhas ou com companheiras
de quarto. Eu tambm ia l para fora, e Holly continuava tocando sem parar,
com o sol se pondo, e todas danvamos com os cachorros -- todas ns




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juntas. Corramos atrs deles, eles corriam atrs de ns. Corramos em crculos.
Usvamos vestidos de bolinhas, vestidos floridos, vestidos listrados, lisos.
Quando a lua estava alta, a msica parava. A lana parava. Ns congelvamos.
      A sra. Bethel Utemeyer, a mais velha moradora do meu cu, trazia seu
violino. Holly tocava seu sax de leve. Elas faziam um dueto. Uma mulher velha
e silenciosa, a outra mulher ainda uma menina. Sua msica ia e vinha, criando
um alvio louco e dissonante.
      Todos os danarinos entravam lentamente. A msica reverberava at
Holly, pela ltima vez, passar a melodia para a sra. Utemeyer que, silenciosa,
ereta, histrica, terminava com um ritmo animado.
      A essa altura a casa j dormia; essas eram as minhas Vsperas.




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                                       Captulo 3




   O      estranho com relao  Terra era o que vamos quando olhvamos
          para baixo. Alm da viso inicial que vocs devem imaginar, o velho
fenmeno das formiguinhas-vistas-do-arranha-cu, havia almas abandonando
corpos mundo afora.
     Acontecia de Holly e eu estarmos olhando a Terra, prestando ateno a
uma ou outra cena por um ou dois segundos, procurando o inesperado no
mais mundano dos instantes. E ento uma alma passava correndo por um ser
vivo, tocava-o de leve no ombro ou na bochecha, e continuava seu caminho
rumo ao cu. Os mortos nunca so exatamente vistos pelos vivos, mas muitas
pessoas parecem extremamente conscientes de que algo mudou  sua volta.
Elas falam de um gelo no ar. Os amigos do morto acordam depois de ter um
sonho e veem uma pessoa ao p da cama, ou no vo da porta, ou subindo,
como um fantasma, em um nibus da cidade.
     No meu caminho saindo da Terra, toquei uma menina chamada Ruth. Ela
era do meu colgio, mas nunca tnhamos sido ntimas. Ela estava no meu
caminho naquela noite em que minha alma saiu gritando da Terra. Foi
inevitvel roar nela. Uma vez liberada da vida, tendo-a perdido com tamanha
violncia, eu era incapaz de calcular meus passos. No tinha tempo para
contemplao. Na violncia, a pessoa se concentra em fugir. Quando voc
comea a passar para o outro lado, e a vida vai se afastando como um barco
se afasta inevitavelmente da margem, voc se agarra  morte com fora, como
uma corda que vai transport-la, e vai sendo arrastada por essa corda,
esperando apenas chegar a algum lugar longe de onde est.
     Como um telefonema da c ela da cadeia, passei raspando por Ruth
Connors -- telefone errado, engano. Eu a vi ali em p perto do Fiat vermelho e
empoeirado do sr. Botte. Quando passei por ela, minha mo se estendeu para




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toc-la, para tocar o ltimo rosto, sentir a ltima ligao com a Terra naquela
adolescente no-to-comum.
     Na manh do dia 7 de dezembro, Ruth reclamou com a me de ter tido
um sonho que parecia real demais para ser um sonho. Quando a me
perguntou como assim, Ruth disse:
     -- Eu estava atravessando o estacionamento da administrao do colgio
e, de repente, descendo do campo de futebol, vi um fantasma plido correndo
na minha direo.
     A sra. Connors mexeu o mingau de aveia que engrossava na panela. Ficou
olhando a filha gesticular com suas mos de finos dedos compridos -- mos
que tinha herdado do pai.
     -- Era uma mulher, eu podia sentir que era -- disse Ruth. -- Ela subiu
voando do campo de futebol. Os olhos dela estavam fundos. Ela tinha um vu
branco e fino por cima do corpo, leve como uma gaze. Eu conseguia ver o
rosto dela atravs da gaze, e os traos sobressaam, o nariz, os olhos, o rosto,
os cabelos.
     Sua me tirou o mingau do fogo e abaixou o fogo.
     -- Ruth -- disse ela--, voc est se deixando levar pela sua imaginao.
     Ruth aproveitou a deixa para calar a boca. Nunca mais se referiu ao sonho
que no foi um sonho, mesmo dez dias depois, quando a histria da minha
morte comeou a se espalhar pelos corredores do colgio, recebendo novos
detalhes como todas as boas histrias de terror. Foi difcil pra eles, os meus
colegas, tornarem o horror mais horrvel do que j era. Mas ainda faltavam os
detalhes -- o qu, quando e quem virou sacos vazios para serem recheados
com suas conjecturas. Satanismo. Meia-noite. Ray Singh.
     Por mais que tentasse, eu no conseguia guiar Ruth com fora suficiente
para o que ningum tinha encontrado: minha pulseira de amuletos de prata.
Eu pensava que poderia ajud-la. A pulseira estava l jogada, esperando
alguma mo se estender para peg-la, alguma mo que fosse reconhec-la e
pensar: pista. Mas ela no estava mais no milharal.
     Ruth comeou a escrever poesia. Se sua me ou os professores mais
acessveis no queriam ouvir falar na realidade mais sinistra que ela havia
vivenciado, ela ia cobrir essa realidade com um vu de poesia.




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     Como eu queria que Ruth tivesse ido visitar minha famlia e conversado
com eles. O mais provvel  que ningum, exceto minha irm, sequer tivesse
sabido o nome dela. Ruth era sempre a penltima menina a ser escolhida na
aula de ginstica. Era a menina que, quando uma bola de vlei voava em sua
direo, encolhia-se no lugar em que estava enquanto a bola batia no cho do
ginsio ao seu lado, e suas companheiras de time e a professora de ginstica
tentavam no reclamar.
     Enquanto minha me ficava sentada em sua cadeira de encosto reto no
nosso hall de entrada, vendo meu pai entrar e sair para dar conta de suas
vrias responsabilidades -- ele agora prestava uma enorme ateno ao que
faziam e onde estavam seu filho caula, sua mulher e sua filha que tinha
sobrado --, Ruth pegou nosso encontro acidental no estacionamento do
colgio e saiu de cena.
     Folheou os antigos livros de classe e encontrou as fotos das minhas
turmas, assim como fotos de atividades como o Clube de Qumica, e as
recortou com as tesouras de bordado em forma de cisne da me. Conforme
sua obsesso aumentava, eu continuava a prestar ateno nela, at a ltima
semana antes do Natal, quando ela viu alguma coisa no corredor do nosso
colgio.
     Eram a minha amiga Clarissa e Brian Nelson. Eu tinha apelidado o Brian m
"espantalho" porque, mesmo tendo ombros incrveis que faziam todas as
meninas sonharem, seu rosto me lembrava um saco de juta cheio de palha. Ele
usava um chapu mole de couro tipo hippie e fumava tabaco enrolado, no
fumdromo dos alunos. Segundo minha me, a queda da Clarissa por sombra
de olhos azul-beb era um primeiro sinal de alerta, mas eu sempre tinha
gostado dela exatamente por esse motivo. Ela fazia coisas que no me
deixavam fazer: clareava seus cabelos compridos, usava sapatos com salto
plataforma, fumava cigarros depois da aula.
     Ruth esbarrou com eles dois, mas eles no a viram. Carregava uma pilha
de enormes livros que tinha pegado emprestado com a sra. Kaplan, professora
de cincias sociais. Eram todos textos feministas clssicos, e ela segurava com
as lombadas encostadas na barriga para que ningum visse o que eram. Seu
pai, empreiteiro, tinha lhe dado de presente dois prendedores de livros feitos




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de elstico superforte. Ruth tinha passado dois deles em volta dos livros que
pretendia ler durante as frias.
     Clarissa e Brian estavam rindo. A mo dele estava dentro da blusa dela.
Conforme ele ia subindo a mo ela ria mais, mas evitava suas investidas
girando o corpo ou se afastando alguns centmetros. Ruth manteve distncia
disso como fazia da maioria das coisas. Teria passado por eles do jeito
habitual, de cabea baixa e olhando para o lado, mas todo mundo sabia que a
Clarissa tinha sido minha amiga. Ento ela olhou.
     -- Vai, amor -- dizia Brian --, s um montinho de amor. S um.
     Notei que Ruth franziu os lbios de nojo. Os meus estavam se franzindo
no cu.
     -- Brian, eu no posso. Aqui no.
     -- E no milharal? -- sussurrou ele.
     Clarissa riu de nervoso, mas aninhou o rosto no espao entre o pescoo e
o ombro dele. Por enquanto, sua resposta seria no. Depois disso, o escaninho
da Clarissa foi arrombado.
     Levaram o caderno de colagens dela, vrias fotografias coladas na parte
de dentro do escaninho e o pao de maconha do Brian, que ele tinha
escondido ali sem Clarissa saber.
     Ruth, que nunca tinha ficado doida, passou aquela noite esvaziando o
tabaco de um dos longos cigarros More king size marrons da me e
enchendo-o de maconha. Foi se sentar na casinha de ferramentas com uma
lanterna, olhando fotos minhas e fumando mais bagulho do que at os
maconheiros do colgio conseguiam absorver.
     A sra. Connors, sentada na janela da cozinha lavando loua, sentiu o
cheiro vindo da casinha de ferramentas.
     -- Acho que a Ruth est fazendo amigos no colgio -- disse ela ao
marido, que estava sentado lendo seu Evening Bulletin com uma xcara de
caf. No final de um dia de trabalho, ele estava cansado demais at para
especular qualquer coisa.
     -- Que bom -- disse ele.
     -- Talvez ela ainda tenha salvao.
     -- Sempre tem -- disse ele.




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     Quando Ruth voltou mais tarde naquela noite, com os olhos vermelhos
por causa da lanterna e dos oito cigarros More que tinha fumado, sua me a
recebeu com um sorriso e lhe disse que tinha torta de mirtilo na cozinha. Ruth
precisou de alguns dias e de algumas pesquisas no relacionadas com Susie
Salmon, mas descobriu por que tinha comido a torta inteira de uma vez s.


                                               12
     O ar do meu cu muitas vezes cheirava a gamb -- s um pouquinho. Era
um cheiro que eu sempre tinha adorado na Terra. Quando o sentia, alm do
aroma em si, eu tinha a sensao do cheiro. Era o medo e o poder do animal
misturados para formar um cheiro almiscarado, pungente e duradouro. O cu
da Franny tinha cheiro de tabaco puro classe A. O da Holly tinha cheiro de
cumquat.
     Eu passava dias e noites inteiros sentada no mirante olhando. Vendo
Larissa se afastar de mim em direo ao reconforto de Brian. Vendo Ruth
encar-la de trs de um canto perto da sala de prendas domsticas ou do lado
de fora do refeitrio perto de onde ficava a enfermeira. No comeo, a
liberdade que eu tinha de ver o colgio inteiro era inebriante. Eu via o
treinador de futebol assistente deixar chocolates annimos para a professora
cincias casada, ou a chefe de torcida tentando chamar a ateno de um
menino que tinha sido expulso tantas vezes, de tantos colgios, que at ele
tinha perdido a conta. Via o professor de artes transar com a namorada na sala
do forno de cermica, e o diretor olhar comprido para o treinador de futebol
assistente. Conclu que esse treinador de futebol assistente era um garanho
no universo do ginsio Kennet, mesmo que seu maxilar quadrado no tivesse
efeito nenhum sobre mim.
     Todas as noites, no caminho de volta para o duplex, eu passava debaixo
de postes de luz antigos que tinha visto certa vez em uma pea de teatro. Os
globos de luz ficavam pendurados no poste formando arcos. Eu me lembrava
deles porque, quando assisti  pea com meus pais, tinha-os achado
gigantescos, pesadas bagas cheias de luz.No cu,eu brincava de me posicionar
de modo que a minha sombra furasse as bagas enquanto caminhava para
casa.




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     Depois de ficar olhando Ruth certa noite, encontrei Franny enquanto fazia
isso. A praa estava deserta,e as folhas comeavam a girar em um redemoinho
mais adiante. Fiquei parada e olhei para ela -- para as rugas de expresso que
se acumulavam perto de seus olhos e de sua boca.
     -- Por que voc est tremendo? -- perguntou Franny.
     E embora o ar estivesse mido e frio eu no consegui dizer que era esse o
porqu.
     -- No consigo deixar de pensar na minha me -- disse eu.
     Franny segurou minha mo esquerda com suas duas mos e sorriu.
     Eu queria beij-la de leve na bochecha ou que ela me abraasse, mas em
vez disso fiquei olhando ela se afastar na minha frente, vendo seu vestido azul
se arrastar para longe. Eu sabia que ela no era minha me; no podia fazer de
conta.
     Virei as costas e voltei para o mirante. Senti o ar mido subir por minhas
pernas e braos, levantando bem de leve as pontas dos meus cabelos. Pensei
em teias de aranha de manh, em como elas retinham pequenos diamantes de
orvalho, em como, com um leve movimento do pulso, eu costumava destru-
las sem pensar.
     Na manh do meu dcimo primeiro aniversrio, eu tinha acordado muito
cedo. Ningum mais estava acordado, ou pelo menos era o que eu pensava.
Desci as escadas em silncio e procurei na sala de jantar, onde supunha que
estariam meus presentes. Mas no havia nada ali. Era a mesma mesa da
vspera. Mas quando me virei vi o presente em cima da escrivaninha da minha
me na sala de estar. A linda escrivaninha com sua superfcie sempre limpa. "A
mesa de pagar contas" era como eles a chamavam. Envolta em papel de seda,
mas ainda no embalada estava uma mquina fotogrfica -- que eu tinha
pedido com a voz meio chorosa, de to certa que estava que eles no iam me
comprar uma. Cheguei mais perto e olhei para a mquina. Era uma Instamatic,
e ao seu lado havia trs rolos de filme e uma caixa com quatro flashes
quadrados. Era minha primeira mquina fotogrfica, meu kit de iniciante para
virar o que eu queria ser. Fotgrafa de vida selvagem.
     Olhei em volta. Ningum. Vi atravs das persianas da frente, que minha
me sempre deixava meio abertas -- "convidativo porm discreto" --, que
Grace Tarking, que vivia mais embaixo na rua e frequentava um colgio



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particular, estava andando com tornozeleiras de pesos presas nos ps.
Apressada, pus o filme na mquina e comecei a perseguir Grace Tarking como
imaginei que, quando ficasse mais velha, perseguiria elefantes e rinocerontes
selvagens. Ali eu me escondia atrs de persianas e janelas, l me esconderia
atrs de juncos altos. Eu me movia em silncio, de um jeito que eu pensava ser
cuidadoso, enquanto segurava a longa barra da minha camisola de flanela
com a mo livre.
     Acompanhei os movimentos dela pela nossa sala de estar, passando pelo
hall de entrada at o quartinho do outro lado. Enquanto via sua forma se
distanciar tive uma ideia brilhante -- eu correria at o quintal dos fundos, de
onde poderia v-la sem obstculos. Ento corri na ponta dos ps at os
fundos da casa, mas quando cheguei descobri que a porta da varanda estava
escancarada, guando vi minha me, esqueci-me completamente de Grace
Starking. Eu gostaria de poder explicar melhor do que isso, mas eu nunca a
tinha visto sentada to imvel, to ausente de alguma maneira.
     L fora, na varanda fechada por uma tela, ela estava sentada em uma
cadeira dobrvel de alumnio frente para o quintal dos fundos. Segurava um
pires, e em cima do pires estava sua habitual xcara de caf. Naquela manh
no havia marcas de batom porque no havia batom at ela o passar para...
para quem? Nunca a me ocorrido fazer aquela pergunta. Para o meu pai? Para
ns? Holiday estava sentado perto da bacia de pssaros, ofegando
alegremente, mas ele no me viu. Estava olhando para minha me.
     O olhar dela atendia at o infinito. Naquele instante, ela no era minha
me, mas alguma coisa separada de mim. Olhei para o que eu nunca tinha
visto, o nada a no ser Mame, e vi a pele macia e empoada de seu rosto --
empoada sem maquiagem -- macia sem ajuda. Juntos, suas sobrancelhas
olhos formavam um conjunto. "Olhos de Oceano", assim a chamava pai
quando queria uma de suas cerejas cobertas de chocolate, que ela dava
escondidas no armrio de bebidas como sua iguaria particular. E agora eu
entendia o nome. Eu pensava que era porque seus olhos fossem azuis, mas
agora via que era porque eram infinitos de um modo que eu achava
assustador. Tive uma intuio naquela noite, no um pensamento formado,
uma intuio de que, antes de Holiday me ver e sentir meu cheiro, antes da




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bruma orvalhada por cima da grama se evaporar e da me dentro dela acordar
como fazia todas as manhs, eu devia tirar uma foto minha nova mquina.
     Quando o filme revelado chegou da oficina da Kodak em um envelope
especial pesado, pude ver a diferena imediatamente. Havia apenas uma foto
na qual minha me era Abigail. Era aquela primeira, tirada sem ela perceber,
capturada antes do clique assust-la e transform-la na me da menina que
fazia aniversrio, na dona do cachorro feliz, na mulher do homem carinhoso, e
na me tambm de outra menina e de um adorado menino. Dona-de-casa.
Jardineira. Vizinha bem-humorada. Os olhos da minha me eram oceanos, e
dentro deles havia perda. Pensei que tinha a vida toda para entend-los, mas
s tive aquele dia. Uma vez na Terra eu a vi como Abigail, e depois deixei a
viso retroceder naturalmente -- meu fascnio contido pelo desejo de que ela
fosse minha me e me abraasse como essa me.
     Eu estava no mirante pensando na foto, pensando na minha me, quando
Lindsey se levantou no meio da noite e se esgueirou pelo corredor. Eu a
olhava como olharia um ladro rodeando uma casa em um filme. Sabia que,
quando ela girasse a maaneta da minha porta, ela cederia. Sabia que ela ia
entrar, mas o que faria l dentro? Meu territrio particular j havia se tornado
terra de ningum no meio da nossa casa. Minha me no havia tocado nele.
Minha cama ainda estava desfeita da manh apressada da minha morte. Meu
hipoptamo florido estava jogado entre lenis e travesseiros, assim como
uma roupa que eu tinha desistido de usar antes de escolher as calas boca-de-
sino amarelas.
     Lindsey atravessou o tapete macio e tocou a saia azul-marinho e o casaco
de croch vermelho e azul que formavam duas bolas separadas, desprezadas
sem pensar. Ela tinha um casaco laranja e verde feito no mesmo padro.
Pegou o casaco e o estendeu em cima da cama, alisando-o. Era ao mesmo
tempo feio e precioso. Eu podia ver isso. Ela o afagava.
     Lindsey acompanhou com o dedo a borda da bandeja dourada que eu
tinha em cima da penteadeira, cheia de broches de eleies e do colgio. Meu
preferido era um broche cor-de-rosa com as palavras "Hippy-Dippy Diz Amor",
que eu tinha encontrado no estacionamento do colgio, mas havia de
prometer para minha me no usar. Eu guardava vrios broches naquela
bandeja e presos em uma flmula de feltro gigante da Universidade de



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Indiana, onde meu pai tinha estudado. Pensei que ela fosse roub-los -- pegar
um ou dois para usar -- mas ela no fez isso. Sequer pegou neles. Apenas
deslizou a ponta dos dedos por cima de todas as coisas da bandeja. Foi ento
que viu uma pontinha branca saindo de baixo da bandeja. Ela puxou.
     Era a foto.
     Ela expirou profundamente e se sentou no cho, com a boca ainda aberta
e a mo ainda segurando a foto. As cordas se agitavam e batiam  sua volta,
como uma tenda de lona que se soltou das amarras. Ela tambm, como eu at
a manh daquela foto, nunca tinha visto a me-desconhecida. Tinha visto as
fotos que vinham logo em seguida. Minha me parecendo cansada, mas
sorrindo. Minha me e Holiday de p na frente do corniso, quanto o sol
atravessava seu roupo e sua camisola. Mas eu tinha querido ser a nica
pessoa da casa a saber que minha me tambm era uma outra pessoa --
algum misterioso e desconhecido para ns.


                                               12
     Da primeira vez que passei para o outro lado, foi por acidente. Era dia 23
dezembro de 1973.
     Buckley estava dormindo. Minha me tinha levado Lindsey ao dentista.
Naquela semana eles tinham decidido que todos os dias, como uma famlia,
gastariam algum tempo tentando continuar a vida. Meu pai se atribuiu a tarefa
de limpar o quarto de hspedes do andar de cima, que muito tempo atrs
tinha se transformado em seu quartinho.
     O pai dele tinha lhe ensinado a construir barcos dentro de garrafas. Minha
me, minha irm e meu irmo no davam a mnima para os barcos. Eu os
adorava. O quartinho estava cheio deles.
     Durante o dia todo,no trabalho, ele contava nmeros -- tarefa obrigatria
para uma empresa de seguros de Chadds Ford -- e  noite construa os barcos
ou lia livros sobre a Guerra Civil para relaxar. Sempre que estava pronto para
iar a vela ele me chamava. A essa altura o barco j tinha sido bem colado no
fundo da garrafa. Eu entrava e meu pai me pedia para fechar a porta. Muitas
vezes parecia que a sineta do jantar tocava imediatamente, como se minha
me tivesse um sexto sentido para coisas das quais no participava. Mas




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quando esse sentido a deixava na mo minha tarefa era segurar a garrafa para
ele.
     -- Segura firme -- dizia ele. -- Voc  meu primeiro contramestre.
     Delicadamente, ele puxava o nico barbante que ainda saa pela boca da
garrafa, e voil, todas as velas subiam, do mastro simples ao veleiro. Tnhamos
o nosso barco. Eu no podia aplaudir porque estava segurando a garrafa, mas
sempre queria aplaudir. A partir da meu pai trabalhava depressa, queimando a
ponta do barbante at dentro da garrafa com um cabide de casaco aquecido
em uma vela. Se ele fizesse isso errado, o barco inteiro estaria arruinado ou,
pior ainda, as pequenas velas de papel pegariam fogo e, de repente, com um
grande "fuuu", eu estaria segurando uma garrafa de chamas nas mos.
     Meu pai acabou construindo um suporte de madeira balsa para me
substituir. Lindsey e Buckley no compartilhavam do meu fascnio. Depois de
tentar criar entusiasmo o bastante para eles trs, ele desistiu e se recolheu ao
seu quartinho. Para o resto da minha famlia, um barco dentro de uma garrafa
era igual a qualquer outro.
     Mas enquanto limpava naquele dia ele falou comigo.
     -- Susie, minha filhinha, minha marinheirazinha -- disse ele --, voc
sempre gostou destes menores.
     Fiquei olhando enquanto ele alinhava os barcos em garrafas em cima da
mesa, tirando-os das prateleiras em que eles geralmente ficavam. Usando uma
camisa velha da minha me rasgada em pedaos, ele comeou a tirar a poeira
das prateleiras. Debaixo de sua escrivaninha havia garrafas vazias -- fileiras e
mais fileiras de garrafas que tnhamos juntado para nossas construes
futuras. No armrio havia mais barcos -- os barcos que ele tinha construdo
com o prprio pai, os que ele tinha construdo sozinho, e finalmente os que
tnhamos construdo juntos. Alguns eram perfeitos, mas suas velas ficavam
amareladas; outros haviam desabado ou virado com os anos. E por fim havia
aquele que tinha pegado fogo na semana anterior  minha morte.
     Foi esse que ele quebrou primeiro.
     Meu corao deu um pulo. Ele se virou e viu todos os outros, todos os
anos que representavam e todas as mos que os tinham segurado. As mos
de seu pai morto, as mos de sua filha morta. Fiquei olhando enquanto ele
quebrava o resto. Ele batizou as paredes e a cadeira de madeira com a notcia



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da minha morte, e depois ficou em p no meio do quarto de hspedes/
quartinho cercado por vidro verde. As garrafas, todas elas, estavam quebradas
pelo cho, com as velas e os corpos dos barcos espalhados entre elas. Ele
estava em p no meio do naufrgio. Foi ento que, sem saber como, eu me
revelei. Em todos os pedaos de vidro, em todos os cacos e lascas, projetei
meu rosto. Meu pai olhou para baixo e em volta, passeando os olhos pelo
quarto. Louco. Foi s por um segundo, e depois eu desapareci. Ele ficou calado
por um instante, depois riu -- um uivo sado do fundo de seu estmago. Riu
to alto e to profundamente que, no meu cu, seu riso me fez tremer.
     Ele saiu do quarto e andou at o meu quarto duas portas mais adiante. O
corredor era estreito, e minha porta era como todas as outras, oca o bastante
para poder ser facilmente furada com um soco. Ele estava prestes a quebrar o
espelho em cima da minha penteadeira, a arrancar o papel de parede com as
unhas, mas em vez disso caiu na minha cama, soluando, e abraou os lenis
cor de lavanda enrolados em uma bola.
     -- Papai? -- disse Buckley. Meu irmo segurava a maaneta com a mo.
     Meu pai se virou, mas foi incapaz de parar de chorar. Deslizou at o cho
ainda segurando os lenis, e ento abriu os braos. Teve de pedir duas vezes
ao meu irmo, coisa que nunca tinha feito antes, mas Buckley foi at ele.
     Meu pai enrolou meu irmo nos lenis que tinham o meu cheiro.
Lembrou-se do dia em que eu tinha implorado para ele pintar meu quarto de
roxo e pr um papel de parede da mesma cor. Lembrou-se de arrumar as
National Geographic antigas nas prateleiras de baixo da minha estante. (Eu
queria me imbuir de fotografia de vida selvagem.) Lembrou-se de quando
havia apenas uma criana na casa, por um curto espao de tempo, antes de
Lindsey chegar.
     -- Voc  muito especial para mim, rapazinho -- disse meu pai,
abraando-o.
     Buckley recuou e encarou o rosto franzido do meu pai, as marcas
brilhantes de lgrimas no canto dos olhos. Assentiu com uma expresso sria
e beijou a bochecha do meu pai. Era uma coisa to divina que ningum no cu
teria sido capaz de inventar aquilo; uma criana tomando conta de um adulto.
     Meu pai enrolou os lenis em volta dos ombros de Buckley e lembrou-se
de como eu caa da cama alta de baldaquino em cima do tapete, sem nunca



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acordar. Sentado em seu escritrio em sua cadeira verde lendo um livro, ele se
assustava com o barulho do meu corpo aterrissando. Gostava de me ver
dormir profundamente, sem ser perturbada por pesadelos ou mesmo pelo
cho duro de madeira. Nesses momentos ele jurava que seus filhos seriam reis
ou governantes ou artistas ou mdicos ou fotgrafos de vida selvagem.
Qualquer coisa que sonhassem poder ser.
     Alguns meses antes de eu morrer, ele tinha me encontrado assim, mas
escondido dentro dos lenis comigo estava Buckley, de pijama, com seu urso,
aninhado contra minhas costas, dormindo e chupando o dedo. Naquele
instante meu pai tinha sentido o primeiro sinal da estranha e triste
mortalidade de ser pai. Sua vida tinha dado origem a trs crianas, ento o
nmero o tranquilizava. O que quer que acontecesse com Abigail ou com ele,
os trs teriam um ao outro. Assim a linhagem que ele tinha comeado lhe
parecia imortal, como um forte filamento de ao seguindo rumo ao futuro,
continuando depois dele onde quer que ele fosse parar. At mesmo na velhice
profunda e branca.
     Ele agora encontraria sua Susie dentro de seu filho pequeno. D esse
amor aos vivos. Ele disse isso a si mesmo -- disse em voz alta dentro de seu
crebro -- mas minha presena parecia pux-lo, arrast-lo para trs para trs
para trs. Ele encarou o menininho que segurava nos braos. "Quem  voc?",
viu-se perguntar. De onde voc veio?
     Fiquei olhando meu pai e meu irmo. A verdade era muito diferente do
que lamos no colgio. A verdade era que a linha entre os vivos e os mortos,
aparentemente, podia ser difusa e borrada.




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                                       Captulo 4




 N              as horas depois de eu ser assassinada, enquanto minha me
                dava telefonemas e meu pai comeava a percorrer a vizinhana
                de porta em porta me procurando, o sr. Harvey tinha tapado o
buraco no milharal e levado embora um saco com as partes do meu corpo
dentro. Ele passou a duas casas de onde meu pai conversava com o sr e a sra.
Tarking. Andava pela faixa de terra entre duas fileiras de cercas-vivas em
guerra -- o luxo dos O'Dwyer e a vara-de-ouro dos Stead. Seu corpo passou
roando nas folhas verdes resistentes, deixando vestgios de mim atrs de si,
cheiros que o cachorro dos Gilbert sentiria e seguiria para achar meu cotovelo,
cheiros que o granizo e a chuva dos trs dias seguintes lavariam antes que se
pudesse sequer pensar nos cachorros da polcia. Ele me carregou de volta at
sua casa, onde, enquanto ele entrava para se lavar, fiquei esperando por ele.
     Depois de a casa mudar de dono, os novos proprietrios torceram o nariz
para a mancha escura no cho de sua garagem. Ao levar compradores em
potencial para ver a casa, a agente imobiliria disse que era uma mancha
antiga, mas era eu, escorrendo do saco que o sr. Harvey carregava e me
espalhando pelo concreto. O incio de meus sinais secretos para o mundo.
     Levaria algum tempo para eu perceber o que vocs sem dvida j
presumiram, que eu no era a primeira menina que ele matava. Ele sabia que
tinha de tirar meu corpo do milharal. Sabia que tinha de prestar ateno 
meteorologia para matar durante um arco de precipitao leve a forte porque
isso impediria a polcia de encontrar indcios. Mas no era to cuidadoso
quanto a polcia gostava de pensar. Esqueceu-se do meu cotovelo, usou um
saco de pano para um corpo ensanguentado e, se algum estivesse olhando,
talvez tivesse achado estranho ver seu vizinho andando por uma faixa de terra
que era apertada, mesmo para crianas que gostavam de fingir que as cercas-
vivas em guerra eram um esconderijo.




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     Enquanto esfregava o corpo na gua quente de seu banheiro suburbano
-- um banheiro de disposio idntica ao que Lindsey, Buckley e eu
dividamos -- seus gestos eram lentos, no ansiosos. Sentiu-se invadir pela
calma. Deixou as luzes do banheiro acesas e sentiu a gua morna me lavar e
ento pensou em mim. Meu grito abafado em seu ouvido. Meu delicioso
gemido de morte. A magnfica pele branca que nunca tinha visto o sol, como a
pele de um beb, e depois cortada, to perfeitamente, com a lmina de sua
faca. Tremeu sob o calor, com um calafrio de prazer arrepiando a pele de seus
braos e pernas. Ele tinha me colocado dentro do saco de pano encerado e
jogado l dentro o creme de barbear e a navalha da prateleira de lama, seu
livro de sonetos, e finalmente a faca suja de sangue. Esses objetos estavam
misturados com meus joelhos, dedos da mo e do p, mas ele fez um
lembrete para tir-los de l antes de meu sangue ficar pegajoso demais mais
tarde naquela noite. Os sonetos e a faca, pelo menos, ele recuperou.


                                               12
     Nas Vsperas havia todo tipo de cachorro. E alguns deles, os de que eu
mais gostava, levantavam a cabea quando sentiam um cheiro interessante no
ar. Se o cheiro fosse forte o bastante, se no conseguissem identific-lo
imediatamente ou se, como era possvel, soubessem exatamente o que era --
e seus crebros dissessem: "Hum, steak tartare" --, eles o seguiam at
chegarem ao objeto em si. Diante da verdadeira mercadoria, da verdadeira
histria,decidiam ento o que fazer.Era assim que funcionavam.No reprimiam
seu desejo de saber s porque o cheiro era ruim ou o objeto era perigoso. Eles
caavam. Eu tambm.
     O sr. Harvey levou o saco encerado cor-de-laranja com meus restos
dentro para um sumidouro a treze quilmetros do nosso bairro, uma rea que
at recentemente era abandonada, exceto pelos trilhos de trem e por uma
oficina de motocicletas ali perto. No carro, sintonizou em uma estao de
rdio que tocava canes natalinas sem parar durante o ms de dezembro.
Dentro de sua imensa caminhonete, ele assobiava e se felicitava, sentindo-se
satisfeito. Torta de ma, cheeseburguer,sorvete,caf. Satisfeito. Estava ficando
cada vez melhor agora, sem nunca usar um padro antigo que o aborrecesse,




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mas sim tornando cada morte uma surpresa para si mesmo, um presente para
si mesmo.
     O ar dentro da caminhonete estava frio e frgil. Eu podia ver o ar mido
quando ele expirava, e isso me fazia querer apalpar meus prprios pulmes
endurecidos.
     Ele seguiu pela estrada estreita que separava dois novos lotes industriais.
A caminhonete derrapou saindo de um buraco particularmente fundo, e o
cofre que continha o saco com meu corpo dentro bateu no eixo interno da
roda de trs da caminhonete, rasgando o plstico.
     -- Droga -- disse o sr. Harvey. Mas no parou e recomeou a assobiar.
     Eu tinha uma lembrana de passar por aquela estrada com meu pai
dirigindo e Buckley sentado ao meu lado -- um nico cinto de segurana para
ns dois -- em uma excurso ilegal fora de casa.
     Meu pai tinha perguntado se algum de ns queria ver uma geladeira
desaparecer.
     -- A terra vai engolir a geladeira! -- disse ele. Ps o chapu e as luvas
escuras de cordovo que eu cobiava. Eu sabia que luvas com separaes para
cada dedo queriam dizer que voc era adulto, e luvas sem separaes para os
dedos queriam dizer que no era. (Para o Natal de 1973, minha me tinha me
comprado um par de luvas com separaes para cada dedo. Lindsey acabou
ficando com elas, mas sabia que eram minhas. Ela as deixou na beira do
milharal um dia depois do colgio a caminho de casa. Estava sempre fazendo
isso -- me deixando coisas.)
     -- A terra tem uma boca? -- perguntou Buckley.
     -- Uma grande boca redonda, mas sem lbios -- disse meu pai.
     -- Jack -- disse minha me, rindo --, pare. Sabe que eu peguei ele l fora
rosnando para as bocas-de-leo?
     -- Eu vou -- disse eu. Meu pai tinha me dito que havia uma mina
subterrnea abandonada e ela tinha desabado para formar um sumidouro. Eu
no ligava; queria ver a terra engolir alguma coisa tanto quanto qualquer outra
criana.
     Ento quando vi o sr. Harvey me levar para o sumidouro no pude evitar
pensar como ele era esperto. Como ele ps o saco dentro de um cofre de
metal, me colocando no meio de todo aquele peso.



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     Era tarde quando ele chegou l, e ele deixou o cofre em sua caminhonete
Wagoneer enquanto se aproximava da casa dos Flanagan, que moravam na
propriedade em que ficava o sumidouro. Os Flanagan ganhavam a vida
cobrando das pessoas que queriam jogar fora seus eletrodomsticos.
     O sr. Harvey bateu na porta da casinha branca e uma mulher veio atender.
O cheiro de alecrim e cordeiro encheu meu cu e chegou ao nariz do sr.
Harvey vindo dos fundos da casa. Ele podia ver um homem na cozinha.
     -- Boa noite, senhor -- disse a sra. Flanagan. -- Tem alguma coisa para
jogar fora?
     -- Na caamba da caminhonete -- disse o sr. Harvey. Ele estava
preparado com uma nota de vinte dlares.
     -- O que tem a dentro, um corpo? -- brincou ela.
     Era a ltima coisa em que ela pensaria. Ela morava em uma casa
aconchegante, embora pequena. Tinha um marido que estava sempre em casa
para consertar coisas e trat-la bem porque nunca tinha de trabalhar, e um
filho ainda jovem o bastante para pensar que sua me era a nica coisa no
mundo.
     O sr. Harvey sorriu, e enquanto eu via o sorriso surgir em seu rosto fui
incapaz de desviar os olhos.
     -- Um velho cofre do meu pai, finalmente consegui trazer -- disse ele. --
Queria fazer isso h anos. Ningum se lembra do segredo.
     -- Tem alguma coisa dentro? -- perguntou ela.
     -- Ar viciado.
     -- Ento pode jogar. Quer alguma ajuda?
     -- Seria timo -- disse ele.
     Os Flanagan jamais desconfiaram sequer por um instante que a menina
sobre a qual leram no jornal durante os anos seguintes -- DESAPARECIDA:
SUSPEITA DE CRIME; COTOVELO ENCONTRADO POR CO DA VIZINHANA;
MENINA DE 14 ANOS PODE TER SIDO MORTA NO MILHARAL DE STOLFUZ;
ALERTA PARA OUTRAS JOVENS; DISTRITO VAI REURBANIZAR TERRENOS AO
LADO DO GINSIO; LINDSEY SALMON, IRM DA MENINA MORTA, FAZ
DISCURSO DE ADEUS  pudesse ter estado dentro do cofre de metal cinza que
um homem sozinho tinha levado certa noite e pagado vinte dlares para jogar
no sumidouro.



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     No caminho de volta para a caminhonete, o sr. Harvey ps a mo no
bolso. Ali estava minha pulseira de amuletos de prata. Ele no conseguia se
lembrar de t-la tirado do meu pulso. No tinha lembrana de t-la jogado no
bolso de suas calas limpas. Apalpou-a, e a parte carnuda de seu indicador
encontrou o metal dourado liso da pedra angular, smbolo da Pensilvnia, a
parte de trs da sapatilha de bale, o pequeno furo do minsculo dedal e os
aros da bicicleta com rodas que funcionavam. Descendo a Estrada 202, ele
parou no acostamento, comeu um sanduche de linguia que tinha feito mais
cedo, e depois dirigiu at um parque industrial que estavam construindo ao
sul de Downington. No havia ningum na obra. Naqueles dias, no havia
segurana no subrbio. Ele estacionou o carro perto de um banheiro qumico.
Sua desculpa estava pronta para o caso pouco provvel de ele precisar de
alguma.
     Era nessa parte do que aconteceu depois que eu pensava quando
pensava no sr. Harvey -- em como ele ficou andando entre as escavaes
enlameadas e se perdeu entre os bulldozers adormecidos, com suas formas
monstruosas assustadoras no escuro. O cu da terra estava azul-escuro na
noite seguinte  minha morte, e naquela rea aberta o sr. Harvey podia ver a
quilmetros de distncia. Decidi ficar ali com ele, ver aqueles quilmetros
distantes como ele os via. Queria ir aonde ele iria. Tinha parado de nevar.
Estava ventando. Ele entrou no que seus instintos lhe diziam que logo seria um
lago artificial, ficou ali de p e apalpou os amuletos uma ltima vez. Gostava
da pedra angular da Pensilvnia, que meu pai tinha mandado gravar com
minhas iniciais -- o meu preferido era a pequena bicicleta --, e a tirou da
pulseira e guardou no bolso. Jogou a pulseira com seus amuletos restantes
dentro do futuro lago artificial.

                                               12
     Dois dias antes do Natal, vi o sr. Harvey ler um livro sobre os dogon e os
bambara do Mali. Vi a centelha de uma ideia brilhar quando ele leu sobre o
tecido e as cordas que eles usavam para construir abrigos. Ele decidiu que
queria construir de novo, experimentar como tinha feito com o buraco, e
decidiu-se por uma tenda cerimonial como as descritas no livro. Reuniria os
materiais simples e a ergueria em algumas horas no seu quintal dos fundos.



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     Depois de quebrar todos os barcos dentro das garrafas, meu pai o
encontrou ali.
     Estava frio l fora, mas o sr. Harvey vestia apenas uma fina camisa de
algodo. Ele tinha feito 36 anos naquele ano e estava experimentando usar
lentes de contato duras. Elas tornavam seus olhos continuamente vermelhos, e
muitas pessoas, incluindo meu pai, pensavam que ele tinha comeado a beber.
     -- O que  isso? -- perguntou meu pai.
     Apesar das doenas de corao que acometem os homens da famlia
Salmon, meu pai era resistente. Era mais alto do que o sr. Harvey, ento
quando deu a volta pela frente da casa verde de sarrafos de madeira e chegou
ao quintal dos fundos, onde viu o sr. Harvey erguendo coisas parecidas com
traves de gol, ele tinha uma aparncia enrgica e capaz. Estava agitado por ter
me visto no vidro estilhaado. Eu o vi cruzar o gramado, balanando o corpo
como alunos a caminho do colgio. Parou logo antes de tocar a sebe de
sabugueiro do sr. Harvey com a palma da mo.
     -- O que  isso? -- tornou a perguntar.
     O sr. Harvey parou tempo suficiente para olhar para ele e depois voltou
ao que estava fazendo.
     -- Uma tenda de lona.
     -- Como assim?
     -- Sr. Salmon -- disse ele --, sinto muito pela sua perda. Erguendo o
corpo, meu pai deu a resposta que o ritual exigia.
     -- Obrigado. -- Era como uma pedra presa em sua garganta. Houve, um
instante de silncio, e ento o sr. Harvey, sentindo que meu pai no tinha
inteno de ir embora, perguntou se ele queria ajudar.
     Foi assim que, do cu, eu vi meu pai construir uma tenda com o homem
que tinha me matado.
     Meu pai no aprendeu muita coisa. Aprendeu a amarrar pedaos de arco
em estacas pontudas e a tranar galhos mais finos nessas peas para formar
semi-arcos na outra direo. Aprendeu a juntar as extremidades desses galhos
e a amarr-las nas vigas. Aprendeu que estava fazendo isso porque o sr.
Harvey tinha lido sobre a tribo dos imezzureg e queria reproduzir suas tendas.
Ele se ps de p, concordando com a opinio da vizinhana de que aquele
homem era estranho. Por enquanto, era isso.



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      Mas quando a estrutura bsica ficou pronta -- uma hora de trabalho
depois --, o sr. Harvey encaminhou-se para dentro de casa sem dizer por qu.
Meu pai sups que era um intervalo. Que o sr. Harvey tinha entrado para
pegar caf ou um bule de ch.
      Ele estava errado. O sr. Harvey entrou na casa e subiu as escadas para
verificar a faca de aougueiro que tinha posto no quarto. Ela ainda estava na
mesa de cabeceira, em cima da qual ele guardava seu caderno de desenho de
onde muitas vezes, no meio da noite, desenhava os projetos cora os quais
sonhava. Olhou para dentro de um saco de compras de papel pardo
amarrado. Meu sangue na faca tinha escurecido. Lembrar-se dele, lembrar-se
de seu ato no buraco fez com que ele se lembrasse de ter lido sobre uma tribo
especfica no sul de Ayr. Sobre como, quando uma tenda era construda para
um casal de recm-casados, as mulheres da tribo faziam o lenol mais bonito
de que eram capazes para cobri-la.
      L fora tinha comeado a nevar. Era a primeira neve desde a minha morte,
e meu pai percebeu isso.
      -- Estou te ouvindo, querida -- disse ele para mim, embora eu no
estivesse falando. -- O que ?
      Concentrei-me com muita fora no gernio morto em seu campo de
viso. Pensei que, se eu pudesse faz-lo florescer, ele teria sua resposta. No
meu cu ele florescia. No meu cu ptalas de gernio rodopiavam em
redemoinhos at a minha cintura. Na Terra nada acontecia.
      Mas atravs da neve eu percebi o seguinte: meu pai estava olhando em
direo  casa verde de uma maneira nova. Ele tinha comeado a se perguntar.
      L dentro, o sr. Harvey tinha vestido uma pesada camisa de flanela, mas o
que meu pai percebeu primeiro foi o que ele trazia nos braos: uma pilha de
lenis brancos de algodo.
      -- Para que serve isso? -- perguntou meu pai. De repente ele no
conseguia parar de ver meu rosto.
      -- Oleados -- disse o sr. Harvey. Quando entregou uma pilha a meu pai,
as costas da sua mo tocaram os dedos do meu pai. Foi como um choque
eltrico.
      -- O senhor sabe alguma coisa -- disse meu pai.




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     Ele encarou meu pai, olhou direto nos seus olhos, mas no disse nada.
Eles trabalharam juntos, com a neve caindo, quase flutuando. E enquanto meu
pai se movimentava a adrenalina corria por seu corpo. Ele relembrou o que
sabia. Algum tinha perguntado a esse homem onde ele estava no dia em que
eu desapareci? Algum tinha visto esse homem no milharal? Ele sabia que
seus vizinhos tinham sido interrogados. Metodicamente, a polcia tinha ido de
porta em porta.
     Meu pai e o sr. Harvey espalharam os lenis por cima do arco que
formava uma cpula, prendendo-os em volta do quadrado formado pelas
vigas que uniam as estacas pontudas. Depois penduraram os lenis restantes
direto nas vigas de modo que as bordas dos lenis tocavam o cho.
     Quando terminaram, havia um pouco de neve acumulada em cima dos
arcos cobertos. A neve enchia os vincos da camisa do meu pai e formava uma
linha acima do seu cinto. Eu me dei conta de que nunca mais correria pela
neve com Holiday, nunca mais empurraria Lindsey em um tren, nunca mais
ensinaria meu irmozinho a compactar neve moldando-a com a base da
palma da mo, sem pensar no meu prprio bem. Eu estava sozinha em um
mar de ptalas brilhantes. Na Terra, os flocos de neve caam macios e
inocentes, como uma cortina descendo.
     Em p do lado da tenda, o sr. Harvey pensou em como a noiva virgem
seria trazida para um membro da tribo dos imezzureg em um camelo. Quando
meu pai se moveu em sua direo, o sr. Harvey levantou a palma da mo.
     -- Chega -- disse ele. -- Por que o senhor no vai para casa?
     Tinha chegado a hora de o meu pai pensar em alguma coisa para dizer.
Mas tudo em que ele conseguia pensar foi isso:
     -- Susie -- sussurrou ele, fazendo a segunda slaba colear como uma
cobra.
     -- Acabamos de construir uma tenda -- disse o sr. Harvey. -- Os vizinhos
nos viram. Somos amigos agora.
     -- O senhor sabe alguma coisa -- disse meu pai.
     -- V para casa. No posso ajudar o senhor.
     O sr. Harvey no sorriu nem se adiantou. Recolheu-se para dentro da
tenda nupcial e deixou cair o ltimo lenol de algodo branco com um
monograma bordado.



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                                       Captulo 5



   P       arte de mim queria uma vingana rpida, queria que meu pai se
           transformasse no homem que nunca poderia ter sido -- um homem
violento em sua raiva.  isso que se v nos filmes,  isso que acontece nos
livros que as pessoas leem. Um homem normal pega uma arma ou uma faca e
persegue o assassino de sua famlia; d uma de Charles Bronson e todo
mundo aplaude.
      Como era realmente:
      Todos os dias ele acordava. Antes de o sono se dissipar, era quem sempre
tinha sido. Ento,  medida que sua conscincia acordava, era como se algum
veneno tomasse conta dele. Primeiro ele no conseguia nem levantar. Ficava
ali deitado debaixo de um peso enorme. Mas ento s o movimento podia
salv-lo, e ele se movia, se movia, mas nenhum movimento era capaz de trazer
alvio. Alvio para a culpa que ele sentia, para a mo de Deus que se abatia
sobre ele, dizendo: Voc no estava l quando sua filha precisou de voc.


                                               12
     Antes de meu pai sair para a casa do sr. Harvey,minha me estava sentada
no hall de entrada perto da esttua de So Francisco que eles tinham
comprado. Quando ele voltou, ela no estava mais l. Ele a chamou, disse seu
nome trs vezes, como um desejo de que ela no aparecesse, depois subiu os
degraus at seu quartinho e rabiscou anotaes em um pequeno caderno
espiral: "Bbado? Faa ele beber. Talvez ele seja falastro." Em seguida
escreveu o seguinte: "Acho que a Susie me v." No cu, fiquei eufrica. Abracei
Holly, abracei Franny. Meu pai sabia, achava eu.
     Ento Lindsey bateu a porta da frente com mais fora do que o normal, e
meu pai ficou agradecido pelo barulho. Estava com medo de continuar com as
anotaes, de escrever as palavras no papel. A porta batendo ecoou pela




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estranha tarde que ele tinha passado e o trouxe de volta para o presente, para
a atividade, onde ele precisava estar para no se afogar. Eu entendia isso --
no estou dizendo que no ficava magoada, que isso no me lembrava sentar
 mesa do jantar e ter de escutar Lindsey contar para meus pais sobre a prova
na qual ela tinha ido to bem, ou sobre o professor de histria que ia
recomend-la para a condecorao distrital, mas Lindsey estava viva, e os
vivos tambm mereciam ateno.
     Ela subiu as escadas correndo. Seus tamancos batiam nas tbuas de pinho
da escada e balanavam a casa.
     Posso t-la invejado por causa da ateno do meu pai, mas eu respeitava
sua maneira de lidar com as coisas. De todas as pessoas da famlia, era Lindsey
que tinha de lidar com o que Holly chamava de Sndrome do Morto-Vivo --
quando outras pessoas veem a pessoa morta e no veem voc.
     Quando as pessoas olhavam para Lindsey, mesmo meu pai e minha me,
viam a mim. Nem mesmo Lindsey estava imune. Ela evitava espelhos. Agora
tomava banho no escuro.
     Ela saa do chuveiro escuro e ia tateando at o porta-toalhas. No escuro
estava segura -- o vapor mido do chuveiro que ainda subia dos ladrilhos a
protegia. Se a casa estivesse silenciosa ou se ela ouvisse murmrios l
embaixo, sabia que no seria incomodada. Era nessas horas que podia pensar
em mim e fazia isso de duas maneiras: ou pensava Susie, s essa nica palavra,
e chorava ali, deixando as lgrimas rolarem por suas bochechas j midas,
sabendo que ningum a veria, ningum quantificaria aquela substncia
perigosa como pesar,ou ento me imaginava correndo, me imaginava fugindo,
imaginava a si prpria sendo levada no meu lugar, lutando at se libertar.
Lutava contra a pergunta constante Onde a Susie est agora?
     Meu pai ouviu Lindsey em seu quarto. Viam, a porta se fechou com um
estrondo. Pof, seus livros foram jogados no chio. Pluft, ela caiu na cama. Seus
tamancos, tum tum, foram tirados e jogados no cho. Alguns minutos depois
ele estava diante da porta do quarto dela.
     -- Lindsey -- disse ele ao bater na porta.
     No houve resposta.
     -- Lindsey, posso entrar?
     -- Vai embora -- foi sua resposta decidida.



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     -- Deixa, querida -- implorou ele.
     -- Vai embora!
     -- Lindsey -- disse meu pai respirando fundo --, por que no pode me
deixar entrar? -- Ele apoiou a testa de leve na porta do quarto. A madeira
estava fresca e, por um segundo, ele se esqueceu do latejar em suas tmporas,
da suspeita que agora tinha e que ficava se repetindo. Harvey, Harvey, Harvey.
     Calando apenas as meias, Lindsey se aproximou da porta em silncio,
trancou-a enquanto meu pai recuava e preparava uma expresso que esperava
que dissesse "No fuja."
     -- O que ? -- perguntou ela. Seu rosto estava rgido, uma afronta. -- O
que ?
     -- Eu quero saber como voc est -- disse ele. Pensou na cortina caindo
entre ele e o sr. Harvey, como uma captura certa, uma culpa encantadora,
estavam perdidas para ele. Sua famlia andava pelas ruas, ia ao colgio, e no
caminho passava pela casa de sarrafos verdes do sr. Harvey. Ele precisava da
ilha para fazer o sangue voltar a seu corao.
     -- Eu quero ficar sozinha -- disse Lindsey. -- No  bvio?
     -- Eu estou aqui se precisar de mim -- disse ele.
     -- Olhe, pai -- disse minha irm, fazendo-lhe sua nica concesso --
estou lidando com isso sozinha.
     O que ele podia fazer com isso? Poderia ter quebrado o cdigo e dito: "Eu
no estou, no consigo, no me obrigue a fazer isso", mas ficou ali por um
segundo e depois recuou.
     -- Entendo -- disse ele primeiro, embora no entendesse.
     Eu queria peg-lo no colo, como tinha visto nos livros de histria da arte.
Uma mulher segurando um homem no colo. Uma filha dizendo ao pai: "Est
tudo bem. Voc est bem. No vou deixar nada machucar voc."
     Em vez disso, eu o vi dar um telefonema para Len Fenerman.
     Naqueles primeiros dias, a polcia se mostrou quase reverente. Meninas
desaparecidas no eram algo comum no subrbio. Mas sem indcios de onde
estava meu corpo ou de quem tinha me matado, a polcia estava ficando
nervosa. Havia uma janela de tempo na qual geralmente indcios fsicos eram
encontrados; essa janela ficava menor a cada dia.
     -- No quero parecer irracional, inspetor Fenerman -- disse meu pai.



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     -- Len, por favor. -- Presa no mata-borro em cima de sua escrivaninha
estava a foto de colgio que Len Fenerman tinha pegado com minha me. Ele
sabia, antes de algum sequer pronunciar as palavras, que eu j estava morta.
     -- Tenho certeza de que tem um homem na vizinhana que sabe alguma
coisa -- disse meu pai. Ele estava olhando pela janela de seu quartinho no
andar de cima, em direo ao milharal. O proprietrio do terreno tinha dito 
imprensa que por enquanto ia deix-lo vazio.
     -- Quem , e o que o fez pensar isso? -- perguntou Len Fenerman.
Escolheu um lpis curto e mastigado da borda de metal na frente da gaveta de
sua escrivaninha.
     Meu pai lhe contou sobre a tenda, sobre como o sr. Harvey tinha lhe dito
para ir para casa, sobre ter dito o meu nome, e sobre como a vizinhana
achava o sr. Harvey estranho sem emprego fixo nem filhos.
     -- Vou averiguar -- disse Len Fenerman, porque tinha que faz-lo. Era
esse seu papel na dana. Mas o que meu pai tinha lhe dado era pouco ou
nada com que pudesse trabalhar. -- No fale com ningum e no chegue
perto dele de novo -- avisou Len.
     Quando meu pai desligou o telefone, sentia-se estranhamente vazio.
Esgotado, abriu a porta de seu quartinho e a fechou silenciosamente atrs de
si. No corredor, pela segunda vez, chamou o nome da minha me: -- Abigail!


                                               12
     Ela estava no banheiro do trreo, dando mordidas nos doces que a
empresa do meu pai sempre nos mandava no Natal. Ela os comia com avidez;
eram como sis se abrindo dentro de sua boca. No vero em que estava
grvida de mim, ela usava o mesmo vestido de gestante de algodo vezes sem
conta, recusando-se a gastar dinheiro com outro, e comia tudo o que queria,
esfregando a barriga e dizendo:
     -- Obrigada, nenm -- enquanto respingava chocolate no peito.
     Houve uma batida na parte de baixo da porta.
     -- Mame! -- Ela tornou a guardar os doces no armrio de remdios,
engolindo o que j tinha na boca.
     -- Mame? -- repetiu Buckley. Sua voz estava sonolenta.




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    -- Maaaaanh!
    Ela desprezava aquela palavra.
    Quando minha me abriu a porta, meu irmozinho agarrou seus joelhos.
Buckley apertou o rosto na carne acima deles.
    Ouvindo movimentos, meu pai foi encontrar minha me na cozinha.
Tantos, reconfortaram-se cuidando de Buckley.
    -- Cad a Susie? -- perguntou Buckley, enquanto meu pai passava
manteiga de amendoim e marshmallow no po. Um pedao para ele, um para
minha me e outro para seu filho de 4 anos.
    -- Voc guardou seu jogo? -- perguntou meu pai a Buckley,
perguntando-se por que evitava falar no assunto com a nica pessoa que o
abordava francamente.
    -- O que a mame tem? -- perguntou Buckley. Os dois ficaram olhando
para minha me, que fitava a cuba seca da pia.
    -- O que voc acha de irmos ao zoolgico esta semana? -- perguntou
meu pai. Odiava a si mesmo por isso. Odiava a chantagem emocional e a
provocao -- odiava o engodo. Mas como podia dizer ao filho que, em
algum lugar, sua irm mais velha podia estar cortada em pedacinhos?
    Mas Buckley ouviu a palavra zoolgico e tudo o que ela significava -- que
para ele era principalmente macacos! -- e embarcou no caminho ondulado
rumo ao esquecimento por mais um dia. A sombra dos anos no era to
grande em seu pequeno corpo. Ele sabia que eu estava fora, mas quando as
pessoas estavam fora elas sempre voltavam.


                                               12
     Quando Len Fenerman foi de porta em porta pela vizinhana, no
encontrou nada fora do normal na casa de George Harvey. O sr. Harvey era um
homem solteiro que, dizia-se, tinha a inteno de morar com a mulher. Ela
tinha morrido algum tempo antes disso. Ele construa casas de boneca para
lojas especiais e era um homem recluso. Era tudo o que se sabia. Embora ele
no tivesse exatamente feito muitos amigos, sempre havia tido a simpatia da
vizinhana. Cada casa de vrios andares continha uma histria. Para Len
Fenerman, particularmente, a de George Harvey parecia interessante.




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      No, disse Harvey, ele no conhecia bem os Salmon. Tinha visto as
crianas. Todo mundo sabia quem tinha filhos e quem no tinha, comentou
ele, com a cabea baixa e um pouco inclinada para a esquerda.
      -- D para ver os brinquedos no quintal. As casas so sempre mais
alegres -- comentou ele levantando a voz.
      -- Soube que o senhor conversou com o sr. Salmon recentemente --
disse Len Fenerman em sua segunda visita  casa verde.
      -- Conversei sim, algo errado? -- perguntou o sr. Harvey. Ele olhou para
Len apertando os olhos, mas depois teve de se interromper. -- Deixem eu
pegar meus culos -- disse ele. -- Estava fazendo o acabamento de uma
Segundo Imprio.
      -- Segundo Imprio? -- perguntou Len.
      -- Agora que as encomendas de Natal esto prontas, posso experimentar
-- disse o sr. Harvey. Len o seguiu at os fundos, onde havia uma mesa de
jantar encostada em uma parede. Dzias de pequenos pedaos do que parecia
revestimento de parede em miniatura estavam alinhados em cima dela.
      Um pouco estranho, pensou Fenerman, mas isso no faz do homem um
assassino.
      O sr. Harvey pegou os culos e imediatamente se abriu.
      -- Sim, o sr. Salmon estava dando uma de suas caminhadas e me ajudou
a construir a tenda nupcial.
      -- Tenda nupcial?
      -- Todo ano fao isso pela Leah -- disse ele. -- Minha mulher. Eu sou
vivo.
      Len teve a sensao de estar se intrometendo nos rituais particulares
daquele homem.
      -- Foi o que eu soube -- disse ele.
      -- Estou chocado com o que aconteceu com aquela menina -- disse o sr.
Harvey. -- Tentei dizer isso ao sr. Salmon. Mas sei por experincia prpria que
nada faz sentido numa hora dessas.
      -- Ento o senhor monta essa tenda todo ano? -- perguntou Len
Fenerman. Isso era algo que ele poderia pedir aos vizinhos para confirmarem.




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     -- Eu antes fazia isso dentro de casa, mas este ano tentei fazer do lado de
fora. Ns nos casamos no inverno. At a neve chegar com mais fora, pensei
que a tenda iria aguentar.
     -- Onde dentro de casa?
     -- No poro. Posso mostrar ao senhor, se quiser. Ainda tenho todas as
coisas da Leah l embaixo.
     Mas Len no continuou.
     -- J me intrometi demais -- disse ele. -- Eu s queria percorrer o bairro
outra vez.
     -- Como vai a investigao? -- perguntou o sr. Harvey. -- Esto
encontrando alguma coisa?
     Len nunca gostava de perguntas assim, embora supusesse que fosse o
direito das pessoas cujas vidas estava invadindo.
     -- Algumas vezes acho que os indcios aparecem na hora certa -- disse
ele. -- Quero dizer, se quiserem ser encontrados. -- Era uma resposta
enigmtica, uma resposta do tipo Confcio-falou, mas funcionava com quase
todos os civis.
     -- O senhor conversou com o filho dos Ellis? -- perguntou o sr. Harvey.
     -- Falamos com a famlia.
     -- Ouvi dizer que ele machucou uns animais na vizinhana.
     -- Garanto ao senhor que ele parece um menino bem mau -- disse Len
--, mas estava trabalhando no shopping na hora.
     -- Testemunhas?
     -- Sim.
     -- E minha nica ideia -- disse o sr. Harvey. -- Gostaria de poder fazer
mais.
     Len achou-o sincero.
     --  verdade que ele  um pouco esquisito -- disse Len quando telefonou
para o meu pai --, mas no tenho nada contra ele.
     -- O que ele disse sobre a tenda?
     -- Que a tinha construdo para Leah, mulher dele.
     -- Lembro da sra. Stead ter dito  Abigail que o nome da mulher dele era
Sophie -- disse meu pai.
     Len verificou suas anotaes.



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     -- No, Leah. Eu anotei.
     Meu pai duvidou de si mesmo. Onde ele tinha escutado o nome Sophie?
Tinha certeza de t-lo escutado, mas j fazia anos, em uma festa do quarteiro
em que nomes de filhos e mulheres choviam como confete entre as histrias
que as pessoas contavam para serem simpticas e as apresentaes a crianas
e desconhecidos vagas demais para serem lembradas no dia seguinte.
     Ele se lembrava de que o sr. Harvey no tinha ido  festa do quarteiro.
Ele nunca tinha ido a nenhuma das festas. Pelos padres de muitas pessoas do
bairro isso era atribudo  sua estranheza, mas no pelos do meu pai. Ele
tambm nunca tinha se sentido inteiramente  vontade nessas tentativas
foradas de convvio.
     Meu pai escreveu: "Leah?" em seu caderno. Depois escreveu: "Sophie?"
Embora inconscientemente, tinha comeado uma lista das mortas.


                                               12
     No dia de Natal, minha famlia teria se sentido mais confortvel no cu. O
Natal era em grande parte ignorado no meu cu. Algumas pessoas se vestiam
todas de branco e fingiam ser flocos de neve, mas fora isso no conteria nada.
     Naquele Natal, Samuel Heckler fez uma visita inesperada  nossa casa. Ele
no estava vestido de floco de neve. Usava a jaqueta de couro de seu irmo
mais velho e calas de exrcito mal-ajustadas.
     Meu irmo estava no quarto da frente com seus brinquedos. Minha me
abenoava o fato de ter comprado cedo os presentes dele. Lindsey ganhou
luvas e um brilho labial sabor cereja. Meu pai ganhou cinco lenos brancos
que ela tinha encomendado pelo correio meses antes. Com exceo de
Buckley, ningum queria nada mesmo. Nos dias antes do Natal as luzes da
rvore no estavam acesas. S a vela que meu pai mantinha na janela de seu
quartinho queimava. Ele a acendia quando escurecia, mas minha me, minha
irm e meu irmo tinham parado de sair de casa depois das quatro da tarde.
S eu via a vela.
     -- Tem um homem l fora! -- gritou meu irmo. Ele estava brincando de
Arranha-Cu e o arranha-cu ainda no tinha cado. -- Ele est carregando
uma mala!




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     Minha me deixou seu eggnog na cozinha e foi at a frente da casa.
Lindsey estava suportando a presena obrigatria na sala ntima que todas as
festas exigiam. Ela e meu pai estavam jogando Banco Imobilirio, ignorando as
casas mais brutais pelo bem um do outro. No havia Imposto de Renda, e um
Revs no era reconhecido.
     No hall de entrada, minha me alisou a saia com as mos. Ps Buckley na
sua frente e o abraou pelos ombros.
     -- Espera o homem bater -- disse ela.
     -- Talvez seja o reverendo Strick -- disse meu pai a Lindsey, recolhendo
seus quinze dlares por ter tirado o segundo lugar em um concurso de beleza.
     -- Espero que no, para o bem da Susie -- arriscou Lindsey.
     Meu pai aguentou firme ouvir minha irm dizer meu nome. Ela tirou um
duplo nos dados e avanou at os Jardins Marvin.
     -- So vinte e quatro dlares -- disse meu pai --, mas fecho por dez.
     -- Lindsey -- disse minha me. -- Visita para voc.
     Meu pai viu minha irm se levantar e sair da sala. Ns dois a vimos fazer
isso. Naquele momento eu estava ali sentada com meu pai. Eu era o fantasma
do tabuleiro. Ele ficou olhando para o sapato velho cado de lado dentro da
caixa. Se ao menos eu pudesse t-lo levantado, t-lo feito pular da Beira-Mar
at o Bltico, onde eu sempre dizia que moravam as melhores pessoas.
     -- Isso  s porque voc  louca por roxo -- dizia Lindsey.
     Meu pai dizia:
     -- Tenho orgulho de no ter criado uma esnobe.
     -- Estradas de ferro, Susie -- disse ele. -- Voc sempre gostou de ter
essas estradas de ferro.
     Para realar a testa e domar a franja, Samuel Heckler insistia em pentear o
cabelo todo para trs. Aos 13 anos e vestido de couro preto, isso o fazia
carecer um vampiro adolescente.
     -- Feliz Natal, Lindsey -- disse ele  minha irm, e estendeu uma caixinha
embrulhada em papel azul.
     Pude ver aquilo acontecendo: o corpo de Lindsey comeou a dar um n.
Ela estava se esforando para manter todo mundo afastado, todo mundo, mas
achava Samuel Heckler um gatinho. Como um ingrediente de uma receita, o




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corao dela foi diludo, e apesar da minha morte ela tinha 13 anos, ele era um
gatinho, e a estava visitando no dia de Natal.
     -- Ouvi dizer que voc entrou na lista dos bons alunos -- disse-lhe ele,
porque ningum dizia nada. -- Eu tambm.
     Ento minha me se lembrou, e ligou seu piloto automtico de anfitri.
     -- Quer entrar e sentar? -- ela conseguiu dizer. -- Tem eggnog na
cozinha.
     -- Seria timo -- disse Samuel Heckler e, para o espanto de Lindsey e o
meu, ofereceu o brao  minha irm.
     -- O que  isso? -- perguntou Buckley, correndo atrs deles e apontando
para o que pensava ser uma mala.
     -- Um alto -- disse Samuel Heckler.
     -- O qu? -- perguntou Buckley. Ento Lindsey falou.
     -- O Samuel toca sax alto.
     -- Quase -- disse Samuel.
     Meu irmo no perguntou o que era um saxofone. Ele sabia o que
Lindsey estava sendo. Ela estava sendo o que eu chamava de metidinha, como
quando dizia: "No liga, Buckley, a Lindsey est sendo metidinha." Geralmente
eu fazia ccegas nele enquanto pronunciava a palavra, algumas vezes
enterrando a cabea em sua barriga, empurrando-o e dizendo "metidinha"
sem parar at sua risada melodiosa se derramar sobre mim.
     Buckley seguiu os trs cozinha adentro e perguntou, como perguntava
pelo menos uma vez por dia:
     -- Cad a Susie?
     Eles ficaram calados. Samuel olhou para Lindsey.
     -- Buckley -- chamou meu pai do outro cmodo --, vem jogar Banco
Imobilirio comigo.
     Meu irmo nunca tinha sido convidado para jogar Banco Imobilirio. Todo
mundo dizia que ele era novo demais, mas essa era a mgica do Natal. Ele
correu para a sala ntima e meu pai o levantou e o sentou em seu colo.
     -- Est vendo este sapato? -- perguntou meu pai. Buckley assentiu com a
cabea.




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     -- Quero que voc escute tudo o que eu vou dizer sobre ele, t?
     -- Susie? -- perguntou meu irmo, relacionando as duas coisas de
alguma maneira.
     -- , vou dizer para voc onde a Susie est.
     Comecei a chorar no cu. O que mais eu podia fazer?
     -- Este sapato era a pea que a Susie usava para jogar Banco Imobilirio
-- disse ele. -- Eu jogo com o carro ou s vezes com o carrinho de mo, a
Lindsey joga com o ferro, e quando sua me joga ela gosta do canho.
     -- Isso  um cachorro?
     -- , um terrier escocs.
     --  meu!
     -- T -- disse meu pai. Ele era paciente. Tinha encontrado um jeito de
explicar. Segurava o filho no colo, e enquanto falava sentia o corpinho de
Buckley em cima do joelho -- seu peso muito humano, muito quente, muito
vivo. Aquilo o reconfortava. -- O terrier escocs vai ser a sua pea daqui para a
frente. Qual  mesmo a pea da Susie?
     -- O sapato -- disse Buckley.
     -- Isso, e eu sou o carro, e sua irm  o ferro, e sua me  o canho. Meu
irmo se concentrou com fora.
     -- Agora vamos colocar todas as peas no tabuleiro, t? Coloca para mim.
Buckley pegou um punhado de peas e depois outro, at todas as peas
estarem entre os cartes de Sorte e de Lucros e Dividendos.
     -- Vamos dizer que as outras peas so nossos amigos.
     -- Igual ao Nate?
     -- Isso, vamos fazer o seu amigo Nate ser o chapu. E o tabuleiro  o
mundo. Agora se eu dissesse para voc que, quando eu lanar os dados, uma
das peas vai ser levada embora, o que isso iria querer dizer?
     -- Que ela no pode mais jogar?
     -- Isso.
     -- Por qu? -- perguntou Buckley.
     Meu pai no queria dizer "porque a vida  injusta" ou "porque  assim
que as coisas so". Ele queria alguma coisa simples, alguma coisa que expli
casse a morte para um menino de 4 anos. Ps a mo na base das costas de
Buckley.



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     -- A Susie morreu -- disse ele ento, incapaz de fazer aquilo entrar nas
regras de qualquer jogo. -- Voc sabe o que isso quer dizer?
     Buckley estendeu a mo e cobriu o sapato. Levantou os olhos para ver e
sua resposta estava certa. Meu pai assentiu.
     -- Voc no vai mais ver a Susie, querido. Nenhum de ns vai. -- Meu pai
chorou. Buckley levantou os olhos para nosso pai e no entendeu direito.
Buckley guardou o sapato em sua penteadeira, at que um dia o sapato sumiu
de l e por mais que procurasse no conseguia encontr-lo.


                                               12
     Na cozinha, minha me terminou seu eggnog e pediu licena. Entrou na
sala de jantar e ficou contando talheres, alinhando metodicamente os trs
tipos de garfo, as facas e as colheres, arrumando-os "em escadinha" como
tinha aprendido quando trabalhava na seo de noivas do Wanamaker's, antes
de eu nascer. Ela queria um cigarro e queria que seus filhos que estavam vivos
desaparecessem por um tempo.
     -- Vai abrir seu presente? -- perguntou Samuel Heckler para minha irm.
     Eles estavam em p na frente da bancada, encostados no lava-louas e
nas gavetas cheias de guardanapos e toalhas. No cmodo  sua direita
estavam sentados meu pai e meu irmo; do outro lado da cozinha, minha me
pensava Wedgwood Florentine, Azul Cobalto; Royal Worcester, Mountbatten;
Lenox, Eternal.
     Lindsey sorriu e puxou a fita branca em cima da caixa.
     -- Minha me amarrou a fita para mim -- disse Samuel Heckler.
     Ela arrancou o papel azul da caixa de veludo preto. Com cuidado,
segurou-a na palma da mo depois de tirar o papel. Quando Lindsey e eu
brincvamos de Barbie, a Barbie e o Ken se casavam aos 16 anos. Para ns s
havia um amor verdadeiro na vida de qualquer pessoa;no tnhamos nenhuma
noo de meio-termo, nem de segunda tentativa.
     -- Abra -- disse Samuel Heckler.
     -- Estou com medo.
     -- No fique.




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     Ele ps a mo no antebrao dela e -- uau! -- que sensao eu tive
quando ele fez aquilo. Lindsey estava na cozinha com um menino gatinho, por
mais vampiro que fosse! Aquilo era uma novidade, uma senhora novidade --
de repente eu estava sabendo de tudo. Ela nunca teria me contado nada
daquilo.
     O que havia na caixa era tpico ou decepcionante ou um milagre,
dependendo dos olhos de quem via. Era tpico porque ele era um menino de
13 anos, ou era decepcionante porque no era uma aliana de casamento, ou
era um milagre. Ele tinha dado a ela meio corao. Era de ouro, e de dentro da
camisa ele puxou a outra metade. Ela estava pendurada em volta de seu
pescoo em um cordo de couro.
     O rosto de Lindsey corou; o meu corou no cu.
     Eu me esqueci do meu pai na sala ntima e da minha me contando
talheres. Vi Lindsey se aproximar de Samuel Heckler. Ela o beijou; foi a glria!
Quase me senti viva de novo.




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                                       Captulo 6



D          uas semanas antes da minha morte, sa de casa mais tarde do que o
           normal, e quando cheguei no colgio o crculo de asfalto em que os
nibus escolares geralmente ficavam estava vazio.
     Um inspetor do escritrio disciplinar anotava seu nome se voc tentasse
entrar pelas portas da frente depois de o primeiro sinal tocar, e eu no queria
ser chamada durante a aula para ir me sentar no banco duro do lado de fora
da sala do sr. Peterford, onde, como todos sabiam, ele fazia voc se abaixar e
batia no seu traseiro com uma tbua. Ele tinha pedido ao professor de oficina
para furar buracos na tbua para diminuir a resistncia do vento durante o
movimento e para doer mais quando batesse nos nossos jeans.
     Eu nunca tinha chegado tarde o suficiente nem feito nada ruim o bastante
para ter direito  tbua, mas na minha cabea, como na de todos os outros
alunos, podia visualiz-la to bem que minha bunda ardia. Clarissa tinha me
dito que os maconheiros mirins, como eram chamados no ginsio, usavam a
porta dos fundos do palco, deixada sempre aberta por Cleo, o zelador, que
tinha interrompido o cientfico no meio e abandonado os estudos como
maconheiro snior.
     Ento, naquele dia, eu me esgueirei para a rea das coxias, prestando
ateno a onde pisava, tomando cuidado para no tropear nas vrias cordas
e fios. Parei ao lado de alguns andaimes e pus minha mochila no cho para
pentear o cabelo. Eu tinha me acostumado a sair de casa usando o gorro dos
sininhos e depois troc-lo, assim que fosse escondida pela casa dos O'Dwyer,
por uma velha boina preta de marinheiro do meu pai. Tudo deixava meu
cabelo cheio de esttica, e minha primeira parada geralmente era o banheiro
das meninas, onde eu o penteava para faz-lo voltar ao normal.
     -- Voc  linda, Susie Salmon.
     Eu ouvi a voz, mas no consegui identific-la imediatamente. Olhei em
volta.



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     -- Aqui -- disse a voz.
     Olhei para cima e vi a cabea e o trax de Ray Singh inclinados no alto
andaime acima de mim.
     -- Oi -- disse ele.
     Eu sabia que Ray Singh era a fim de mim. Ele tinha se mudado da
Inglaterra no ano anterior, mas Clarissa sabia que ele tinha nascido na ndia. O
fato de algum poder ter o rosto de um pas e a voz de outro e depois se
mudar para um terceiro era incrvel demais para meu entendimento. Aquilo o
tornava imediatamente interessante. Alm disso, ele parecia oitocentas vezes
mais inteligente do que ns, e era a fim de mim. O que acabei percebendo
serem afetaes -- o palet de smoking que ele usava para o colgio de vez
em quando e seus cigarros importados, que na verdade eram da me dele --
pensava serem provas de sua educao mais refinada. Ele sabia e via coisas
que o restante de ns no via. Naquela manh, quando ele falou comigo l de
cima, meu corao foi ao cho.
     -- O primeiro sinal no tocou? -- perguntei.
     -- Tenho o sr. Morton na sala de chamada -- disse ele. Isso explicava
tudo. O sr. Morton tinha uma ressaca perptua, que estava no auge pela
manh. Ele nunca fazia a chamada.
     -- O que voc est fazendo a em cima?
     -- Sobe e vem ver -- disse ele, tirando a cabea e os ombros do meu
campo de viso.
     Hesitei.
     -- Vem, Susie.
     Foi o nico dia da minha vida em que fui indisciplinada -- ou pelo menos
agi como se fosse. Pus o p na primeira barra do andaime e estendi os braos
para o primeiro travesso.
     -- Traz suas coisas -- aconselhou Ray.
     Desci para pegar minha mochila e depois subi, desequilibrada.
     -- Deixa eu ajudar voc -- disse ele, e ps as mos debaixo dos meus
braos, o que, mesmo que eu estivesse protegida por minha parca de inverno,
me fez ficar encabulada. Fiquei sentada por algum tempo com os ps
pendendo para o lado de fora.
     -- Pe os ps para dentro -- disse ele. -- Assim ningum v a gente.



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     Fiz o que ele dizia, e depois o encarei por um instante. De repente me
senti estpida -- insegura sobre por que estava ali.
     -- Voc vai ficar aqui o dia todo? -- perguntei.
     -- S at o final da aula de ingls.
     -- Voc est matando ingls! -- Era como se ele tivesse assaltado um
banco.
     -- Eu vi todas as peas de Shakespeare encenadas pela Royal
Shakespeare Company -- disse Ray. -- Aquela piranha no tem nada para me
ensinar.
     Naquele momento senti pena da sra. Dewitt. Se chamar a sra. Dewitt de
piranha fazia parte de ser mau, ento eu estava fora.
     -- Eu gosto de Otelo -- arrisquei.
     -- O jeito como ela ensina  uma bobagem infantil. Uma espcie de
verso vulgarizada do Mouro.
     Ray era inteligente. Combinado ao fato de ele ser um indiano da
Inglaterra, isso o tinha transformado em um marciano em Norristown.
     -- Aquele cara do filme estava bem ridculo com aquela maquiagem preta
-- disse eu.
     -- Sir Laurence Olivier, voc quer dizer.
     Ray e eu ficamos calados. Calados o suficiente para ouvir tocar o sinal do
fim da chamada e, cinco minutos depois, o sinal dizendo que deveramos estar
no primeiro andar na aula da sra. Dewitt. A cada segundo que passava depois
desse sinal, eu podia sentir minha pele esquentar e o olhar de Ray se espichar
para meu corpo, absorvendo minha parca azul brilhante e minha minissaia
verde com meias Danskin combinando. Meus sapatos de verdade estavam ao
meu lado na mochila. Eu calava um par de botas imitando pele de carneiro
com o recheio sinttico sujo saindo como tripas de animal por cima e pelos
lados. Se eu soubesse que essa seria a cena de sexo da minha vida, talvez
tivesse me preparado um pouco, e tornado a usar minha Poo de Beijar sabor
Morango-Banana ao passar pela porta.
     Eu podia sentir o corpo de Ray se inclinando na minha direo, e o
andaime debaixo de ns rangendo por causa do movimento. Ele  da
Inglaterra, pensava eu. Seus lbios chegaram mais perto, o andaime se




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inclinou. Eu estava tonta -- prestes a ser engolfada pela onda do meu
primeiro beijo, quando ns dois ouvimos alguma coisa. Congelamos.
     Ray e eu deitamos um ao lado do outro e ficamos olhando para as luzes e
fios no teto. No instante seguinte, a porta do palco se abriu e o sr. Peterford e
a professora de artes, srta. Ryan, entraram, sendo reconhecidos pelas vozes.
Havia uma terceira pessoa com eles.
     -- No vamos tomar medidas disciplinares agora, mas faremos isso se
voc insistir -- dizia o sr. Peterford. -- Srta. Ryan, trouxe os materiais?
     -- Trouxe. -- A srta. Ryan tinha vindo de um colgio catlico para o
Kennet e assumido o departamento de artes de dois ex-hippies despedidos
quando o forno de cermica explodiu. Nossas aulas de arte tinham se
transformado de experincias malucas com metais derretidos e guerra de
barro em interminveis sesses desenhando perfis de bonecos de madeira que
ela posicionava em poses rgidas no incio de cada aula.
     -- S estou fazendo os deveres. -- Era Ruth Connors. Reconheci sua voz,
e Ray tambm reconheceu. Todos tnhamos aula de ingls com a sra. Dewitt
no primeiro tempo.
     -- Isso -- disse o sr. Peterford -- no foi o dever.
     Ray segurou minha mo e apertou. Sabamos do que eles estavam
falando. Uma cpia xerox de um dos desenhos de Ruth tinha circulado pela
biblioteca at chegar a um menino no catlogo de fichas que foi surpreendido
pelo bibliotecrio.
     -- Se no me engano -- disse a srta. Ryan -- nosso modelo de anatomia
no tem seios.
     O desenho era de uma mulher reclinada de pernas cruzadas. E no era
uma boneca de madeira com arames prendendo os membros. Era uma mulher
de verdade, e os borres de carvo vegetal de seus olhos -- por acidente ou
de propsito -- lhe davam um olhar lascivo que fazia todos os alunos que a
viam se sentirem altamente envergonhados ou muito felizes, obrigado.
     -- Aquele modelo de madeira tambm no tem nariz nem boca -- disse
Ruth --, mas a senhorita nos disse para desenhar rostos.
     Ray apertou minha mo de novo.




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     -- Chega, minha jovem -- disse o sr. Peterford. -- Est bvio que foi a
pose de repouso deste desenho em especial que o transformou em alguma
coisa que o menino Nelson iria xerocar.
     -- E isso  culpa minha?
     -- Sem o desenho no haveria problema.
     -- Ento  culpa minha?
     -- Estou sugerindo que voc pense em que situao isso coloca o colgio
e nos ajude desenhando o que a srta. Ryan manda a turma desenhar sem fazer
acrscimos desnecessrios.
     -- Leonardo da Vinci desenhava cadveres -- disse Ruth baixinho.
     -- Entendeu?
     -- Entendi -- disse Ruth.
     As portas do palco se abriram e se fecharam, e um instante depois Ray e
eu pudemos ouvir Ruth Connors chorando. Ray formou a palavra vamos com a
boca e fui at a beirada do andaime, passando o p para o lado de fora para
encontrar um apoio.
     Naquela semana Ray me beijaria perto do meu escaninho. No aconteceu
em cima do andaime como ele queria que acontecesse. Nosso primeiro beijo
foi como um acidente -- um lindo arco-ris de gasolina.
     Desci do andaime de costas para ela. Ela no se mexeu nem se escondeu,
s ficou me olhando enquanto eu me virava. Estava sentada em um caixote de
madeira perto dos fundos do palco. A sua esquerda estavam penduradas duas
cortinas velhas. Ela me viu caminhar em sua direo, mas no enxugou os
olhos.
     -- Susie Salmon -- disse ela, s para confirmar. At aquele dia, a
possibilidade de eu matar o primeiro tempo e me esconder nas coxias do
auditrio era to remota quanto a da menina mais inteligente da nossa turma
ser alvo dos gritos do encarregado da disciplina.
     Fiquei de p na frente dela, de chapu na mo.
     -- Que chapu ridculo -- disse ela. Levantei o gorro de sininhos e olhei
para ela.
     -- Eu sei. Minha me que fez.
     -- Ento, voc escutou?
     -- Posso ver?



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     Ruth desdobrou a xerox muito manuseada e eu olhei. Usando uma caneta
esferogrfica, Brian Nelson tinha feito um buraco obsceno onde as pernas
estavam cruzadas. Tive um movimento de recuo ela ficou me olhando. Pude
ver alguma coisa brilhando em seus olhos, a pergunta secreta, e ento ela se
inclinou e tirou da mochila um caderno de desenho de couro preto.
     L dentro, era lindo. Desenhos de mulheres sobretudo, mas de animais e
homens tambm. Eu nunca tinha visto nada parecido antes. Cada pgina
estava coberta com seus desenhos. Percebi ento como Ruth era subversiva,
no porque fazia desenhos de mulheres nuas que eram mal-utilizados por
seus colegas, mas porque era mais talentosa do que seus professores. Ela era
o tipo mais silencioso de rebelde. Sem remdio, na verdade.
     -- Voc  boa mesmo, Ruth -- disse eu.
     -- Obrigada -- disse ela, e continuei a folhear as pginas de seu caderno
e a sorv-las. Eu estava ao mesmo tempo assustada e fascinada pelo que
existia naqueles desenhos debaixo da linha preta do umbigo -- o que minha
me chamava de "mquina de fazer nenm". Eu disse a Lindsey que nunca
teria um beb, e quando tinha 10 anos passei quase seis meses dizendo a
qualquer adulto que quisesse escutar que pretendia ligar as trompas. Eu no
sabia exatamente o que isso significava, mas sabia que era drstico, precisava
de cirurgia, e aquilo fazia meu pai dar gargalhadas.
     Para mim Ruth passou de esquisita a especial. Os desenhos eram to bons
que naquele momento eu esqueci as regras do colgio, todos os sinais e
apitos aos quais como alunos esperava-se que respondssemos.


                                               12
    Depois do milharal ser isolado, vasculhado, e em seguida abandonado,
Ruth ia passear l. Ela se enrolava em um grande xale de l da av por baixo
do velho e maltrapilho casaco de l grossa do pai. Ela logo reparou que os
professores das matrias que no fossem ginstica no a denunciavam
quando ela matava aula. Ficavam felizes por no t-la ali: sua inteligncia a
tornava um problema. Exigia ateno e apressava as aulas que eles tinham
preparado.




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     E ela comeou a pegar carona com o pai de manh para evitar o nibus.
Ele saa muito cedo e levava sua marmita de metal vermelho e tampa oblqua
que ele a deixava fingir ser o celeiro das Barbies quando ela era pequena e
onde agora escondia bourbon. Antes de deix-la no estacionamento vazio, ele
parava o caminho, mas deixava a calefao ligada.
     -- Voc vai ficar legal hoje? -- ele sempre perguntava. Ruth assentia.
     -- Uma saideira?
     E sem aquiescer desta vez ela lhe entregava a marmita. Ele a abria,
destampava a garrafa de bourbon, tomava um grande gole e depois passava
para ela. Ela jogava a cabea para trs teatralmente colocava a lngua no
gargalo para que muito pouco lquido entrasse na sua boca, ou ento tomava
um golinho fazendo uma careta, se ele estivesse olhando para ela. Ela descia
da cabine alta. Fazia frio,muito frio, antes de o sol nascer. Ento ela se lembrou
de uma coisa de uma de nossas aulas: pessoas em movimento sentem menos
frio do que pessoas paradas. Ento ela passou a ir direto para o milharal, com
passos rpidos. Falava sozinha,e algumas vezes pensava em mim. Muitas vezes
descansava um instante, apoiada na cerca arame que separava o campo de
futebol da estrada de terra, enquanto via o mundo ganhar vida diante de seus
olhos.
     Ento nos encontramos todas as manhs naqueles primeiros meses. O sol
nascia sobre o milharal e Holiday, solto por meu pai, ia caar coelhos fazendo-
os entrar e sair de trs dos ps secos de milho morto. Os coelhos oravam os
gramados aparados dos terrenos de atletismo, e conforme Ruth se aproximava
podia ver suas formas escuras alinhadas junto ao giz branco da linha externa
como uma espcie de minsculo time esportivo. Ela gostava dessa ideia, e eu
tambm. Ela acreditava que bichos de pelcia moviam  noite quando os
humanos iam dormir. Ainda pensava que dentro da marmita do pai pudesse
haver minsculas vacas e ovelhas que encontravam tempo para pastar no
bourbon e nas salsichas.
     Quando Lindsey deixou as luvas para mim de Natal, entre o limite mais
externo do campo de futebol e o milharal, olhei para baixo certa manh e vi os
coelhos investigando: cheirando os cantos das luvas forradas com seus
semelhantes. Depois vi Ruth peg-las antes de serem agarradas por Holiday.




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Ela virou uma das luvas do avesso fazendo a pele ficar do lado de fora e a
encostou no rosto. Olhou para o cu e disse:
     -- Obrigada! -- Eu gostava de pensar que ela estava falando comigo.
     Comecei a amar Ruth naquelas manhs, sentindo que de alguma maneira
que nunca poderamos explicar, em nossos lados opostos do Meio-Termo,
tnhamos nascido para fazer companhia uma  outra. Meninas diferentes que
tinham se encontrado da maneira mais estranha -- no arrepio que ela sentiu
quando eu passei.


                                               12
     Ray era um andarilho, como eu, e morava bem no final da nossa rea de
expanso, que ficava em volta do colgio. Ele tinha visto Ruth Connors
andando sozinha pelos campos de futebol. Desde o Natal, ia e voltava do
colgio o mais depressa possvel, sem nunca se demorar. Ele queria que meu
assassino fosse pego quase tanto quanto meus pais queriam. At isso
acontecer, Ray no conseguiria apagar os vestgios de suspeita de si prprio,
apesar de seu libi.
     Ele escolheu uma manh em que seu pai no precisava trabalhar na
universidade e encheu a garrafa trmica do pai com o ch doce de sua me.
Saiu cedo para esperar Ruth e fez do crculo de cimento de onde se faziam os
lanamentos uma espcie de acampamento, sentando-se na beirada de metal
em que os lanadores apoiavam os ps.
     Quando a viu andando do outro lado da cerca de arame que separava o
colgio do campo de futebol e dentro da qual ficava o mais reverenciado dos
campos -- o de futebol americano -- esfregou as mos e preparou o que
queria dizer. Sua coragem ento no vinha de ter me beijado -- um objetivo
que ele tinha resolvido cumprir um ano antes de conseguir faz-lo -- mas sim
de se sentir, aos 14 anos, intensamente sozinho.
     Vi Ruth se aproximar vinda do campo de futebol, pensando estar sozinha.
Em uma casa velha que seu pai tinha ido vasculhar, ele tinha encontrado ura
presente para ela, que combinava cora seu novo passatempo -- uma
antologia potica. Ela segurava o livro apertado.
     Viu Ray se levantar quando ainda estava um pouco distante.




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     -- Oi, Ruth Connors! -- disse ele acenando.
     Ruth olhou para l, e o nome dele surgiu em sua cabea: Ray Singh. Mas
ela no sabia muito mais do que isso. Tinha escutado os boatos sobre a polcia
ter visitado a casa dele, mas acreditava no que seu pai dizia -- "Nenhuma
criana fez isso!" --, ento andou at ele.
     -- Eu fiz um ch, est aqui na minha garrafa trmica -- disse Ray.
     Corei por ele l no cu. Ele era inteligente quando o assunto era Otelo, as
agora estava se comportando como um prego.
     -- No, obrigada -- disse Ruth. Ela estava perto dele, mas com alguns
bons metros mais do que o habitual a separ-los. Suas unhas marcavam a
capa usada da antologia potica.
     -- Eu estava l naquele dia, quando voc e a Susie conversaram na coxia
-- disse Ray. Ele lhe estendeu a garrafa trmica. Ela no chegou mais perto
nem respondeu.
     -- A Susie Salmon -- precisou ele.
     -- Eu sei de quem voc est falando -- disse ela.
     -- Voc vai  homenagem?
     -- No sabia que ia ter uma homenagem -- disse ela.
     -- Acho que eu no vou.
     Eu tinha os olhos fixos em seus lbios. Estavam mais vermelhos do que
normal por causa do frio. Ruth deu um passo  frente.
     -- Quer manteiga de cacau? -- perguntou Ruth.
     Ray levou suas luvas de l at os lbios, onde elas se prenderam de leve
superfcie rachada que eu tinha beijado. Ruth enfiou as mos no bolso casaco
e pegou a manteiga de cacau.
     -- Toma -- disse ela. -- Tenho milhares. Pode ficar com esta.
     -- Que gentil -- disse ele. -- Voc vai pelo menos sentar aqui comigo at
os nibus chegarem?
     Ficaram sentados juntos na plataforma de cimento dos lanadores. De
novo eu estava vendo uma coisa que nunca teria visto: eles dois juntos. Aquilo
tornava Ray mais atraente para mim do que ele jamais tinha sido. Seus olhos
eram de um cinza bem escuro.Quando olhava para ele do cu, eu no hesitava
em cair dentro deles.




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     Aquilo se tornou um ritual para os dois. Nos dias em que o pai dele
lecionava, Ruth levava um pouco de bourbon na garrafinha do pai; seno
tomavam ch doce. Fazia um frio cio, mas isso no parecia ter importncia
para eles.
     Eles conversavam sobre como era ser estrangeiro em Norristown. Liam
poemas da antologia de Ruth em voz alta. Conversavam sobre como virar o
que queriam ser. Mdico no caso de Ray. Pintora/poetisa no de Ruth.
Formaram um clube secreto composto pelos outros esquisitos que
conseguiam identificar na turma. Havia os bvios como Mark Bayles, que tinha
tomado tanto cido que ningum entendia como ele ainda estava no colgio,
ou Jeremiah, que era da Louisiana e to estrangeiro quanto Ray. Depois havia
os silenciosos. Artie, que conversava animadamente com qualquer pessoa
sobre os efeitos do formol. Harry Orland, to tmido que usava o short de
ginstica por cima do jeans. E Vicki Kurz, que todos pensavam estar bem
depois da morte da me, mas que Ruth tinha visto dormindo em uma cama de
agulhas de pinheiro atrs do terreno do ginsio. E algumas vezes falavam
sobre mim.
     --  to estranho -- disse Ruth. -- Quero dizer, a gente estudava na
mesma turma, desde o jardim de infncia, mas aquele dia na coxia do
auditrio foi a primeira vez que a gente olhou uma para a outra.
     -- Ela era muito legal -- disse Ray. Pensou em nossos lbios se tocando
enquanto estvamos sozinhos atrs de uma fileira de escaninhos. Em como eu
tinha sorrido de olhos fechados e depois quase sado correndo. -- Voc acha
que eles vo encontrar o cara?
     -- Acho que sim. Voc sabe que a gente est a uns cem metros de onde
aconteceu.
     -- Sei -- disse ele.
     Os dois ficavam sentados na fina borda de metal do apoio dos lana
dores, segurando ch nas mos enluvadas. O milharal tinha virado um lugar
aonde ningum ia. Quando uma bola saa do campo de futebol, um menino
tomava coragem para ir busc-la. Naquela manh, o sol que nascia passava
direito entre os ps de milho mortos, mas dele no emanava calor nenhum.
     -- Encontrei estas luvas aqui -- disse ela, mostrando as luvas de couro.




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     -- Voc pensa nela em algum momento? -- perguntou ele. Ficaram
novamente calados.
     -- O tempo todo -- disse Ruth.
     Um arrepio percorreu minha espinha.
     -- Algumas vezes acho que ela tem sorte, sabe. Eu odeio este lugar.
     -- Eu tambm -- disse Ray. -- Mas j morei em outros lugares. Isto aqui 
s um inferno temporrio, no permanente.
     -- Voc no quer dizer que...
     -- Ela est no cu, se  que voc acredita nessas coisas.
     -- Voc no acredita?
     -- Acho que no, no.
     -- Eu acredito -- disse Ruth. -- No estou falando naquela babaquice
asas de anjo, mas acho que existe um cu, sim.
     -- Ela est feliz?
     -- L  o cu, n?
     -- Mas o que isso quer dizer?
     O ch estava gelado e o primeiro sinal j tinha tocado. Ruth sorriu para
dentro da xcara.
     -- Bom, como diria o meu pai, quer dizer que ela est longe deste buraco
de merda.
     Quando meu pai bateu na porta da casa de Ray Singh, ficou paralisado
pela me de Ray, Ruana. No que ela tenha sido imediatamente receptiva, e
ela estava longe de ser alegre, mas alguma coisa em seus cabelos escuros, em
seus olhos cinzentos e mesmo na estranha maneira como ela pareceu se
afastar da porta depois de abri-la, tudo isso o deixou perplexo.
     Ele tinha escutado os comentrios descuidados da polcia a seu respeito.
Para eles, ela era fria e esnobe, condescendente, estranha. Ento foi isso que
ele imaginou que iria encontrar.
     -- Entre e sente-se -- disse-lhe ela quando ele pronunciou seu nome.
     Ao ouvir a palavra Salmon, os olhos dela haviam se transformado de
portas fechadas em portas abertas -- quartos escuros onde ele queria ser o
primeiro a entrar.
     Ele quase perdeu o equilbrio quando ela o conduziu at o pequeno
vestbulo da casa deles. Havia livros pelo cho com as lombadas para cima.



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Eram trs fileiras a partir da parede. Ela vestia um sri amarelo e o que
pareciam ser calas capri de lam dourado por baixo. Estava descala.
Caminhou sem fazer barulho pelo carpete e parou perto do sof.
     -- Quer beber alguma coisa? -- perguntou ela, e ele assentiu.
     -- Quente ou frio?
     -- Quente.
     Enquanto ela desaparecia em um cmodo que ele no conseguia ver, ele
se sentou no sof quadriculado marrom. As janelas na sua frente debaixo das
quais os livros estavam arrumados estavam cobertas por longas cortinas de
musselina, que a forte luz do dia l fora tinha de lutar para atravessar. Ele se
sentiu de repente muito confortvel, quase perto de se esquecer por que
naquela manh tinha verificado duas vezes o endereo dos Singh.
     Algum tempo depois, enquanto meu pai pensava em como estava
cansado e em como tinha prometido  minha me buscar uma roupa que
estava h tempos na tinturaria, a sra. Singh voltou com ch em uma bandeja e
a colocou na frente dele no carpete.
     -- Desculpe, mas no temos muitos mveis. O sr. Singh ainda est
procurando emprego.
     Ela foi at um cmodo contguo e trouxe de volta uma almofada roxa
para se sentar, que ps no cho para ficar de frente para ele.
     -- O sr. Singh  professor? -- perguntou meu pai, embora j soubesse
isso, embora soubesse mais coisas do que gostaria sobre aquela bela mulher e
sua casa pouco mobiliada.
     --  -- disse ela, e serviu o ch. A sala estava silenciosa. Ela lhe estendeu
uma xcara, e enquanto ele aceitava disse: -- O Ray estava com ele no dia que
sua filha foi morta.
     Ele sentiu vontade de se perder dentro dela.
     -- Deve ter sido por isso que o senhor veio aqui -- continuou ela.
     -- Foi -- disse ele. -- Quero falar com ele.
     -- Ele est no colgio agora -- disse ela. -- O senhor sabe disso. -- Suas
pernas vestidas com as calas douradas estavam encolhidas ao lado do corpo.
As unhas de seus ps estavam compridas e sem esmalte, sua superfcie
deformada por anos de dana.




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     -- Eu queria passar aqui e dizer  senhora que no desejo mal a ele --
disse meu pai. Eu olhava para ele. Nunca o tinha visto daquele jeito antes. As
palavras saam de sua boca como fardos de que estivesse se libertando, verbos
e substantivos encalhados, mas ele olhava para os ps dela dobrando-se em
cima do tapete bege e para o modo como uma poa de luz filtrada tocava sua
bochecha direita.
     -- Ele no fez nada de errado e amava a sua filha. Uma paixo de
estudante, mas mesmo assim uma paixo.
     Paixes de estudante aconteciam o tempo todo com a me de Ray. O
adolescente que entregava o jornal parava sua bicicleta, esperando que ela
esse perto da porta quando ouvisse o som do Philadelphia Inquirer saindo na
varanda. Esperando que ela sasse e, se sasse, que acenasse para ele. Ela
sequer precisava sorrir, e raramente sorria fora de casa -- eram seus olhos, seu
porte de bailarina, a maneira como parecia pensar em cada movimento de seu
corpo.
     Quando a polcia veio, entrou no hall escuro em busca de um assassino,
mas antes de Ray aparecer no alto da escada, Ruana os tinha intrigado tanto
que eles estavam concordando em tomar ch e sentar-se em almofadas de
seda. Esperavam que ela casse nas teias da conversa na qual se fiavam ao falar
com qualquer mulher bonita, mas ela s ia ficando mais ereta enquanto eles
tentavam com cada vez mais afinco cair em suas graas, e ficou de p ao lado
da janela enquanto interrogavam seu filho.
     -- Fico feliz pela Susie ter tido um menino legal para gostar dela -- disse
meu pai. -- Vou agradecer a seu filho por isso.
     Ela sorriu sem mostrar os dentes.
     -- Ele escreveu um bilhete de amor para ela -- disse ele.
     -- Foi.
     -- Eu gostaria de ter sabido o que ia acontecer para fazer a mesma coisa
-- disse ele. -- Dizer a ela que a amava, no ltimo dia.
     -- .
     -- Mas o seu filho fez isso.
     -- Foi.
     Ficaram se encarando por um instante.




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     -- A senhora deve ter enlouquecido os policiais -- disse ele, e sorriu mais
para si mesmo do que para ela.
     -- Eles vieram acusar o Ray -- disse ela. -- Eu no estava preocupada
com o que pensavam de mim.
     -- Imagino que est sendo difcil para ele -- disse meu pai.
     -- No, eu no vou permitir isso -- disse ela, sria, e tornou a pr a xcara
na bandeja. -- O senhor no pode ter pena do Ray nem de ns.
     Meu pai tentou gaguejar uma reao. Ela levantou a mo.
     -- O senhor perdeu uma filha e veio aqui por algum motivo. Vou
conceder isso ao senhor, e s isso, mas tentar entender nossas vidas, no.
     -- Eu no quis ofender -- disse ele. -- Eu s...
     A mo se levantou de novo.
     -- O Ray vai chegar em casa daqui a vinte minutos. Eu vou falar com ele
primeiro para prepar-lo, depois o senhor pode falar com o meu filho sobre a
sua filha.
     -- O que foi que eu disse?
     -- Eu gosto do fato de no termos muita moblia. Assim posso pensar que
um dia podemos fazer as malas e ir embora.
     -- Eu espero que fiquem -- disse meu pai. Disse isso porque tinha sido
ensinado a ser educado desde pequeno, uma educao que me transmitiu,
mas tambm o disse porque parte dele queria mais dela, daquela mulher fria
que no era exatamente fria, daquela rocha que no era de pedra.
     -- Com toda educao -- disse ela --, o senhor nem me conhece. Vamos
esperar pelo Ray juntos.
     Meu pai tinha sado de casa no meio de uma briga entre Lindsey e minha
me. Minha me estava tentando convencer Lindsey a ir com ela nadar. Sem
pensar, Lindsey gritou:
     -- Prefiro morrer! -- com toda fora. Meu pai viu minha me congelar,
depois explodir, fugindo para o quarto para chorar atrs da porta. Em silncio,
guardou o caderno de anotaes no bolso, pegou as chaves do carro
penduradas perto da porta dos fundos, e saiu de fininho.
     Naqueles dois primeiros meses, minha me e meu pai se moviam em
direes opostas. Um ficava em casa, o outro saa. Meu pai adormecia na
cadeira verde de seu quartinho e, quando acordava, se esgueirava com



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cuidado at o quarto e entrava na cama. Se minha me tivesse pegado a maior
parte dos lenis ele dormia sem se cobrir, com o corpo em posio fetal,
pronto para dar um pulo a qualquer momento, pronto para qualquer coisa.
     -- Eu sei quem a matou -- ele se viu dizendo para Ruana Singh.
     -- O senhor contou para a polcia?
     -- Contei.
     -- O que eles disseram?
     -- Disseram que por enquanto nada a no ser a minha suspeita liga
homem ao crime.
     -- A suspeita de um pai... -- comeou ela.
     -- Tem tanto poder quanto o instinto de uma me.
     Dessa vez ela sorriu mostrando os dentes.
     -- Ele vive nas redondezas.
     -- O que o senhor est fazendo?
     -- Investigando todas as pistas -- disse meu pai, e enquanto falava
percebeu como aquilo soava.
     -- E o meu filho...
     -- E uma pista.
     -- Talvez o outro homem assuste demais o senhor.
     -- Mas eu preciso fazer alguma coisa -- protestou ele.
     -- Aqui vamos ns de novo, sr. Salmon -- disse ela. -- O senhor est me
entendendo mal. No estou dizendo que est fazendo a coisa errada vindo
aqui.  a coisa certa, de certo modo. O senhor quer encontrar alguma coisa
macia, alguma coisa quente em tudo isso. Sua busca trouxe o senhor at aqui.
Isso  bom. S estou preocupada que tambm seja bom para o meu filho.
     -- No quero causar nenhum problema.
     -- Qual  o nome do homem?
     -- George Harvey. -- Era a primeira vez que ele dizia o nome em voz alta
para algum a no ser Len Fenerman.
     Ela ficou calada e se ps de p. Virando-lhe as costas, caminhou at a
primeira janela, depois at a outra, e afastou as cortinas. O dia tinha a cor de
depois do colgio que ela tanto adorava. Ela olhou para a rua esperando ver
Ray.




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     -- O Ray j vai chegar. Vou encontr-lo na rua. Se me d licena,
sr.Salmon, preciso vestir o casaco e calar as botas. -- Ela fez uma pausa. --
Sr.Salmon -- disse --, eu faria exatamente o que o senhor est fazendo: falaria
com todo mundo que precisasse, no diria o nome dele a muitas pessoas.
Quando tivesse certeza -- disse ela -- encontraria um jeito discreto e o
mataria.
     Ele podia ouvi-la no hall de entrada, o rudo metlico de cabides
enquanto ela pegava o casaco. Alguns minutos depois, a porta foi aberta e
fechada. Uma brisa fria entrou de fora e ento, na rua, ele pde ver uma me
cumprimentando o filho. Nenhum dos dois sorriu. Suas cabeas estavam
baixas. Suas bocas se moviam. Ray tentava entender o fato de que meu pai
estava esperando dentro da sua casa.


                                               12
     No incio minha me e eu pensamos que s o bvio distinguia Len
Fenerman do resto da fora policial. Ele era mais baixo do que os enormes
homens uniformizados que geralmente o acompanhavam. Depois havia
tambm os traos menos bvios -- o modo como ele muitas vezes parecia
estar pensando consigo mesmo, sua falta de queda por ser engraado ou
tentar ser algo alm de srio quando falava sobre mim e sobre as
circunstancias do caso. Mas conversando com minha me Len Fenerman havia
se revelado tal como era: um otimista. Ele acreditava que meu assassino seria
pego.
     -- Talvez no hoje nem amanh -- disse ele a minha me --, mas um dia
ele vai fazer alguma coisa incontrolvel. Eles so descontrolados demais em
seus hbitos para no fazer isso.
     Minha me precisou fazer sala para Len Fenerman at meu pai voltar da
casa dos Singh. Na mesa da sala ntima os lpis de cera de Buckley estavam
espalhados em cima do papel de po que minha me tinha estendido. Buckley
e Nate tinham desenhado at suas cabeas comearem a despencar como
flores pesadas, e minha me os tinha colhido no colo, primeiro um depois o
outro, e os deitado no sof. Estavam ali dormindo, um de cada lado, com os
ps quase chegando na metade do sof.




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     Len Fenerman era cuidadoso o bastante para falar em voz baixa, mas
minha me reparou que ele no era f de crianas. Ele a viu pegar os dois
meninos no colo, mas no se levantou para ajudar nem comentar sobre eles
como outros policiais sempre faziam, definindo-a por seus filhos, tanto os
vivos quanto os mortos.
     -- O Jack quer falar com o senhor -- disse minha me. -- Mas tenho
certeza de que est ocupado demais para esperar.
     -- No estou no.
     Vi uma mecha preta de seus cabelos escapar de trs da orelha onde ela os
tinha prendido. Aquilo suavizava seu rosto. Vi Len prestar ateno tambm.
     -- Ele foi at a casa daquele coitado do Ray Singh -- disse ela, e
recolocou a mecha cada no lugar.
     -- Lamento termos tido de interrog-lo -- disse Len.
     -- E -- disse ela. -- Nenhum menino  capaz de... -- Ela no conseguiu
dizer, e ele no a obrigou.
     -- O libi dele era slido.
     Minha me pegou um lpis de cera de cima do papel.
     Len Fenerman ficou vendo minha me desenhar bonecos e cachorros de
palito. Buckley e Nate faziam barulhinhos enquanto dormiam no sof. Meu
irmo se encolheu em posio fetal e um segundo depois ps o polegar na
boca para chupar. Era uma mania que minha me tinha dito que precisvamos
ajud-lo a abandonar. Agora ela invejava aquela paz to fcil.
     -- A senhora me lembra a minha mulher -- disse Len depois de um longo
silncio durante o qual minha me tinha desenhado um poodle laranja e o que
parecia ser um cavalo azul submetido a um tratamento de choques eltricos.
     -- Ela tambm no sabe desenhar?
     -- Ela no falava muito quando no tinha nada para dizer.
     Passaram-se mais alguns minutos. Uma bola amarela de sol. Uma casa
marrom com flores do lado de fora -- cor-de-rosa, azuis, roxas.
     -- O senhor falou no passado. Ambos ouviram a porta da garagem.
     -- Ela morreu logo depois de nos casarmos -- disse ele.
     -- Papai! -- gritou Buckley dando um pulo, esquecendo-se de Nate e de
todos os outros.
     -- Sinto muito -- disse ela a Len.



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     -- Eu tambm -- disse ele --, pela Susie. De verdade.
     No hall dos fundos, meu pai cumprimentou Buckley e Nate efusivamente
e gritando "Oxignio!" como sempre fazia quando ns o soterrvamos depois
de um dia longo. Mesmo que soasse falso, animar-se para meu irmo era
geralmente a parte preferida de seu dia. Minha me ficou olhando para Len
Fenerman enquanto meu pai ia dos fundos da casa at a sala ntima. Corra
para a pia, eu queria dizer a ela, olhe no ralo e para dentro da terra. Eu estou l
embaixo esperando; estou aqui em cima olhando.
     Len Fenerman tinha sido o primeiro a pedir para minha me minha foto
de colgio quando a polcia pensava que eu poderia ser encontrada viva. Em
sua carteira estava minha foto, junto com outras. Entre aquelas crianas mortas
havia uma foto de sua mulher. Se um caso tivesse sido resolvido, ele tinha
escrito a data da soluo no verso da foto. Se o caso ainda estivesse em
aberto -- na cabea dele, quando no nas fichas oficiais da polcia -- o verso
estava em branco. No tinha nada escrito no verso da minha foto. No tinha
nada escrito no verso da foto da mulher dele.
     -- Len, como vai? -- perguntou meu pai. Holiday se levantou e ficou
pulando de um lado para o outro para meu pai fazer festa nele.
     -- Soube que foi visitar o Ray Singh -- disse Len.
     -- Meninos, porque vocs no vo brincar no quarto do Buckley? --
sugeriu minha me. -- O inspetor Fenerman e o papai precisam conversar.




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                                       Captulo 7



   --    E      st vendo ela? -- perguntou Buckley para Nate enquanto
                subiam as escadas, com Holiday atrs. --  a minha irm.
     -- No. -- disse Nate.
     -- Ela foi embora por um tempo, mas agora voltou. Corrida!
     E os trs -- dois meninos e um cachorro -- subiram correndo o resto da
grande curva da escada.
     Eu nunca sequer tinha me permitido ter saudades de Buckley, com medo
de que ele pudesse ver minha imagem em um espelho ou na tampa de uma
garrafa. Como todo mundo, eu estava tentando proteg-lo.
     -- Ele  novo demais -- disse eu para Franny.
     -- De onde voc acha que vm os amigos imaginrios? -- disse ela.
Durante alguns minutos, os dois meninos ficaram sentados debaixo do
decalque emoldurado de um tmulo, do lado de fora do quarto dos meus
pais. Era o tmulo de um cemitrio londrino. Minha me tinha contado para
Lindsey e eu a histria de como meu pai e ela queriam coisas para pendurar
nas paredes e uma velha que conheceram durante a lua-de-me tinha lhes
ensinado a fazer decalques de tmulos. Depois dos meus 9 anos a maioria dos
decalques tinha sido guardada no poro, e os espaos em nossas paredes
suburbanas tinham sido ocupados por gravuras abstratas brilhantes que
pretendiam estimular as crianas. Mas Lindsey e eu adorvamos os decalques
de tmulos, especialmente aquele debaixo do qual Nate e Buckley estavam
sentados naquela tarde.
     Lindsey e eu costumvamos nos deitar no cho debaixo dele. Eu fingia ter
o cavaleiro retratado, e Holiday era o co fiel deitado a seus ps. Lindsey era a
mulher que ele tinha deixado. Por mais srio que fosse o incio, a brincadeira
sempre terminava em risos. Lindsey dizia ao cavaleiro morto que uma mulher
precisava tocar a vida, que ela no podia ficar presa pelo resto da existncia a
um homem congelado no tempo. Eu fingia exaltao e raiva, mas nunca por



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muito tempo. Ela acabava descrevendo seu novo imante: o aougueiro gordo
que lhe dava pedaos de carne de primeira, o gil ferreiro que lhe fazia
ganchos.
     -- Voc est morto, cavaleiro -- dizia ela. --  hora de tocar a vida.
     -- Ontem  noite ela entrou aqui e beijou a minha bochecha -- disse
Buckley.
     -- Beijou nada.
     -- Beijou sim.
     -- Foi?
     -- Foi.
     -- Voc contou para a sua me?
     --  segredo -- disse Buckley. -- A Susie me disse que ainda no est
preparada para falar com eles. Quer ver outra coisa?
     -- Claro -- disse Nate.
     Os dois se levantaram e foram para o lado da casa reservado s crianas,
deixando Holiday adormecido debaixo do decalque do tmulo.
     -- Vem ver -- disse Buckley.
     Estavam no meu quarto. O retrato da minha me tinha sido levado por
Lindsey. Depois de pensar um pouco, ela tinha voltado para pegar o broche
"Hippy-Dippy Diz Amor" tambm.
     -- O quarto da Susie -- disse Nate.
     Buckley levou o dedo aos lbios. Tinha visto minha me fazer isso quando
queria que ficssemos quietos, e agora queria o mesmo de Nate. Ele se deitou
de bruos e acenou para Nate se deitar tambm, e eles se arrastaram como
Holiday para debaixo da pilha de poeira que era minha cama at meu
esconderijo secreto.
     No material esticado na parte de baixo do colcho tinha um buraco, e l
dentro coisas que eu no queria que ningum visse. Eu precisava proteger o
buraco de Holiday ou ele ficava arranhando para tentar soltar os objetos. Foi
exatamente o que aconteceu vinte e quatro horas depois de eu sumir. Meus
pais tinham vasculhado meu quarto  procura de um bilhete que explicasse
meu sumio e deixado a porta aberta. Holiday tinha levado embora as balas
que eu guardava l dentro. Espalhados debaixo da minha cama estavam os
objetos que eu tinha escondido, e um deles s Buckley e Nate poderiam



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reconhecer. Buckley desenrolou um velho leno do meu pai e ali estava ele: o
graveto manchado de sangue.
     No ano anterior, Buckley, ento com 3 anos, tinha engolido o graveto.
Nate e ele estavam enfiando pedras dentro de seus narizes no nosso quintal
dos fundos, mas Buckley tinha encontrado um pequeno graveto debaixo do
carvalho em que minha me amarrava uma das pontas do varal. Ps o galho
na boca como um cigarro. Eu o via do telhado do lado de fora do meu quarto,
onde estava sentada pintando as unhas dos ps com o Glitter Magenta da
Clarissa e lendo a Seventeen.
     Eu sempre era incumbida da tarefa de vigiar o irmo menor. Lindsey no
era considerada grande o suficiente. Alm disso, era um crebro em expanso,
o que queria dizer que tinha liberdade para fazer coisas como passar aquela
tarde de vero fazendo desenhos detalhados do olho de uma mosca em um
papel milimetrado com sua caixa de cento e trinta lpis de cor.
     No estava calor demais l fora e era vero, e eu ia passar o tempo
confinada em casa me embelezando. Tinha comeado o dia tomando banho,
lavando os cabelos e tomando banho de vapor. No telhado, me sequei ao
vento e passei laqu.
     Tinha aplicado duas camadas de Glitter Magenta quando uma mosca
pousou no aplicador do esmalte. Ouvi Nate fazer barulhos de provocao e
ameaa, e olhei para a mosca com os olhos apertados tentando distinguir
rodos os quadrantes de seus olhos que Lindsey estava colorindo dentro de
casa. Uma brisa soprou, fazendo meus pedaos de unha cortada voarem rara
cima das minhas coxas.
     -- Susie! Susie! -- Nate estava gritando.
     Olhei para baixo e vi Buckley no cho.
     Era sobre esse dia que eu sempre contava a Holly quando falvamos
sobre salvamento. Eu acreditava que fosse possvel; ela no.
     Passei as pernas para o outro lado e desci pela minha janela aberta, com
um dos ps aterrissando em cima do banquinho de costura e o outro
imediatamente na frente do primeiro em cima do tapete tranado e depois
caindo de joelhos e me levantando como uma atleta. Desci o corredor a toda e
deslizei corrimo abaixo como tnhamos sido proibidos de fazer. Gritei o nome
de Lindsey e depois me esqueci dela, corri para o quintal dos fundos passando



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pela varanda fechada com tela e pulei por cima da mureta do cachorro at o
carvalho.
     Buckley estava sufocando, seu corpo dava pinotes, e eu o carreguei com
Nate atrs at a garagem, onde o precioso Mustang do meu pai ficava
estacionado. Eu tinha visto meus pais dirigindo, e minha me tinha me
mostrado como passar um carro hidramtico da posio neutra para a posio
de r. Pus Buckley no banco de trs e peguei as chaves dentro do vaso de
barro vazio em que meu pai escondia. Dirigi at o hospital acima do limite de
velocidade o tempo todo.
     Queimei o freio de mo, mas ningum pareceu se importar com isso.
     -- Se ela no estivesse l -- disse o mdico mais tarde para minha me --
a senhora teria perdido seu menininho.
     Vov Lynn previu que eu teria uma vida longa por ter salvado a do meu
irmo. Como sempre, vov Lynn estava errada.


                                               12
     -- Uau -- disse Nate, segurando o graveto, maravilhado ao ver como com
o tempo o sangue vermelho ficava preto.
     --  -- disse Buckley. Seu estmago se revirou com a lembrana.
Lembrana da imensa dor que ele tinha sentido, de como os rostos dos
adultos mudavam em volta dele na imensa cama de hospital. Ele s os tinha
visto to srios uma outra vez. Mas enquanto no hospital seus olhos estavam
preocupados e depois no estavam mais, atravessados por tanta luz e alvio a
ponto de contagi-lo, agora os olhos dos nossos pais tinham se apagado e
nunca mais voltado.

                                               12
    Senti-me fraca no cu naquele dia. Inclinei-me para trs no mirante e
meus olhos se abriram. Estava escuro, e na minha frente havia um grande
prdio em que eu nunca tinha entrado.
    Eu tinha lido James e o pssego gigante quando era pequena. O prdio
parecia a casa de seus tios. Enorme, escuro e vitoriano. Tinha um belvedere.
Durante um instante, enquanto meus olhos se acostumavam com a escurido,




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pensei ver uma longa fila de mulheres no belvedere apontando para mim. Mas
um segundo depois vi outra coisa. Eram corvos alinhados, com os bicos
segurando gravetos tortos. Quando me levantei para voltar para o duplex, eles
levantaram voo e me seguiram. Ser que meu irmo tinha realmente me visto
de alguma maneira, ou ser que ele era apenas um menininho contando lindas
mentiras?




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                                       Captulo 8




  D         urante trs meses, o sr. Harvey sonhou com edifcios. Via um
            pedao da Iugoslvia no ponto onde palafitas de telhado de sap
davam lugar a torrentes furiosas de gua por baixo. L em cima havia cus
azuis. Margeando os fiordes no vale escondido da Noruega, via igrejas de
rapas, cuja madeira havia sido esculpida por construtores navais vikings.
Drages e heris locais feitos de madeira. Mas havia um edifcio, da Vologda,
com o qual ele sonhava mais: a Igreja da Transfigurao. E foi esse sonho --
seu preferido -- que ele teve na noite do meu assassinato e nas noites
seguintes antes de os outros voltarem. Os sonhos no-parados -- sonhos com
mulheres e crianas.

                                               12
     Eu podia ver bem l para trs o sr. Harvey no colo da me, olhando para
uma mesa coberta com pedaos de vidro colorido. Seu pai os separava em
pilhas nas segundo o formato e o tamanho, a profundidade e o peso. Os olhos
de joalheiro de seu pai olhavam fundo cada pea  procura de rachaduras e
defeitos. E George Harvey voltava sua ateno para a nica jia pendurada no
pescoo de sua me, uma grande pea de mbar oval emoldurada de prata,
dentro da qual havia uma mosca inteira e perfeita.
     "Construtor" era tudo o que o sr. Harvey dizia quando era pequeno.
Depois parou de responder  pergunta sobre o que seu pai fazia. Como podia
dizer que ele trabalhava no deserto, e que construa cabanas feitas de vidro
quebrado e madeira velha? Ele fazia sermes para George Harvey sobre de
que era feito um bom prdio, sobre como ter certeza de que se estava
construindo uma coisa que iria durar.
     Ento eram os velhos cadernos de desenho do pai que o sr. Harvev olhava
quando os sonhos no-parados voltavam. Ele se impregnava de imagens de
outros lugares e outros mundos, tentando amar o que no amava. E depois



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comeava a ter sonhos com sua me da ltima vez que a tinha visto, correndo
por um campo ao lado da estrada. Ela estava de branco. Calas capri brancas e
um suter branco justo de gola canoa, e seu pai e ela tinham brigado pela
ltima vez no carro, quente, parado na frente de Truth or Consequences, no
Novo Mxico. Ele a tinha forado a sair do carro. George Harvey ficou sentado
imvel no banco de trs, de olhos arregalados, com tanto medo quanto uma
pedra, olhando aquilo como olhava tudo quela altura -- em cmera lenta. Ela
corria sem parar, seu corpo branco magro e frgil desaparecendo, enquanto o
filho se agarrava ao colar de mbar que ela havia arrancado do pescoo para
lhe entregar. Seu pai olhava a estrada.
     -- Ela foi embora agora, filho -- disse ele. -- No vai mais voltar.




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                                       Captulo 9




M                inha av chegou na vspera da minha homenagem com seu
                 estilo habitual. Ela gostava de alugar limusines e chegar do
                 aeroporto bebendo champanhe vestida com o que chamava
de seu "grosso e maravilhoso animal" -- um mink comprado de segunda mo
no bazar da igreja. Meus pais no a tinham exatamente convidado, mas sim a
includo na lista, caso ela quisesse comparecer. No final de janeiro, o diretor
Caden tinha inventado a ideia. "Vai ser bom para seus filhos e para os alunos
do colgio", disse ele. Encarregou-se de organizar o evento na nossa igreja.
Meus pais pareciam sonmbulos dizendo sim s perguntas dele, concordando
com flores ou alto-falantes. Quando minha me comentou a respeito no
telefone com sua me, ficou surpresa ao ouvir as palavras:
     -- Eu vou.
     -- Mas voc no precisa vir, me.
     Houve um silncio do lado da minha av.
     -- Abigail -- disse ela --, estamos falando do funeral da Susan.


                                               12
     Vov Lynn envergonhava minha me insistindo em usar seus casacos de
pele de segunda mo para dar a volta no quarteiro e por ter certa vez ido a
uma festa do bairro muito maquiada. Ficava fazendo perguntas  minha me
at saber quem era todo mundo, se minha me tinha visto sua casa por
dentro, qual era a profisso do marido, que carro tinham. Ela construa um
slido catlogo dos vizinhos. Agora eu percebia que era um jeito de tentar
entender a filha. Um cerco equivocado, uma dana sem par.
     -- Jacky -- disse minha av chegando perto dos meus pais na varanda da
frente --, precisamos de bebidas fortes! -- Ela ento viu Lindsey, tentando se
esgueirar para o andar de cima e ganhar mais alguns minutos antes da visita




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obrigatria. -- As crianas me odeiam -- disse vov Lynn. Tinha um sorriso
congelado de dentes perfeitos e brancos.
      -- Me -- disse minha me. E eu queria me jogar dentro daqueles olhos
de oceano de perda. -- Tenho certeza de que Lindsey est s indo se arrumar
para ficar apresentvel.
      -- Coisa impossvel nesta casa! -- disse minha av.
      -- Lynn -- disse meu pai --, esta casa est diferente da ltima vez em que
veio aqui. Vou pegar uma bebida para voc, mas peo a voc para respeitar
isso.
      -- Ainda lindo como sempre, Jack -- disse minha av.
      Minha me pegou o casaco da minha av. Holiday estava trancado no
quartinho do meu pai desde que Buckley tinha gritado de seu posto de
observao na janela de cima:
      --  a vov! -- Meu irmo se gabava para Nate e para qualquer outra
pessoa disposta a ouvir que sua av tinha os maiores carros do mundo todo.
      -- Voc est linda, me -- disse minha me.
      -- Huuuummm. -- Enquanto meu pai estava longe, minha av disse: --
Como ele est?
      -- Estamos todos aguentando, mas  difcil.
      -- Ele ainda est resmungando que foi aquele homem?
      -- Ele ainda acha isso, sim.
      -- Vocs vo ser processados, sabem -- disse ela.
      -- Ele no contou para ningum a no ser para a polcia.
      O que elas no podiam ver era que minha irm estava sentada acima
delas no ltimo degrau.
      -- E no deveria contar. Entendo que ele precise culpar algum, mas...
      -- Lynn, usque com soda ou martini? -- perguntou meu pai aparecendo
de novo no hall.
      -- O que voc vai tomar?
      -- Na verdade no estou bebendo ultimamente -- disse meu pai.
      --  esse o seu problema. Vou dar o exemplo. Ningum precisa me dizer
onde ficam as bebidas!
      Sem seu animal grosso e maravilhoso, minha av era magrrima.




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     -- Esfomeada -- era o que ela tinha dito ao me aconselhar quando eu
tinha 11 anos. -- Voc precisa ficar esfomeada, querida, antes de acumular
gordura por muito tempo. Gordura infantil  s mais um sinnimo de feiura.
-- Ela e minha me tinham brigado sobre eu ter ou no idade suficiente para
tomar benzedrina -- sua salvadora particular, dizia ela: "Estou oferecendo 
sua filha minha salvadora particular e voc est proibindo?"
     Quando eu era viva, tudo que minha av fazia era ruim. Mas naquele dia
uma coisa estranha aconteceu quando ela chegou em sua limusine alugada,
abriu nossa casa e entrou como um furaco. Com todos os seus ridculos
enfeites, ela estava trazendo a luz de volta.
     -- Voc precisa de ajuda, Abigail -- disse minha av depois de ter comido
a primeira refeio de verdade que minha me preparava desde o meu
desaparecimento. Minha me ficou pasmada. Tinha calado suas luvas azuis
de borracha, enchido a pia de gua com sabo, e estava se preparando para
lavar a loua toda. Lindsey secaria. Sua me, imaginava ela, chamaria Jack para
lhe servir um digestivo.
     -- Me, que gentil da sua parte.
     -- No  nada -- disse ela. -- Vou s correr at o hall e pegar minha
bolsa mgica.
     -- Ah, no -- ouvi minha me dizer entre os dentes.
     -- Ah, sim, a bolsa mgica -- disse Lindsey, que no tinha dito nada
durante toda a refeio.
     -- Me, por favor! -- protestou minha me quando vov Lynn voltou.
     -- Muito bem, crianas, limpem a mesa e tragam sua me aqui. Vou fazer
uma maquiagem.
     -- Me, isso  loucura. Tenho toda esta loua para lavar.
     -- Abigail -- disse meu pai.
     -- Ah, no. Ela pode fazer voc beber, mas no vai chegar perto de mim
com esses instrumentos de tortura.
     -- Eu no estou bbado -- disse ele.
     -- Voc est sorrindo -- disse minha me.
     -- Processe ele ento -- disse vov Lynn. -- Buckley, pegue sua me pela
mo e arraste ela at aqui. -- Meu irmo obedeceu. Era engraado ver sua
me receber ordens e ser obrigada.



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      -- Vov Lynn? -- perguntou Lindsey timidamente.
      Minha me estava sendo conduzida por Buckley at uma cadeira da
cozinha que minha av tinha virado na sua direo.
      -- O que ?
      -- Voc pode me ensinar a me maquiar?
      -- Meu Deus do cu, Deus seja louvado, posso! Minha me se sentou e
Buckley subiu em seu colo.
      -- Qual o problema, mame?
      -- Voc est rindo, Abbie? -- Meu pai sorriu.
      E ela estava. Estava rindo e estava chorando tambm.
      -- A Susie era uma boa menina, querida -- disse vov Lynn. -- Igual a
voc. -- No houve intervalo. -- Agora levante o queixo e deixe eu ver essas
bolsas debaixo dos seus olhos.
      Buckley desceu e foi para uma cadeira.
      -- Isso  um curvex, Lindsey -- explicou minha av. -- Eu ensinei tudo
isso  sua me.
      -- A Clarissa usa isso -- disse Lindsey.
      Minha av ajeitou as almofadas de borracha do curvex dos dois lados dos
clios da minha me, e minha me, conhecendo o ritual, olhou para cima.
      -- Voc falou com a Clarissa? -- perguntou meu pai.
      -- Na verdade no -- disse Lindsev. -- Ela est andando direto com o
Brian Nelson. Eles matam aula suficiente para pegar uma suspenso de trs
dias.
      -- No espero isso da Clarissa -- disse meu pai. -- Ela pode no ter sido
nenhuma santinha, mas nunca foi uma delinquente.
      -- Quando encontrei com ela, ela estava cheirando a maconha.
      -- Espero que voc no esteja entrando nessa -- disse vov Lynn. Ela
terminou o resto de seu usque com soda e bateu o copo longo na mesa. --
Ento, est vendo, Lindsey, est vendo como quando os clios esto curvados
isso aumenta os olhos da sua me?
      Lindsey tentou imaginar os prprios clios, mas em vez disso viu os clios
louros de Samuel Heckler enquanto seu rosto se aproximava do dela para um
beijo. Suas pupilas se dilataram, pulsando, diminuindo e aumentando como
pequenas e ferozes azeitonas.



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     -- Estou chocada -- disse vov Lynn, e ps as mos nas cadeiras, uma
das quais ainda presa no cabo torto do curvex.
     -- Que foi?
     -- Lindsey Salmon, voc est namorando -- anunciou minha av para
todos.
     Meu pai sorriu.
     De repente, ele estava gostando da vov Lynn. Eu tambm estava.
     -- Estou nada -- disse Lindsey.
     Minha av estava prestes a falar quando minha me sussurrou:
     -- Est sim.
     -- Que bom, querida -- disse minha av --, voc deveria ter um
namorado. Assim que eu terminar sua me vou dar aquele tratamento da vov
Lynn em voc. Jack, prepare um aperitivo para mim.
     -- Aperitivo se bebe... -- comeou minha me.
     -- No me corrija, Abigail.
     Minha av ficou de porre. Ela fez Lindsey ficar igual a uma palhaa ou,
como a prpria vov Lynn disse, uma "garota classe A". Meu pai ficou o que
ela chamou de "bem bebinho". A coisa mais incrvel foi que minha me foi
para a cama e deixou a loua suja na pia.


                                               12
     Quando o resto da casa estava dormindo, Lindsey ficou na frente do
espelho do banheiro, se olhando. Tirou um pouco do blush, secou os lbios e
correu os dedos pelas partes inchadas, recm-depiladas de suas outrora fartas
sobrancelhas. No espelho, viu algo diferente, e eu tambm vi: uma adulta
capaz de se cuidar sozinha. Debaixo da maquiagem estava o rosto que ela
sempre tinha conhecido como seu, at muito recentemente, quando tinha se
transformado no rosto que fazia as outras pessoas se lembrarem de mim. Com
lpis de olho e delineador, ela agora via, o contorno de seus olhos ficava mais
marcado, e eles pareciam duas joias incrustadas em seu rosto, importadas de
algum lugar distante onde as cores eram mais vivas do que as cores na nossa
casa jamais tinham sido. Era verdade o que dizia nossa av -- a maquiagem
ressaltava o azul de seus olhos. As sobrancelhas depiladas mudavam o




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formato de seu rosto. O blush realava as cavidades debaixo de suas mas do
rosto. ("Cavidades que poderiam ficar um pouco mais cncavas", comentou
nossa av.) E seus lbios -- ela ficou treinando expresses faciais. Fez
biquinho, beijou, deu um sorriso bem grande como se ela tambm tivesse um
coquetel, olhou para baixo e fingiu rezar como uma boa menina, mas levantou
um dos olhos para ver como ficava com cara de boazinha. Foi para a cama e
dormiu de costas para no estragar seu novo rosto.


                                               12
     A sra. Bethel Utemeyer foi a nica pessoa morta que minha irm e eu
jamais vimos. Ela se mudou com o filho para nossa rea de expanso quando
eu tinha 6 anos e Lindsey 5.
     Minha me disse que ela tinha perdido parte do crebro e algumas vezes
saa da casa do filho e no sabia onde estava. Muitas vezes ia parar no nosso
quintal da frente, em p debaixo do corniso olhando para a rua como se
esperasse um nibus. Minha me a sentava na cozinha e fazia ch para elas
duas, e depois de acalm-la telefonava para a casa de seu filho para avisar
onde ela estava. Algumas vezes no tinha ningum em casa e a sra. Utemeyer
ficava sentada diante da mesa da nossa cozinha olhando para o centro de
mesa durante horas. Quando chegvamos em casa do colgio, ela estava l.
Sorria para ns. Muitas vezes chamava Lindsey de "Natalie" e estendia a mo
para tocar seus cabelos.
     Quando ela morreu, seu filho incentivou minha me a levar Lindsey e eu
ao enterro.
     -- Minha me parece ter um carinho especial pelas suas filhas -- escreveu
ele.
     -- Ela nem sabia o meu nome, me -- reclamou Lindsey enquanto nossa
me abotoava os interminveis botes redondos da casaca dela. Outro
presente pouco prtico da vov Lynn, pensou minha me.
     -- Pelo menos ela chamava voc de alguma coisa -- disse eu.
     Era depois da Pscoa, e uma onda de calor de primavera tinha chegado
naquela semana. Toda a neve do inverno, com exceo da mais teimosa, tinha
sumido debaixo da terra, e no cemitrio da igreja dos Utemeyer havia neve




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presa  base das lpides enquanto, ali perto, botes-de-ouro comeavam a
brotar.
     A igreja dos Utemeyer era chique.
     -- Catlicos classe alta -- tinha dito meu pai no carro. Lindsey e eu
achamos isso muito engraado. Meu pai no queria ir, mas minha me estava
to grvida que no conseguia dirigir. Durante os ltimos meses de sua
gravidez de Bucklev ela no coube atrs do volante. Sentia-se to mal durante
a maior parte do tempo que evitvamos ficar perto dela por medo de sermos
reduzidas a escravas.
     Mas sua gravidez lhe permitia escapar daquilo de que Lindsey e eu no
conseguamos parar de falar durante semanas e com que fiquei sonhando
durante muito tempo depois: ver o corpo. Eu podia dizer a meu pai e  minha
me que no queria que isso acontecesse, mas o sr. Utemeyer abriu caminho
para ns duas na hora de passar pelo caixo.
     -- Qual de vocs duas se chama Natalie? -- perguntou ele. Ficamos
encarando seu rosto. Apontei para Lindsey.
     -- Queria que voc viesse se despedir -- disse ele. Tinha o cheiro de um
perfume mais doce do que o que minha me usava s vezes, e o ardor do
perfume no meu nariz e meu sentimento de ser excluda me deram vontade
de chorar. -- Voc pode vir tambm -- disse ele para mim, estendendo as
mos para podermos entrar na nave uma de cada lado dele.
     Aquilo no era a sra. Utemeyer. Era outra coisa. Mas tambm era a sra.
Utemeyer. Tentei manter meus olhos fixos nos anis de ouro brilhantes em
seus dedos.
     -- Me -- disse o sr. Utemeyer --, eu trouxe a menininha que voc chama
de Natalie.
     Tanto Lindsey quanto eu reconhecemos mais tarde que espervamos que
a sra. Utemeyer falasse e tnhamos decidido, individualmente, que se ela
falasse amos nos agarrar uma  outra e sair correndo.
     Mais um ou dois segundos cruciantes e estava terminado, e fomos
liberadas para voltar para junto de nossa me e de nosso pai.
     No fiquei muito surpresa quando vi a sra. Bethel Utemeyer pela primeira
vez no meu cu, nem fiquei chocada quando Holly e eu a vimos andando de




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mos dadas com uma menininha loura que ela apresentou como sua filha,
Natalie.

                                               12
     Na manh da minha homenagem, Lindsey ficou no quarto pelo mximo
de tempo possvel. No queria que minha me visse que ainda estava
maquiada at ser tarde demais para faz-la lavar o rosto. Ela tambm tinha
dito a si mesma que no teria problema pegar um vestido do meu armrio.
Que eu no ligaria.
     Mas foi esquisito ver aquilo.
     Ela abriu a porta do meu quarto, uma cmara morturia que em fevereiro
estava sendo cada vez mais perturbada, embora ningum, nem minha me,
nem meu pai, nem Buckley, nem Lindsey confessasse ter entrado l, nem ter
pegado coisas que no tinha a inteno de devolver. Qualquer perturbao,
mesmo que no fosse possvel pr a culpa em Holiday, era culpa dele.
     Lindsey queria ficar bonita para Samuel. Abriu as portas duplas do meu
armrio e olhou a baguna. Eu no era exatamente ordeira, ento todas as
vezes que minha me nos dizia para arrumar o quarto eu jogava o que quer
que estivesse no cho ou em cima da cama dentro do armrio.
     Lindsey sempre queria as roupas que eu ganhava quando ainda eram
novas, mas sempre ficava com elas de segunda mo.
     -- Nossa -- disse ela, sussurrando na penumbra do meu armrio. Com
culpa e deleite, percebeu que tudo o que via na sua frente era agora dela.
     -- Oi? Toc toc -- disse vov Lynn.
     Lindsey deu um pulo.
     -- Desculpe incomodar voc, querida -- disse ela. -- Pensei que tinha
ouvido voc aqui.
     Minha av estava vestindo o que minha me chamava de um de seus
vestidos Jackie Kennedy. Ela nunca tinha entendido por que, ao contrrio de
todas ns, sua me no tinha quadril -- era capaz de caber dentro de um
vestido de corte reto e preench-lo exatamente o suficiente, mesmo aos 62
anos, para que ficasse perfeito.
     -- O que voc est fazendo aqui? -- perguntou Lindsey.




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     -- Preciso de ajuda com esse zper. -- Vov Lynn se virou, e Lindsey rode
ver o que nunca tinha visto em nossa me. A parte de trs do suti preto da
vov Lynn, o cs de sua angua. Deu um ou dois passos que a separavam de
nossa av e, tentando no tocar em nada exceto no gancho do zper, fechou o
vestido.
     -- E esse colchete a em cima? -- disse vov Lynn. -- Pode fechar para
mim?
     Havia um cheiro de talco e Chanel n5 espalhado por todo o pescoo de
nossa av.
     --  um dos motivos para se ter um homem --  impossvel fazer essas
coisas sozinha.
     Lindsey era da altura da nossa av e ainda estava crescendo. Enquanto
pegava uma metade do colchete em cada mo, viu os tnues fios de cabelos
louros na base do crnio da nossa av. Viu a penugem cinza que descia por
suas costas e pescoo. Prendeu o vestido e depois ficou ali parada.
     -- Esqueci como ela era -- disse Lindsey.
     -- O qu? -- Vov Lynn se virou.
     -- No consigo me lembrar -- disse Lindsey. -- Quero dizer, o pescoo
dela, sabe, ser que algum dia eu olhei para ele?
     -- Ah, querida -- disse vov Lynn --, venha c. -- Ela abriu os braos,
mas Lindsey se virou para dentro do armrio.
     -- Preciso ficar bonita -- disse ela.
     -- Voc  bonita -- disse vov Lynn.
     Lindsey ficou sem flego. Uma coisa que vov Lynn nunca fazia era
distribuir elogios. Quando eles vinham, eram uma preciosidade inesperada.
     -- Vamos encontrar uma bela roupa para voc aqui -- disse vov Lynn
andando em direo s minhas roupas. Ningum era capaz de escolher uma
roupa como vov Lynn. Nas raras vezes em que ela nos visitava perto do
comeo das aulas,levava ns duas para fazer compras. Ficvamos maravilhadas
vendo seus dedos geis tocarem cabides como se fossem as teclas de um
piano. De repente, hesitando s por um segundo, ela separava um vestido ou
uma blusa e o levantava para vermos.
     -- O que acham? -- perguntava ela. Era sempre perfeito.




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     Enquanto ela olhava minhas saias, blusas, calas e casacos, tirando-os do
armrio e colocando-os na frente do trax da minha irm, ela falava:
     -- Sua me est pssima, Lindsey. Nunca a vi assim antes.
     -- Vov.
     -- Quieta, estou pensando. -- Ela levantou meu vestido de domingo r
referido. Era de l quadriculada escura e tinha uma gola Peter Pan. Eu gostava
dele principalmente porque a saia era to ampla que eu podia me sentar no
banco da igreja de pernas cruzadas e fazer a barra ir at o cho.
     -- Mas onde ela comprou este saco? -- perguntou minha av. -- Seu pai
tambm est pssimo, mas est com raiva.
     -- Quem era aquele homem sobre quem voc perguntou para a mame?
     Ela retesou o corpo ao ouvir a pergunta.
     -- Que homem?
     -- Voc perguntou para a mame se o papai ainda estava dizendo que
tinha sido aquele homem. Que homem:
     -- Pronto! -- Vov Lynn suspendeu um vestido curto azul-escuro que
minha irm nunca tinha visto. Era da Clarissa.
     -- E to curto -- disse Lindsey.
     -- Estou chocada com sua me -- disse vov Lynn. -- Ela deixou a
menina comprar uma roupa da moda!
     Meu pai gritou do hall de entrada que esperava todo mundo l embaixo
em dez minutos.
     Vov Lynn entrou em ritmo de preparativos. Ajudou Lindsey a passar o
vestido azul-escuro por cima da cabea, depois as duas voltaram correndo
para o quarto de Lindsey para buscar sapatos,e depois,finalmente,no corredor,
debaixo da luz de teto, ela consertou o delineador e o rimei borrados no rosto
da minha irm. Deu o toque final com p compacto, passando o disco de
algodo de leve de baixo para cima dos dois lados do rosto de Lindsey. Foi s
quando minha av desceu as escadas e minha me comentou sobre o
comprimento do vestido de Lindsey enquanto olhava com desconfiana para
minha av que minha irm e eu percebemos que vov Lynn no tinha um
pingo de maquiagem no rosto. Buckley viajou entre elas duas no banco de trs
e, quando se aproximavam da igreja, olhou para vov Lynn e perguntou o que
ela estava fazendo.



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    -- Quando no d tempo de passar ruge, isso pe um pouco de vida
nelas -- disse ela, ento Buckley a imitou e beliscou as prprias bochechas.


                                               12
     Samuel Heckler estava em p junto aos postes de luz de pedra que
margeavam o caminho at a porta da igreja. Vestia preto, e ao seu lado seu
irmo mais velho, Hal, usava o casaco de couro surrado que Samuel tinha
usado no dia de Natal.
     O irmo de Samuel parecia uma cpia mais escura dele. Estava queimado
de sol, e seu rosto estava marcado de tanto andar de motocicleta a toda
velocidade por estradas rurais. Quando minha famlia se aproximou, Hal se
virou depressa e se afastou.
     -- Este deve ser o Samuel -- disse minha av. -- Eu sou a av m.
     -- Vamos entrar? -- disse meu pai. -- Que bom ver voc, Samuel.
     Lindsey e Samuel foram na frente, enquanto minha av ficava para trs e
se punha do outro lado da minha me. Uma frente unida.
     O inspetor Fenerman estava em p perto da porta usando um terno que
parecia ser do tipo que pinica. Acenou com a cabea para meu pai e pareceu
demorar os olhos na minha me.
     -- Quer entrar conosco? -- perguntou meu pai.
     -- Obrigado -- disse ele --, mas s quero ficar por perto.
     -- Ns agradecemos.
     Eles entraram no vestbulo lotado da nossa igreja. Eu queria subir pelas
costas do meu pai, abraar seu pescoo, sussurrar em seu ouvido, mas eu j
estava ali em todos os poros e frestas.
     Ele tinha acordado de ressaca e virado de lado para olhar a respirao
curta da minha me no travesseiro. Sua linda mulher, sua linda menina. Queria
pr a mo na bochecha dela, tirar o cabelo da frente de seu rosto, beij-la --
mas dormindo ela estava em paz. No tinha havido um dia desde a minha
morte em que chegar ao fim do dia no tivesse sido um tormento. Mas a
verdade era que o dia da homenagem no foi dos piores. Pelo menos era
honesto. Pelo menos era um dia organizado em torno daquilo que tanto os
preocupava: a minha ausncia. Hoje ele no precisaria fingir que estava




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voltando ao normal -- o que quer que fosse normal. Hoje podia andar com a
tristeza estampada no rosto, e Abigail tambm. Mas ele sabia que assim que
acordasse no olharia direito para ela pelo resto do dia, no olharia realmente
para dentro dela e veria a mulher que tinha conhecido antes do dia em que
receberam a notcia da minha morte. Quase dois meses depois, a ideia daquilo
como uma notcia estava se dispersando nos coraes de todos com exceo
da minha famlia -- e de Ruth.
      Ela foi com o pai. Estavam em p no canto perto do armrio de vidro que
guardava um clice usado durante a Guerra Revolucionria, quando a igreja
tinha sido um hospital. O sr. e a sra. Dewitt estavam conversando com eles. Em
casa, na sua escrivaninha, a sra. Dewitt tinha um poema de Ruth. Na segunda-
feira ia mostrar o poema ao orientador educacional. Era um poema sobre mim.
      -- Parece que minha mulher concorda com o diretor Caden -- dizia o cai
de Ruth --, que a homenagem vai ajudar a fazer as crianas aceitarem.
      -- O que o senhor achar -- perguntou o sr. Dewitt.
      -- Acho que para a frente  que se anda e que temos de deixar a famlia
em paz. Mas a Ruthie queria vir.
      Ruth viu minha famlia cumprimentando pessoas e reparou com horror no
novo visual da minha irm. Ruth no acreditava em maquiagem. Achava que
aquilo diminua as mulheres. Samuel Heckler segurava a mo de Lindsey. Uma
palavra de suas leituras surgiu em sua mente: subjugao. Mas ento eu a vi
reparar em Hal Heckler do outro lado da janela. Ele estava em p perto dos
tmulos mais antigos da frente e fumava uma guimba de cigarro.
      -- Ruthie -- perguntou seu pai --, o que ? Ela se espantou e olhou para
ele.
      -- O que  o qu?
      -- Voc estava olhando para o vazio um segundo atrs -- disse ele.
      -- Gosto de olhar tmulos.
      -- Ah, menina, voc  meu anjo -- disse ele. -- Vamos pegar um lugar
antes de todos os bons ficarem ocupados.
      Clarissa estava l, com um Brian Nelson com cara de envergonhado
vestindo um terno do pai. Ela se aproximou da minha famlia, e quando o
diretor Caden e o sr. Botte a viram afastaram-se e a deixaram chegar perto.
      Ela apertou a mo do meu pai primeiro.



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     -- Oi, Clarissa -- disse ele. -- Tudo bem?
     -- Tudo -- disse ela. -- Tudo bem com o senhor e com a sra. Salmon?
     -- Estamos bem, Clarissa -- disse ele. Que mentira estranha, pensei. --
Quer sentar conosco no banco da famlia?
     -- Ahn -- ela baixou os olhos para as mos --, estou com meu
namorado.
     Minha me tinha entrado em uma espcie de transe e estava encarando o
rosto de Clarissa. Clarissa estava viva e eu estava morta. Clarissa comeou a
sentir aquilo, aqueles olhos a perfur-la, e sentiu vontade de sair dali. Ento
Clarissa viu o vestido.
     -- Ei -- disse ela, estendendo o brao para minha irm.
     -- O que foi, Clarissa? -- interrompeu minha me.
     -- Ahn, nada -- disse ela. Tornou a olhar para o vestido, sabendo que
nunca mais poderia pedi-lo de volta.
     -- Abigail? -- disse meu pai. Ele estava atento  sua voz,  sua raiva.
Alguma coisa estava acontecendo.
     Vov Lynn, que estava bem atrs da minha me, piscou para Clarissa.
     -- Eu s estava reparando em como a Lindsey est bonita -- disse
Clarissa.
     Minha irm corou.
     As pessoas no vestbulo comearam a se mexer e a se separar. Era o
reverendo Strick, andando em direo a meus pais com suas vestes.
     Clarissa se afastou para procurar Brian Nelson. Quando o encontrou,
juntou-se a ele entre os tmulos.


                                               12
     Ray Singh ficou de fora. Despediu-se de mim do seu prprio jeito:
olhando uma foto -- meu retrato feito em estdio -- que eu tinha dado para
ele naquele outono.
     Olhou nos olhos daquela foto e viu atravs deles o fundo de camura
marmorizada na frente do qual todas as crianas tinham de sentar, debaixo de
uma luz quente. O que significava morta? -- perguntou Ray a si mesmo.
Significava perdida, significava congelada, significava desaparecida. Ele sabia




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que ningum era exatamente do jeito que aparecia nas fotos. Sabia que ele
prprio no era to selvagem nem to assustado quanto aparecia nas suas.
Deu-se conta de uma coisa enquanto fitava minha foto -- que aquela no era
eu. Eu estava no ar  sua volta, estava nas manhs frias que ele agora passava
com Ruth, estava nos momentos silenciosos que passava sozinho no intervalo
dos estudos. Eu era a menina que ele tinha escolhido beijar. Ele queria, de
alguma maneira, me libertar. No queria queimar minha foto nem jog-la fora,
mas tambm no queria mais olhar para mim.
     Fiquei olhando para ele enquanto ele punha foto dentro de um dos
imensos livros de poesia indiana dentro dos quais ele e a me tinham
imprensado dzias de frgeis flores que iam lentamente se transformando em
p. Na homenagem, disseram coisas legais a meu respeito. O reverendo Strick.
O diretor Caden. A sra. Dewitt. Mas meu pai e minha me passaram a
cerimnia toda anestesiados. Samuel ficava apertando a mo de Lindsev, mas
ela no parecia perceber sua presena. Mal piscava os olhos. Buckley estava
sentado vestindo um pequeno terno emprestado para a cerimnia por Nate,
que havia tido um casamento naquele ano. Ele se agitava e olhava meu pai. Foi
vov Lynn quem fez a coisa mais importante daquele dia.
     Durante o ltimo hino, enquanto minha famlia se punha de p, ela se
inclinou para Lindsey e sussurrou:
     -- Perto da porta,  ele.
     Lindsey olhou.
     De p logo atrs de Len Fenerman, que agora estava do lado de dentre da
porta cantando junto com todo mundo, estava um homem do bairro Ele
estava vestido mais casualmente do que qualquer outra pessoa, usando calas
caqui debruadas de flanela e uma pesada camisa tambm de flanela. Durante
um segundo, Lindsey pensou reconhec-lo. Seus olhos se cruzaram. Ento ela
desmaiou.
     Com toda a confuso gerada para socorr-la, George Harvey se esgueirou
entre as lpides da Guerra Revolucionria atrs da igreja e se afastou sem ser
notado.




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                                       Captulo 10




 T
              odo ano, no Simpsio de Talentos estadual, os bons alunos da
              sexta  oitava srie se reuniam em um retiro de quatro semanas
              para, como sempre achei, passear entre as rvores e ficar
fazendo perguntas uns para os outros. Em volta da fogueira, cantavam
oratrios em vez de canes populares. No chuveiro das meninas, elas
desfaleciam pensando no fsico de Jacques d'Amboise ou no lbulo frontal de
John Kenneth Galbraith.
     Mas at os bons alunos tinham seus grupinhos. Eram os CDFs de Cincias
e os Cabees de Matemtica. Eles formavam o degrau superior, o mais alto,
embora um pouco deficiente socialmente, da escada dos bons alunos. Em
seguida vinham os Cabees de Histria, que conheciam a data de nascimento
e morte de todos os personagens histricos de que qualquer um jamais tinha
ouvido falar. Eles passavam pelos outros alunos do acampamento gritando
datas enigmticas, aparentemente insignificantes: "1769 a 1821", "1770 a
1831". Quando Lindsey passava pelos Cabees de Histria, pensava as
respostas consigo mesma. "Napoleo." "Hegel."
     Tinha tambm os Mestres do Saber Misterioso. Todo mundo reclamava
da presena deles entre os bons alunos. Esses eram os alunos capazes de
Quebrar um aparelho e constru-lo de novo -- sem precisar de diagramas nem
instrues. Eles entendiam as coisas de um modo real, no-terico. Pareciam
no se importar com suas notas.
     Samuel era um Mestre. Seus heris eram Richard Feynman e o irmo, Hal.
Hal tinha abandonado o colgio e agora dirigia a oficina de motocicletas perto
do sumidouro, onde atendia a todo mundo, dos Hell's Angels aos idosos que
dirigiam lambretas motorizadas pelos estacionamentos de seus asilos. Hal
fumava,morava em cima da garagem dos Heckler e vivia uma srie de histrias
de amor nos fundos de sua oficina.




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     Quando as pessoas perguntavam a Hal quando ele ia crescer, ele dizia:
     -- Nunca. -- Inspirado por isso, quando os professores perguntavam a
Samuel o que ele queria ser, ele dizia:
     -- No sei. Acabei de fazer 14 anos.
     Com quase 15 anos agora, Ruth Connors sabia. Na casinha de ferramentas
de alumnio atrs de sua casa, cercada pelas maanetas e aparelhos que seu
pai tinha encontrado em velhas casas listadas para demolio, Ruth ficava
sentada no escuro e se concentrava at sair de l com dor de cabea. Corria
para casa, passava pela sala de estar onde seu pai estava sentado lendo, e
subia para o quarto, onde aos trancos escrevia seus poemas. "Ser Susie",
"Depois da morte", "Em pedaos", "Ao lado dela agora", e seu preferido --
aquele de que ela mais sentia orgulho e que levou consigo para o simpsio,
dobrado e redobrado tantas vezes que as dobras pareciam cortes -- "A borda
do tmulo".
     Ruth teve de ser levada at o simpsio de carro porque naquela manh,
quando o nibus estava saindo, ainda estava em casa com uma crise aguda de
gastrite. Estava tentando fazer regimes esquisitos s com legumes e na noite
anterior tinha comido um repolho inteiro no jantar. Sua me se recusava a
respeitar o vegetarianismo que Ruth tinha passado a adotar depois da minha
morte.
     -- Isso no  a Susie, pelo amor de Deus! -- dizia sua me jogando um
bife de dois centmetros de altura na frente da filha.
     Seu pai a levou primeiro ao hospital s trs da manh e depois para o
simpsio, parando em casa no meio do caminho para pegar a mala que sua
me tinha feito e deixado no final do caminho que levava  garagem.
     Enquanto o carro entrava no acampamento, Ruth percorria com os olhos
a multido de alunos enfileirados para receber crachs. Viu minha irm no
meio de um grupo de Mestres s de meninos. Lindsey tinha evitado pr seu
sobrenome no crach, decidindo em vez disso desenhar um peixe. Assim no
estava exatamente mentindo, mas esperava encontrar alguns alunos de
colgios prximos que no conhecessem a histria da minha morte ou que
pelo menos no fossem lig-la ao fato.
     Durante toda a primavera, ela tinha usado o pingente com metade do
rao partido enquanto Samuel usava a outra metade. Eles eram tmidos em



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relao a seu afeto um pelo outro. No andavam de mos dadas pelo corredor
do colgio e no trocavam bilhetes. Almoavam juntos; Samuel a levava em
casa. No dia do seu aniversrio de 14 anos, ele lhe levou um bolinho com uma
vela em cima. Fora isso, diluam-se no mundo dividido por gnero de seus
pares.

                                               12
     Na manh seguinte, Ruth acordou cedo. Como Lindsey, Ruth era uma
estranha no ninho no acampamento dos bons alunos. Ela no pertencia a
nenhum dos grupos. Tinha feito uma excurso pelo mato e recolhido plantas e
animais que precisava ajudar a identificar. Quando no gostou das respostas
fornecidas por um dos CDFs de Cincias, resolveu comear a batizar as plantas
e flores sozinha. Fazia um desenho da folha ou do boto em sua agenda,
depois escrevia de que sexo pensava que fosse, e depois lhe dava um nome
como Jim" para uma planta de folha simples e "Pasha" para uma flor mais
peluda.
     Quando Lindsey entrou tropeando no refeitrio para jantar, Ruth estava
na fila para uma segunda poro de ovos com salsicha. Tinha inventado toda
uma histria de no comer carne em casa e precisava respeit-la, mas ali no
simpsio ningum sabia do juramento que tinha feito.
     Ruth no falava com minha irm desde antes de eu morrer,e quando falou
foi s para se desculpar no corredor do colgio.Mas via Lindsey voltando para
casa com Samuel, e a via sorrir com ele. Ficou olhando minha irm dizer sim
para as panquecas e no para todo o resto. Tentava imaginar a si prpria
sendo minha irm como tinha imaginado ser eu.
     Quando Lindsey caminhava s cegas para o ltimo lugar da fila, Ruth
intercedeu:
     -- Para que  o peixe? -- perguntou Ruth, balanando a cabea em
direo ao crach da minha irm. -- Voc  religiosa?
     -- Presta ateno na direo do peixe -- disse Lindsey, desejando
simultaneamente que servissem pudim de baunilha no caf da manh.
Combinariam perfeitamente com suas panquecas.
     -- Ruth Connors, poeta -- disse Ruth apresentando-se.
     -- Lindsey -- disse Lindsey.



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    -- Salmon, n?
    -- Por favor, no -- disse Lindsey, e por um segundo Ruth pde
experimentar a sensao de forma um pouco mais vivida -- a sensao de
passar por mim. Como as pessoas olhavam para Lindsey e imaginavam uma
menina coberta de sangue.


                                               12
     Mesmo entre os bons alunos, que se distinguiam por fazerem as coisas de
modo diferente, as pessoas se juntavam em pares durante os primeiros dias.
Geralmente eram pares de meninos ou pares de meninas -- aos 14 anos
poucos relacionamentos srios tinham se formado -- mas naquele ano houve
uma exceo. Lindsey e Samuel.
     "B-E-I-J-A-R!" piscava para eles onde quer que fossem. Sem ningum para
vigi-los, e com o calor do vero, algo brotou dentro deles como ervas
daninhas. Era teso. Eu nunca tinha sentido aquilo em um estado to puro
nem visto sua progresso to avassaladora em algum que eu conhecia.
Algum com quem eu compartilhava a mesma carga gentica.
     Eles tomavam cuidado e seguiam as regras. Nenhum orientador poderia
dizer que tinha mirado sua lanterna embaixo dos arbustos mais densos perto
do dormitrio dos meninos e encontrado Salmon e Heckler em pleno ato. Eles
marcavam pequenos encontros do lado de fora, atrs da lanchonete ou perto
de determinada rvore que tinham marcado bem no alto com suas iniciais.
Beijavam-se. Queriam ir mais longe, mas no conseguiam. Samuel queria que
fosse uma ocasio especial. Tinha conscincia de que deveria ser perfeito.
Lindsey s queria acabar com aquilo. Deixar aquilo para trs para poder entrar
na idade adulta -- transcender o espao c o tempo. Pensava em sexo como no
transporte de Jornada nas estrelas. Voc evaporava e se via navegando em
outro planeta depois de um ou dois segundos necessrios para retomar o
curso.
     ''Eles vo transar", escreveu Ruth em seu dirio. Eu tinha grandes
esperanas em relao ao fato de Ruth escrever tudo. Ela contou ao seu dirio
sobre o dia em que passei por ela no estacionamento, sobre como eu a Tinha
tocado naquela noite -- literalmente estendido a mo, foi a sensao que ela
teve. Sobre a aparncia que eu tinha naquela hora. Sobre como ela sonhava



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comigo. Sobre como acalentava a idia de que um esprito podia lar uma
espcie de segunda pele para algum, uma camada protetora, de certo modo.
Sobre como talvez, se fosse assdua, pudesse libertar ns duas. Eu lia por cima
de seu ombro enquanto ela escrevia seus pensamentos e me perguntava se
um dia algum acreditaria nela.
     Quando ela estava me imaginando, sentia-se melhor, menos sozinha,
mais conectada a alguma coisa l fora. A algum l fora. Em seus sonhos via o
milharal, e um mundo novo se abrindo, um mundo onde talvez ela tambm
pudesse encontrar cho.
     "Voc  uma tima poetisa, Ruth", ela me imaginava dizendo, e seu dirio
a fazia sonhar acordada em ser uma poetisa to boa que suas palavras
tivessem o poder de me ressuscitar.
     Eu podia olhar para trs e ver uma tarde em que Ruth tinha visto sua
prima adolescente se despir para tomar banho enquanto ela ficava sentada no
tapete, trancada no banheiro para sua prima poder tomar conta dela como a
tinham mandado fazer. Ruth tinha tido vontade de tocar a pele e os cabelos
da prima, vontade de ser abraada. Eu me perguntava se esse desejo de uma
menina de 3 anos tinha provocado o que veio aos 8 anos.
     Aquela sensao difusa de diferena, de que suas paixes por professora
ou pela prima eram mais verdadeiras do que as paixes das outras meninas As
dela continham um desejo que ia alm do carinho e da ateno, alimentavam
uma nsia, comeavam a florescer verdes e amarelas at se transformar em
um teso cor de aafro, com as ptalas macias se abrindo para sua estranha
adolescncia. No, escrevia ela no dirio, que quisesse transar com mulheres,
mas queria desaparecer dentro delas para sempre queria se esconder.


                                               12
     A ltima semana do simpsio era sempre passada na preparao de um
projeto final, que os diversos colgios apresentavam em uma competio na
ltima noite antes de os pais voltarem para pegar os alunos. A competio s
era anunciada no caf da manh de sbado daquela ltima semana, mas de
qualquer maneira os alunos j tinham comeado a se preparar para ela. Era
sempre uma competio pela melhor ratoeira, ento os padres ficavam mais




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altos a cada ano. Ningum queria repetir uma ratoeira que j tivesse sido
construda.
     Samuel foi procurar os alunos de aparelho. Precisava dos pequenos
elsticos que os dentistas distribuam. Eles ajudariam a manter a tenso do
brao de sua ratoeira. Lindsey implorou por um pouco de papel alumnio
limpo ao cozinheiro aposentado do exrcito. Sua ratoeira consistia em refletir
a luz para confundir os camundongos.
     -- E se eles gostarem do prprio reflexo? -- perguntou Lindsey a Samuel.
     -- Eles no veem com tanta nitidez -- disse Samuel. Ele estava
arrancando o papel dos prendedores de arame do estoque de sacos de lixo do
acampamento. Se um aluno olhasse de modo estranho para objetos comuns
do acampamento, era muito provvel que estivesse pensando em como aquilo
poderia servir para o ltimo grito em matria de ratoeira.
     -- So bem fofinhos -- disse Lindsey certa tarde.
     Lindsey tinha passado a maior parte da noite anterior capturando
camundongos selvagens com iscas de barbante e colocando-os debaixo da
tela de arame de uma antiga gaiola de coelhos.
     Samuel olhou para eles com ateno.
     -- Eu acho que poderia ser veterinrio -- disse ele --, mas no acho que
gostaria de abrir a barriga deles.
     -- A gente precisa matar os bichinhos? -- perguntou Lindsey. --  uma
competio pela melhor ratoeira, no pelo melhor campo de concentrao
para camundongos.
     -- O Artie est contribuindo com caixezinhos feitos de madeira balsa --
disse Samuel rindo.
     -- Que horror.
     -- O Artie  assim mesmo.
     -- Dizem que ele era a fim da Susie -- disse Lindsey.
     -- Eu sei.
     -- Ele fala nela? -- Lindsey pegou um graveto comprido e fino e o passou
pela tela.
     -- Na verdade, ele perguntou sobre voc -- disse Samuel.
     -- O que voc respondeu?
     -- Que voc est bem, que vai ficar bem.



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     Os camundongos ficavam correndo do graveto para o canto da gaiola,
onde se aglomeravam uns por cima dos outros em um esforo intil para
fugir.
     -- Vamos construir uma ratoeira com um sofazinho de veludo roxo
dentro, e a gente pode armar um mecanismo para quando eles se sentarem
no sof uma porta abaixar e bolinhas de queijo comearem a cair. A gente
pode chamar essa ratoeira de Reino do Roedor Selvagem.
     Samuel no pressionava minha irm como os adultos. Em vez disso,
discorria com detalhes sobre o pano para forrar sof de camundongo.
     Naquele vero eu tinha comeado a passar menos tempo olhando do
mirante porque ainda podia ver a Terra quando andava pelos campos do cu.
A noite chegava e os lanadores de dardos e pesos iam embora para outros
cus. Cus onde uma menina como eu no tinha lugar. Ser que eles eram
horrveis, esses outros cus? Piores do que me sentir to sozinha entre meus
semelhantes vivos, que continuavam a crescer? Ou seriam eles aquilo com que
eu sonhava? Lugares nos quais se podia ficar preso para sempre em um
mundo de Norman Rockwell. Com peru sendo servido constantemente em
uma mesa cheia de parentes. Um parente piscando o olho com malcia e
cortando a ave.
     Quando eu ia longe demais e pensava com fora suficiente a paisagem
mudava. Eu podia olhar para baixo e ver milho para cavalos e ento podia
ouvir -- um canto -- uma espcie de murmrio e gemido baixo me avisando
l da ponta. Minha cabea latejava e o cu escurecia e era aquela noite de
novo, aquele ontem eterno revivido. Minha alma se solidificando, ficando
pesada. Cheguei muitas vezes  borda do meu tmulo desse jeito, mas ainda
no tinha olhado l dentro.
      verdade que comecei a me perguntar o que significava a palavra cu.
Pensei, se aqui fosse o cu, o cu de verdade, seria onde meus avs morariam.
Onde o pai do meu pai, meu preferido deles todos, me pegaria no colo e
danaria comigo. Eu sentiria apenas alegria e no teria nem memria, nem
milharal, nem tmulo.
     -- Voc pode ter isso -- me disse Franny. -- Muita gente tem.
     -- Como se faz a transio? -- perguntei.




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     -- No  to fcil quanto se pensa -- disse ela. -- Voc precisa parar de
desejar determinadas respostas.
     -- No estou entendendo.
     -- Se parar de perguntar por que voc foi morta em vez de outra pessoa,
se parar de investigar o vcuo deixado por sua morte, se parar de se perguntar
o que todo mundo l na Terra est sentindo -- disse ela -- pode ficar livre. Em
poucas palavras, voc tem de desistir da Terra.
     Isso me parecia impossvel.
     Ruth se esgueirou para o dormitrio de Lindsey naquela noite.
     -- Eu sonhei com ela -- sussurrou ela para minha irm. Lindsey piscou
para ela, sonolenta.
     -- Com a Susie? -- perguntou.
     -- Desculpa pelo incidente do refeitrio -- disse Ruth.
     Lindsey estava na cama de baixo de um beliche de alumnio de trs
andares. A vizinha imediatamente acima dela se mexeu.
     -- Posso deitar a com voc? -- perguntou Ruth.
     Lindsey assentiu.
     Ruth se ajeitou ao lado de Lindsey na faixa estreita da cama.
     -- O que acontecia no seu sonho? -- sussurrou Lindsey.
     Ruth lhe contou, virando o rosto de modo que os olhos de Lindsey
podiam distinguir a silhueta do nariz, dos lbios e da testa de Ruth.
     -- Eu estava dentro da terra -- disse Ruth -- e a Susie passou por cima de
mim no milharal. Eu podia sentir ela passando por cima de mim. Chamei ela,
mas a minha boca se encheu de terra. Ela no conseguia me ouvir por mais
que eu tentasse gritar. A eu acordei.
     -- Eu no sonho com ela -- disse Lindsey. -- Tenho pesadelos com
ratazanas mordiscando as pontas do meu cabelo.
     Ruth gostava do reconforto que sentia ao lado da minha irm -- do calor
que seus corpos criavam.
     -- Voc est apaixonada pelo Samuel?
     -- Estou.
     -- Voc sente saudade da Susie?
     Como estava escuro, como Ruth estava olhando para o outro lado, como
Ruth era quase uma desconhecida, Lindsey disse o que sentia.



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    -- Mais do que qualquer um jamais vai saber.


                                               12
     O diretor do ginsio de Devon teve de ir embora do acampamento por
posa de um assunto de famlia, e coube  recm-eleita diretora-assistente do
colgio de Chester Springs criar, de um dia para o outro, o concurso daquele
ano. Ela queria fazer alguma coisa diferente de ratoeiras.
      POSSVEL COMETER UM CRIME E FICAR IMPUNE? COMO COMETER O
ASSASSINATO PERFEITO, anunciava sua filipeta feita s pressas.
     Os alunos adoraram. Os msicos e os poetas, os Cabees de Histria e
artistas formigavam, eufricos para comear. Engoliram as pressas seu bacon
com ovos do caf da manh e ficaram comparando os grandes crimes no-
solucionados do passado ou pensando em objetos de uso cotidiano que
podiam usar para matar. Estava tudo muito engraado at as 7h15, quando
minha irm entrou.
     Artie a viu entrar na fila. Ela ainda no sabia de nada, estava s sentindo a
animao no ar -- imaginando que a competio de ratoeiras tinha
comeado.
     Ele manteve os olhos fixos em Lindsey e viu que a filipeta mais prxima
estava pregada no final da fila do self-service, perto da bandeja de talheres. Ele
escutava uma histria sobre Jack, o Estripador que algum da mesa estava
contando. Levantou-se para devolver sua bandeja.
     Quando chegou perto da minha irm, limpou a garganta. Todas as minhas
esperanas estavam depositadas naquele menino trmulo. "Segure ela", disse
eu. Uma prece descendo para a Terra.
     -- Lindsey -- disse Artie. Lindsey olhou para ele.
     -- O qu?
     Atrs do balco, o cozinheiro do exrcito estendeu uma colher cheia de
ovos mexidos para pr na bandeja dela.
     -- Eu sou o Artie, da srie da sua irm.
     -- Eu no preciso de nenhum caixo -- disse Lindsey, empurrando a
bandeja pelo suporte de metal at onde estavam o suco de laranja e o suco de
ma em grandes jarras de plstico.




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      -- O qu?
      -- O Samuel me disse que voc estava construindo caixes de madeira
lisa para os camundongos este ano. No quero nenhum.
      -- Eles mudaram a competio -- disse ele.
      Naquela manh, Lindsey tinha decidido que ia tirar a parte de baixo do
estilo da Clarissa. Seria perfeito para o sof do camundongo.
      -- Mudaram para o qu?
      -- Quer ir l fora? -- Artie usou o prprio corpo para ficar na frente dela e
impedir seu acesso aos talheres. -- Lindsey -- ele deixou escapar. -- A
competio  sobre assassinato.
      Ela ficou olhando para ele.
      Lindsey continuou segurando sua bandeja. Manteve os olhos grudados
em Artie.
      -- Eu queria lhe falar antes de voc ler a filipeta -- disse ele. Samuel
entrou correndo na tenda.
      -- O que est acontecendo? -- Lindsey olhou para Samuel, sem ao.
      -- A competio deste ano  sobre como cometer o assassinato perfeito
-- disse Samuel.
      Samuel e eu vimos o tremor. O tranco interno no corao dela. Ela estava
ficando to boa que as rachaduras e fissuras eram cada vez menores. Logo,
como um truque manual aperfeioado com o tempo, ningum a veria fazer
aquilo. Ela podia isolar o mundo inteiro, incluindo ela prpria.
      -- Eu estou bem -- disse ela.
      Mas Samuel sabia que no estava.
      Ele e Artie ficaram olhando para suas costas enquanto ela se afastava.
      -- Eu estava tentando avis-la -- disse Artie debilmente.
      Artie voltou para sua mesa. Desenhou agulhas hipodrmicas, uma atrs
da outra. Sua caneta apertava com cada vez mais fora enquanto ele coloria o
fluido de embalsamar l dentro, enquanto retocava a trajetria das trs gotas
pingando. Sozinho, pensei, na Terra como no cu.
      -- Voc mata algum esfaqueando e cortando e atirando -- disse Ruth --
 nojento.
      -- Concordo -- disse Artie.




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     Samuel tinha levado minha irm embora para conversar. Artie tinha visto
Ruth em uma das mesas de piquenique do lado de fora com seu grande
caderno em branco.
     -- Mas existem motivos bons para matar -- disse Ruth.
     -- Quem voc acha que foi? -- perguntou Artie. Ele estava sentado no
banco e apoiou os ps no travesso debaixo da mesa.
     Ruth estava sentada quase imvel, com a perna direita cruzada por cima
da esquerda, mas seu p balanava sem parar.
     -- Como voc ficou sabendo? -- perguntou ela.
     -- Meu pai contou para a gente -- disse Artie. -- Ele chamou minha irm
e eu na sala de estar e mandou a gente se sentar.
     -- Merda, o que foi que ele falou?
     -- Primeiro ele disse que no mundo aconteciam coisas horrveis e minha
irm disse: "Vietn", e ele ficou calado porque eles sempre brigam por causa
disso todas as vezes em que algum menciona esse assunto. A ele disse:
"No, querida, coisas horrveis acontecem perto de casa, com pessoas que a
gente conhece." Ela pensou que fosse uma das amigas dela.
     Ruth sentiu uma gota de chuva.
     -- A meu pai no aguentou e disse que uma menininha tinha sido morta.
Fui eu quem perguntou quem tinha sido. Quero dizer, quando ele disse
"menininha", pensei que fosse uma criana, entendeu. No a gente.
     Era uma gota de verdade, e elas comearam a aterrissar no tampo de
sequoia.
     -- Voc quer entrar? -- perguntou Artie.
     -- Todos os outros vo estar l dentro -- disse Ruth.
     -- Eu sei.
     -- Vamos ficar molhados.
     Ficaram sentados sem se mexer por algum tempo e viram as gotas carem
ao seu redor, ouviram o rudo da chuva batendo nas folhas da rvore acima de
suas cabeas.
     -- Eu sabia que ela estava morta. Eu senti -- disse Ruth. -- Mas a vi uma
nota sobre isso no jornal do meu pai e tive certeza. No comeo eles no
usaram o nome dela. S "Menina de 14 anos". Pedi a pgina para o meu pai,




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mas ele no quis me dar. Quero dizer, quem mais a no ser ela e a irm tinha
faltado ao colgio a semana toda?
     -- Fico pensando, quem contou para a Lindsey? -- disse Artie. A chuva
aumentou. Artie foi para debaixo da mesa. -- A gente vai ficar encharcado --
gritou ele para cima.
     E ento, depressa como havia comeado, a chuva parou. O sol saiu por
entre os galhos da rvore acima dela, e Ruth olhou para cima, para alm ia
rvore.
     -- Eu acho que ela ouve -- disse ela, baixo demais para ser ouvida.


                                               12
     Todo mundo no simpsio ficou sabendo quem era minha irm e como
tinha morrido.
     -- Imagine ser esfaqueada -- dizia algum.
     -- No, obrigada.
     -- Eu acho legal.
     -- Pensa assim: ela agora  famosa.
     -- Que jeito de ficar famoso. Prefiro ganhar o Prmio Nobel.
     -- Algum sabe o que ela queria ser?
     -- Pergunta para a Lindsey, se tiver coragem.
     E eles faziam a lista dos mortos que conheciam.
     Av, av, tio, tia, alguns tinham perdido um dos pais, mais raramente uma
irm ou um irmo mortos ainda jovens por causa de uma doena -- uma
arritmia cardaca  leucemia  alguma doena impronuncivel.
     Ningum conhecia ningum que tivesse sido assassinado. Mas agora a
conheciam a mim.

                                               12
    Debaixo de um barco a remo velho e usado demais para flutuar, Lindsey
se deitou no cho com Samuel Heckler, e ele a abraou.
    -- Voc sabe que eu estou bem -- disse ela, com os olhos secos.  Acho
que o Artie estava tentando me ajudar -- sugeriu.




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     -- Pode parar de falar agora, Lindsey -- disse ele. -- Vamos s ficar aqui
deitados e esperar as coisas se acalmarem.
     As costas de Samuel estavam apoiadas no cho, e ele trouxe minha irm
para mais perto de seu corpo para proteg-la da umidade da chuva rpida de
vero. Sua respirao comeou a aquecer o pequeno espao debaixo do
barco, e ele no pde evitar -- seu pnis ficou duro dentro do jeans.
     Lindsey estendeu a mo.
     -- Desculpa... -- comeou ele.
     -- Eu estou pronta -- disse minha irm.
     Aos 14 anos, minha irm navegou para longe de mim rumo a um lugar
em que eu nunca tinha estado. Nas paredes do meu sexo havia horror e
sangue, nas paredes do dela havia janelas.


                                               12
   "Como cometer o assassinato perfeito" era um jogo antigo no cu. Eu
sempre escolhia o pingente de gelo: a arma do crime derrete.




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                                        Captulo 11




  Q        uando meu pai acordou s quatro da manh, a casa estava
           silenciosa. Minha me estava deitada ao seu lado, roncando de leve.
           Meu irmo, seu nico filho, j que minha irm estava no simpsio,
parecia uma pedra coberta por um lenol. Meu pai ficava maravilhado ao ver
como o sono do filho era pesado -- igualzinho ao meu. Quando eu ainda era
viva, Lindsey e eu nos divertamos com isso, batendo palmas, deixando cair
livros no cho e at batendo com tampas de panela para ver se Buckley
acordava.
     Antes de sair de casa, meu pai deu uma olhada em Buckley -- para ter
certeza, para sentir o hlito quente em sua palma. Ento calou seus tnis de
sola fina e vestiu sua roupa leve de corrida. Sua ltima tarefa foi pr a coleira
em Holiday.
     Ainda era cedo o suficiente para ele quase conseguir ver a prpria
respirao. Cedo assim, ele podia fingir que ainda era inverno. Que os
segundos no tinham passado.
     A caminhada matinal com o cachorro lhe dava uma desculpa para passar
na frente da casa do sr. Harvey. Ele diminua o passo muito de leve --
ningum teria percebido exceto eu ou, se estivesse acordado, o sr. Harvey.
Meu pai tinha certeza de que, se encarasse com fora suficiente, se olhasse por
tempo suficiente, encontraria as pistas de que precisava nos batentes das
janelas, na tinta verde que cobria os sarrafos, ou no caminho que levava 
garagem, onde havia duas grandes pedras pintadas de branco.
     No final do vero de 1974, no tinha havido nenhum progresso no meu
caso. Nenhum corpo. Nenhum assassino. Nada.
     Meu pai pensou em Ruana Singh: "Quando eu tivesse certeza, encontraria
um jeito discreto e o mataria." No tinha contado isso a Abigail, porque o




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conselho fazia uma espcie de sentido limtrofe que a assustaria e a faria
contar para algum, e ele suspeitava que esse algum poderia ser Len.
     Desde o dia em que tinha visto Ruana Singh, chegado em casa e
encontrado Len  sua espera, ele sentia que minha me confiava demais na
polcia. Caso meu pai dissesse alguma coisa que contrariasse as teorias da
polcia -- ou, como ele pensava, a falta de teoria da polcia -- minha me
imediatamente correria para tapar o buraco aberto pela ideia do meu pai. "O
Len diz que isso no quer dizer nada", ou "Confio na polcia para descobrir o
que aconteceu."
     Por que, perguntava-se meu pai, as pessoas confiavam tanto na polcia:
Por que no confiar no instinto? O sr. Harvey era o culpado e ele sabia. Mas o
que Ruana tinha dito era quando eu tivesse certeza. Saber, aquele saber vindo
do fundo da alma que meu pai tinha, no era, aos olhos mais literais da lei,
uma prova inconteste.

                                               12
      A casa em que cresci era a mesma casa em que nasci. Como a do sr.
Harvey, era uma caixa, e por causa disso eu nutria invejas inteis sempre que
visitava a casa de outras pessoas. Sonhava com jardins de inverno e cpulas,
com varandas e quartos no sto com tetos inclinados. Adorava a ideia de que
pudesse haver no quintal rvores mais altas e mais fortes do que pessoas,
cubculos enviesados debaixo de escadas, cercas-vivas frondosas to grandes
que dentro delas houvesse espaos ocos formados por galhos mortos onde
era possvel se esgueirar e se sentar. O meu cu tinha varandas e escadas em
caracol, sacadas de janelas com jardineiras de ferro, e um campanrio com um
sino que tocava de hora em hora.
      Eu conhecia de cor a planta da casa do sr. Harvey. Eu tinha formado a
mancha morna no cho da garagem at esfriar. Ele tinha trazido meu sangue
junto consigo para casa, nas roupas e na pele. Eu conhecia o banheiro. Sabia
como na minha casa minha me tinha tentado decor-lo a acolher a chegada
tardia de Buckley pintando navios de batalha no alto das paredes cor-de-rosa.
Na casa do sr. Harvey, o banheiro e a cozinha eram imaculados. Os ladrilhos
eram amarelos e a cermica do cho, verde. Ele mantinha a decorao sbria.
No andar de cima, onde Buckley, Lindsey e eu tnhamos os nossos quartos, ele



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no tinha quase nada. Tinha uma cadeira de encosto reto onde se sentava de
vez em quando para olhar o cientifico pela janela, ouvindo o som dos ensaios
da banda ser trazido do campo de futebol, mas na maior parte do tempo
ficava na parte dos fundos do primeiro andar, na cozinha construindo casas de
boneca,na sala de estar ouvindo rdio ou,conforme seu desejo ia aumentando,
desenhando projetos de maluquices como o buraco ou a tenda. Ningum o
incomodava a meu respeito havia vrios meses. Naquele vero, s de vez em
quando ele via um carro de polcia diminuir a velocidade na frente da sua casa.
Era esperto o suficiente para no alterar seu comportamento. Se estivesse
saindo para a garagem ou para a caixa de correio seguia em frente.
     Ele acertou vrios relgios. Um para lhe dizer quando abrir as persianas,
outro para lhe dizer quando fech-las. Em conjuno com esses alarmes,
acendia e apagava luzes pela casa. Se por acaso aparecesse uma criana
vendendo chocolates para uma competio do colgio ou perguntando se ele
gostaria de assinar o Evening Bulletin, ele era simptico, mas profissional,
neutro.
     Contava periodicamente suas coisas, e essa contagem o reconfortava.
     Eram coisas simples. Um anel de casamento, uma carta lacrada dentro de
um envelope, o salto de um sapato, culos, uma borracha em forma de
personagem de quadrinhos, um pequeno frasco de perfume, uma pulseira de
plstico, minha pedra angular da Pensilvnia, o pingente de mbar de sua
me. Ele os tirava do lugar em que ficavam guardados  noite, muito depois
de ter certeza de que nenhum vendedor de jornais ou vizinho bateria em sua
porta. Contava-os como as contas de um rosrio. Para alguns tinha se
esquecido dos nomes. Eu sabia os nomes.
     O salto do sapato era de uma menina chamada Claire, de Nutley, Nova
Jrsei, que ele tinha convencido a entrar na caamba de uma van. Ela era mais
nova do que eu. (Gosto de pensar que eu no teria entrado em uma van.
Gosto de pensar que foi minha curiosidade sobre como ele tinha conseguido
fazer um buraco na terra que no desabasse.) Ele tinha arrancado o salto do
sapato dela antes de deixar Claire ir embora. Era tudo o que tinha feito. Ele a
fez entrar na van e tirou seus sapatos. Ela comeou a chorar, e o som varou o
corpo dele como parafusos. Ele implorou para que ela ficasse quieta e fosse
embora. Sasse magicamente da van descala e sem reclamar, deixando os



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sapatos com ele. Mas ela no quis. Continuou a chorar. Ele comeou a tentar
tirar um dos saltos dos sapatos com seu canivete, at algum socar a traseira
da van. Ele ouviu vozes de homem e uma mulher gritando alguma coisa sobre
chamar a polcia. Abriu a porta.
      -- Que diabos voc est fazendo com essa menina? -- gritou um dos
homens. O amigo desse primeiro homem segurou a menininha enquanto ela
pulava, aos berros, da traseira da van.
      -- Estou tentando consertar o sapato dela.
      A menina estava histrica. O sr. Harvey estava completamente racional e
calmo. Mas Claire tinha visto o que eu vi -- aquele olhar dele dirigido para
baixo -- aquele desejo de alguma coisa indizvel que, caso lhe dssemos,
equivaleria ao nosso fim.
      Apressadamente, enquanto os homens e a mulher ainda estavam
confusos, incapazes de ver o que Claire e eu sabamos, o sr. Harvey tinha
entregado os sapatos a um dos homens e se despedido. Ele guardou o salto.
      Gostava de segurar o pequeno salto de couro e esfreg-lo entre o polegar
e o indicador -- era perfeito para relaxar.


                                               12
     Eu conhecia o lugar mais escuro da nossa casa. Tinha entrado e ficado ali
durante o que disse para Clarissa ter sido um dia inteiro, mas que na verdade
eram cerca de quarenta e cinco minutos. Era o forro do poro. No feltro do
nosso forro havia canos que eu podia ver com uma lanterna e toneladas e
mais toneladas de poeira. E s. No havia baratas. Minha me, assim como a
me dela, chamava o dedetizador at para uma infestao de formigas.
     Quando o alarme disparava para lhe dizer para fechar as persianas e
depois o outro alarme,dizendo-lhe para apagar a maior parte das luzes porque
o subrbio a essa hora dormia, o sr. Harvey descia para o poro, onde no
havia frestas por onde a luz pudesse entrar e para onde as pessoas pudessem
apontar, dizendo que ele era estranho. Quando me matou, ele tinha ficado
cansado de visitar o forro, mas ainda gostava de ficar no poro em uma
poltrona de frente para o buraco escuro que comeava no meio da parede e ia
at as tbuas expostas do cho de sua cozinha. Muitas vezes adormecia ali, e




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ali dormia quando meu pai passava pela casa verde por volta das vinte para as
cinco da manh.
     Joe Ellis era um menino bem ruim. Tinha beliscado Lindsey e eu debaixo
d'gua na piscina e nos impedia de ir a festas onde houvesse banho de piscina
de tanto que ns o odivamos. Tinha um cachorro que arrastava para todo
lado independentemente do que o cachorro quisesse fazer. Era um cachorro
pequeno, que no corria muito rpido, mas Ellis no ligava. Batia no cachorro
ou o levantava pelo rabo causando-lhe muita dor. Ento um dia o cachorro
sumiu,assim como o gato que Ellis tinha sido visto provocando. E ento bichos
de todo o bairro comearam a sumir.
     O que eu descobri, quando segui o olhar do sr. Harvey para o forro, foram
esses bichos sumidos havia mais de um ano. As pessoas pensavam que aquilo
tinha parado porque o filho dos Ellis tinha sido mandado para o colgio
militar. Quando soltavam seus bichos de estimao de manh, eles voltavam 
noite. Isso valia como prova. Ningum poderia imaginar um apetite como o da
casa verde. Algum que espalhasse cal pelo corpo dos gatos e cachorros, para
logo no ter mais nada a no ser seus ossos. Contando os ossos e mantendo
distncia da carta lacrada, do anel de casamento, do frasco de perfume, ele
tentava ficar longe do que mais queria -- subir para o andar de cima, sentar-
se na cadeira de encosto reto e ficar olhando para o cientfico, imaginar os
corpos que correspondiam s vozes das chefes de torcida, que pulsavam em
ondas nos dias de outono durante os jogos de futebol, ou ver os alunos
desembarcarem dos nibus do primrio duas casas mais adiante. Certa vez ele
tinha dado uma boa olhada em Lindsey, a nica menina do time de futebol
masculino, fazendo cooper pelo nosso bairro quase no escuro.
     Acho que o mais difcil de perceber foi que todas as vezes ele tinha
tentado se conter. Tinha matado bichos, tirando vidas menores para evitar
matar uma criana.

                                               12
    Quando agosto chegou, Len quis estipular algumas fronteiras para o seu
bem e para o bem do meu pai. Meu pai tinha ligado para a delegacia vezes
demais, frustrando e irritando a polcia, o que no ajudaria ningum a ser
encontrado e s faria a delegacia inteira se voltar contra ele.



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      A gota d'gua tinha sido um telefonema dado na primeira semana de
julho. Jack Salmon tinha descrito em detalhes para a telefonista como, durante
uma caminhada matutina, seu cachorro tinha parado na frente da casa do sr.
Harvey e comeado a uivar. Por mais que Salmon tentasse, prosseguia a
histria, no conseguia fazer o cachorro se mexer nem parar de uivar. Aquilo
virou piada na delegacia: o sr. Peixe e seu Co Uivante.
      Len parou na frente da nossa casa para terminar seu cigarro. Ainda era
cedo, mas a umidade do dia anterior tinha aumentado. Tinham prometido
chuva a semana toda, o tipo de tempestade de raios e troves caracterstico
daquela regio, mas at agora a nica gua que Len percebia era a que cobria
seu corpo com um suor mido. Sua ltima visita fcil  casa dos meus pais
havia passado.
      Ento ouviu algum cantarolando -- uma voz de mulher vinda l de
centro. Apagou o cigarro no cimento debaixo da cerca viva e levantou a
aldrava. A porta se abriu antes de ele solt-la.
      -- Senti o cheiro do seu cigarro -- disse Lindsey.
      -- Era voc cantarolando?
      -- Esse negcio vai te matar.
      -- Seu pai est em casa.
      Lindsey se afastou para deix-lo passar.
      -- Pai! -- gritou minha irm para dentro de casa. --  o Len!
      -- Voc estava viajando, no estava? -- perguntou Len.
      -- Acabei de chegar.
      Minha irm estava usando uma camisa de softball do Samuel e calas de
moletom estranhas. Minha me a tinha acusado de voltar para casa sem uma
nica pea de roupa sua.
      -- Tenho certeza de que os seus pais ficaram com saudades.
      -- No precisa ter tanta certeza -- disse Lindsey. -- Acho que eles ficaram
felizes por se livrar de mim.
      Len sabia que ela estava certa. Certamente tinha convico de que minha
me estava menos frentica quando tinha visitado a casa pela ltima vez.
Lindsey falou:
      -- O Buckley transformou voc em chefe do esquadro de polcia na
cidade que ele construiu debaixo da cama.



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     -- Fui promovido.
     Os dois ouviram os passos do meu pai no corredor do andar de cima e
depois os sons de Buckley pedindo. Lindsey pde perceber que, o que quer
que ele tivesse pedido, nosso pai tinha acabado dizendo sim.
     Meu pai e meu irmo desceram a escada, todo sorrisos.
     -- Len -- disse ele, e apertou a mo de Len.
     -- Bom dia, Jack -- disse Len. -- Como vai voc, Buckley?
     Meu pai pegou a mo de Buckley e o colocou na frente de Len, que se
inclinou solenemente at a altura do meu irmo.
     -- Ouvi dizer que voc me transformou em chefe de polcia -- disse Len.
     -- Foi sim, senhor.
     -- No acho que eu merea esse posto.
     -- Merece mais do que qualquer outra pessoa -- disse meu pai
casualmente. Ele adorava as visitas de Len Fenerman. Todas as vezes que isso
acontecia meu pai via se confirmar um consenso de que no estava sozinho
naquilo -- de que havia um grupo atrs dele.
     -- Preciso conversar com o pai de vocs, meninos.
     Lindsey levou Buckley de volta para a cozinha prometendo lhe dar cereal.
Ela prpria estava pensando em uma bebida que Samuel tinha lhe mostrado;
era um drinque chamado jellyfish, gua-viva, que tinha uma cereja marasquino
debaixo de acar e gim. Samuel e Lindsey tinham chupado as cerejas por
entre o acar e o lcool at suas cabeas doerem e seus lbios ficarem
manchados de vermelho.
     -- Quer que eu chame a Abigail? Quer que faa um caf ou alguma outra
coisa?
     -- Jack -- disse Len --, eu no vim trazer nenhuma novidade --
justamente o contrrio. Podemos nos sentar?
     Vi meu pai e Len rumarem para a sala de estar que parecia um lugar onde
ningum nunca estava. Len sentou-se na beirada de uma cadeira e esperou
meu pai se sentar.
     -- Escute, Jack -- disse ele. --  sobre o George Harvey. -- Meu pai se
animou.
     -- Pensei que tivesse dito que no tinha novidades.




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     -- No tenho. Tenho uma coisa a dizer em nome da delegacia e em meu
nome.
     -- Pode dizer.
     -- Precisamos que voc pare de dar telefonemas sobre o George Harvey.
     -- Mas...
     -- Eu preciso que voc pare. No h nada, por mais que procuremos, que
o ligue  morte da Susie. Ces uivantes e tendas nupciais no so novas.
     -- Eu sei que foi ele -- disse meu pai.
     -- Ele  esquisito, concordo, mas at onde sabemos no  um assassino.
     -- Como voc pode saber isso?
     Len Fenerman falava, mas tudo o que meu pai conseguia fazer era ouvir
Ruana Singh dizendo o que tinha lhe dito, e se lembrar de ficar em p do lado
de fora da casa do sr. Harvey e sentir a energia irradiando at ele, a frieza no
fundo daquele homem. O sr. Harvey era ao mesmo tempo incompreensvel e a
nica pessoa no mundo capaz de ter me matado. A merda que Len negava,
meu pai tinha mais certeza.
     -- Voc vai parar de investig-lo -- disse meu pai em tom aptico.
     Lindsey estava no vo da porta, espiando como tinha feito no dia em que
Len e o oficial uniformizado tinham trazido meu gorro com os sininhos, do
qual ela possua um irmo gmeo. Naquele dia,ela tinha discretamente jogado
esse segundo gorro dentro de uma caixa de bonecas velhas no fundo de seu
armrio. Nunca mais queria que minha me ouvisse o som daqueles sininhos
parecidos com contas.
     Ali estava nosso pai, o corao que sabamos sustentar todos ns.
Sustentar-nos pesada e desesperadamente, as portas de seu corao se
abrindo e se fechando com a rapidez de pausas em um instrumento, os
silenciosos fechos de feltro, o dedilhado fantasmagrico, ensaios e mais
ensaios e ento, incrivelmente, som, melodia e calor. Lindsey deu um passo 
frente de seu lugar na porta.
     -- Oi de novo, Lindsey -- disse Len.
     -- Inspetor Fenerman.
     -- Eu estava justamente dizendo ao seu pai...
     -- Que vocs vo desistir.
     -- Se houvesse alguma boa razo para desconfiar do homem...



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     -- J terminou? -- perguntou Lindsey. De repente ela era a mulher do
nosso pai, assim como a filha mais velha e mais responsvel.
     -- S quero que vocs todos saibam que investigamos todas as pistas.
     Meu pai e Lindsey a ouviram, e eu a vi. Minha me descendo as escadas.
     Buckley saiu correndo da cozinha e se atirou, jogando todo o peso do
corpo para cima das pernas do meu pai.
     -- Len -- disse minha me, apertando o roupo de toalha para mais perto
do corpo quando o viu --, o Jack lhe ofereceu um caf?
     Meu pai olhou para sua mulher e Len Fenerman.
     -- A polcia est jogando a toalha -- disse Lindsey, segurando Buckley
pelo ombro com delicadeza e abraando-o.
     -- Jogando a toalha? -- perguntou Buckley. Ele sempre revirava os sons
de um lado para outro na boca como uma bala at sentir seu gosto e sua
textura.
     -- O qu?
     -- O inspetor Fenerman est aqui para mandar o papai parar de encher o
saco deles.
     -- Lindsey -- disse Len --, no  bem assim.
     -- Que se dane -- disse ela. Minha irm agora queria sair dali e ir para um
lugar onde o acampamento dos bons alunos continuasse, onde Samuel e ela,
ou at mesmo Artie, que no ltimo minuto tinha ganhado a competio do
Assassinato Perfeito inscrevendo o pingente de gelo como ideia para a arma
do crime, fossem a coisa mais importante do mundo.
     -- Vamos, pai -- disse ela. Meu pai estava lentamente tentando entender
uma coisa. No tinha nada a ver com George Harvey, nada a ver comigo.
Estava nos olhos da minha me.

                                               12
     Naquela noite, como fazia com cada vez mais frequncia, meu pai ficou
acordado sozinho em seu escritrio. No podia acreditar que o mundo
estivesse ruindo  sua volta -- como aquilo era inesperado depois do primeiro
golpe da minha morte. "Tenho a sensao de estar no caminho de uma
erupo vulcnica", escreveu ele em seu caderno. "A Abigail acha que Len
Fenerman tem razo com relao a Harvey."



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     Enquanto ele escrevia, a vela na janela continuava tremulando, e apesar
da luminria em sua escrivaninha o tremor o distraa. Ele se reclinou na velha
cadeira de colgio de madeira que tinha desde a poca da faculdade e ouviu o
rangido reconfortante da madeira sob o corpo. Na empresa, no estava
conseguindo sequer registrar o que se esperava dele. Todos os dias agora
deparava-se com colunas e mais colunas de nmeros sem significado que
precisava fazer coincidir com as reivindicaes das empresas seguradas, estava
cometendo erros com uma frequncia assustadora, e temia, mais do que nos
primeiros dias depois do meu desaparecimento, no ser capaz de sustentar
seus dois filhos sobreviventes.
     Ele se levantou e esticou os braos acima da cabea, tentando se
concentrar nos poucos exerccios que nosso mdico de famlia tinha sugerido.
Vi seu corpo se dobrar de modos difceis e surpreendentes que nunca tinha
visto antes. Ele poderia ter sido bailarino em vez de executivo. Poderia ter
danado na Broadway com Ruana Singh.
     Ele desligou a luz da escrivaninha, deixando a vela acesa.
     Era em sua poltrona verde baixa que ele agora se sentia mais  vontade.
Era ali que muitas vezes eu o via dormir. O cmodo era como um cofre, a
cadeira era como um tero, e eu ficava ali a vigi-lo. Ele fitava a vela na janela
e pensava no que fazer; pensava em como tinha tocado minha me e ela tinha
se afastado para o outro lado da cama. Mas em como diante d policial ela
parecia desabrochar.
     Ele tinha se acostumado com a luz fantasmagrica atrs da chama da
vela, com aquele reflexo trmulo na janela. Ficou olhando para os dois -- a
chama real e o fantasma -- e comeou a cair em um sono leve, adormecendo
o pensamento e a tenso e os acontecimentos do dia.
     Quando estava prestes a desistir por aquela noite, ambos vimos outra
coisa: outra luz. L fora.
     Daquela distncia a luz parecia uma lanterna de bolso. Um feixe branco se
movendo devagar pelos gramados em direo ao ginsio. Meu pai ficou
olhando para ele. Agora j passava da meia-noite, e a lua no estava
suficientemente cheia, como geralmente era o caso, para revelar os contornos
das rvores e casas. O sr. Stead, que andava de bicicleta tarde da noite com
uma luz alimentada pelos pedais piscando na frente, jamais degradaria os



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gramados de seu bairro daquela maneira. De qualquer modo, era tarde demais
para o sr. Stead.
     Meu pai se inclinou para a frente na cadeira verde de seu escritrio e
ficou olhando a lanterna se mover na direo do milharal inculto.
     -- Canalha -- sussurrou. -- Seu canalha assassino.
     Vestiu-se rapidamente com as roupas que ficavam guardadas no armrio
de depsito de seu escritrio, pondo um casaco de caador que no usava
desde uma malfadada expedio de caa dez anos antes. No andar de baixo,
entrou no closet do hall de entrada e encontrou o taco de beisebol que tinha
comprado para Lindsey antes de ela optar pelo futebol.
     Primeiro desligou a luz da varanda que eles deixavam acesa a noite toda
para mim e que, mesmo oito meses depois de a polcia ter dito que eu no
seria encontrada viva, no conseguiam evitar deixar acesa. Com a mo na
maaneta da porta, respirou fundo.
     Girou a maaneta e se viu do lado de fora na escura varanda da frente.
Fechou a porta e se viu em p no quintal da frente de sua casa com um taco
de beisebol e as seguintes palavras: encontre um jeito discreto.
     Cruzou seu quintal da frente e atravessou a rua e entrou no quintal dos
O'Dwyer, onde tinha visto a luz pela primeira vez. Passou por sua piscina
escurecida e pelos balanos enferrujados. Seu corao estava disparado, mas
ele no conseguia sentir nada a no ser a certeza em seu crebro, George
Harvey tinha matado sua ltima menininha.
     Chegou ao campo de futebol. A sua direita, l longe no milharal, mas no
na regio que ele conhecia de cor -- a regio que tinha sido isolada e limpa e
vasculhada e revirada -- viu a pequena luz. Apertou os punhos com mais fora
em volta do taco ao lado do corpo. Durante um segundo, no pde acreditar
no que estava prestes a fazer, mas em seguida, com todo o seu ser, teve
certeza.
     O vento o ajudou. Ele soprava pelo campo de futebol na beira do milharal
e fazia suas calas baterem na parte da frente de suas pernas; o vento o
empurrava sem que ele precisasse fazer fora. Tudo desapareceu, guando ele
chegou entre as fileiras de milho, focalizando apenas a luz, o vento disfarou
sua presena. O som de seus ps esmagando os caules era varrido pelo
assobio e pelo farfalhar do vento nos ps quebrados.



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     Coisas sem sentido inundavam sua mente -- o som da borracha dura dos
patins das crianas na calada, o cheiro do fumo de cachimbo de seu pai, o
sorriso de Abigail quando ele a conheceu, como uma luz perfurando seu
corao confuso -- e ento a lanterna se apagou e tudo ficou igual e escuro.
     Ele deu mais alguns passos, depois parou.
     -- Eu sei que voc est a -- disse ele.
     Inundei o milharal de luz, acendi fogueiras por todo ele para ilumin-lo,
mandei tempestades de granizo e flores, mas nada disso serviu para alert-lo.
Eu estava relegada ao cu: fiquei olhando.
     -- Estou aqui para isso -- disse meu pai com a voz trmula. Aquele
corao explodindo para dentro e para fora, enchendo de sangue os rios de
seu peito e depois se contraindo. O sorriso da minha me em sua mente
sumindo, o meu tomando seu lugar.
     -- Ningum est acordado -- disse meu pai. -- Estou aqui para acabar
com isso.
     Ele ouviu um choramingo. Eu queria lanar um holofote como eles faziam
no auditrio do colgio, sem preciso, fazendo a luz nem sempre atingir o
lugar certo do palco. Ali estaria ela, agachada e choramingando e agora,
apesar de sua sombra de olhos azul e das botas estilo caubi compradas na
Bakers', fazendo xixi nas calas. Uma criana.
     Ela no reconheceu a voz cheia de dio do meu pai.
     -- Brian? -- disse a voz trmula de Clarissa. -- Brian? -- Era a esperana
como um escudo.
     A mo do meu pai soltou o taco, deixando-o cair no cho.
     -- Oi? Quem est a?

                                               12
    Com o vento em seus ouvidos, Brian Nelson, o espantalho de p de milho,
estacionou a Spyder Corvette do irmo mais velho no estacionamento do
colgio. Atrasado, sempre atrasado, dormindo em aula e na mesa do jantar,
mas nunca quando algum menino tinha uma Playboy nem quando alguma
menina bonita passava, nunca em uma noite em que tinha uma menina
esperando-o l fora no milharal. Mesmo assim, no se apressou. O vento,




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glorioso manto e coberta para o que ele tinha planejado, zumbia por seus
ouvidos.
     Brian andou em direo ao milharal com a lanterna gigante do kit-
catstrofe que sua me guardava embaixo da pia. Finalmente ouviu o que diria
mais tarde terem sido os gritos de socorro de Clarissa.
     O corao do meu pai parecia uma pedra ali, pesado, carregado dentro
de seu peito enquanto ele corria e tropeava em direo ao som do choro da
menina. Sua me tricotava luvas sem dedos para ele, Susie pedia luvas com
dedo, com tanto frio no milharal no inverno. Clarissa! A amiga boba de Susie.
Maquiagem, sanduches de geleia afetados e apele com bronzeado tropical.
Ele correu s cegas na direo dela e a derrubou no escuro. Seus gritos
encheram os ouvidos dele e se derramaram dentro dos espaos vazios,
ricocheteando l dentro.
     -- Susie! -- gritou ele de volta.
     Brian correu ao ouvir meu nome -- para a frente a toda velocidade,
completamente desperto. A luz de sua lanterna pulou por cima do milharal, e
por um segundo brilhante ali estava o sr. Harvey. Ningum o viu a no ser eu.
A lanterna de Brian bateu nas suas costas enquanto ele se esgueirava para o
meio dos altos ps de milho e aguava os ouvidos, mais uma vez, para escutar
o som do choro.
     Ento a luz atingiu seu alvo e Brian puxou meu pai para cima e para longe
de Clarissa para bater nele. Bateu na cabea dele, nas costas e no rosto com a
lanterna do kit-catstrofe. Meu pai gritou, ganiu e gemeu.
     Ento Brian viu o taco.
     Empurrei como uma louca as fronteiras imveis do meu cu. Queria
estender a mo e levantar meu pai, lev-lo embora, traz-lo at mim.
     Clarissa correu e Brian golpeou. Os olhos do meu pai encararam os de
Brian, mas ele mal conseguia respirar.
     -- Seu escroto! -- Brian estava preto e branco de culpa.
     Ouvi murmrios no cho. Ouvi meu nome. Pensei poder sentir o gosto do
sangue no rosto do meu pai, estender a mo para passar os dedos por eus
lbios cortados, deitar com ele no meu tmulo.
     Mas tive que virar as costas no cu. Eu no podia fazer nada -- presa no
meu mundo perfeito. O sangue tinha um gosto amargo. cido. Eu queria a



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viglia do meu pai, seu forte amor por mim. Mas queria tambm que ele fosse
embora e me deixasse em paz. Tive direito a uma nica pequena ddiva. De
volta ao quarto onde a cadeira verde ainda estava morna com o calor do
corpo dele, soprei aquela vela solitria, trmula, e a apaguei.




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                                       Captulo 12




   E      m p no quarto ao lado dele, eu o via dormir. Durante a noite, a
          histria tinha sido descoberta e espalhada para que a polcia
entendesse: o sr. Salmon estava louco de tristeza e tinha ido at o milharal 
procura de vingana. Aquilo batia com o que sabiam a seu respeito, seus
telefonemas persistentes, sua obsesso com o vizinho, e o fato de o inspetor
Len Fenerman ter ido  minha casa naquele mesmo dia dizer a meus pais que,
para todos os efeitos, a investigao do meu assassinato tinha entrado em
uma espcie de hiato. No havia mais pistas a seguir. Nenhum corpo havia
sido encontrado.
     O cirurgio teve que operar o joelho dele para substituir a rtula por uma
sutura parecida com uma bolsa que incapacitava parcialmente a articulao.
Enquanto olhava a operao, pensei no quanto aquilo se parecia com costura,
e desejei que meu pai estivesse em mos mais capazes do que se tivesse sido
trazido a mim.Nas aulas de trabalhos manuais,minhas mos eram desajeitadas.
Costura reta ou alinhavo, eu confundia tudo.
     Mas o cirurgio foi paciente. Uma enfermeira lhe contou a histria
enquanto ele lavava e esfregava as mos. Ele se lembrou de ter lido nos jornais
sobre o que tinha acontecido comigo. Era da mesma idade do meu pai e
tambm tinha filhos. Tremia ao esticar as luvas sobre as mos. Como ele e
aquele homem eram parecidos. Como eram diferentes.
     No quarto escuro de hospital, uma lmpada fluorescente zumbia logo
atrs da cama do meu pai. Conforme a madrugada ia chegando, aquela era a
nica luz no quarto at minha irm entrar.
     Minha me e meu irmo acordaram com o barulho das sirenes de polcia
e desceram de seus quartos para a cozinha escura.
     -- Vai acordar seu pai -- disse minha mie para Lindsey. -- No posso
acreditar que ele esteja dormindo com este barulho.




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    Ento minha irm tinha subido as escadas. Todos sabiam onde procur-lo:
em apenas seis meses, a cadeira verde tinha se tornado sua verdadeira cama.
    -- O papai no est aqui! -- gritou minha irm assim que se deu conta. --
O papai sumiu! Me! Me! O papai sumiu! -- Por um raro instante Lindsey era
uma criana assustada.
    -- Droga! -- disse minha me.
    -- Mame? -- disse Buckley.
    Lindsey entrou correndo na cozinha. Minha me estava encarando o
rogo. Suas costas eram uma massa emaranhada de nervos enquanto ela
continuava a preparar ch.
    -- Me? -- perguntou Lindsey. -- A gente tem de fazer alguma coisa.
    -- Voc no est vendo...? -- disse minha me, parando por um instante
com uma caixa de Earl Grey suspensa no ar.
    -- O qu?
    Ela soltou o ch, ligou o fogo e se virou. Foi ento que viu uma coisa:
Buckley tinha ido se agarrar  minha irm enquanto chupava o dedo
ansiosamente.
    -- Ele saiu atrs daquele homem e arrumou encrenca.
    -- A gente deveria sair, me -- disse Lindsey. -- A gente deveria ir ajudar
o papai.
    -- No.
    -- Me, a gente precisa ajudar o papai.
    -- Buckley, pare de mamar o dedo!
    Meu irmo comeou a chorar, em pnico, e minha irm abaixou os braos
para traz-lo para mais perto. Ela olhou para nossa me.
    -- Vou sair para encontrar ele -- disse Lindsey.
    -- Voc no vai fazer nada disso -- disse minha me. -- Ele vai voltar
para casa quando for a hora. Vamos ficar fora disso.
    -- Me -- disse Lindsey --, e se ele estiver machucado?
    Buckley parou de chorar por tempo suficiente para olhar alternadamente
para minha irm e para minha me. Ele sabia o que era se machucar e quem
estava faltando naquela casa.
    Minha me lanou um olhar cheio de significado para Lindsey.




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     -- No vamos mais falar sobre isso. Pode subir para o seu quarto e
esperar ou esperar aqui comigo. A escolha  sua.
     Lindsey ficou perplexa. Encarou nossa me e percebeu o que mais queria:
fugir, correr para o milharal onde meu pai estava, onde eu estava, para onde
ela de repente sentia que o corao da famlia tinha se mudado. Mas Buckley
estava agarrado a ela, quente.
     -- Buckley -- disse ela --, vamos voltar l para cima. Voc pode dormir na
minha cama.
     Ele estava comeando a entender: voc era tratado de forma especial, e
depois lhe contavam alguma coisa horrvel.
     Quando a polcia telefonou, minha me foi imediatamente at o armrio
da frente.
     -- Bateram nele com nosso prprio taco de beisebol! -- disse ela,
agarrando seu casaco, suas chaves e seu batom. Minha irm se sentiu mais
sozinha do que nunca, mas tambm mais responsvel. Buckley no podia ficar
sozinho, e Lindsey sequer sabia dirigir. Alm disso, aquilo fazia o maior sentido
do mundo. O lugar de uma mulher no era antes de tudo ao lado do marido?


                                               12
     Mas quando minha irm conseguiu falar com a me de Nate -- afinal, a
confuso no milharal tinha acordado a vizinhana inteira -- soube o que
deveria fazer. Ligou para Samuel em seguida. Uma hora depois, a me de Nate
chegou para buscar Buckley, e Hal Heckler se aproximou da casa em sua
motocicleta. Aquilo deveria ter sido emocionante -- abraar o lindo irmo
mais velho de Samuel, andar de moto pela primeira vez -- mas tudo em que
ela conseguia pensar era nosso pai. Minha me no estava no quarto de
hospital dele quando Lindsey entrou; havia s meu pai e eu. Ela se aproximou
e ficou de p do outro lado da cama dele, e comeou a chorar baixinho.
     -- Papai? -- disse ela. -- Est tudo bem com voc, papai?
     Uma fresta se abriu na porta. Era Hal Heckler, um pedao de homem alto
e bonito.
     -- Lindsey -- disse ele --, estou esperando voc na rea dos visitantes,
precisar de uma carona para casa. Ele viu suas lgrimas quando ela se virou.




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     -- Obrigada, Hal. Se vir minha me...
     -- Eu digo para ela que voc est aqui. -- Lindsey pegou a mo do meu
pai e examinou seu rosto  procura de algum movimento. Fiquei escutando
enquanto ela sussurrava as palavras que ele tinha cantado para ns duas antes
de Buckley nascer:

                                       Pedras, ossos;
                                         neve, gelo;
                                  sementes, feijes, girinos.
                          laminhos, gravetos, beijos em quantidade,
                       Todo mundo sabe de quem papai tem saudade!
                      suas meninas-sapo,  delas que ele tem saudade.
                        Elas sabem onde esto, voc sabe, voc sabe?


     Gostaria que um sorriso tivesse surgido no rosto do meu pai, mas ele
estava sedado, nadando contra uma mar de remdio, pesadelo e sonho
acordado. Durante algum tempo, pesos de chumbo haviam sido atados pela
anestesia aos quatro cantos de sua conscincia. Como uma rgida coberta de
cera, ela o tinha isolado com firmeza nas horas abenoadas em que no havia
filha morta nem joelho perdido, e onde no havia tampouco filha amorosa
sussurrando poemas.
     -- Quando os mortos param de pensar nos vivos -- disse-me Franny --
os vivos podem seguir adiante.
     -- E os mortos? -- perguntei. -- Para onde a gente vai?
     Ela no me respondeu.


                                               12
     Len Fenerman tinha corrido para o hospital, assim que recebeu o
telefonema. Abigail Salmon, dizia o mensageiro, chamando por ele.
     Meu pai estava em cirurgia, e minha me andava de um lado para o outro
perto da sala das enfermeiras. Tinha ido para o hospital de capa dr chuva e
apenas sua fina camisola de vero por baixo. Calava suas sapatilhas baixas de
passear pelo quintal. No tinha se preocupado em prender o cabelo, e no




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havia nenhum elstico em seus bolsos nem na bolsa. No estacionamento
escuro e enevoado do hospital ela havia parado para dar uma olhada no rosto
e posto seu batom vermelho vivo com a mo experiente.
      Ao ver Len se aproximar no final do longo corredor branco, ela relaxou.
      -- Abigail -- disse ele ao chegar mais perto.
      -- Ah, Len -- disse ela. Seu rosto adquiriu uma expresso indecisa quanto
ao que dizer em seguida. O nome dele era o suspiro de que ela precisava.
Tudo o que veio depois no eram palavras.
      As enfermeiras em sua sala viraram o rosto para o outro lado enquanto as
mos de Len e da minha me se tocavam. Elas estendiam esse vu de
privacidade habitualmente, naturalmente, mas mesmo assim puderam ver que
aquele homem significava alguma coisa para aquela mulher.
      -- Vamos conversar na rea de visitantes -- disse Len, e conduziu minha
me corredor abaixo.
      Enquanto andavam, ela lhe contou que meu pai estava em cirurgia. Ele lhe
contou o que tinha acontecido no milharal.
      -- Aparentemente ele pensou que a menina fosse o George Harvey.
      -- Ele pensou que a Clarissa fosse o George Harvey? -- Minha me parou,
incrdula, logo antes de entrar na rea de visitantes.
      -- Estava escuro l fora, Abigail. Acho que ele s viu a lanterna da menina.
Minha visita de hoje no poderia mesmo ter ajudado muito. Ele est
convencido do envolvimento do sr. Harvey.
      -- A Clarissa est bem?
      -- Foi medicada por causa de alguns arranhes e liberada. Estava
histrica. Chorava e gritava. Foi uma horrvel coincidncia o fato de ser amiga
da Susie.
      Hal estava afundado em uma cadeira em um canto escuro da rea de
visitantes com os ps em cima do capacete que tinha trazido para Lindsey. o
ouvir vozes se aproximando, ele se mexeu. Era minha me e um policial. Ele
tornou a afundar na cadeira e deixou cabelos na altura dos ombros cobrirem-
lhe o rosto. Tinha quase certeza que minha me no se lembraria dele.
      Mas ela reconheceu a jaqueta de Samuel e por um instante pensou, O
Samuel est aqui, mas depois pensou, O irmo dele.




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     -- Vamos sentar -- disse Len, apontando para as duas cadeiras modukres
presas uma  outra no outro canto da sala.
     -- Prefiro continuar andando -- disse minha me. -- O mdico disse que
vai demorar pelo menos uma hora at eles terem alguma coisa para nos dizer.
     -- Andando para onde?
     -- Voc tem cigarro?
     -- Voc sabe que eu tenho -- disse Len, sorrindo com gentileza. Ele
precisava procurar os olhos dela. Eles no estavam focalizados nele. Pareciam
preocupados, e ele desejou poder estender a mo e agarr-los e gui-los para
o aqui e agora.
     -- Vamos encontrar uma sada ento.
     Encontraram uma porta para uma pequena sacada de concreto perto do
quarto do meu pai. Era uma sacada de servio que dava para um aparelho de
calefao, ento, embora fosse atravancada e ligeiramente fria, o barulho e a
exausto quente do hidrante ligado ao seu lado os fechavam dentro de uma
cpsula que parecia estar muito longe dali. Ficaram fumando e olhando um
para o outro como se de repente e sem aviso tivessem passado para uma nova
pgina, onde os assuntos urgentes j tivessem sido assinalados para ateno
imediata.
     -- Como a sua mulher morreu? -- perguntou minha me.
     -- Suicdio.
     O cabelo dela cobria a maior parte de seu rosto, e olhando para ela eu me
lembrei de Clarissa em sua verso mais afetada. O modo como ela se
comportava perto dos meninos quando ia ao shopping. Ela ria demais e ficava
olhando para eles para ver para onde eles estavam olhando. Mas tambm fui
surpreendida pela boca vermelha da minha me com o cigarro espetado para
cima e para fora e a fumaa saindo. Eu s tinha visto aquela me uma vez
antes -- na foto. Aquela me nunca tinha nos tido.
     -- Por que ela se matou?
     -- Essa  a pergunta que mais me preocupa quando no estou
preocupado com coisas como o assassinato da sua filha.
     Um sorriso estranho apareceu no rosto da minha me.
     -- Diz isso de novo -- falou ela.




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     -- O qu? -- Len olhou para o sorriso dela, teve vontade de estender a
mo e acompanhar seu contorno com a ponta dos dedos.
     -- O assassinato da minha filha -- disse minha me.
     -- Abigail, est tudo bem com voc?
     -- Ningum diz isso. Ningum no nosso bairro fala sobre isso. As pessoas
dizem "a horrvel tragdia" ou alguma outra variao. Eu s quero que algum
diga em voz alta. Ouvir isso ser dito em voz alta. Estou pronta -- antes no
estava.
     Minha me jogou seu cigarro no concreto e o deixou queimar. Segurou o
rosto de Len com as mos.
     -- Diz -- falou ela.
     -- O assassinato da sua filha.
     -- Obrigada.
     E vi aquela fina boca vermelha passar para o outro lado de uma linha
invisvel que separava minha me do resto do mundo. Ela puxou Len para mais
perto e o beijou na boca devagar. No incio ele pareceu hesitar. Seu corpo se
retesou, dizendo-lhe NO, mas esse NO se tornou vago e enevoado,
transformou-se em ar sendo sugado pelo exaustor do hidrante que zumbia ao
lado deles. Ela levantou a mo e desabotoou a capa de chuva. Ele ps a mo
em cima do tecido fino e transparente de sua camisola de vero.


                                               12
     Em sua necessidade, minha me era irresistvel. Quando criana, eu tinha
visto seu efeito sobre os homens. Quando amos s compras, vendedores se
ofereciam para encontrar os produtos em sua lista e nos ajudavam a levar as
compras at o carro. Como Ruana Singh, ela era conhecida por ser uma das
mes bonitas do bairro; nenhum homem que a conhecesse podia evitar um
sorriso. Quando ela fazia uma pergunta, seus coraes contrariados cediam.
     Mas ainda assim meu pai tinha sido o nico a espalhar o riso dela pelos
cmodos da casa e a fazer com que estivesse tudo bem se soltasse, de alguma
maneira, juntando horas extras aqui e ali e pulando a hora de almoo, meu pai
tinha conseguido voltar cedo do trabalho toda quinta-feira quando ramos
pequenos. Mas enquanto os fins de semana eram passados com a famlia, eles




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chamavam esse dia de "Hora da mame e do papai". Lindsey e eu o
comparvamos a um dia passado com as amigas. Significava que no
podamos fazer nenhum barulho e devamos ficar quietinhas do outro lado da
casa enquanto usvamos o quartinho ainda vazio do meu pai como quarto de
brincar.
     Minha me comeava a nos preparar por volta das duas.
     -- Hora do banho -- cantarolava ela, como se estivesse dizendo que
podamos sair para brincar. E no comeo era o que parecia. Ns trs corramos
cada uma para o seu quarto e vestamos nossos roupes. Nos encontrvamos
no corredor -- trs meninas -- e minha me nos pegava pela mo e nos
levava para nosso banheiro cor-de-rosa.
     Naquela poca ela nos falava sobre mitologia, que tinha estudado no
colgio. Gostava de nos contar histrias sobre Persfone e Zeus. Comprava-
nos livros ilustrados sobre os deuses nrdicos, que nos faziam ter pesadelos.
Tinha feito mestrado em lngua inglesa -- depois de brigar com unhas e
dentes com vov Lynn para conseguir estudar tanto -- e ainda tinha uma vaga
esperana de lecionar quando ns duas fssemos grandes o suficiente para
ficarmos sozinhas.
     Aquelas horas do banho se misturam, assim como todos os deuses e
deusas, mas aquilo de que mais me lembro  de ver as coisas atingirem minha
me enquanto eu olhava para ela, de como a vida que ela tinha desejado e sua
perda a atingiam em ondas. Como sua primognita, eu pensava que tinha sido
eu a levar embora todos aqueles sonhos do que ela queria ser.
     Minha me tirava Lindsey da banheira primeiro, secava-a e ouvia sua
conversa sobre patos e cortes. Ento me tirava da banheira e embora eu
tentasse ficar quieta a gua quente deixava minha irm e eu embriagadas, e
ns falvamos com minha me sobre tudo o que era importante para ns.
Meninos que nos provocavam, ou como outra famlia no quarteiro tinha um
cachorrinho e por que no podamos ter um tambm. Ela ficava ouvindo, sria,
como se estivesse anotando mentalmente os tpicos dos nossos desejos em
um caderninho que consultaria mais tarde.
     -- Bom, cada coisa em sua hora -- resumia ela. -- Isso quer dizer uma
boa soneca para vocs duas!




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     Ela e eu pnhamos Lindsey na cama juntas. Eu ficava do lado da cama
enquanto ela beijava minha irm na testa e tirava seu cabelo da frente do
rosto. Acho que para mim a competio comeou ali. Quem ganhava o melhor
beijo, quem passava mais tempo com mame depois do banho.
     Felizmente, eu sempre ganhava. Quando olho para trs agora vejo que
minha me tinha se tornado -- e muito rpido depois de eles se mudarem
para aquela casa -- solitria. J que eu era a mais velha, tornei-me sua melhor
amiga.
     Eu era nova demais para saber o que ela estava realmente me dizendo,
mas adorava adormecer com a suave cantiga de suas palavras. Uma das
bnos do meu cu  poder voltar para esses momentos, viv-los de novo, e
estar com minha me de um jeito que jamais poderia ter estado. Estendo os
traos atravs do Meio-Termo e seguro a mo dessa jovem me solitria.
     O que ela disse a uma criana de quatro anos sobre Helena de Tria:
"Uma mulher frvola que estragou tudo." Sobre Margaret Sanger: "Ela foi
julgada por sua aparncia, Susie. J que parecia um camundongo, ningum
esperava que fosse durar." Gloria Steinem: "Eu me sinto pssima, mas gostaria
que ela aparasse aquelas unhas." Nossos vizinhos: "Uma idiota de cala justa;
oprimida por aquele marido puritano; tipicamente provinciana, fica julgando
todo mundo."
     -- Voc sabe quem  Persfone? -- perguntou-me ela distrada uma
quinta-feira. Mas eu no respondi. A essa altura j tinha aprendido a ficar
calada quando ela me levava para o quarto. A minha hora e a hora da minha
irm eram no banheiro, quando ela nos secava com a toalha. Nessa hora
Lindsey e eu podamos falar sobre qualquer coisa. No quarto, era a hora da
mame.
     Ela pegou a toalha e a pendurou na maaneta da minha cama de
baldaquino.
     -- Imagine nossa vizinha, a sra. Tarking, como Persfone -- disse Abriu a
gaveta da penteadeira e me estendeu a calcinha. Ela sempre me passava a
roupa pea por pea, sem querer me pressionar. Logo cedo entendeu minhas
necessidades. Se eu soubesse que teria de amarrar cadaros no teria sido
sequer capaz de calar as meias.




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     -- Ela est usando um vestido comprido e branco, como um lenol e --
volta dos ombros, mas feito de um tecido bonito brilhante ou leve, com seda.
E cala sandlias feitas de ouro e est cercada de tochas, que so luzes? feitas
de chamas...
     Ela foi at a gaveta pegar minha camiseta e a passou distraidamente pela
minha cabea em vez de deixar que eu o fizesse. Uma vez minha me
embalada, eu podia tirar vantagem -- ser novamente um beb. Eu nunca
reclamava nem dizia estar crescida ou ser uma menina grande. Aquelas tardes
eram inteiramente dedicadas a ouvir minha me misteriosa.
     Ela afastou a grossa colcha de corda da Sears e eu me deitei no canto da
cama, encostada na parede. Nessa hora ela sempre olhava para o relgio e
depois dizia:
     -- S um pouquinho -- e tirava os sapatos e se deitava ao meu lado entre
os lenis.
     Para ns duas, aquilo era como se perder. Ela se perdia em sua histria. Eu
me perdia na fala dela.
     Ela me contava sobre a me de Persfone, Demter, ou sobre Cupido e
Psique, e eu a escutava at adormecer. Algumas vezes os risos dos meus pais
no quarto ao lado ou o som de quando faziam amor no fim da tarde me
acordavam. Eu ficava ali deitada, meio dormindo, escutando. Gostava de fingir
que estava no interior quentinho de algum barco de uma das histrias que
meu pai lia para ns, e que estvamos todos no oceano e as ondas batiam
suavemente nas laterais do barco. Os risos, o som baixo de gemidos abafados,
me faziam adormecer novamente.
     Mas ento a fuga da minha me, sua volta canhestra ao mundo exterior,
foi arruinada quando eu tinha 10 anos e Lindsey 9. Sua menstruao atrasou e
ela fez a fatdica viagem de carro at o mdico. Sob seu sorriso e suas
exclamaes para minha irm e para mim havia fissuras que levavam a algum
lugar bem dentro dela. Mas como eu no queria, como era uma criana, decidi
no seguir aquelas fissuras. Agarrei o sorriso como um prmio e entrei no pas
das maravilhas que era me perguntar se seria irm de um menininho ou de
uma menininha.
     Se eu tivesse prestado ateno, teria percebido sinais. Agora vejo a
mudana, como a pilha de livros na mesa de cabeceira dos meus pais mudou



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de catlogos das universidades da regio, enciclopdias de mitologia,
romances de James, Eliot e Dickens para as obras do dr. Spock. Em seguida
vieram os livros de jardinagem e de culinria at, no aniversrio dela dois
meses antes de eu morrer, eu pensar que o presente perfeito era Guia para
receber em casas e jardins mais bonitos. Ao perceber que estava grvida Dela
terceira vez, ela tirou a me mais misteriosa de cena. Presa durante anos atrs
daquele muro, aquela sua parte insatisfeita tinha crescido, no diminudo, e
com Len a necessidade de sair, de quebrar, de destruir, de anular se apoderou
dela. Seu corpo foi na frente, e em sua esteira ficariam os pedaos que
sobrassem.
     No foi fcil para mim testemunhar aquilo, mas eu testemunhei.
     Seu primeiro abrao foi apressado, desajeitado, apaixonado.
     -- Abigail -- disse Len, agora com as duas mos em sua cintura por baixo
da capa, uma de cada lado, com a camisola transparente mal formando um
vu entre as duas peles. -- Pense no que voc est fazendo.
     -- Cansei de pensar -- disse ela. Seus cabelos flutuavam acima de sua
cabea por causa do ventilador atrs deles -- formando uma aurola. Len
Discou enquanto olhava para ela. Maravilhosa, perigosa, selvagem.
     -- O seu marido -- disse ele.
     -- Me beija -- disse ela. -- Por favor.
     Eu estava vendo um pedido de misericrdia da minha me. Ela estava se
movendo fisicamente pelo tempo para fugir de mim. Eu no podia segur-la.
     Len beijou sua testa com fora e fechou os olhos. Ela pegou sua mo e a
colocou sobre o seio. Sussurrou em seu ouvido. Eu sabia o que estava
acontecendo. Sua raiva, sua perda, seu desespero. Toda a vida perdida
rodopiando em um arco naquele telhado, soterrando seu ser. Ela precisava
que Len tirasse l de dentro a filha morta.
     Ele a empurrou contra a superfcie de estuque da parede enquanto se
beijavam, e minha me se segurou nele como se do outro lado de seu beijo
pudesse haver uma nova vida.

                                               12
     No caminho de volta do ginsio para casa, eu algumas vezes parava no
final do nosso terreno e via minha me cortando grama com o cortador



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motorizado, entrando e saindo do meio dos pinheiros, e me lembrava ento
de como ela costumava assobiar de manh ao fazer seu ch e de como meu
pai, correndo para casa s quintas-feiras, levava-lhe cravos, e seu rosto se
acendia de prazer com uma luz amarelada. Eles eram profundamente,
separadamente, completamente apaixonados -- longe dos filhos minha me
podia reivindicar esse amor, mas com eles ela comeou a se afastar. Foi meu
pai quem se aproximou de ns com o passar dos anos: minha me se afastou.


                                               12
     Ao lado de sua cama de hospital, Lindsey tinha adormecido segurando a
mo do nosso pai. Minha me, ainda toda amassada, passou por Hal Heckler
na rea de visitantes, e no instante seguinte Len passou atrs. Hal no
precisava de mais nada. Agarrou seu capacete e saiu descendo o corredor.
     Depois de uma visita rpida ao banheiro feminino, minha me estava indo
em direo ao quarto do meu pai quando Hal a deteve.
     -- Sua filha est l dentro -- disse Hal, chamando-a. Ela se virou.
     -- Hal Heckler-- disse ele. -- Irmo do Samuel. Eu estava na homenagem.
     -- Ah, sim, desculpa. No reconheci voc.
     -- No  sua obrigao -- disse ele. Houve uma pausa desconfortvel.
     -- Ento, a Lindsey me ligou e eu a trouxe aqui faz uma hora.
     -- Ah.
     -- O Buckley est com um vizinho -- disse ele.
     -- Ah. -- Ela o estava encarando. Para ela, estava voltando  superfcie.
Usou o rosto dele como ponto de referncia.
     -- Est tudo bem com a senhora?
     -- Estou um pouco preocupada --  compreensvel, no?
     -- Perfeitamente -- disse ele, falando devagar. -- Eu s queria que a
senhora soubesse que a sua filha est l dentro com o seu marido. Eu vou
estar na rea de visitantes se precisarem de mim.
     -- Obrigada -- disse ela. Viu-o se afastar e ficou parada por um instante
ouvindo os saltos gastos de suas botas de motociclista ecoarem pelo cho de
linleo.




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     Ento ela voltou a si, forou-se a retornar para onde estava, sem perceber
por um segundo que tinha sido essa a inteno de Hal ao cumpriment-la.
     Dentro do quarto agora estava escuro, e a luz fluorescente atrs do meu o
ai tremeluzia to de leve que iluminava apenas as formas mais bvias. Minha
irm estava em uma cadeira puxada para perto da cama, com a cabea
descansando na grade lateral e a mo estendida para tocar meu pai. Meu pai,
profundamente sedado, estava deitado de costas. Minha me no podia saber
que eu estava ali com eles, que estvamos ali os quatro to diferentes agora
da poca em que ela punha Lindsey e eu na cama e ia fazer amor com o
marido, nosso pai. Agora ela via os fragmentos. Via que minha irm e meu pai,
juntos, tinham se tornado um fragmento. Ficou contente com isso.
     Eu tinha jogado um jogo de esconde-esconde de amor com minha mie
enquanto crescia, tentando obter sua ateno e sua aprovao de um jeito
que jamais tinha precisado fazer com meu pai.
     Eu no precisava mais brincar de esconde-esconde. Enquanto ela estava
ali em p no quarto escurecido, olhando para minha irm e meu pai, percebi
uma das coisas que o cu significava. Eu tinha uma escolha, e minha escolha
era no dividir minha famlia no meu corao.


                                               12
     Tarde da noite o ar acima dos hospitais e dos asilos de idosos muitas
vezes ficava coalhado de almas agitadas. Algumas vezes, nas noites em que
no conseguamos dormir, Holly e eu ficvamos olhando as almas. Acabamos
percebendo como aquelas mortes pareciam coreografadas de algum lugar
distante. No o nosso cu. Assim, comeamos a desconfiar que havia um lugar
mais abrangente do que aquele onde estvamos.
     No comeo Franny vinha olhar conosco.
     --  um dos meus prazeres secretos -- admitiu ela. -- Depois de todos
esses anos, ainda adoro ver as almas flutuando e rodopiando em bandos,
todas clamando ao mesmo tempo dentro do ar.
     -- No estou vendo nada -- disse eu daquela primeira vez.
     -- Olhe com ateno -- disse ela -- e fique quieta.




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    Mas eu as senti antes de v-las, pequenas fascas de calor subindo por
meus braos.Ento ali estavam elas,vaga-lumes se acendendo e se expandindo
com uivos e giros enquanto abandonavam seus corpos humanos.
    -- Parecem flocos de neve -- disse Franny. -- Nenhuma  igual  outra,
mas ao mesmo tempo, de onde estamos, cada uma delas  idntica  anterior.




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                                       Captulo 13



 A             o voltar para o ginsio no outono de 1974, Lindsey no s era a
               irm da menina assassinada, mas a filha do "maluco", "lel",
"biruta", e a segunda afirmao a feria mais por no ser verdade.
     Os boatos que Lindsey e Samuel escutaram nas primeiras semanas do ano
letivo coleavam pelas fileiras de escaninhos dos alunos como a mais
persistente das cobras. Agora o redemoinho havia aumentado e inclua
tambm Brian Nelson e Clarissa, que felizmente tinham entrado no cientifico
naquele ano.Em Pairfax, Brian e Clarissa se agarravam um ao outro, explorando
o que tinha lhes acontecido, usando a desgraa do meu pai como um verniz
de fama com o qual podiam se cobrir recontando pelo colgio o que tinha
acontecido naquela noite no milharal.
     Ray e Ruth passavam pelo lado de dentro da parede de vidro que dava
para o saguo externo. Nas pedras falsas onde supostamente ficavam
sentados os maus elementos, viam Brian presidindo sua corte. Naquele ano,
seu andar se transformou de espantalho ansioso em passo masculino. Clarissa,
rindo tanto de medo quanto de desejo, havia destrancado suas partes e
dormido com Brian. Por mais aleatoriamente que fosse, todo mundo que eu
tinha conhecido estava crescendo.


                                               12
     Buckley entrou no jardim de infncia naquele ano e imediatamente
chegou em casa a fim da professora, a srta. Koekle. Ela segurava sua mo com
tanta delicadeza sempre que tinha de lev-lo ao banheiro ou ajudar a explicar
um dever que sua fora era irresistvel. Por um lado ele se apartava disso -- ela
muitas vezes lhe dava um biscoito a mais as escondidas, ou uma almofada
mais macia para ele se sentar -- mas por outro lado era mantido acima e
afastado de seus colegas do jardim. Pela minha morte, ele tinha sido




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diferenciado no interior do nico grupo -- crianas -- onde poderia ter ficado
annimo.

                                               12
      Samuel deixava Lindsey em casa e depois descia a rua principal e pedia
carona at a oficina de motos de Hal. Contava com os amigos do irmo para
reconhec-lo, e alcanava seu destino levado por uma coleo inslita de
motos e caminhes que Hal ajustava para o motorista quando eles chegavam.
      Ele passou algum tempo sem entrar na nossa casa. Ningum que no
fosse da famlia entrava l. Em outubro, meu pai estava apenas comeando a
se levantar e andar. Os mdicos tinham lhe dito que sua perna direita seria
sempre dura, mas que se ele se alongasse e se mantivesse flexvel ela no seria
um obstculo muito grande. "No vai poder jogar beisebol, mas vai poder
fazer todo o resto", disse o cirurgio na manh seguinte  sua operao,
quando meu pai acordou e encontrou Lindsey ao seu lado e minha me em p
junto  janela olhando para o estacionamento l fora.
      Buckley saa direto do banho morno sob o calor da srta. Koekle e ia para
casa se refugiar na caverna vazia do corao do meu pai. Ele fazia perguntas
incessantes sobre o "joelho falso", e meu pai se afeioava mais a ele.
      -- O joelho veio do espao sideral -- dizia meu pai. -- Eles trouxeram de
volta pedaos da lua e os esculpiram, e agora usam para fazer coisas desse
tipo.
      -- Uau -- dizia Buckley sorrindo. -- Quando o Nate vai poder ver?
      -- Daqui a pouco, Buck, daqui a pouco -- dizia meu pai. Mas seu sorriso
ia enfraquecendo.
      Quando Buckley pegava essas conversas e as levava para minha me --
O joelho do papai  feito de osso de lua", dizia-lhe ele, ou "A srta. Koekle
disse que minhas cores ficaram muito boas" -- ela balanava a cabea. Tinha
se tornado consciente do que fazia. Cortava cenouras e aipo em pedaos
comveis. Lavava garrafas trmicas e lancheiras, e quando Lindsey Decidiu que
estava velha demais para usar lancheira minha me, para sua rrpria surpresa,
ficou feliz de verdade quando encontrou sacos de papel encerado que
impediam o almoo da filha de vazar e manchar suas roupas. Roupas que ela
lavava. Dobrava. Passava quando necessrio e pendurava em cabides. Catava



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do cho ou tirava do carro ou separava da toalha molhada em cima da cama
que arrumava todas as manhs, prendendo os lenis debaixo do colcho,
afofando os travesseiros e ajeitando bichos de pelcia, e abrindo as persianas
para deixar a luz entrar.
     Nos momentos em que Buckley a solicitava, ela muitas vezes fazia uma
troca. Focalizava a ateno nele por alguns minutos, e depois se permitia
afastar-se de sua casa e pensar em Len.


                                               12
     Em novembro, meu pai estava craque no que chamava de "destreza no
mancar", e quando Buckley insistia ele dava um pulinho contorcido que,
contanto que fizesse seu filho rir, no o fazia pensar no quo esquisito e
desesperado ele poderia parecer para um estranho ou para minha me. Todos,
com exceo de Buckley, sabiam o que estava se aproximando: o primeiro
aniversrio.
     Buckley e meu pai passavam as frias tardes de outono no quintal cercado
com Holiday. Meu pai se sentava na velha cadeira de jardim de ferro com a
perna esticada na frente do corpo e apoiada de leve em um cafona limpador
de botas que vov Lynn tinha encontrado em uma loja de curiosidades em
Maryland.
     Buckley jogava o brinquedo de vaca que fazia barulho enquanto Holiday
corria para peg-lo. Meu pai sentia prazer vendo o corpo gil do filho de 5
anos e ouvindo as risadas deliciadas dele quando Holiday o derrubava e o
cutucava com o focinho ou lambia seu rosto com a comprida lngua cor-de-
rosa. Mas no conseguia se livrar de uma ideia: aquilo tambm -- aquele
menino perfeito -- podia lhe ser tirado.
     Uma combinao de fatores, entre os quais seu ferimento no tinha
pouca importncia, o havia feito ficar em casa em uma licena mdica
prolongada da empresa em que trabalhava. Seu patro agora agia diferente
quando estava com ele, assim como seus colegas de trabalho. Eles passavam
na ponta dos ps do lado de fora de sua sala e paravam a alguns passos da
escrivaninha como se, caso relaxassem demais na sua presena, o que tinha
acontecido com ele fosse acontecer com eles -- como se ter um filho morto




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fosse contagioso. Ningum sabia como ele continuava a fazer o que fazia,
enquanto ao mesmo tempo queriam que escondesse todos os sinais de sua
dor, que os guardasse em uma pasta em algum lugar e os pusesse em uma
gaveta que ningum nunca mais teria de abrir. Ele telefonava sempre, e com a
mesma facilidade seu patro concordava que ele tirasse mais uma semana,
mais um ms, se precisasse, e ele considerava aquilo um prmio por sempre
ter chegado na hora ou aceitado trabalhar at tarde. Mas ele mantinha
distncia do sr. Harvey e tentava evitar qualquer pensamento a seu respeito.
No usava seu nome exceto em seu caderno, que mantinha escondido no
escritrio, onde foi surpreendentemente fcil combinar com minha me que
ela no faria mais faxina. Ele tinha pedido desculpas para mim em seu
caderno. "Preciso descansar, querida. Preciso entender como ir atrs desse
homem. Espero que voc entenda."
     Mas ele tinha marcado sua volta ao trabalho para o dia 2 de dezembro,
logo depois do dia de Ao de Graas. Queria estar de volta ao escritrio
quando chegasse o aniversrio do meu desaparecimento. Queria estar
funcionando e recuperando o tempo de trabalho perdido -- no lugar mais
pblico e distrativo que pudesse conceber. E longe da minha me, para ser
honesto consigo mesmo.
     Como nadar de volta para ela, como tornar a alcan-la. Ela estava se
distanciando cada vez mais -- toda sua energia estava contra a casa, e toda a
energia dele estava dentro da casa. Ele decidiu recuperar as foras e encontrar
uma estratgia para perseguir o sr. Harvey. Culpar era mais fcil do que somar
os nmeros cada vez mais altos daquilo que tinha perdido.


                                               12
     Vov Lynn viria para o dia de Ao de Graas, e Lindsey estava seguindo
um regime embelezador que vov tinha mandado para ela por carta. Tinha se
sentido boba da primeira vez em que ps pepinos nos olhos (para diminuir as
bolsas) ou mingau de aveia no rosto (para limpar os poros e absorver o
excesso de oleosidade) ou gema de ovo no cabelo (para faz-lo brilhar). Seu
uso de alimentos tinha at feito minha me rir, depois se perguntar se deveria
comear a se embelezar tambm. Mas isso durou s um segundo, porque ela




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estava pensando em Len no por estar apaixonada por ele, mas porque estar
com ele era o caminho mais rpido que ela conhecia para o esquecimento.
     Duas semanas antes da chegada da vov Lynn, Buckley e meu pai
estavam l fora no quintal com Holiday. Buckley e Holiday pulavam de uma
imensa pilha de folhas lustrosas de carvalho para outra em um jogo de pega-
pega cada vez mais frentico.
     -- Cuidado, Buck -- disse meu pai. -- Voc vai fazer o Holiday morder. --
E foi exatamente o que aconteceu.
     Meu pai disse que queria experimentar urna coisa.
     -- Precisamos ver se o seu velho pai consegue carregar voc nas costas
de novo. Daqui a pouco voc vai ficar grande demais.
     Ento, sem jeito, no lindo isolamento do quintal, onde se meu pai casse
s um menino e um cachorro que o amavam veriam, os dois trabalharam
juntos para fazer acontecer aquilo que ambos queriam -- aquela volta 
normalidade pai/filho. Quando Buckley ficou em p na cadeira de ferro --
"Agora monte nas minhas costas", disse meu pai, inclinando-se para a frente,
"e segure nos meus ombros", sem saber se teria fora suficiente pari levant-lo
dali -- cruzei os dedos com fora no cu e prendi a respirao. No milharal,
sim, mas nesse momento, consertando a trama mais bsica de suas vidas
cotidianas anteriores, enfrentando seu ferimento para recuperar um instante
como aquele, meu pai se tornou o meu heri.
     -- Abaixa, agora abaixa de novo -- dizia ele enquanto eles galopavam
pelas portas do andar de baixo e subiam as escadas, cada passo um desafio ao
equilbrio do meu pai, uma dor que causava uma careta. E com Holiday
passando correndo por eles nas escadas, e Buckley radiante enquanto subiam,
ele soube que tinha feito a coisa certa ao desafiar a prpria fora. Quando os
dois -- mais o cachorro -- descobriram Lindsey no banheiro de cima, ela
reclamou com um gemido alto.
     -- Paaaai!
     Meu pai endireitou o corpo. Buckley levantou a mo e tocou a frgil
luminria.
     -- O que voc est fazendo? -- perguntou meu pai.
     -- O que parece que eu estou fazendo?




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     Ela estava sentada em cima da tampa da privada enrolada em uma
grande toalha branca (as toalhas que minha me branqueava, as toalhas que
minha me pendurava no varal para secar, as toalhas que ela dobrava e punha
dentro de um cesto e levava para a rouparia no andar de cima...). Sua perna
esquerda estava apoiada na beirada da banheira, coberta de creme de
barbear. Ela estava segurando a gilete do meu pai.
     -- No seja petulante -- disse meu pai.
     -- Desculpa -- disse minha irm, baixando os olhos. -- Eu s quero um
pouco de privacidade, s isso.
     Meu pai suspendeu Buckley por cima da cabea.
     -- A bancada, a bancada, filho -- disse ele, e Buckley ficou encantado
com o ponto intermedirio ilegal da bancada do banheiro e com seus ps
enlameados que sujaram o ladrilho.
     -- Agora pula para baixo. -- E ele pulou. Holiday o encarava.
     -- Voc  nova demais para raspar as pernas, docinho -- disse meu pai.
     -- A vov Lynn comeou a se raspar com 11 anos.
     -- Buckley, pode ir para o seu quarto e levar o cachorro? Eu j estou indo.
     -- T bom, papai.
     Buckley ainda era um menininho que meu pai podia, com pacincia e
algumas manobras, suspender nos ombros para que pudessem ser um pai e
um filho tpicos. Mas agora ele via em Lindsey algo que causava uma dupla
dor. Eu era uma menininha na banheira, um beb sendo levantado at a altura
da pia, uma menina que tinha parado para sempre logo antes de se sentar
como minha irm estava sentada.
     Quando Bucklsey saiu, ele voltou a ateno para minha irm. Cuidaria de
suas duas filhas cuidando de uma s.
     -- Est tomando cuidado? -- perguntou ele.
     -- Acabei de comear -- disse Lindsey. -- Eu gostaria de ficar sozinha,
pai.
     -- Essa  a mesma lmina que estava a quando voc pegou a gilete no
meu kit de barbear?
     -- .
     -- Bom, a minha barba cega a lmina. Vou pegar uma nova para voc.




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     -- Obrigada, pai -- disse minha irm, e mais uma vez ela era a doce
lindsey que subia em suas costas.
     Ele saiu do banheiro e desceu o corredor at o outro lado da casa e o
banheiro de casal que ele e minha me ainda dividiam, embora j no
dormissem mais no mesmo quarto. Quando levantou o brao para pegar um
pacote de lminas novas no armrio, sentiu lgrimas no peito. Ignorou-as e se
concentrou no que estava fazendo. Naquele momento houve apenas um
pensamento vacilante: A Abigail deveria estar fazendo isso.
     Ele voltou com as lminas, mostrou a Lindsey como troc-las, e lhe deu
alguns conselhos sobre como raspar melhor as pernas.
     -- Cuidado com o tornozelo e o joelho -- disse ele. -- Sua me sempre
disse que essas so as zonas perigosas.
     -- Pode ficar se quiser -- disse ela, agora pronta para deix-lo entrar. --
Mas eu talvez fique toda cortada. -- Ela quis bater em si mesma. -- Desculpa,
pai -- disse ela. -- Olha, vou chegar para o outro lado -- sente aqui.
     Ela se levantou e foi se sentar na beirada da banheira. Abriu a torneira, e
meu pai se sentou em cima da tampa da privada.
     -- Tudo bem, querida -- disse ele. -- Faz algum tempo que no falamos
sobre a sua irm.
     -- E precisa falar? -- disse minha irm. -- Ela est em todo lugar.
     -- Seu irmo parece estar bem.
     -- Ele est colado em voc.
     -- E -- disse ele, e se deu conta de que gostava daquilo, daquela corte ao
pai que seu filho estava fazendo.
     -- Ai -- disse Lindsey, vendo um fino veio de sangue comear a se
espalhar pela espuma branca do creme de barbear. -- Mas que droga.
     -- Aperta o corte com o polegar. Vai parar de sangrar. Voc pode raspar
s o alto do joelho -- sugeriu ele. -- E isso que sua me faz a no ser quando
vamos  praia.
     Lindsey fez uma pausa.
     -- Vocs nunca vo  praia.
     -- Antes ns amos.
     Meu pai tinha conhecido minha me quando os dois trabalhavam no
Wanamaker's, durante as frias de vero da universidade. Ele tinha acabado de



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fazer um comentrio desagradvel sobre como a sala dos empregados
cheirava a cigarro quando ela sorriu e tirou do bolso seu ento habitual mao
de Pall Mall.
     -- Touch -- disse ele, e ficou ao lado dela apesar do cheiro ruim de seus
cigarros que o envolvia dos ps  cabea.
     -- Estou tentando decidir com quem eu me pareo -- disse Lindsey. --
Com a vov Lynn ou com a mame.
     -- Sempre pensei que tanto voc quanto sua irm se pareciam com a
minha me -- disse ele.
     -- Pai?
     -- O qu?
     -- Voc ainda est convencido de que o sr. Harvey teve alguma coisa a
ver com a histria?
     Foi como se um graveto finalmente criasse uma fagulha com outro
graveto -- a frico pegou.
     -- No existe uma dvida sequer na minha mente, querida. Nenhuma.
     -- Ento por que o Len no o prende?
     Ela subiu a gilete de qualquer maneira e terminou a,primeira perna. Ali
hesitou, esperando.
     -- Eu gostaria que fosse fcil de explicar -- disse ele, sentindo as palavras
se desenrolarem. Nunca tinha falado muito sobre sua suspeita com ningum.
-- Quando eu o conheci naquele dia, no quintal dele, e construmos aquela
tenda -- aquela que ele alegou ter construdo para a mulher, que eu pensava
se chamar Sophie e o Len anotou como Leah --, tinha alguma coisa nos
movimentos dele que me fez ter certeza.
     -- Todo mundo acha ele meio esquisito.
     --  verdade, eu sei disso -- disse ele. -- Mas tambm ningum nunca
falou muito com ele. No sabem se a esquisitice dele  benigna ou no.
     -- Benigna?
     -- Inofensiva.
     -- O Holiday no gosta dele -- sugeriu Lindsey.
     -- Exatamente. Nunca vi aquele cachorro latir to alto. Os pelos das
costas dele ficaram eriados naquela manh.
     -- Mas a polcia acha que voc est maluco.



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     -- "No h provas",  tudo o que conseguem dizer. Sem provas e --
desculpe, querida -- sem um corpo, eles no tm nada com o que trabalhar e
nenhum motivo para uma priso.
     -- O que seria um motivo?
     -- Acho que alguma coisa o ligando  Susie. Se algum o tivesse visto no
milharal ou at rondando o colgio. Alguma coisa assim.
     -- Ou se ele estivesse com alguma coisa dela? -- Tanto meu pai quanto
Lindsey estavam conversando animadamente, com a segunda perna dela
coberta de creme, mas ainda sem raspar, porque o que irradiava enquanto os
dois gravetos do seu interesse produziam uma chama era que eu estava
presente em algum lugar daquela casa. Meu corpo -- no poro, no primeiro
andar, no segundo andar, no sto. Para evitar enfrentar aquele pensamento
horrvel -- mas, ah, se fosse verdade, aquele pensamento to flagrante, to
perfeito, to conclusivo como prova -- eles se lembraram do que eu estava
usando naquele dia, do que eu estava carregando, da borracha do Frito
Bandito que eu adorava, do broche do David Cassidy que eu tinha pregado do
lado de dentro da mochila, do broche do David Bowie que eu tinha pregado
do lado de fora. Enumeraram todos os objetos e acessrios que cercavam o
que seria a melhor, a mais horrenda prova que algum poderia encontrar --
meu cadver cortado em pedaos, meus olhos vazios apodrecendo.
     Meus olhos: a maquiagem que vov Lynn tinha lhe dado ajudava, mas
no resolvia o problema do quanto todo mundo via os meus olhos nos olhos
de Lindsey. Quando eles apareciam -- um estojo de p compacto passando
na sua frente enquanto era usado por uma menina na carteira ao lado, ou um
reflexo inesperado na vitrine de uma loja -- ela olhava para o outro lado. Era
particularmente doloroso com meu pai. O que ela percebeu enquanto eles
conversavam foi que enquanto estivessem falando sobre esse assunto -- o sr.
Harvey, minhas roupas, minha mochila de livros, meu corpo, eu -- a ateno 
minha lembrana fazia meu pai v-la como Lindsey e no como uma trgica
combinao de suas duas filhas.
     -- Ento voc gostaria de poder entrar na casa dele? -- disse ela.
     Eles ficaram se olhando, com uma ideia perigosa comeando a surgir em
suas conscincias. Em sua hesitao, antes de ele finalmente dizer que feia
ilegal, e que no, ele no tinha pensado naquilo, ela soube que ele estava



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mentindo. Soube tambm que ele precisava de algum para fazer aquilo por
ele.
     -- Voc deveria terminar de se raspar, querida -- disse ele.
     Ela concordou com ele e se virou para o outro lado, sabendo o que tinha
escutado.

                                               12
      Vov Lynn chegou na segunda-feira antes do dia de Ao de Graas. Com
os mesmos olhos de raio laser que imediatamente procuravam qualquer
imperfeio desgraciosa na minha irm, ela agora via alguma coisa sob a
superfcie do sorriso de sua filha, em seus movimentos calmos, tranquilos e em
como seu corpo reagia sempre que o inspetor Fenerman ou o rrabalho da
polcia eram mencionados.
      Quando minha me recusou a ajuda do meu pai para tirar a mesa depois
do jantar naquela noite, os olhos de raio laser tiveram certeza. Decidida, e para
espanto de todos  mesa e alvio da minha irm -- vov Lynn fez um anncio.
      -- Abigail, vou ajudar voc a tirar a mesa. Vai ser uma coisa entre me e
filha.
      -- O qu?
      Minha me tinha calculado que poderia dispensar Lindsey depressa e com
facilidade e ento passaria o resto da noite debruada sobre a pia, lavando a
loua devagar e olhando pela janela at a escurido lhe mostrar seu prprio
reflexo. Os sons da TV iriam embora e ela ficaria sozinha de novo.
      -- Fiz as unhas ontem, -- disse vov Lynn depois de amarrar um avental
sobre o vestido trapzio bege -- ento vou secar.
      -- Me, srio. No precisa.
      -- Precisa sim, docinho, acredite em mim -- disse minha av. Havia algo
de sbrio e incisivo naquele "docinho".
      Buckley levou meu pai pela mo at o cmodo ao lado onde ficava a TV.
Eles tomaram seus lugares e Lindsey, tendo obtido uma trgua, subiu para
ligar para Samuel.
      Era uma coisa to estranha de se ver. To fora do normal. Minha av de
avental, segurando um pano de prato suspenso como a capa vermelha de um
toureiro, preparada para o primeiro prato que chegava.



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     Elas trabalharam caladas, e o silncio -- os nicos sons eram o chafurdar
das mos da minha me mergulhando na gua escaldante, os rangidos dos
pratos e o tilintar dos talheres -- fizeram o cmodo se encher de uma tenso
que ficou insuportvel. Os barulhos do jogo do cmodo ao lado eram
igualmente estranhos para mim. Meu pai nunca tinha assistido a futebol;
basquete era seu nico esporte. Vov Lynn nunca tinha lavado a loua; comida
congelada e entregas em domiclio eram suas armas preferidas.
     -- Ah, Jesus -- disse ela enfim. -- Pegue isso. -- Devolveu o prato recm-
lavado a minha me. -- Quero ter uma conversa sria, mas tenho medo de
deixar cair essas coisas. Vamos dar uma volta.
     -- Me, eu preciso...
     -- Voc precisa dar uma volta.
     -- Depois de lavar a loua.
     -- Escute -- disse minha av --, eu sei que eu sou o que sou e voc  o
que , ou seja, diferente de mim, coisa que a faz feliz, mas eu sei perceber
algumas coisas e sei que alguma coisa nada catlica est acontecendo aqui.
Capisce?
     O rosto da minha me oscilava, macio e malevel -- quase to macio e
malevel quanto sua imagem que flutuava na gua suja da pia.
     -- O qu?
     -- Tenho suspeitas e no quero falar sobre elas aqui.
     Positivo, vov Lynn, pensei. Nunca a tinha visto nervosa antes.
     Seria fcil para as duas sarem da casa sozinhas. Meu pai, com seu joelho,
nunca pensaria em acompanh-las, e naqueles dias, onde quer que meu pai
fosse ou no, meu irmo, Buckley, o acompanhava.
     Minha me ficou calada. No via alternativa. Na ltima hora, elas tiraram
os aventais na garagem e os empilharam no teto do Mustang. Minha me se
abaixou e levantou a porta da garagem.
     Ainda era bem cedo, de modo que haveria luz no comeo de seu passeio.
     -- Poderamos levar o Holiday -- tentou minha me.
     -- S voc e sua me -- disse minha av. -- O par mais assustador que se
poderia imaginar.
     Elas nunca tinham sido prximas. Ambas sabiam disso, mas no era algo
que reconhecessem muito. Brincavam com o assunto como duas crianas que



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no gostam especialmente uma da outra, mas so as nicas crianas em um
bairro grande e deserto. Agora, nunca tendo tentado antes, sempre tendo
deixado a filha correr o mais rpido que pudesse em qualquer direo que
quisesse, minha av descobriu que estava subitamente chegando mais perto.
     Elas j tinham passado pela casa dos O'Dwyer e estavam perto da dos
Tarking quando minha av disse o que tinha para dizer.
     -- Meu bom humor escondeu minha aceitao -- disse minha av. -- Seu
pai teve um caso longo em New Hampshire. A inicial do nome dela era F e eu
nunca soube o que significava. Ao longo dos anos descobri mil alternativas.
     -- Me?
     Minha av continuou andando, sem se virar. Descobriu que o ar frio do
outono ajudava, enchendo seus pulmes at ela senti-los mais limpos do que
dois minutos atrs.
     -- Voc sabia disso?
     -- No.
     -- Acho que eu nunca contei para voc -- disse ela. -- No achei que
precisasse saber. Agora precisa, voc no acha?
     -- No tenho certeza de por que voc est me dizendo isso.
     Elas tinham chegado  curva na rua que as faria dar novamente a volta na
rotatria. Se seguissem por ali e no parassem, acabariam indo dar na frente
da casa do sr. Harvey. Minha me congelou.
     -- Pobrezinha, pobrezinha do meu docinho -- disse minha av. -- Me d
a mo.
     Estavam pouco  vontade. Minha me podia contar nos dedos quantas
vezes seu alto pai tinha se inclinado para beij-la quando ela era criana. A
barba spera cheirando a uma colnia que, depois de anos de busca, ela
nunca tinha conseguido identificar. Minha av segurou sua mo e a manteve
segura enquanto tomavam a outra direo.
     Entraram em uma parte do bairro para onde parecia que cada vez mais
novas famlias estavam se mudando. As casas-ncora: lembro-me de minha
me t-las chamado assim porque elas margeavam a rua que passava por
todo o bairro -- porque ancoravam o bairro a uma rua original construda
antes de o distrito ser um distrito. A rua que levava a Valley Forge, a George
Washington e  Revoluo.



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     -- A morte da Susie me fez tornar a pensar no seu pai -- disse minha av.
-- Nunca me permiti lamentar direito a morte dele.
     -- Eu sei -- disse minha me.
     -- Isso a deixou chateada? Minha me fez uma pausa.
     -- Deixou.
     Minha av afagou as costas da mo da minha me com a mo livre.
     -- Que bom, est vendo, isso  um pedao.
     -- Pedao?
     -- Alguma coisa que est saindo disso tudo. Voc e eu. Um pedacinho de
verdade entre ns duas.
     Elas passaram pelos lotes de meio hectare em que rvores cresciam havia
20 anos. Se no eram exatamente imponentes, mesmo assim eram duas vezes
mais altas do que os pais que as tinham segurado pela primeira vez e
pisoteado a terra  sua volta com seus sapatos de trabalho de fim de semana.
     -- Voc sabe o quanto eu sempre me senti sozinha? -- perguntou minha
me  sua me.
     -- E por isso que estamos andando, Abigail -- disse vov Lynn.
     Minha me focalizou os olhos  sua frente, mas sua mo continuou a lig-
la  me. Pensou na natureza solitria de sua infncia. Em como, quando tinha
visto suas duas filhas amarrarem um barbante ligando dois copos de papel e ir
para quartos separados sussurrar segredos uma para a outra, no podia
realmente dizer que sabia o que era aquilo. Em sua casa no havia mais
ningum com ela a no ser sua me e seu pai, e depois seu pai tinha ido
embora.
     Fitou as copas das rvores que, a quilmetros de nossa rea de expanso,
eram as coisas mais altas por ali. Ficavam em cima de uma colina alta que
nunca tinha sido limpa para construir casas e onde alguns velhos agricultores
ainda moravam.
     -- No posso descrever o que estou sentindo -- disse ela. -- Para
ningum.
     Elas chegaram ao fim da rea de expanso bem na hora em que o sol
descia do outro lado da colina  sua frente. Um instante passou sem nenhuma
das duas se virar. Minha me viu a ltima luz tremeluzir em uma a de
drenagem no final da rua.



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     -- No sei o que fazer -- disse ela. -- Est tudo acabado agora.
     Minha av no teve certeza do que ela queria dizer com "tudo", mas no
a pressionou mais.
     -- Vamos voltar? -- sugeriu minha av.
     -- Como? -- disse minha me.
     -- Para casa, Abigail. Voltar para casa.
     Viraram-se e recomearam a andar. As casas, uma depois da outra, de
estrutura idntica. Apenas o que minha av considerava seus acessrios as
diferenciava. Ela nunca tinha entendido lugares como aquele -- lugares onde
sua prpria filha tinha decidido morar.
     -- Quando chegarmos  curva da rotatria -- disse minha me -- quero
passar l na frente.
     -- Da casa dele?
     -- .
     Vi vov Lynn se virar quando minha me se virou.
     -- Voc me promete que no vai mais ver esse homem? -- perguntou
minha av.
     -- Quem?
     -- O homem com quem voc est envolvida. E sobre isso que eu estava
falando.
     -- No estou envolvida com ningum -- disse minha me. Sua mente
voava como um pssaro de um telhado a outro. -- Me? -- disse ela, e se
virou.
     -- Abigail?
     -- Se eu precisar ir embora por algum tempo, posso usar a cabana do
papai?
     -- Voc ouviu o que eu disse?
     Elas podiam sentir um cheiro no ar, e mais uma vez a mente ansiosa, gil
da minha me se esquivou.
     -- Tem algum fumando -- disse ela.
     Vov Lynn encarava a filha. A dona-de-casa pragmtica e formal que
minha me sempre fora tinha desaparecido. Ela estava esquiva e distrada.
Minha av no tinha mais nada a lhe dizer.
     -- So cigarros importados -- disse minha me. -- Vamos encontr-los!



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     E na luz cada vez mais fraca minha av ficou olhando, boquiaberta, tainha
me comear a seguir o cheiro at sua origem.
     -- Eu vou voltar -- disse minha av.
     Mas minha me continuou andando.
     Logo encontrou a origem da fumaa. Era Ruana Singh, em p atrs de um
grande pinheiro no quintal dos fundos de sua casa.
     -- Oi -- disse minha me.
     Ruana no se assustou como pensei que faria. Sua calma tinha virado algo
ensaiado. Ela era capaz de manter a respirao constante durante o mais
surpreendente dos acontecimentos, fosse seu filho sendo acusado de
assassinato pela polcia ou seu marido conduzindo um jantar em sua casa
como se fosse uma reunio do comit acadmico. Ela tinha dito a Ray que ele
podia ir l para cima, e depois tinha desaparecido pela porta dos fundos r sua
falta no tinha sido notada.
     -- Sra. Salmon -- disse Ruana, exalando o cheiro forte de seus cigarros.
Em uma onda de fumaa e calor, minha me segurou a mo estendida de
Ruana. -- Que prazer em v-la.
     -- A senhora est dando uma festa? -- perguntou minha me.
     -- Meu marido est dando uma festa. Eu sou a anfitri. Minha me sorriu.
     -- Este lugar em que moramos  estranho -- disse Ruana.
     Seus olhos se encontraram. Minha me balanou a cabea, concordando.
Em algum lugar da rua l atrs estava sua me, mas, por enquanto, ela, assim
como Ruana, estava em uma tranquila ilha longe do continente.
     -- A senhora tem outro cigarro?
     -- Claro, sra. Salmon, tenho sim. -- Ruana ps a mo dentro do bolso de
seu comprido cardig preto e estendeu o mao e o isqueiro. -- Dunhill --
disse ela. -- Espero que sirva.
     Minha me acendeu seu cigarro e devolveu a Ruana o mao azul com seu
papel dourado.
     -- Abigail -- disse ela enquanto expirava. -- Por favor, me chame de
Abigail.
     L em cima em seu quarto, com as luzes apagadas, Ray sentia o cheire
dos cigarros da me, que ela nunca o acusava de roubar, assim como ele
nunca deixava escapar que sabia que ela os tinha. Ouvia as vozes no andar de



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baixo -- os sons altos do pai e de seus colegas falando seis lnguas diferentes
e rindo com gosto do dia de Ao de Graas prximo: ah, como aquele feriado
era tipicamente americano. No sabia que minha me estava l fora no
gramado com sua me ou que eu o estava vendo se sentar no peitoril de sua
janela e sentir o cheiro doce de tabaco. Logo sairia da janela e acenderia o
pequeno abajur ao lado da cama para ler. A sra. McBride tinha lhes dito para
achar um soneto sobre o qual gostariam de escrever um trabalho, mas lendo
os que tinha diante dos olhos em sua Norton Anthology ele no parava de
voltar ao instante que desejava poder recuperar e viver de novo. Se ao menos
ele tivesse me beijado no andaime, talvez tudo tivesse acontecido de forma
diferente.
     Vov Lynn continuou pelo caminho que tinha decidido com minha me, e
depois de algum tempo ali estava ela -- a casa que eles tentavam esquecer
morando a duas casas de distncia. O Jack tinha razo, pensou minha av.
Podia sentir aquilo at no escuro. O lugar irradiava alguma coisa malvola. Ela
teve um calafrio e comeou a ouvir os grilos e a ver os vaga-lumes se juntarem
em um enxame acima dos canteiros de flores dele. Pensou de repente que no
faria nada a no ser dar apoio  sua filha. Sua filha estava vivendo no meio de
uma zona devastada que nenhum caso de seu prprio marido podia ajud-la a
compreender. Pela manh, ela diria  minha me que as chaves da cabana
sempre estariam  sua disposio, caso ela precisasse.
     Naquela noite, minha me teve o que considerou um sonho maravilhoso.
Sonhou com a ndia, onde nunca tinha estado. Havia cones de trfego cor-de-
laranja e lindos insetos de lpis-lazli com mandbulas de ouro. Uma menina
estava sendo conduzida pelas ruas. Ela foi levada at uma pira onde foi
envolta em um lenol e colocada em cima de uma plataforma feita de
gravetos. O fogo brilhante que a consumiu levou minha me quele estado de
alegria profunda, leve, como um sonho. A menina estava sendo queimada viva,
mas antes disso houvera seu corpo, limpo e inteiro.




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                                      Captulo 14




 D          urante uma semana Lindsey ficou manjando a casa do meu
            assassino. Ela estava fazendo exatamente o que ele fazia com
todas as outras pessoas.
     Tinha concordado em treinar com o time de futebol dos meninos durante
o ano todo, preparando-se para o desafio que o sr. Dewitt e Samuel a
incentivavam a aceitar: entrar para a liga de futebol do colgio formada s por
meninos. E Samuel, para demonstrar seu apoio, treinava junto com ela sem
esperana de ser aceito como nada, dizia ele, a no ser como "o cara mais
rpido de short".
     Ele sabia correr, mesmo que chutar e passar e notar a presena de uma
bola em qualquer lugar ao seu redor estivessem fora de seu alcance. Assim,
enquanto corriam pelo bairro, todas as vezes que Lindsey olhava na direo da
casa do sr. Harvey, Samuel estava na sua frente, marcando o ritmo para ela --
sem perceber nada.
     Dentro da casa verde, o sr. Harvey olhava para fora. Ele a via olhando para
ele e comeou a ficar inquieto. Agora j fazia quase um ano, mas os Salmon
continuavam decididos a peg-lo.
     Aquilo j tinha acontecido em outras cidades e em outros estados. A
famlia de uma menina suspeitava dele, mas ningum mais suspeitava. Ele
tinha aperfeioado seu discurso para a polcia, uma certa inocncia obsequiosa
salpicada de admirao por seus procedimentos ou de ideias inteis que ele
apresentava como se pudessem ajudar. Falar do filho dos Ellis com Fenerman
tinha sido uma boa jogada, e a mentira de que era vivo sempre ajudava. Ele
criava uma esposa a partir de qualquer vtima que estivesse recentemente lhe
causando prazer em sua lembrana, e para personific-la sempre havia sua
me.




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     Todas as tardes ele saa de casa por uma ou duas horas. Comprava os
mantimentos de que precisava e ia de carro at Valley Forge Park, onde
percorria as estradas caladas e as trilhas de terra e se via subitamente
rodeado por excurses escolares para a cabana de madeira de George
Washington DU para a capela em homenagem a George Washington. Isso o
animava -- esses momentos em que as crianas estavam vidas para ver
histria, como se pudessem realmente encontrar um comprido cabelo grisalho
da peruca de Washington preso na ponta spera de uma tora de madeira.
     s vezes um dos guias da excurso ou uma das professoras o via ali em
p, desconhecido, embora simptico, e ele era alvo de um olhar curioso. Tinha
milhares de respostas para eles: "Eu costumava trazer meus filhos aqui." "Foi
aqui que conheci minha mulher." Tinha o cuidado de basear tudo o que dizia
em algum membro de uma famlia imaginria, e ento as mulheres sorriam
para ele. Certa vez, uma mulher atraente e grandona tentou comear uma
conversa com ele enquanto o guia do parque contava para as crianas a
histria do inverno de 1776 e da Batalha das Nuvens.
     Ele tinha usado a histria da viuvez e mencionado uma mulher chamada
Sophie Cichetti, transformando-a em sua esposa j falecida e seu verdadeiro
amor. Isso tinha sido como uma comida saborosa para aquela mulher, e
enquanto ele a ouvia falar sobre seus gatos e seu irmo, que tinha trs filhos,
que ela adorava, ele a imaginava sentada na cadeira de seu poro, morta.
     Depois disso,quando via o olhar zangado e curioso de alguma professora,
ele recuava timidamente e ia para algum outro lugar do parque. Via mes com
os filhos ainda no carrinho passarem depressa pelos caminhos Expostos. Via
adolescentes matando aula se beijarem nos campos no aparados ou nas
estradas interiores. E no ponto mais alto do parque havia um pequeno bosque
ao lado do qual ele parava de vez em quando. Ficava sentado no seu
Wagoneer e via homens solitrios pararem ao seu lado e descerem dos carros.
Homens de terno ou no horrio de almoo ou homens de camisas de flanela e
jeans entravam depressa naquele bosque. Algumas vezes lanavam um olhar
para trs na sua direo -- uma pergunta. Se estivessem perto o suficiente,
esses homens podiam ver, atravs de seu para-brisa, o que suas vtimas viam
-- seu selvagem e infindvel desejo.




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                                               12
      No dia 26 de novembro de 1974, Lindsey viu o sr. Harvey sair da casa
verde, e comeou a ficar para trs do grupo de meninos que corria. Mais tarde
poderia alegar ter ficado menstruada e todos se calariam, e ficariam at
satisfeitos por isso ser uma prova de que o pouco popular plano do sr. Dewitt
-- uma menina no campeonato regional! -- nunca daria certo.
      Eu olhava minha irm e ficava maravilhada. Ela estava virando tudo ao
mesmo tempo. Mulher. Espi. Atleta. O Ostracizado: O Homem S.
      Ela comeou a andar, apertando a barriga para simular uma elica, e
acenou para os meninos continuarem quando eles se viraram para olhar para
ela. Continuou andando com a mo na cintura at eles virarem a esquina no
final do quarteiro. No final do terreno do sr. Harvey havia uma fileira de
pinheiros altos e grossos que no eram podados h anos. Ela se sentou ao
lado de um, ainda fingindo exausto, caso algum vizinho estivesse olhando
pela janela, e ento, quando sentiu que era o momento certo, enrolou-se
formando uma bola com o corpo e rolou entre dois pinheiros. Esperou. Ainda
faltava uma volta para os meninos. Ela os viu passar por ela e os seguiu com
os olhos enquanto pegavam um atalho pelo lote vazio e voltavam para o
cientfico. Estava sozinha. Calculava ter quarenta e cinco minutos antes de
nosso pai comear a se perguntar se ela j tinha chegado. O acordo era que,
se ela fosse treinar com o time de futebol masculino, Samuel a levasse em casa
antes das cinco horas.
      As nuvens tinham pairado pesadas no cu durante todo o dia, e o frio do
final do outono fazia suas pernas e braos se arrepiarem. As corridas em grupo
sempre a aqueciam, mas quando ela chegava ao vestirio onde dividia os
chuveiros com o time de hquei comeava a tremer at a gua quente bater
em seu corpo. Mas, no gramado da casa verde, seus arrepios eram de medo
tambm.
      Quando os meninos entraram no atalho, ela rolou at a janela do poro
na lateral da casa do sr. Harvey. J tinha pensado em uma histria, caso fosse
pega. Estava perseguindo um gatinho que tinha visto correr para o meio dos
pinheiros. Diria que ele era cinza, que corria rpido, que tinha corrido na
direo da casa do sr. Harvey e que ela o tinha seguido sem pensar.



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      Ela podia ver o interior do poro, onde estava escuro. Tentou a janela,
mas o trinco estava fechado por dentro. Teria que quebrar o vidro. Pensando
rpido, ficou preocupada com o barulho, mas tinha ido longe demais para
parar agora. Pensou no meu pai em casa, sempre de olho no relgio perto de
sua cadeira, e tirou o casaco de moletom e o enrolou em volta dos ps.
Sentando-se, apoiou o corpo com os braos e depois chutou uma vez, duas
vezes, trs vezes com os dois ps at a janela se partir -- um barulho abafado.
      Com cuidado, passou o corpo para dentro, procurando na parede um
apoio para o p, mas tendo que pular os ltimos metros e aterrissar em cima
do vidro partido e do concreto.
      O cmodo parecia limpo e varrido, diferente do nosso prprio poro,
onde montes de caixas com nomes de feriados -- OVOS DE PSCOA E
GRAMA VERDE, ESTRELA DE NATAL/ENFEITES -- nunca voltavam para cima
das prateleiras que meu pai tinha construdo.
      O ar frio de fora entrou,e ela sentiu o vento em seu pescoo empurrando-
a para fora do semicrculo de vidro partido em direo ao resto do modo. Viu
a poltrona e uma mesinha do lado. Viu o grande despertador com nmeros
luminosos em cima da prateleira de metal. Eu queria guiar os olhos dela para o
forro, onde ela encontraria os ossos dos animais, mas sabia tambm que, por
mais que tivesse desenhado o olho de uma mosca em papel milimetrado e de
ter tirado a nota mxima na aula do sr. Botte naquele outono, ela pensaria que
os ossos eram meus. Por isso fiquei contente quando ela no chegou perto
deles.
      Apesar da minha incapacidade de aparecer ou sussurrar, empurrar ou
conduzir, Lindsey, sozinha, sentiu alguma coisa. Alguma coisa carregava o ar
frio e mido do poro e a fazia se encolher. Ela estava a poucos metros da
janela aberta, sabendo que de qualquer maneira andaria mais para dentro da
casa, e que de qualquer maneira tinha que se acalmar e se concentrar em
procurar pistas;mas naquela hora,por um instante,pensou em Samuel correndo
na sua frente, achando que iria encontr-la em sua ltima volta, depois
correndo de volta em direo ao colgio, achando que iria encontr-la do lado
de fora, depois supondo, mas com um primeiro sinal de dvida, que ela estava
tomando banho, ento ele tambm estaria tomando banho agora, e depois
esperando por ela antes de fazer qualquer outra coisa. Quanto tempo ele



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poderia esperar? Enquanto seus olhos subiam as escadas at o primeiro andar
antes de seus ps irem atrs, ela desejou que Samuel estivesse ali para descer
atrs dela e acompanhar seus movimentos, apagando sua solido enquanto
prosseguia, seguindo seus passos. Mas no tinha contado para ele de
propsito -- no tinha contado para ningum. O que ela estava fazendo
passava dos limites -- era um crime -- e ela sabia disso.
     Se pensasse a respeito depois, diria que tinha precisado de ar e que por
isso tinha subido as escadas. Pequenos fragmentos de poeira branca se
juntaram nos bicos dos seus sapatos enquanto ela subia as escadas, mas ela
no percebeu.
     Girou a maaneta da porta do poro e chegou ao primeiro andar. Apenas
cinco minutos tinham passado. Ela ainda tinha quarenta, ou assim pensava.
Ainda havia um pouco de luz entrando pelas persianas fechadas. Em p,
hesitante, naquela casa idntica  nossa, ela ouviu o som seco do Evening
Bulletin batendo na varanda e o entregador tocando a campainha de sua
bicicleta ao passar.
     Minha irm disse a si mesma que estava dentro de uma srie de cmodos
e espaos que, percorridos metodicamente, poderiam produzir aquilo de que
precisava, fornecer-lhe o nico trofu que poderia levar para casa para nosso
pai, conseguindo assim se libertar de mim. Sempre a competio, mesmo
entre os vivos e os mortos. Viu as pedras do piso da entrada -- do mesmo
verde-escuro e cinza das nossas -- e imaginou-se engatinhando atrs de mim
quando era beb e eu estava comeando a aprender a andar. Ento viu meu
corpo de beb se afastando encantado para longe dela, para o cmodo ao
lado, e lembrou-se de sua prpria sensao de se lanar, de dar os primeiros
passos enquanto eu a provocava da ala de estar.
     Mas a casa do sr. Harvey era muito mais vazia do que a nossa, e no havia
nenhum tapete para tornar a decorao mais calorosa. Lindsey saiu das pedras
e pisou no cho de pinho polido do que na nossa casa era a sala de estar. Ela
fazia ecos no hall de entrada aberto, recebendo de volta o som de rida um de
seus movimentos.
     No conseguia fazer as lembranas pararem de esbarrar nela. Todas
causavam um estrondo brutal. Buckley descendo as escadas montado nos
meus ombros. Nossa me me equilibrando enquanto Lindsey olhava, invejosa



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por eu poder alcanar o alto da rvore de Natal com a estrela de prata nas
mos. Eu deslizando corrimo abaixo e dizendo-lhe para vir comigo. Ns duas
implorando para nosso pai nos dar os quadrinhos depois do jantar. Ns todos
correndo atrs de Holiday que latia sem parar. E os incontveis sorrisos
exaustos que enfeitavam artificialmente nossos rostos para fotos de
aniversrio, e fotos de frias, e fotos depois do colgio. Duas irms vestidas de
forma idntica, de veludo ou xadrez ou amarelo na cada por algo pesado, uma
mosca presa no funil de uma teia de aranha, a seda grossa se amarrando  sua
volta. Sabia que nosso pai tinha entrado no milharal possudo por alguma
coisa que estava se infiltrando dentro dela agora. Queria levar de volta pistas
que ele pudesse usar como escada para subir de volta at ela, ancor-lo com
fatos, lastrear suas frases para Len. Em vez disso, via-se caindo atrs dele em
um abismo sem fundo.
     Tinha vinte minutos.
     Dentro daquela casa minha irm era o nico ser vivo, mas ela no estava
sozinha, e eu no era sua nica companhia. A arquitetura da vida do meu
assassino, os corpos das meninas que ele tinha deixado para trs, comeou a
se revelar para mim agora que minha irm estava naquela casa. Eu estava no
cu. Comecei a dizer o nome delas:

    Jackie Meyer. Delaware, 1967. 13 anos.

    Uma cadeira derrubada, com os fundos de frente para o quarto. Deitada
encolhida virada para a cadeira, ela vestia uma camiseta listrada e mais nada.
Perto de sua cabea, uma pequena poa de sangue.

    Flora Hernandez. Delaware, 1963. 8 anos.

    Ele s queria tocar nela, mas ela gritou. Uma menina pequena para sua
idade. Sua meia e seu sapato esquerdos foram encontrados depois. O corpo
nunca foi recuperado. Os ossos estavam enterrados no poro de terra de uma
velha casa de apartamentos.

    Leah Fox. Delaware, 1969. 12 anos.




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     Em um sof forrado debaixo do acesso a uma autoestrada, ele a matou,
muito silenciosamente. Adormeceu em cima dela, ninado pelo som dos os
zunindo acima deles. S dez horas depois, quando um sem-teto bateu na
pequena cabana que o sr. Harvey tinha construdo com portas abandonadas
foi que ele comeou a empacotar suas coisas e o corpo de Leah Fox.


    Sophie Cichetti, Pensilvnia, 1960. 49 anos.

     Proprietria, ela havia dividido seu apartamento de cima em dois
construindo uma parede de gesso. Ele gostava da janela em meia-lua que isso
Pscoa. Segurvamos cestas de coelhinhos e ovos que tnhamos mergulhado
em corante. Sapatos de verniz com tiras e fivelas duras. Sorrindo muito
enquanto nossa me tentava achar o foco de sua mquina fotogrfica. As
fotos sempre fora de foco, nossos olhos pontos vermelhos brilhantes.
Nenhuma delas, esses artefatos deixados para a minha irm, guardariam para
a posteridade os instantes antes e os instantes depois, quando ns duas
meninas brincvamos na casa ou brigvamos por algum brinquedo. Quando
ramos irms.
     Foi ento que ela viu. Minhas costas correndo para o cmodo seguinte.
Nossa sala de jantar, a sala onde ficavam as casas de bonecas prontas dele. Eu
era uma criana correndo bem na sua frente.
     Ela saiu correndo atrs de mim.
     Perseguiu-me pelos cmodos do primeiro andar e, embora estivesse
treinando muito para o futebol, foi incapaz de recuperar o flego ao voltar
para o hall de entrada. Comeou a ficar tonta.
     Pensei no que minha me sempre tinha dito sobre um menino no nosso
ponto de nibus que tinha o dobro da nossa idade, mas ainda estava na
primeira srie.
     -- Ele no conhece sua prpria fora, ento precisam ter cuidado com ele.
-- Ele gostava de dar abraos de urso em qualquer pessoa que fosse legal
com ele, e era possvel ver seu ridculo amor inundar seu rosto e despertar seu
desejo de tocar. Antes de ele ser retirado do colgio normal e mandado para
algum outro lugar onde ningum falava a respeito, tinha abraado uma
menininha chamada Daphne e apertado tanto que ela caiu na rua quando ele



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a soltou. Eu estava empurrando o Meio-Termo com tanta fora para chegar
at Lindsey que de repente senti que poderia machuc-la quando minha
inteno era ajudar.
     Minha irm ficou sentada nos largos degraus no fundo do hall de entrada
e fechou os olhos, concentrando-se em recuperar o flego, em por que estava
na casa do sr. Harvey para comeo de conversa. Sentia-se cercada, e o aluguel
era barato. Mas ela falava demais sobre o filho e insistia em ler para ele
poemas de um livro de sonetos. Ele fez amor com ela na sua metade do
quarto dividido, esmagou seu crnio quando ela comeou a falar, e levou seu
corpo para a margem do riacho ali perto.

    Leidia Johnson. 1960. 6 anos.

    Condado de Buck, Pensilvnia. Ele escavou uma caverna com teto
abaulado dentro de uma colina perto da pedreira e esperou. Ela foi a mais
nova.


    Wendy Richter. Connecticut, 1971. 13 anos.

    Ela estava esperando o pai do lado de fora de um bar. Ele a estuprou nos
arbustos e depois a estrangulou. Dessa vez, quando voltou a si, saindo do
estupor que muitas vezes durava algum tempo, ouviu barulhos. Virou o rosto
da menina morta na direo do seu e, quando as vozes se aproximaram,
mordeu sua orelha.
    -- Desculpe, cara -- ouviu dois bbados dizerem enquanto entravam nos
arbustos prximos para fazer xixi.
    Eu agora via essa cidade de tmulos flutuantes, frios e castigados pelo
vento, para onde iam as vtimas de assassinato na mente dos vivos. Podia ver
suas outras vtimas ocupando sua casa -- aqueles restos de lembrana
deixados para trs antes de elas fugirem desta terra --, mas naquele dia as
deixei ir embora e fui para junto da minha irm.
    Lindsey se levantou no instante em que tornei a prestar ateno nela.
Juntas, ns duas subimos as escadas. Ela se sentia como os zumbis dos filmes
que Samuel e Hal adoravam. Um p na frente do outro, olhando para a frente
com um olhar vazio. Chegou ao que era o quarto dos meus pais na nossa casa



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e no encontrou nada. Percorreu o hall do andar de cima. Nada. Ento entrou
no que tinha sido meu quarto na nossa casa, e encontrou o do meu assassino.
      Era o quarto menos desocupado da casa, e ela fez o possvel para no
tirar nada do lugar. Passou a mo entre os suteres empilhados na prateleira,
preparada para encontrar qualquer coisa em seu interior aquecido -- uma
faca, uma arma, uma caneta Bic mastigada por Holiday. Nada. Mas ento,
enquanto ouvia alguma coisa, mas no conseguia identificar o que era, ela se
virou para a cama e viu a mesa de cabeceira e, bem dentro do crculo de luz
de um abajur deixado aceso, o caderno de desenho dele. Correu para l e
ouviu outro som, de novo, sem juntar os dois sons. Carro chegando. Carro
freando com um rangido. Porta do carro batendo.
      Virou as pginas do caderno e viu os desenhos feitos  tinta de vigas e
suportes ou torretas e plataformas, e viu as medidas e anotaes, nenhuma
das quais significava nada para ela. Ento, enquanto virava a ltima pgina,
pensou ouvir passos do lado de fora e muito perto.
      Enquanto o sr. Harvey girava a chave na fechadura da sua porta da frente,
ela viu o leve desenho a lpis na pgina  sua frente. Era um pequeno desenho
de galhos acima de um buraco escavado, um detalhe mais para o lado de uma
prateleira e de como uma chamin podia eliminar a fumaa de uma fogueira, e
a coisa que chamou sua ateno: em uma caligrafia fina e angulosa ele tinha
escrito "milharal de Stolfuz". No fossem os artigos de jornal depois da
descoberta do meu cotovelo, ela no teria sabido que o milharal pertencia a
um homem chamado Stolfuz. Eu tinha morrido dentro daquele buraco; eu
tinha gritado e lutado e perdido.
      Ela arrancou a pgina. O sr. Harvey estava na cozinha preparando algo
para comer -- a salsicha de que mais gostava, uma tigela de uvas verdes
doces. Ouviu uma tbua ranger. Retesou o corpo. Ouviu outra e suas costas se
levantaram e se expandiram com sbita compreenso.
      As uvas caram no cho para serem esmagadas pelo p esquerdo,
enquanto minha irm no quarto de cima pulava para as persianas de alumnio
e destrancava a janela emperrada. O sr. Harvey subiu as escadas dois degraus
de cada vez, e minha irm rasgou a tela, pulando para o telhado da varanda e
rolando para baixo enquanto ele chegava no hall de cima e vinha voando em




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sua direo. A calha quebrou quando o corpo dela passou. Quando ele
chegou em seu quarto, ela caiu em cima dos arbustos e das saras e da terra.
     Mas ela estava intacta. Gloriosamente intacta. Gloriosamente jovem.
Levantou-se no instante em que ele chegava na janela para pular para o outro
lado. Mas ele parou. Viu-a correndo em direo ao sabugueiro. O nmero
serigrafado em suas costas gritava para ele. 5! 5! 5!
     Lindsey Salmon com sua camisa de futebol.


                                               12
     Samuel estava sentado com meus pais e vov Lynn quando Lindsey
chegou em casa.
     -- Ah, meu Deus -- disse minha me, a primeira a v-la atravs das
pequenas janelas quadradas que emolduravam os dois lados da nossa porta
da frente.
     E quando minha me abriu a porta Samuel j tinha corrido para preencher
o espao aberto, e ela entrou, sem olhar para minha me nem mesmo para
meu pai que se aproximava mancando, direto para o abrao de Samuel.
     -- Meu Deus, meu Deus, meu Deus -- disse minha me enquanto
constatava a sujeira e os cortes.
     Minha av veio postar-se ao seu lado.
     Samuel ps a mo na cabea da minha irm e alisou seus cabelos.
     -- Onde voc estava?
     Mas Lindsey se virou para nosso pai, to diminuda agora -- pequena,
mais fraca do que esta criana zangada. O quanto ela estava viva tinha me
atormentado naquele dia.
     -- Papai?
     -- O que foi, querida?
     -- Eu fui l. Eu entrei na casa dele. -- Ela estava tremendo um pouco e
tentando no chorar.
     Minha me recuou:
     -- Voc o qu?
     Mas minha irm no olhou para ela, nenhuma vez sequer.
     -- Eu trouxe isso para voc. Achei que pudesse ser importante.




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     Ela havia guardado o desenho na mo, amassado com fora, formando
uma bola. Aquilo tinha dificultado sua aterrissagem, mas ela havia escapado
mesmo assim.
     Uma expresso que meu pai tinha lido naquele dia surgiu na sua cabea
nessa hora. Ele a disse em voz alta enquanto olhava Lindsey nos olhos.
     -- No h nenhuma condio  qual algum se ajuste to rpido quanto
um estado de guerra.
     Lindsey entregou-lhe o desenho.
     -- Vou pegar o Buckley -- disse minha me.
     -- Voc no quer nem olhar para isso, me?
     -- No sei o que dizer. Sua av est aqui. Preciso fazer compras, cozinhar
um peru. Ningum parece perceber que temos uma famlia. Temos uma
famlia, uma famlia e um filho, e eu estou indo.
     Vov Lynn acompanhou minha me at a porta dos fundos, mas no
tentou det-la.
     Depois que minha me saiu, minha irm estendeu a mo para Samuel.
Meu pai viu o que Lindsey tinha visto na caligrafia fina e angulosa do sr.
Harvey: a possvel planta baixa do meu tmulo. Levantou os olhos.
     -- Voc acredita em mim agora? -- perguntou ele a Lindsey.
     -- Acredito, papai. Meu pai -- muito agradecido -- precisava dar um
telefonema.
     -- Pai -- disse ela.
     -- O qu?
     -- Acho que ele me viu.


                                               12
     Eu nunca poderia ter imaginado uma bno maior para mim do que a
segurana fsica da minha irm naquele dia. Enquanto ia embora do mirante,
eu tremia com o medo que tinha sentido, com a possibilidade de sua perda na
Terra, no apenas para meu pai, minha me, Buckley e Samue. Mas,
egoisticamente, sua perda na Terra para mim.
     Franny caminhou na minha direo vinda da lanchonete. Mal levante: a
cabea.




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     -- Susie -- disse ela. -- Tenho uma coisa para lhe dizer.
     Ela me conduziu at debaixo de um dos postes antiquados e depois para
longe da luz. Entregou-me um pedao de papel dobrado em quatro.
     -- Quando se sentir mais forte, olhe o papel e v at l.
     Dois dias mais tarde, o mapa de Franny me levou a um campo pelo qual
eu sempre passava, mas que, embora fosse lindo, nunca tinha explorado. O
desenho tinha uma linha pontilhada indicando um caminho. Procurando com
nervosismo, busquei uma entrada nas interminveis fileiras de ps de trigo.
Logo na minha frente eu a vi, e quando comecei a andar entre as fileiras o
papel se dissolveu na minha mo.
     Eu podia ver uma velha e linda oliveira logo em frente.
     O sol estava alto, e na frente da oliveira havia uma clareira. Esperei apenas
um instante antes de ver o trigo do outro lado comear a pulsar com a
chegada de algum mais baixo do que os caules.
     Ela era pequena para sua idade, como tinha sido na Terra, e usava um
vestido florido pudo na bainha e nos punhos.
     Ela parou e olhamos uma para a outra.
     -- Eu venho aqui quase todo dia -- disse ela. -- Gosto de escutar os sons.
Percebi que ao nosso redor o trigo farfalhava enquanto se movia com o vento.
     -- Voc conhece a Franny? -- perguntei. A menininha assentiu
solenemente.
     -- Ela me deu um mapa deste lugar.
     -- Ento voc deve estar pronta -- disse ela, mas tambm estava no seu
cu, e isso exigia rodopios e sua saia voando em crculos. Sentei-me no cho
debaixo da rvore e fiquei olhando para ela.
     Quando ela terminou, veio na minha direo e se sentou, sem flego.
     -- Eu era a Flora Hernandez -- disse ela. -- Qual era o seu nome?
     Eu lhe disse, e ento comecei a chorar de alvio, por conhecer outra
menina que ele havia matado.
     -- As outras vo chegar daqui a pouco -- disse ela.
         E enquanto Flora rodopiava, outras meninas e mulheres chegaram do
campo em todas as direes. A dor de cada uma de ns foi se derramando
dentro das outras como gua passando de copo em copo. Todas as vezes que
eu contava a minha histria, perdia um pedacinho, uma minscula gota de



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dor. Foi naquele dia que eu soube que queria contar a histria da minha
famlia. Porque o horror na Terra  real e acontece todos os dias.  como uma
flor ou como o sol; no pode ser contido.




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                                       Captulo 15




 N             o incio ningum os parava, e sua me gostava tanto gorjeio da
               risada dela quando eles dobravam a esquina de algum loja e ela
               desembrulhava e mostrava para ele o objeto roubado, que
George Harvey ria tambm e, percebendo uma oportunidade, a abraava
enquanto ela estava ocupada com seu mais novo prmio.
      Era um alvio para ambos sair de perto de seu pai  tarde e seguir de carro
at a cidade prxima para comprar comida ou outros mantimentos. Na melhor
das hipteses eram sucateiros, e ganhavam dinheiro juntando pedaos de
metal e garrafas velhas e levando-as para a cidade na caamba plana do velho
caminho de Harvey pai.
      Quando sua me e ele foram pegos pela primeira vez, os dois foram
tratados com educao pela mulher da caixa registradora.
      -- Se puderem pagar por isso, paguem. Se no puderem, deixem no
balco como se fosse novo -- disse ela animada, piscando o olho para um
George Harvey de 8 anos. Sua me tirou o pequeno frasco de vidro de aspirina
do bolso e o colocou envergonhada sobre o balco. O rosto dela perdeu o
vio.
      -- To ruim quanto o filho -- repreendia com frequncia seu pai.
      Ser pego tornou-se outro instante de sua vida que causava medo --
aquela sensao nauseante apertando-lhe o estmago como ovos sendo
mexidos dentro de uma tigela -- e ele podia ver pelos rostos srios e olhos
duros quando a pessoa descendo o corredor em sua direo era ura
empregado da loja que tinha visto uma mulher roubando.
      E ela comeou a entregar os objetos roubados para ele os esconder em
seu corpo, e ele o fazia porque ela queria que fizesse. Quando saam e iam
embora no caminho, ela sorria e batia no volante com a palma da mo e o
chamava de seu pequeno cmplice. A cabine se enchia com seu amor




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selvagem e imprevisvel, e por algum tempo -- at ele se dissipar e eles verem
algo cintilando na beira da estrada que teriam de investigar para o que sua
me chamava de "possibilidades" -- ele se sentia livre. Livre e protegido.


                                               12
     Lembrava-se do conselho que ela tinha lhe dado da primeira vez em que
passaram por um trecho de estrada no Texas e viram uma cruz de madeira
branca ao lado da estrada. Ao p da cruz havia montinhos de flores frescas e
mortas. Seus olhos de sucateiro foram imediatamente atrados pelas cores.
     -- Voc precisa conseguir ver atravs dos mortos -- disse sua me. --
Algumas vezes h boas bugigangas para se tirar deles.
     Mesmo naquela poca ele podia sentir que estava fazendo algo errado.
Os dois desceram do caminho e foram at a cruz, e os olhos de sua me se
transformaram nos dois pontos negros que ele estava acostumado a ver
quando procuravam. Ela encontrou um amuleto em forma de olho e outro em
forma de corao e os estendeu para George Harvey ver.
     -- No sei o que seu pai faria com isso, mas podemos ficar com eles, s
eu e voc.
     Ela tinha um estoque de coisas secretas que nunca mostrava ao pai dele.
     -- Voc quer o olho ou o corao?
     -- O olho -- disse ele.
     -- Acho que estas rosas esto frescas o suficiente para levar, vo ficar
bonitas no caminho.
     Naquela noite eles dormiram no caminho, incapazes de fazer a viagem
de volta at onde seu pai estava trabalhando em um emprego temporrio
partindo e separando tbuas com a mo.
     Dormiram os dois encolhidos um junto do outro como faziam com
alguma frequncia, transformando o interior da cabine em um ninho
desconfortvel. Sua me, como um cachorro mordendo um cobertor, ficava
mudando de lugar em seu assento e se mexendo. Depois das lutas iniciais.
George Harvey tinha percebido que era melhor ficar mole e deix-la mov-lo
como quisesse. At sua me estar confortvel, ningum dormia.




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      No meio da noite, enquanto ele sonhava com o interior macio dos
palcios dos livros de figuras que tinha visto em bibliotecas pblicas, algum
bateu no teto, e George Harvey e sua me levantaram num susto. Eram trs
homens, olhando pelas janelas de um modo que George Harvey reconhecia.
Era o olhar que seu prprio pai tinha algumas vezes quando estava bbado. O
olhar tinha um efeito duplo: ele todo estava direcionado para sua me e
simultaneamente eliminava o filho.
      Ele sabia que no deveria gritar.
      -- Fica quieto. Eles no esto aqui para voc -- sussurrou-lhe ela. Ele
comeou a tremer sob os velhos cobertores de exrcito que os cobriam.
      Um dos trs homens estava de p na frente do caminho. Os outros dois
batiam dos dois lados do teto do caminho, rindo e pondo a lngua para fora.
      Sua me sacudiu a cabea com veemncia, mas aquilo s fez enraivec-
los. O homem na frente do caminho comeou a sacudir os quadris para trs e
para a frente contra a dianteira, o que fez os outros dois homens rirem mais
alto.
      -- Vou me mexer devagar -- sussurrou sua me -- e fingir que vou sair
do caminho. Quero que voc estenda a mo para frente e gire as chaves na
ignio quando eu disser.
      Ele sabia que estava escutando algo muito importante. Que ela precisava
dele. Apesar da calma ensaiada, podia ouvir o tom metlico da voz dela, o
ferro surgindo agora atravs do medo.
      Ela sorriu para os homens, e enquanto eles davam vivas e seus corpos
relaxavam usou o cotovelo para pr o cmbio no lugar.
      -- Agora -- disse ela com uma voz montona sem entonao, e Gorge
Harvey estendeu a mo e girou as chaves. O caminho ganhou vida com seu
velho motor ruidoso.
      Os rostos dos homens mudaram, perdendo sua alegria aquisitiva e em
seguida, enquanto ela dava r por uma boa distncia, eles a seguiam com m
olhos, enchendo-se de incerteza. Ela ps o cmbio na posio de andar e
gritou:
      -- No cho! -- para o filho. Ele pde sentir o impacto do corpo do
homem batendo no caminho a poucos metros de onde estava encolhido l
dentro. Ento o corpo foi suspenso at o teto. Ficou ali por um segundo at



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sua me dar r novamente. Ele tinha tido um instante de clareza sobre como a
vida deveria ser vivida: no como uma criana, nem como uma mulher. Eram
as duas piores coisas que se podia ser.


                                               12
     Seu corao tinha batido freneticamente enquanto ele via Lindsey correr
em direo  cerca-viva de sabugueiro, mas depois, imediatamente, ele tinha
se acalmado. Era uma habilidade que sua me, no seu pai, tinha me ensinado
-- s agir depois de calcular o pior desfecho possvel para cada alternativa
disponvel. Ele viu o caderno de rascunho mexido e a pgina faltando em seu
caderno de desenhos. Verificou o saco com a faca, levou a faca consigo para o
poro e a jogou no buraco quadrado aberto no alicerce com uma furadeira.
Da prateleira de metal, tirou o monte de amuletos que guardava das mulheres.
Tirou a pedra angular da Pensilvnia da minha pulseira e a segurou na mo.
Boa sorte. Espalhou os outros em seu leno branco e juntou as quatro pontas
para formar um pequeno saco. Ps a mo dentro do buraco debaixo do
alicerce e se deitou de bruos no cho para enfiar o brao l dentro at o
ombro. Tateou, procurando com os dedos livres da mo enquanto os outros
seguravam o saco, at encontrar a protuberncia enferrujada de um suporte
de metal por cima do qual os pedreiros tinham derramado o cimento.
Pendurou sua trouxa de trofus ali e depois retirou o brao e ficou em p. J
tinha enterrado o livro de sonetos naquele vero na floresta de Valley Forge
Park, livrando-se das provas devagar como sempre fazia; agora ele esperava
que no tivesse sido devagar demais.
     No mximo cinco minutos tinham passado. Eles poderiam ser atribudos
ao choque ou  raiva. A verificao do que todo mundo pensava serem
objetos de valor -- suas abotoaduras, seu dinheiro, suas ferramentas. Mas ele
sabia que no podia demorar muito mais do que isso. Precisava chamar a
polcia.
     Forou-se a subir as escadas. Andou de um lado para o outro por alguns
instantes, inspirando e expirando depressa, e quando a telefonista atendeu
controlou a voz.




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     -- Minha casa foi arrombada. Preciso da polcia -- disse ele, elaborando o
roteiro do comeo da sua verso da histria enquanto em seu ntimo calculava
com que rapidez poderia ir embora e o que podia levar consigo.


                                               12
     Quando meu pai ligou para a delegacia, pediu para falar com Len
Fenerman. Mas eles no sabiam onde Fenerman estava. Meu pai foi informado
que dois oficiais uniformizados j tinham sido enviados para investigar. O que
encontraram quando o sr. Harvey atendeu  porta foi um homem choroso e
perturbado e que sob todos os aspectos, com exceo de uma certa sensao
de asco que os oficiais atriburam  viso de um homem que se permitia
chorar, pareceu estar respondendo racionalmente aos acontecimentos
alegados.
     Embora a informao sobre o desenho que Lindsey tinha pegado
houvesse sido transmitida pelo rdio, os oficiais ficaram mais impressionados
pela sugesto espontnea do sr. Harvey de que revistassem sua casa. Ele
tambm parecia sincero em sua compaixo pela famlia Salmon.
     Os oficiais foram ficando pouco  vontade. Vasculharam a casa por alto e
no encontraram nada, com exceo das provas do que consideravam ser uma
solido extrema e de um quarto cheio de lindas casas de boneca no secundo
andar, onde mudaram de assunto e lhe perguntaram h quanto tempo ele as
construa.
     Mais tarde disseram ter percebido uma mudana imediata e amigvel no
comportamento dele. Ele entrou em seu quarto e pegou o caderno de
rascunhos, sem mencionar nenhum desenho roubado. A polcia registrou sua
amabilidade cada vez maior enquanto ele lhes mostrava os rascunhos para as
casas de boneca. Fizeram sua pergunta seguinte com delicadeza.
     -- Senhor -- disse um oficial --, podemos lev-lo para a delegacia para
mais perguntas, e o senhor tem direito a um advogado presente, mas...
     O sr. Harvey o interrompeu.
     -- Eu me disponho a responder a qualquer pergunta aqui. Sou eu a vtima
do crime, embora no tenha inteno de prestar queixa contra aquela pobre
menina.




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     -- A jovem que arrombou a sua casa -- comeou o outro oficial -- levou
uma coisa. Era um desenho do milharal com uma espcie de estrutura...
     O modo como Harvey absorveu aquilo, diriam os oficiais ao inspetor
Fenerman, foi imediato e muito convincente. Ele tinha uma explicao que
adaptava com tanta perfeio que eles no imaginaram que ele oferecesse o
menor risco -- em grande parte porque no o viam em primeiro lugar e,
principalmente, como um assassino.
     -- Ah, a pobre menina -- disse ele. Levou os dedos aos lbios franzidos.
Virou-se para seu caderno de rascunho e o folheou at chegar a um desenho
muito parecido com o que Lindsey tinha pegado.
     -- Est aqui, era um desenho parecido com este, no era? -- Os oficiais
-- agora espectadores -- assentiram. -- Eu estava tentando entender --
confessou o sr. Harvey. -- Admito que o horror da histria me obcecou. Acho
que todos no bairro tentaram pensar em como poderiam ter evitado aquilo.
Por que no ouviram nada, no viram nada. Quero dizer, sem dvida, a menina
gritou.
     -- Agora olhem aqui -- disse ele aos dois homens, apontando para seu
desenho com uma caneta. -- Perdoem-me, mas eu penso em termos de
estruturas, e depois de ouvir quanto sangue havia no milharal e a aparncia
revirada da rea onde ele foi encontrado, decidi que talvez... -- Ele olhou para
eles, prestando ateno em seus olhos. Ambos os oficiais estavam
acompanhando seu raciocnio. Queriam acompanhar seu raciocnio. No
tinham pistas, no tinham corpo, no tinham provas. Talvez aquele homem
estranho tivesse uma teoria que pudessem usar. -- Bom, que a pessoa que fez
aquilo tinha construdo alguma coisa debaixo da terra, um buraco, e depois
confesso que comecei a me preocupar com ele e a detalh-lo como fao com
as casas de boneca, e pus uma chamin e uma prateleira, e bom, isso  s um
hbito que eu tenho. -- Ele fez uma pausa. -- Tenho muito tempo livre.
     -- Ento, funcionou? -- perguntou um dos dois oficiais.
     -- Sempre achei que tivesse razo.
     -- Por que o senhor no nos telefonou?
     -- Eu no ia trazer de volta a filha deles. Quando o inspetor Fenerman me
entrevistou eu mencionei como suspeitava do filho dos Ellis, e no final estava




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redondamente enganado. No quis me intrometer com mais uma das minhas
teorias de amador.
     Os oficiais pediram desculpas pelo fato de que no dia seguinte o inspetor
Fenerman iria visit-lo de novo, mais provavelmente querendo tornar a
examinar o mesmo material.Ver o caderno de desenhos,ouvir as consideraes
do sr. Harvey sobre o milharal. O sr. Harvey aceitava tudo isso como um dos
deveres de um civil zeloso,muito embora fosse ele quem tivesse sido vitimado.
Os oficiais documentaram o caminho da minha irm da janela quebrada do
poro at a sada pela janela do quarto. Conversaram sobre os danos, dos
quais o sr. Harvey disse que se encarregaria,enfatizando que estava consciente
da imensa dor que Salmon pai tinha demonstrado muitos meses atrs, e como
ela agora parecia estar contaminando a irm da pobre menina.


                                               12
     Vi as chances de captura do sr. Harvey diminurem ao mesmo tempo em
que via o ncleo da minha famlia tal como eu a tinha conhecido se incendiar.
     Depois de pegar Buckley na casa de Nate, minha me parou em um
telefone pblico do lado de fora da loja de convenincia na estrada 30. Disse a
Len para encontr-la em uma loja vulgar e barulhenta no shopping certo da
mercearia. Ele saiu de casa imediatamente. Enquanto tirava o carro da
garagem, o telefone da casa dele estava tocando, mas ele no escutou. Estava
dentro da cpsula de seu carro, pensando na minha me, em como aquilo
tudo era errado e depois em como ele no conseguia lhe dizer no, por
motivos que no podia manter na cabea tempo suficiente para analisar ou
negar.
     Minha me percorreu de carro a curta distncia entre a mercearia e o
shopping e conduziu Buckley pela mo para dentro das portas de vidro at cm
crculo rebaixado onde os pais podiam deixar seus filhos brincando enquanto
faziam compras.
     Buckley estava encantado.
     -- O crculo! Posso? -- disse ele, e viu seus colegas pulando da cama
elstica e dando saltos mortais no piso de borracha.
     -- Voc quer mesmo, querido? -- perguntou-lhe ela.




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      -- Por favor -- disse ele.
      Ela fez aquilo parecer uma concesso materna.
      -- Tudo bem -- disse ela. E ele partiu na direo de um escorrega de
metal vermelho. -- Comporte-se -- gritou ela atrs dele. Nunca o tinha
deixado brincar ali sem ela.
      Ela deixou o nome dele com o monitor que supervisionava o crculo de
brinquedos e disse que ia fazer compras no subsolo perto do Wanamaker's.
      Enquanto o sr. Harvey explicava sua teoria sobre o meu assassinato,
minha me sentiu a mo de algum roar a parte de trs de seus ombros
dentro de uma loja vulgar chamada Spencer's. Virou-se com um alvio ansioso,
apenas para ver as costas de Len Fenerman saindo da loja. Passando por
mscaras que brilhavam no escuro, bolas de plstico preto, chaveiros de
monstros peludos e uma enorme caveira risonha, minha me foi atrs dele.
      Ele no se virou. Ela continuou a segui-lo, primeiro animada e depois
irritada. Entre cada passo havia tempo suficiente para pensar, e ela no queria
pensar.
      Finalmente, ela o viu destrancar uma porta branca que nunca tinha
percebido, incrustada na parede.
      Ela sabia pelos barulhos mais adiante no corredor escuro que Len a tinha
levado para as entranhas do shopping -- o sistema de filtragem de ar ou a
bomba d'gua. Ela no ligava. Na escurido, imaginou-se dentro do prprio
corao, e uma viso do desenho ampliado no consultrio do seu mdico
surgiu em sua mente e ao mesmo tempo ela viu meu pai, com seu avental de
papel e suas meias pretas, sentado na beirada da mesa de exame enquanto o
mdico explicava para eles os perigos de uma congesto cardaca. No instante
em que ela estava prestes a sucumbir  dor, a gritar e tropear e entrar em um
estado de confuso, chegou ao final do corredor. Este dava para um cmodo
grande de trs andares que latejava e zumbia e pelo qual estavam espalhadas
pequenas luzes montadas desordenadamente em tanques e tambores de
metal. Ela parou e tentou ouvir outro som que no o estrondo ensurdecedor
do ar sendo sugado para fora do shopping e recondicionado para ser jogado
para dentro de novo. Nada.
      Vi Len antes de ela o ver. Em p, sozinho na escurido quase completa,
ele a olhou por um instante, localizando o desejo nos olhos dela. Sentia muito



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por meu pai, por minha famlia, mas mergulhou naqueles olhos. "Eu poderia
me afogar nesses olhos, Abigail", ele queria dizer para ela, mas sabia que isso
no lhe seria permitido.
      Minha me comeou a distinguir cada vez mais formas em meio ao
emaranhado confuso de metal brilhante, e por um instante pude sentir o
cmodo comear a lhe bastar, aquele territrio estranho bastar para acalm-la.
Era a sensao de que nada podia atingi-la.
      No fosse pelas mos de Len se estendendo e roando seus dedos com
as pontas dos seus, eu poderia t-la guardado s para mim ali. O cmodo
poderia ter continuado a ser simplesmente um curto perodo de frias de sua
vida como a sra. Salmon.
      Mas ele a tocou, e ela se virou. Mesmo assim, no conseguia olhar para
ele de verdade. Ele aceitou essa ausncia da parte dela.
      Fiquei tonta ao ver aquilo e me segurei no banco do mirante, engolindo
ir. Ela nunca poderia saber, pensei, que enquanto agarrava os cabelos de Len e
ele estendia a mo at a base de sua coluna, puxando-a mais para perto, que
o homem que tinha me assassinado estava conduzindo dois oficiais at a
porta da frente da sua casa.
      Senti os beijos enquanto eles desciam pelo pescoo da minha me e
chegavam ao peito, como pequenas e leves pegadas de camundongo, e como
as ptalas de flores caindo que realmente eram. Ruinosas e maravilhosas ao
mesmo tempo. Eram sussurros chamando-a para longe de mim e de sua
famlia e de sua dor. Ela os seguiu com o corpo.
      Enquanto Len segurava sua mo e a afastava da parede at o
emaranhado de canos onde o barulho l em cima aumentava de volume, o sr.
Harvey comeava a empacotar seus pertences; meu irmo conhecia uma
menininha brincando de bambol no crculo; minha irm e Samuel ficavam
deitados um do lado do outro na cama dela, completamente vestidos e
nervosos; minha av entornava trs doses de bebida na sala de jantar vazia.
Meu pai olhava o telefone.
      Minha me agarrou o casaco e a camisa de Len com avidez, e ele a
ajudou. Ficou olhando enquanto ela puxava as prprias roupas, tirando o
suter por cima da cabea, depois o vestido abotoado atrs e a blusa de gola
rul, at ficar s de calcinha e combinao. Ele a encarava.



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     Samuel beijou a parte de trs do pescoo da minha irm. Ela cheirava a
sabo e antissptico e, mesmo naquele momento, ele teve vontade de no
deix-la jamais.
     Len estava prestes a dizer alguma coisa; pude ver minha me reparar em
seus lbios no instante em que estavam se abrindo. Mas ela fechou os olhos e
ordenou ao mundo que se calasse -- gritando as palavras dentro de seu
crnio. Tornou a abrir os olhos e olhou para ele. Ele estava calado, com a boca
contrada. Ela passou a combinao de algodo por cima da cabea e tirou a
roupa de baixo. Minha me tinha o meu corpo como ele jamais seria. Mas
tinha sua prpria pele plida, seus olhos de oceano. Estava oca e perdida e
abandonada.
     O sr. Harvey deixou sua casa pela ltima vez enquanto minha me via seu
desejo mais temporal ser atendido. Encontrar uma porta que lhe permitisse
sair de seu corao arruinado em um misericordioso adultrio.




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                                       Captulo 16




   E       xatamente um ano depois da minha morte, o sr. Singh ligou para
           dizer que no iria jantar em casa. Mas Ruana faria seus exerccios de
qualquer maneira. Se quando estivesse se alongando no tapete, no nico lugar
quente que a casa parecia ter no inverno, ela no pudesse evitar virar e revirar
em sua mente as ausncias do marido, deixaria se consumir por tias at seu
corpo lhe implorar para parar de pensar nele e se concentrar -- enquanto se
inclinava para a frente, com os braos agora estendidos em direo aos dedos
do p -- e para se mover, para isolar seu crebro e se esquecer de tudo com
exceo da leve e agradvel sensao dos msculos se alongando e do
prprio corpo se dobrando.
     Descendo quase at o cho, a janela da sala de jantar era interrompida
apenas pelo rodap de metal da calefao, que Ruana gostava de manter
desligada porque os barulhos que fazia a incomodavam. L fora, ela podia a
cerejeira, j sem nenhuma folha nem flor. O comedouro de pssaros o
balanava suavemente em seu galho.
     Ela se alongou at se aquecer bastante e perder a noo de si mesma, e a
em que estava se distanciar dela. Sua idade. Seu filho. Mas a imagem seu
marido ainda se esgueirava em sua direo. Ela teve uma premonio. No
acreditava que fosse uma mulher, nem mesmo uma aluna que a venerava, que
o fazia chegar atrasado com cada vez mais frequncia. Ela ria o que era porque
era algo que ela tambm tinha tido e do qual tinha aberto mo depois de sua
contuso muito tempo atrs. Era ambio.
     Ento ela ouviu sons. Holiday latindo duas ruas mais adiante e o cachorro
dos Gilbert respondendo e Ray andando no andar de cima. Como uma
bno, Jethro Tull irrompeu de novo, calando todo o resto.
     Com exceo do eventual cigarro, que fumava o mais escondido possvel
para no dar permisso a Ray para fazer o mesmo, ela havia se mantido em




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boa sade. Muitas das mulheres do bairro comentavam sobre como ela se
mantinha em boa forma e algumas tinham lhe perguntado se ela se importaria
em lhes mostrar como fazia, embora ela sempre tivesse considerado esses
pedidos apenas seu jeito de comear uma conversa com sua solitria vizinha
estrangeira. Mas quando se sentou em posio de sukhasana, e sua respirao
diminuiu de ritmo at ficar profunda, ela no conseguiu relaxar inteiramente e
se soltar. A ideia preocupante do que faria quando Ray fosse ficando mais
velho e seu marido trabalhasse cada vez mais esgueirou-se pelo interior de
seu p e por seu tornozelo at atrs de seu joelho e comeou a subir em seu
colo.
      A campainha da porta tocou.
      Ruana ficou feliz com essa oportunidade de escapar, e embora fosse uma
pessoa para quem a ordem tambm era uma espcie de meditao ela se
levantou, amarrou na cintura um xale que estava pendurado nas costas de
uma cadeira e, com a msica de Ray descendo pela escada, foi at a porta.
Pensou apenas por um instante que pudesse ser um vizinho. Um vizinho
reclamando -- da msica -- e ela vestida de collant vermelho e xale.
      Ruth estava na porta, segurando uma sacola de compras.
      -- Oi -- disse Ruana. -- Posso ajudar?
      -- Eu vim ver o Ray.
      -- Entra.
      Tudo isso precisou ser meio gritado por cima do barulho vindo l de cima.
Ruth entrou no hall de entrada.
      -- Sobe -- gritou Ruana, apontando para a escada.
      Vi Ruana absorver a cala larga impermevel de Ruth, seu suter de gola
rul, sua parca. Eu poderia comear com ela, pensou Ruana consigo mesma.


                                               12
     Ruth estava na mercearia com a me, quando viu as velas entre os Tratos
de papel e os garfos e colheres de plstico. Naquele dia, no colgio, tinha
estado muito consciente de que data era aquela, e embora o que tivesse feito
at agora -- ficado deitada na cama lendo A redoma de vidro, ajudado a me
a limpar o que seu pai insistia em chamar de casinha de ferramentas e ela




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considerava a casinha da poesia, e a acompanhado at a mercearia -- no
fosse nada capaz de marcar o aniversrio da minha morte, estava determinada
a fazer alguma coisa.
     Quando viu as velas, soube imediatamente que encontraria o caminho da
casa de Ray e lhe pediria para ir com ela. Por causa de seus encontros no
circulo de lanamento, os alunos do colgio os tinham transformado em um
casal apesar de todas as provas em contrrio. Ruth podia desenhar quantos
nus femininos quisesse e enrolar cachecis na cabea e escrever trabalhos
sobre Janis Joplin e protestar com veemncia contra a opresso de ter de
raspar as pernas e axilas. Aos olhos de seus colegas de Fairfax, ela continuava
sendo uma menina esquisita que tinha sido encontrada B-E-I-J-A-N-D-O um
menino esquisito.
     O que ningum entendia -- e eles no conseguiam sequer pensar em
contar para ningum -- era que aquilo tinha sido uma experincia entre eles.
Ray s tinha beijado a mim, e Ruth nunca tinha beijado ningum, ento,
juntos, tinham decidido se beijar e ver o que acontecia.
     -- No estou sentindo nada -- disse Ruth depois, quando os dois
estavam deitados sobre as folhas de bordo debaixo de uma rvore atrs do
estacionamento dos professores.
     -- Eu tambm no -- admitiu Ray.
     -- Voc sentiu alguma coisa quando beijou a Susie?
     -- Senti.
     -- O qu?
     -- Que queria mais. Naquela noite eu sonhei que a beijava de novo e
perguntei se ela estava pensando a mesma coisa.
     -- E sexo?
     -- Eu no tinha chegado a esse ponto ainda -- disse Ray. -- Agora beijo
voc e no  a mesma coisa.
     -- A gente podia continuar tentando -- disse Ruth. -- Eu topo, se voc
no contar para ningum.
     -- Achei que voc gostasse de meninas -- disse Ray.
     -- Vou fazer um trato com voc -- disse Ruth. -- Voc pode fingir que eu
sou a Susie e eu finjo tambm.
     -- Voc  completamente pirada -- disse Ray sorrindo.



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     -- Est dizendo que no quer? -- provocou Ruth.
     -- Me mostra seus desenhos de novo.
     -- Eu posso ser pirada -- disse Ruth, tirando o caderno de desenhos da
bolsa -- ele agora estava cheio de nus que ela tinha copiado da Playboy,
aumentando ou diminuindo a escala de vrias partes e acrescentando pelos e
dobras onde eles tinham sido retirados -- mas pelo menos no tenho tara por
carvo vegetal.
     Ray estava danando pelo quarto quando Ruth entrou. Estava de culos,
que tentava no usar no colgio porque eram grossos e seu pai s tinha
concordado em comprar a armao mais barata, mais difcil de quebrar. Vestia
jeans que estavam largos e manchados e uma camiseta que Ruth imaginava, e
eu sabia, ter sido usada para dormir.
     Parou de danar assim que a viu no vo da porta segurando a sacola de
compras. Suas mos se levantaram imediatamente e tiraram os culos, e
ento, sem saber o que fazer com eles, ele os usou para acenar para ela.
     -- Oi.
     -- Pode abaixar isso? -- gritou Ruth.
     -- Claro! Quando o barulho parou, seus ouvidos zumbiram por um
segundo, e naquele segundo ela viu alguma coisa passar pelos olhos de Ray.
     Ele estava agora do outro lado do quarto, e entre eles havia sua cama,
onde os lenis estavam amarfanhados e embolados e acima da qual estava
pendurado um desenho que Ruth tinha feito de mim de memria.
     -- Voc pendurou o desenho -- disse Ruth.
     -- Acho ele muito bom.
     -- Voc e eu e mais ningum.
     -- Minha me acha ele bom.
     -- Ela  intensa, Ray -- disse Ruth, colocando a sacola no cho. -- No 
 toa que voc  to estranho.
     -- O que tem na sacola?
     -- Velas -- disse Ruth. -- Comprei na mercearia. Hoje  6 de dezembro.
     -- Eu sei.
     -- Achei que a gente podia ir ao milharal e acender as velas. Dizer tchau.
     -- Quantas vezes voc consegue dizer tchau?
     -- Foi s uma ideia -- disse Ruth. -- Eu vou sozinha.



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     -- No -- disse Ray. -- Eu vou.
     Ruth se sentou ainda vestindo a jaqueta e as calas impermeveis e o
esperou trocar de camisa. Ela o via de costas para ela, via como ele era magro,
mas tambm como os msculos pareciam pipocar em seus braos da maneira
como deveriam e via a cor da sua pele, como a de sua me, to mais
convidativa do que a dela, Ruth.
     -- A gente pode se beijar um pouco se voc quiser.
     E ele se virou, sorrindo. Tinha comeado a gostar das experincias. No
estava mais pensando em mim -- embora no pudesse dizer isso para Ruth.
     Ele gostava do jeito como ela dizia palavres e detestava o colgio, tava
de como ela era inteligente e de como tentava fingir que no ligava para o
fato de o pai dele ser mdico (mesmo que no fosse mdico de verdade,
como ela mesma assinalou) e do pai dela recuperar objetos de casas velhas,
ou dos Singh terem fileiras e mais fileiras de livros em casa enquanto ela no
tinha quase nenhum.
     Ele se sentou ao lado dela na cama.
     -- Quer tirar sua parca?
     Ela tirou.
     Assim, no aniversrio da minha morte, Ray se agarrou com Ruth e os dois
se beijaram e em determinado momento ela o encarou.
     -- Merda! -- disse ela. -- Acho que estou sentindo alguma coisa.


                                               12
    Quando Ray e Ruth chegaram ao milharal, estavam calados e ele segurava
sua mo. Ela no sabia se ele a estava segurando porque estavam pensando
na minha morte juntos ou porque ele gostava dela. Seu crebro era uma
tormenta, sua percepo habitual tinha desaparecido.
    Ento ela viu que no tinha sido a nica a pensar em mim. Hal e Samuel
Heckler estavam em p no milharal com as mos enfiadas nos bolsos e de
costas para ela. Ruth viu narcisos amarelos no cho.
    -- Vocs trouxeram essas flores? -- perguntou Ruth a Samuel.
    -- No -- disse Hal, respondendo pelo irmo. -- Elas j estavam aqui
quando a gente chegou.




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     A sra. Stead olhava do quarto de seu filho no andar de cima. Decidiu
vestir o casaco e sair para o milharal. No foi nem algo que ela tentou avaliar,
o fato de pertencer ou no quele lugar.
     Grace Tarking estava dando a volta no quarteiro quando viu a sra. Stead
saindo de casa com um bico-de-papagaio. Andaram juntas na rua por alguns
instantes. Grace disse que ia passar em casa, mas que iria se juntar a eles.
     Grace deu dois telefonemas, um para o namorado, que morava no muito
longe dali em uma rea ligeiramente mais rica, e um para os Gilbert. Eles ainda
no tinham se recuperado de seu estranho papel na descoberta da minha
morte -- seu fiel labrador tinha encontrado a primeira prova. Grace se
ofereceu para acompanh-los, j que eles eram mais velhos e atravessar os
gramados dos vizinhos e andar pela terra irregular do milharal seria difcil para
eles, mas sim, disse o sr. Gilbert, ele queria ir. Eles precisavam disso, disse ele a
Grace Tarking, particularmente sua mulher -- embora eu pudesse ver como
ele estava arrasado. Ele sempre escondia sua dor dando ateno  mulher.
Embora tivessem pensado durante algum tempo em dar o cachorro, este
trazia reconforto demais para ambos.
     O sr. Gilbert se perguntou se Ray, que fazia pequenos servios para eles e
era um bom menino que tinha sido mal julgado, sabia, ento ligou para a :asa
dos Singh. Ruana disse suspeitar que o filho j devesse estar l, mas que iria
tambm.
     Lindsey estava olhando pela janela quando viu Grace Tarking de braos
dados com a sra. Gilbert e o namorado de Grace equilibrando o sr. Gilbert
enquanto os quatro cortavam caminho pelo gramado dos O'Dwyer.
     -- Tem alguma coisa acontecendo no milharal, me -- disse ela.
     Minha me estava lendo Molire, que tinha estudado to intensamente
na universidade, mas no olhava desde ento. Ao seu lado estavam os livros
que a tinham marcado como graduanda de vanguarda: Sartre, Colette, Proust,
Flaubert. Ela os tinha tirado da estante do quarto e prometido a si mesma que
os releria naquele ano.
     -- No estou interessada -- disse ela a Lindsey --, mas tenho certeza de
que seu pai vai ficar quando chegar em casa. Por que no vai l em cima
brincar com seu irmo?




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     Com perseverana, Lindsey vinha cercando nossa me havia semanas,
fazendo-lhe a corte, apesar dos sinais que ela emitia. Havia alguma coisa do
outro lado daquela superfcie gelada. Lindsey tinha certeza. Ficou do lado da
minha me, sentada perto de sua cadeira e olhando nossos vizinhos pela
janela.


                                               12
     Quando a noite caiu, as velas que os ltimos a chegar tinham tido o
cuidado de trazer iluminavam o milharal. Parecia que todo mundo que eu
jamais tinha conhecido ou que tinha se sentado ao meu lado na sala de aula
do jardim at a stima srie estava ali. O sr. Botte viu que alguma coisa estava
acontecendo ao sair do colgio, depois de preparar sua sala para a experincia
anual de digesto animal no dia seguinte. Tinha se aproximado e, ao perceber
o que era,voltado ao colgio para dar alguns telefonemas. Uma das secretrias
tinha ficado arrasada com a minha morte. Ela compareceu com o filho. Havia
tambm algumas professoras que no tinham ide  homenagem oficial do
colgio.
     Os boatos sobre a suposta culpa do sr. Harvey tinham comeado a passar
de vizinho em vizinho na noite de Ao de Graas. Na tarde seguinte, era tudo
de que os vizinhos conseguiam falar -- seria possvel? Ser que aquele
homem estranho que tinha morado to tranquilamente entre eles poderia ter
matado Susie Salmon? Mas ningum tinha se atrevido a procurar minha
famlia para saber os detalhes. Perguntavam a primos de amigos ou aos pais
dos meninos que cortavam sua grama se eles sabiam de alguma coisa.
Qualquer um que pudesse saber o que a polcia estava fazendo tinha sido
abordado na semana anterior, ento aquela homenagem para mim foi ao
mesmo tempo um jeito de honrar minha lembrana e uma maneira de os
vizinhos buscarem reconforto uns nos outros. Um assassino tinha vivido entre
eles, passado por eles na rua, comprado biscoitos de suas filhas bandeirantes e
assinaturas de revista de seus filhos.
     No meu cu eu zumbia de calor e energia  medida que cada vez mais
pessoas chegavam ao milharal e acendiam suas velas e comeavam a entoar
uma cano baixa, como um cntico, para a qual o sr. O'Dwyer recorreu 




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lembrana distante de seu av dublinense. No incio meus vizinhos estavam
pouco  vontade, mas a secretria da escola se segurou no sr. O'Dwyer
enquanto ele soltava a voz, e acrescentou a sua, menos melodiosa. Ruana
Singh permaneceu rgida em um crculo mais afastado, longe do filho. O dr.
Singh tinha ligado quando ela estava saindo para dizer que passaria a noite no
escritrio. Mas outros pais, chegando em casa do trabalho, estacionavam o
carro na frente de suas casas apenas para descer e se juntar aos vizinhos.
Como podiam ao mesmo tempo trabalhar para sustentar suas famlias e tomar
conta de seus filhos para ter certeza de que estavam seguros? Como um
grupo, eles descobririam que isso era impossvel, por mais que criassem
regras. O que tinha acontecido comigo poderia acontecer com qualquer um.
     Ningum tinha ligado para a minha casa. Minha famlia foi deixada em
paz. A barreira intransponvel que cercava os sarrafos -- a chamin, a pilha de
lenha, o caminho da garagem, a cerca -- era como uma camada de gelo
transparente que cobria as rvores quando chovia e depois nevava.
     Nossa casa tinha o mesmo aspecto de qualquer outra do quarteiro, mas
no era igual. O assassinato tinha uma porta vermelho-sangue atrs da qual
ficava tudo o que era inimaginvel para todo mundo.
     Quando o cu se coloriu de um cor-de-rosa manchado, Lindsey percebeu
o que estava acontecendo. Minha me no levantou os olhos de seu o uma
nica vez.
     -- Eles esto fazendo uma cerimnia para a Susie -- disse Lindsey. --
Ouve. -- Ela abriu uma fresta da janela. O ar frio de dezembro entrou junto
com o som distante de um canto. Minha me usou toda a sua energia.
     -- J tivemos a homenagem -- disse ela. -- Isso para mim acabou.
     -- O que acabou?
     Os cotovelos da minha me estavam nos braos da cadeira amarela cujo
encosto se prolongava em abas laterais. Ela se inclinou ligeiramente para a
frente e seu rosto entrou na sombra, tornando difcil para Lindsey ver sua
expresso.
     -- No acho que ela esteja nos esperando l fora. No acho que acender
velas e fazer tudo isso esteja honrando a memria dela. Existem outras
maneiras de honr-la.




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     -- Como, por exemplo? -- perguntou Lindsey. Ela estava sentada de
pernas cruzadas no tapete na frente da minha me, que estava sentada em sua
cadeira com o dedo marcando a pgina de Molire.
     -- Eu quero ser mais do que uma me.
     Lindsey achou que podia entender isso. Ela queria ser mais do que uma
menina.
     Minha me ps o livro de Molire era cima da mesa de apoio e deslizou
para a frente na cadeira at se sentar no tapete. Fiquei espantada com aquilo.
Minha me no sentava no cho, sentava-se na frente da mesa de pagar
contas ou nas cadeiras de abas laterais ou algumas vezes na ponta do sof
com Holiday encolhido ao seu lado.
     Ela segurou a mo da minha irm.
     -- Voc vai deixar a gente? -- perguntou Lindsey.
     Minha me tremeu. Como poderia dizer o que j sabia? Em vez disso,
mentiu:
     -- Prometo que no vou deixar vocs.
     O que ela mais queria era ser de novo aquela menina livre, empilhando
porcelana no Wanamaker's, escondendo de seu gerente a xcara Wedg-wood
com a asa que tinha quebrado, sonhando em morar em Paris como Simone de
Beauvoir e Sartre, e voltando para casa naquele dia, rindo consigo mesma
daquele desajeitado Jack Salmon, que era bem bonitinho mesmo que
detestasse fumaa. Os cafs em Paris eram cheios de cigarro, tinha lhe dito ela,
e ele tinha parecido impressionado. No final daquele vero, quando ela o
convidou para entrar e eles tinham feito amor, ambos pela primeira vez, ela
tinha fumado um cigarro, e de brincadeira ele tinha dito que ia fumar um
tambm. Quando ela lhe passou a porcelana azul quebrada para servir de
cinzeiro, usou todas as suas palavras preferidas para embelezar a histria de
como tinha quebrado e depois escondido, dentro do casaco, a agora
despretensiosa xcara Wedgwood.
     -- Vem aqui, filhinha -- disse minha me, e Lindsey foi. Apoiou as costas
no peito da minha me, e minha me a ninou desajeitadamente em cima do
tapete. -- Voc est indo to bem, Lindsey; est mantendo seu pai vivo. -- E
ouviram o carro dele chegar na frente da casa.




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     Lindsey se deixou abraar enquanto minha me pensava em Ruana Singh
atrs de sua casa, fumando. O cheiro doce dos Dunhill tinha se espalhado pela
rua e levado minha me para muito longe. Seu ltimo namorado antes do
meu pai adorava Gauloises. Era um menino pretensioso, pensou ela, mas
tambm era to-srio, de um jeito que lhe permitia ser ela tambm to-
sria.
     -- Est vendo as velas, me? -- perguntou Lindsey olhando pela janela.
     -- Vai buscar seu pai -- disse minha me.


                                               12
     Minha irm encontrou meu pai na lavanderia, pendurando suas chaves e
seu casaco. Sim, eles iriam, disse ele. E claro que iriam.
     -- Papai! -- chamou meu irmo do segundo andar, onde minha irm e
meu pai foram encontr-lo.
     -- Sua vez -- disse meu pai enquanto Buckley o imobilizava.
     -- Estou cansada de proteger ele -- disse Lindsey. -- No parece real ele
no ser includo. A Susie morreu. Ele sabe.
     Meu irmo levantou os olhos para ela.
     -- Tem uma festa para a Susie -- disse Lindsey. -- E o papai e eu vamos
levar voc.
     -- A mame est doente? -- perguntou Buckley.
     Lindsey no queria mentir para ele, mas tambm sentiu que aquilo era
uma descrio precisa do que sabia.
     -- Est.
     Lindsey concordou em encontrar nosso pai no andar de baixo enquanto
levava Buckley para mudar de roupa em seu quarto.
     -- Eu vejo ela, sabe -- disse Buckley, e Lindsey olhou para ele.
     -- Ela vem e fala comigo, e fica comigo enquanto voc est no futebol. --
Lindsey no sabia o que dizer,mas estendeu os braos e o agarrou e o apertou
junto ao corpo, do jeito que sempre apertava Holiday.
     -- Voc  to especial -- disse ela para o meu irmo. -- Eu vou sempre
estar aqui, no importa o que acontecer.




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     Meu pai desceu devagar as escadas, com a mo esquerda apertando o
corrimo de madeira, at chegar ao hall de piso de pedra.
     Sua chegada foi ruidosa. Minha me pegou seu livro de Molire e se
esgueirou para a sala de jantar, onde ele no a veria. Ficou lendo seu livro, em
p no canto da sala de jantar escondendo-se de sua famlia. Esperou a porta
da frente se abrir e se fechar.
     Meus vizinhos e professores, meus amigos e minha famlia formaram um
crculo em volta de um ponto arbitrrio, no muito longe de onde eu tinha
sido morta.
     Meu pai, minha irm e meu irmo tornaram a ouvir o canto quando
saram de casa. Tudo no meu pai se curvava e se lanava na direo do calor e
da luz. Ele queria tanto que eu fosse lembrada nas mentes e coraes de todo
mundo. Olhando aquilo, descobri uma coisa: quase todo mundo estava se
despedindo de mim. Eu estava me tornando uma das muitas menininhas
perdidas. Eles voltariam para casa e me poriam para descansar, uma carta do
passado jamais reaberta ou relida. E eu poderia lhes dizer adeus, desejar-lhes
boa sorte, abeno-los de alguma maneira por seus bons pensamentos. Um
aperto de mo na rua, um objeto cado recolhido e devolvido, ou um aceno
amigvel de uma janela distante, um meneio de cabea, um sorriso, um
instante em que os olhos se encontram por cima das caretas de uma criana.
     Ruth foi a primeira a ver os trs membros da minha famlia, e puxou a
manga de Ray.
     -- Vai ajudar ele -- sussurrou ela. E Ray, que tinha conhecido meu pai em
seu primeiro dia do que se revelaria uma longa jornada para tentar encontrar
meu assassino, adiantou-se. Samuel tambm se aproximou. Como jovens
pastores, eles levaram meu pai, minha irm e meu irmo para junto do grupo,
que abriu um grande espao para eles e se calou.
     Meu pai no saa de casa havia meses, exceto para ir e voltar de carro do
Trabalho ou ficar sentado no quintal dos fundos, tampouco tinha visto seus
vizinhos. Naquele momento, ele olhou para eles, passou os olhos de rosto em
rosto, at perceber que eu tinha sido amada por pessoas que ele nem sequer
reconhecia. Seu corao se encheu de alegria, com um calor que no tinha
tido durante o que lhe parecia um tempo muito longo -- a no ser por




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pequenos instantes esquecidos com Buckley, pelos acidentes de amor que
aconteciam com seu filho.
     Ele olhou para o sr. O'Dwyer.
     -- Stan -- disse ele --, a Susie costumava ficar na janela da frente durante
o vero ouvindo voc cantar no seu quintal. Ela adorava. Pode cantar para
ns?
     E naquele tipo de graa que s  concedido raramente, e no quando
mais se quer -- para salvar uma pessoa querida da morte --, o sr. O'Dwyer
vacilou apenas um instante em sua primeira nota, depois cantou alto e forte e
bem.
     Todos se juntaram a ele.

                                               12
     Eu me lembro daquelas noites de vero de que meu pai falou. De como a
escurido levava uma eternidade para chegar e com ela eu sempre esperava
que a temperatura fosse refrescar. Algumas vezes, em p na frente da janela
aberta do hall de entrada, eu sentia uma brisa, e naquela brisa havia a msica
vinda da casa dos O'Dwyer. Enquanto escutava o sr. O'Dwyer cantar todas as
baladas irlandesas que tinha aprendido na vida, a brisa comeava a ter cheiro
de terra e de ar, e de alguma coisa musgosa que s queria dizer uma coisa:
tempestade.
     Ento vinha um maravilhoso silncio temporrio, com Lindsey sentada no
velho sof do seu quarto estudando, meu pai sentado em seu quartinho lendo
livros, minha me no andar de baixo costurando ou lavando a loua. Eu
gostava de pr uma comprida camisola de algodo e sair para a varanda de
trs, onde, conforme a chuva comeava a cair em gotas pesadas sobre o
telhado, brisas entravam pela tela por todos os lados e faziam a camisola bater
no meu corpo. A brisa era quente e maravilhosa e ento vinham os raios e,
alguns instantes depois, as trovoadas.
     Minha me chegava na porta aberta da varanda e, depois de dar seu
aviso-padro: "Assim voc com certeza vai ficar gripada", se calava. Ficvamos
as duas escutando a chuva descer e o trovo rugir e sentindo o cheiro da terra
se levantando do cho para nos saudar.
     -- Voc parece invencvel -- disse minha me certa noite.



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     Eu adorava esses instantes, quando parecamos sentir a mesma coisa.
Virei-me de frente para ela, enrolada na minha camisola fina, e disse:
     -- Eu sou.




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                                           12
                                     INSTANTNEOS



     Com a mquina fotogrfica que meus pais me deram, tirei dzias de fotos
da minha famlia. Tantas que meu pai me forou a escolher os filmes que eu
achava que deveriam ser revelados. A medida que o custo da minha obsesso
aumentava, comecei a guardar duas caixas no meu armrio. "Filmes para
revelar" e "Filmes para guardar". Segundo minha me, aquela era a nica
mostra de qualquer habilidade organizacional que eu possua.
     Eu adorava o modo como os cubos de flash queimados da Kodak
Instamatic marcavam um instante passado, um instante agora perdido para
sempre a no ser por uma foto. Depois de us-los, eu tirava os flashes cbicos
e os passava de uma mo para a outra at esfriarem. Os filamentos quebrados
do flash ficavam azuis da cor de mrmore derretido, ou algumas vezes sua
fumaa escurecia o vidro fino. Eu tinha resgatado o instante usando minha
mquina e assim encontrado um jeito de parar o tempo e ret-lo. Ningum
podia tirar aquela imagem de mim, porque ela era minha.


                                               12
    Em uma noite de vero de 1975, minha me se virou para meu pai e disse:
    -- Voc j fez amor no oceano?
    E ele disse:
    -- No.
    -- Nem eu -- disse minha me. -- Vamos fingir que aqui  o oceano e
que eu vou embora e podemos nunca mais nos ver.
    No dia seguinte ela foi embora para a cabana do pai em New Hampshire.


                                               12
     Naquele mesmo vero, Lindsey ou Buckley ou meu pai abriam a porta da
frente e encontravam um ensopado ou um bolo nos degraus. Algumas vezes




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era uma torta de ma -- a preferida do meu pai. A comida era imprevisvel.
Os ensopados da sra. Stead eram horrveis. Os bolos da sra. Gilbert eram
molhados demais mas, suportveis. As tortas de ma de Ruana: o paraso
sobre a Terra.
     Em seu escritrio, durante as longas noites depois de minha me ir
embora, meu pai tentava se distrair relendo trechos das cartas de Mary
Chestnut para o marido durante a Guerra Civil. Tentava se livrar de qualquer
culpa, de qualquer esperana, mas era impossvel. Certa vez conseguiu dar um
pequeno sorriso.
     "A Ruana Singh faz uma torta de ma de matar", escreveu ele em seu
caderno.

                                               12
     No outono, ele atendeu ao telefone certa tarde e ouviu a voz da vov
Lynn.
     -- Jack -- anunciou minha av --, estou pensando em ir morar a.
     Meu pai ficou calado, mas sua hesitao fazia a ligao chiar.
     -- Eu gostaria de estar disponvel para voc e para as crianas. J faz
tempo demais que estou perambulando por este mausolu.
     -- Lynn, estamos s comeando a refazer nossas vidas -- gaguejou ele.
Mesmo assim, ele no podia depender da me de Nate para tomar conta de
Buckley para sempre. Quatro meses depois de a minha me ir embora, sua
ausncia temporria estava comeando a tomar ares de permanente.
     Minha av insistiu. Eu a vi resistir ao ltimo gole de vodca em seu copo.
     -- Vou evitar beber at -- nesse ponto ela pensou bastante -- depois das
cinco horas e -- disse ela -- que diabos, vou parar completamente, se voc
achar necessrio.
     -- Voc sabe o que est dizendo?
     Minha av sentiu uma certeza da mo que segurava o telefone at os ps
calados com sapatilhas.
     -- Sei sim. Eu acho.
     Foi s depois de desligar o telefone que ele se permitiu pensar: Onde
vamos coloc-la?
     Era bvio para todo mundo.



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                                               12
     Em dezembro de 1975, um ano tinha se passado desde que o sr. Harvey
tinha feito as malas, mas ainda no havia nenhum sinal dele. Durante algum
tempo,at o durex ficar sujo ou o papel se rasgar, os comerciantes mantiveram
um esboo tosco dele pregado em suas vitrines. Lindsey e Samuel passeavam
pelo bairro ou faziam hora na oficina de motos do Hal. Ela no ia  lanchonete
aonde as outras crianas iam. O proprietrio da lanchonete era um homem
que respeitava as leis. Ele tinha ampliado o esboo de George Harvey at duas
vezes o tamanho normal e pregado-o na porta ia frente. Contava de bom
grado os detalhes mrbidos a qualquer cliente que perguntasse -- menina,
milharal, encontraram s um cotovelo.
     Finalmente, Lindsey pediu a Hal para lhe dar uma carona at a delegacia.
Queria saber exatamente o que eles estavam fazendo.
     Despediram-se de Samuel na oficina de motos e Hal deu carona para
Lindsey em meio a uma neve molhada de dezembro.
     Desde o comeo, a juventude e a deciso de Lindsey pegaram a polcia de
surpresa. A medida que cada vez mais policiais percebiam quem ela era,
evitavam-na cada vez mais. Ali estava aquela menina, decidida, louca, 15 anos
de idade. Seus seios eram xicarazinhas perfeitas, suas pernas eram esguias,
mas curvilneas, seus olhos pareciam slex e ptalas de flores.
     Enquanto Lindsey e Hal esperavam do lado de fora da sala do capito
sentados em um banco de madeira, ela pensou ter visto algo que reconhecia.
Estava em cima da mesa do inspetor Fenerman e sobressaa na sala por causa
da cor. Uma cor que sua me sempre tinha reconhecido com: vermelho-
chins, um vermelho mais vivo do que o vermelho das rosas, o vermelho dos
batons clssicos, raramente encontrado na natureza. Nossa me tinha orgulho
de sua capacidade de usar vermelho-chins, observando toda vez que
amarrava um cachecol especfico em volta do pescoo que era uma cor que
nem a vov Lynn se atrevia a usar.
     -- Hal -- disse ela, com todos os msculos tensos enquanto olhava para
o objeto cada vez mais familiar sobre a mesa de Fenerman.
     -- O qu?
     -- Est vendo aquele pano vermelho?



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    -- Estou.
    -- Pode ir l pegar ele para mim? Quando Hal olhou para ela, ela disse:
    -- Acho que  da minha me.
    Enquanto Hal se levantava para ir busc-lo, Len entrou na sala por trs de
onde Lindsey estava sentada. Bateu no ombro dela no mesmo instante em que
percebeu o que Hal estava fazendo. Lindsey e o inspetor Fenerman ficaram se
encarando.
    -- Por que voc est com o cachecol da minha me? Ele vacilou.
    -- Ela pode ter deixado no meu carro um dia.
    Lindsey se levantou e ficou de frente para ele. Tinha a viso clara e estava
caminhando rpido rumo  pior notcia at ento.
    -- O que ela estava fazendo no seu carro?
    -- Oi, Hal -- disse Len.
    Hal segurava o cachecol na mo. Lindsey o arrancou dele, e sua voz
comeou a ficar zangada.
    -- Por que voc est com o cachecol da minha me?
    E embora Len fosse o inspetor, foi Hal quem viu primeiro -- curvada
sobre minha irm como um arco-ris -- a compreenso em todas as suas
cores. Do mesmo jeito que acontecia na aula de lgebra ou de ingls quando
minha irm era a primeira pessoa a descobrir qual a soma de x ou a mostrar os
duplos sentidos para seus colegas. Hal ps a mo no ombro de Lindsey para
gui-la.
    --  melhor a gente ir -- disse ele.
    E mais tarde ela chorou de incredulidade com Samuel no quarto dos
fundos da oficina de motos.


                                               12
     Quando meu irmo fez 7 anos, ele construiu um forte para mim. Era algo
que ns dois tnhamos dito que sempre faramos juntos e algo que meu pai
no conseguia se obrigar a fazer. Aquilo lhe lembrava demais o dia em que
tinha construdo a tenda com o desaparecido sr. Harvey.
     Uma famlia com cinco meninas pequenas tinha se mudado para a casa
do sr. Harvey. Risos flutuavam at o escritrio do meu pai da piscina que eles




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tinham construdo na primavera seguinte  fuga de George Harvey. O barulho
de menininhas -- menininhas de sobra.
     A crueldade daquilo se transformou em vidro se estilhaando nos ouvidos
do meu pai. Na primavera de 1976, com minha me ausente, ele fechava a
janela de seu quartinho, mesmo nas noites mais quentes, para abafar o som.
Via seu menininho solitrio entre os trs arbustos de salgueiro, falando
sozinho. Buckley tinha trazido vasos de barro vazios da garagem. Resgatou o
limpador de botas de onde ele estava esquecido na lateral da casa. Qualquer
coisa para fazer os muros do forte. Com a ajuda de Samuel, Hal e Lindsey,
arrastou duas imensas pedras da frente da entrada da garagem at o quintal
dos fundos. Aquilo formava uma estrutura to inslita que levou Samuel a
perguntar:
     -- Como voc vai fazer o telhado?
     E Buckley ficou olhando para ele assombrado, enquanto Hal vasculhava
mentalmente o contedo de sua oficina de motos e se lembrava de duas
velhas folhas de lato ondulado apoiadas na parede dos fundos.
     Ento, em uma noite quente, meu pai olhou para baixo e no viu mais seu
filho. Buckley estava abrigado dentro de seu forte. De quatro, ele puxava os
vasos de barro depois de entrar e neles escorava uma tbua que subia quase
at o telhado ondulado. A luz que entrava era justo o suficiente para ler. Hal
tinha feito sua vontade e pintado AFASTE-SE com grandes letras de Color Jet
preto em um dos lados da porta de compensado.
     Lia sobretudo quadrinhos dos Vingadores e dos X-Men. Sonhava em ser
Wolverine, que tinha um esqueleto feito do metal mais resistente do universo
e era capaz de se curar de qualquer ferimento de um dia para o outro. Nos
momentos mais estranhos ele pensava em mim, sentia saudades da minha
voz, desejava que eu pudesse sair da casa e bater no telhado de seu forte e
pedir para ele me deixar entrar. Algumas vezes desejava que Samuel e Lindsey
ficassem mais em casa e meu pai brincasse com ele como fazia antigamente.
Brincasse sem aquela expresso de eterna preocupao debaixo do sorriso,
aquela preocupao desesperada que agora cercava tudo como um campo de
fora invisvel. Mas meu irmo no se permitia sentir saudades da minha me.
Refugiava-se em histrias onde homens fracos se transformavam em semi-
animais fortssimos ou escalavam laterais de arranha-cus. Ele era o Hulk



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quando estava zangado e o Homem-Aranha o resto do tempo. Quando sentia
o corao doer, transformava-se em algo mais forte do que um menininho, e
assim foi crescendo. Um corao que se transformava de corao em pedra,
de corao em pedra. Olhando para ele, eu pensava no que vov Lynn gostava
de dizer quando Lindsey e eu revirvamos os olhos ou fazamos caretas nas
suas costas.
     Mas por mais que procurasse o homem em si, era como se George
Harvey tivesse evaporado no ar ao passar dos limites do terreno de sua casa.
Ele no conseguia encontrar nenhum registro correspondente quele nome.
Oficialmente, ele no existia.
     O que tinha deixado para trs eram suas casas de bonecas. Ento Len
ligou para o homem que as vendia para ele, e que recebia encomendas de
lojas selecionadas, e para as pessoas ricas que encomendavam rplicas de suas
prprias casas. Nada. Tinha ligado para os fabricantes das cadeiras em
miniatura, das minsculas portas e janelas de vidro bisotado e dos objetos de
bronze, e para o fabricante dos arbustos e rvores de pano. Nada.
     Ele ficava sentado entre as provas diante de uma grande mesa vazia no
poro da delegacia. Folheava o mao de filipetas adicionais que meu pai tinha
mandado fazer. Tinha decorado meu rosto, mas ainda olhava para elas. Tinha
passado a acreditar que a maior esperana no meu caso poderia ser o recente
aumento de construes naquela regio. Com todas as escavaes e
mudanas, talvez fossem encontradas outras pistas que fornecessem a
resposta de que ele precisava.
     No fundo da caixa estava o saco com meu gorro de sininhos. Quando ele
o tinha entregado para minha me, ela havia desabado no tapete. Ele ainda
no conseguia identificar o instante em que tinha se apaixonado por ela. Eu
sabia que fora no dia em que ele tinha ficado sentado na nossa sala ntima
enquanto minha me desenhava bonecos de palito em papel de po e Buckley
e Nate dormiam no sof com os ps juntos. Eu sentia pena dele. Ele tinha
tentado solucionar meu assassinato e falhado. Tinha tentado amar minha me
e falhado.
     Len olhou o desenho do milharal que Lindsey tinha roubado e se forou a
admitir o seguinte: com sua cautela, tinha deixado um assassino escapar. No
conseguia se livrar da culpa. Ele sabia, mesmo que ningum mais soubesse,



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que tendo estado com minha me no shopping naquele dia ele era o culpado
da liberdade do sr. Harvey.
     Tirou a carteira do bolso de trs e espalhou as fotos de todos os casos
no resolvidos nos quais tinha trabalhado. Entre eles estava o da sua mulher.
Virou todas as fotos de cabea para baixo. "Morta", escreveu em cada uma
delas. No esperaria mais por uma data para marcar a compreenso de quem,
por qu ou como. Jamais entenderia todas as razes pelas quais sua mulher
tinha se matado. Jamais entenderia como tantas crianas desapareciam. Ps as
fotos na caixa com minhas provas e apagou as luzes no poro frio.
     Mas ele no sabia o seguinte:
     Em Connecticut, no dia 10 de setembro de 1976, um caador voltando
para o carro viu alguma coisa brilhante no cho. Minha pedra angular da
Pensilvnia. Ento viu que o cho ali perto tinha sido parcialmente escavado
por um urso. Expostos pelo urso estavam os inconfundveis ossos de um p de
criana.

                                               12
     Minha me s agentou um inverno em New Hampshire, antes de ter a
ideia de ir de carro at a Califrnia. Era uma coisa que ela sempre tinha
pensado que faria, mas nunca tinha feito. Um homem que ela conheceu em
New Hampshire tinha lhe dito que havia trabalho a ser feito nas vincolas dos
vales ao norte de So Francisco. Era fcil de conseguir, era fsico e, caso se
quisesse, podia ser muito annimo. As trs coisas lhe pareceram boas.
     Esse homem tambm tinha querido dormir com ela, mas ela disse no. A
essa altura, ela sabia que essa no era mais a sada. Desde a primeira noite
com Len nas entranhas do shopping, tinha sabido que eles dois no estavam
construindo nada. Nem sequer foi capaz de senti-lo de verdade.
     Fez as malas para a Califrnia e mandou postais para meu irmo e minha
irm de cada uma das cidades onde parava. "Oi, estou em Dayton. O pssaro-
smbolo de Ohio  o cardeal." "Cheguei ao Mississippi na noite cassada no
pr-do-sol. E realmente um rio enorme."
     No Arizona, quando estava oito estados alm do mais longe em que
jamais tinha estado, ela pagou pelo quarto e levou consigo um balde de gelo
da mquina do lado de fora. No dia seguinte chegaria  Califrnia, e para



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comemorar tinha comprado uma garrafa de champanhe. Pensou no que o
homem de New Hampshire tinha dito, em como ele tinha passado um ano
inteiro tirando o mofo dos gigantescos barris que guardavam o vinho. Ficava
deitado de costas e precisava usar uma faca para tirar as camadas de mofo. O
mofo tinha a cor e a consistncia de fgado e,por mais que ele tomasse banho,
horas depois ainda atraa moscas de banana.
     Ela bebericou o champanhe de um copo de plstico e se olhou no
espelho. Forou-se a olhar.
     Ento se lembrou de estar sentada em nossa sala de estar, comigo e com
minha irm, com meu irmo e meu pai, na primeira noite de Ano-Novo em
que ns cinco tnhamos ficado acordados. Ela havia organizado o dia para
garantir que Buckley dormisse o suficiente.
     Quando ele acordou e j estava escuro, teve certeza de que algum
melhor do que o Papai Noel viria visit-lo naquela noite. Em sua mente, via a
imagem das melhores frias de sua vida, como um big bang, quando ele seria
transportado para o mundo dos brinquedos.
     Horas mais tarde, enquanto ele bocejava e se deitava no colo da minha
me e ela penteava seus cabelos com os dedos, meu pai foi at a cozinha fazer
um chocolate quente e minha irm e eu servimos bolo de chocolate alemo.
Quando o relgio bateu meia-noite e houve apenas gritos distantes e alguns
tiros para o ar em nosso bairro, meu irmo ficou incrdulo. Foi invadido to
depressa e to completamente pela decepo, que minha me ficou sem
saber o que fazer. Pensava naquilo como uma espcie de Peggy Lee criana
perguntando " s isso?", depois caindo no choro.
     Lembrava-se de que meu pai tinha pegado Buckley no colo e comeado a
cantar. Ns cantamos tambm. "Que velhos conhecidos sejam esquecidos e
nunca mais lembrados, se velhos conhecidos forem esquecidos e dias muito
remontados!"
     E Buckley tinha ficado nos encarando. Captou a palavra desconhecida
como uma bolha flutuando no ar acima dele.
     -- Dias muito remontados? -- disse ele com um ar de assombro.
     -- O que isso quer dizer? -- perguntei a meus pais.
     -- Antigamente -- disse meu pai.




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     -- Muito antigamente -- disse minha me. Mas ento, de repente, ela
tinha comeado a juntar os farelos do bolo em seu prato.
     -- Ei, Olhos de Oceano -- disse meu pai. -- Para onde voc viajou agora?
     E ela se lembrou que tinha respondido  pergunta dele com um
fechamento, como se seu esprito tivesse uma tampa -- um giro para a direita
e ela estava em p me pedindo para ajud-la a tirar a mesa.
     No outono de 1976, ao chegar  Califrnia, ela foi direto para a praia e
parou o carro. Tinha a sensao de no ter passado por nada a no ser famlias
por quatro dias -- famlias brigando, famlias chorando, famlias gritando,
famlias sob a milagrosa presso do dia-a-dia -- e ficou aliviada ao ver as
ondas do para-brisa do carro. No pde evitar pensar nos livros que tinha lido
na universidade. O despertar. E no que tinha acontecido com uma escritora,
Virginia Woolf. Tudo parecia to maravilhoso naquela poca -- etreo e
romntico --, pedras no bolso, andar para dentro das ondas.
     Desceu os penhascos depois de amarrar o suter de leve em volta da
cintura. L embaixo no via nada a no ser pedras pontiagudas e ondas. Ela
tomava cuidado, mas eu olhava mais seus ps do que a vista com que ela via
-- tinha medo de que escorregasse.
     O desejo da minha me de chegar quelas ondas, de pr os ps em outro
oceano do outro lado do pas, era tudo em que ela estava pensando -- no
ouro objetivo de batismo daquilo. Tch, e pode-se recomear tudo de novo.
Ou seria a vida mais parecida com o horrvel jogo da ginstica em que se tinha
de correr de um lado para o outro de um espao fechado, pegando e largando
blocos de madeira num movimento sem fim? Ela pensava v at as ondas, as
ondas, as ondas, e eu via seus ps navegarem pelas pedras, e quando a
ouvimos ns a ouvimos juntas -- e olhamos para cima chocadas.
     Era um beb na praia.
     Entre as pedras havia uma reentrncia de areia, minha me agora via, e
engatinhando pela areia em cima de um cobertor havia um beb com um
gorro de tric cor-de-rosa e um colete e botas. Ela estava sozinha em cima do
cobertor com um bicho de pelcia branco -- um carneirinho, pensou minha
me.
     Com as costas para minha me, enquanto ela descia as pedras, estava um
grupo de adultos -- com uma aparncia muito formal e frentica -- vestindo



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roupas pretas e azul-marinho com chapus e botas da moda. Ento meus
olhos de fotgrafa de vida selvagem viram os trips e os crculos prateados
cercados de fios que, quando um rapaz os movia para a esquerda ou para a
direita, lanavam luz para longe ou para cima do beb em seu cobertor.
     Minha me comeou a rir, mas s um dos assistentes se virou para v-la
entre as pedras; todos os outros estavam ocupados demais. Era um comercial
de alguma coisa,pensei, mas de qu? Novas nenns fresquinhas para substituir
a sua? Enquanto minha me ria e eu via seu rosto se iluminar, tambm o via
adquirir traos estranhos.
     Ela viu as ondas atrs da nenm e como eram ao mesmo tempo belas e
embriagantes -- podiam subir to suavemente e varrer a menina da praia.
Todas as pessoas estilosas podiam correr atrs dela, mas ela se afogaria em
ura instante -- ningum, nem mesmo uma me que estivesse totalmente
antenada para prever um desastre poderia t-la salvado, caso as ondas
subissem, caso a vida continuasse como de hbito e acidentes horrveis
viessem macular um litoral calmo.
     Naquela mesma semana, ela arrumou trabalho na Vincola Krusoe, em um
vale ao norte da baa. Escreveu para minha irm e para meu irmo postais
repletos dos fragmentos brilhantes de sua vida, esperando soar alegre no
espao limitado de um postal.
     Em seus dias de folga, descia as ruas de Sausalito ou Santa Rosa --
pequeninas cidades chiques onde todo mundo era desconhecido -- e, por
mais que tentasse se concentrar no desconhecido promissor, ao entrar em
uma loja de presentes ou em um caf, as quatro paredes  sua volta
comeavam a respirar como um pulmo. Ento ela sentia,subindo pelo interior
de seus tornozelos e at sua barriga, o ataque, a dor chegando, as lgrimas
como um pequeno exrcito incansvel aproximando-se das linhas de frente de
seus olhos,e inspirava, absorvendo uma grande golfada de ar para tentar evitar
chorar em um lugar pblico. Pedia caf e uma torrada em um restaurante e
espalhava lgrimas em cima da torrada.Entrava em um florista e pedia narcisos
e, quando no havia narcisos, sentia-se roubada. Era um desejo to pequeno
-- uma flor amarela brilhante.

                                               12
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    A primeira comemorao improvisada no milharal criou em meu pai uma
necessidade de mais. Ele agora organizava anualmente uma comemorao 
qual compareciam cada vez menos vizinhos e amigos. Havia os assduos, como
Ruth e os Gilbert, mas cada vez mais o grupo era formado apenas por alunos
do cientfico que, conforme o tempo ia passando, sabiam apenas meu nome e
mesmo assim s como um grande boato sombrio evocado como aviso para
qualquer aluno que se mostrasse por demais solitrio. Especialmente meninas.
    Todas as vezes que o meu nome era dito por esses estranhos eu sentia
uma pontada. No era a sensao agradvel de quando meu pai o dizia ou de
quando Ruth o escrevia em seu dirio. Era a sensao de estar sendo
simultaneamente ressuscitada e enterrada no mesmo movimento. Como se na
aula de prendas domsticas eu tivesse sido colocada em uma coluna de
objetos transmutveis: os Assassinados. Alguns professores, como o sr. Botte,
lembravam-se de mim como uma menina de verdade. Algumas vezes, durante
seu horrio de almoo, ele ia se sentar no seu Fiat vermelho e pensava na filha
que tinha perdido de leucemia. L longe, do outro lado de sua janela, pairava
o milharal. Muitas vezes ele fazia uma prece para mim.


                                               12
     Em apenas alguns anos curtos, Ray Singh ficou to bonito que irradiava
um feitio sempre que chegava perto de um grupo de pessoas. Seu rosto de
adulto ainda no tinha se formado completamente, mas agora, aos 17 anos,
estava quase l. Ele transpirava uma assexualidade etrea que o tornava
atraente tanto para homens quanto para mulheres, com seus clios longos e
sobrancelhas fartas,seus grossos cabelos pretos, e os mesmos traos delicados
que ainda eram os de um menino.
     Eu olhava Ray Singh com um desejo diferente do que sentia por qualquer
outra pessoa. Desejo de toc-lo e abra-lo, de entender aquele mesmo corpo
que ele examinava com o mais frio dos olhares. Ele se sentava diante de sua
escrivaninha lendo seu livro preferido -- A anatomia de Gray-- e dependendo
de sobre o que estivesse lendo usava os dedos para apalpar sua artria
cartida ou o polegar para pressionar e seguir o msculo mais longo de seu
corpo -- o sartrio, que ia da parte externa do quadril ao interior do joelho.




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Nesses momentos sua magreza era uma bno, fazendo os ossos e msculos
ficarem claramente definidos sob a pele.
     Quando ele fez as malas para a Penn, tinha decorado tantas palavras e
suas definies que eu fiquei preocupada. Com tudo aquilo, como sua mente
poderia conter qualquer outra coisa? A amizade de Ruth, o amor de sua me,
minha lembrana seriam empurrados para o fundo, enquanto ele abria
caminho para a lente do cristalino e sua cpsula, para os canais semicirculares
do ouvido, ou para o que eu preferia, as caractersticas do sistema nervoso
simptico.
     Eu no precisava ter me preocupado. Ruana procurou pela casa alguma
coisa, qualquer coisa, que seu filho pudesse levar consigo equivalente em
volume e peso ao Gray e que, esperava ela, mantivesse vivo dentro dele o
menino que colhia flores. Sem ele saber, ela ps o livro de poesia indiana
dentro de sua bagagem. L dentro havia uma foto minha esquecida muito
tempo atrs. Quando ele desfez as malas no alojamento de Hill Side, minha
foto caiu no cho ao lado de sua cama. Apesar do modo como era capaz de
dissec-la -- os vasos do meu globo ocular, a anatomia cirrgica da minha
fossa nasal, a leve colorao da minha epiderme -- no foi capaz de evit-los,
os lbios que um dia tinha beijado.


                                               12
      Em junho de 1977, no dia do que teria sido a minha formatura, Ruth e Ray
j tinham ido embora, as aulas diurnas terminaram em Farfax, Ruth se mudou
para Nova York com a velha mala vermelha da me cheia de roupas pretas
novas. Tendo se formado cedo, Ray j estava no final de seu primeiro ano na
Penn.
      Na nossa cozinha, naquele mesmo dia, vov Lynn deu um livro sobre
jardinagem para Buckley. Ela lhe contou como as plantas vinham de sementes.
Que os rabanetes, que ele detestava, eram os que cresciam mais rpido, mas
que as flores,que ele adorava,podiam nascer de sementes tambm. E comeou
a lhe ensinar seus nomes:znias e cravos-de-defunto,amores-perfeitos e lilases,
cravos e petnias, e vinhas de ipomia.




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     De vez em quando minha me ligava da Califrnia. Meus pais tinham
conversas apressadas e difceis. Ela pedia notcias de Buckley e Lindsey e
Holiday. Perguntava como estava indo a casa e se ele tinha alguma coisa para
contar para ela.
     -- Ainda sentimos saudades suas -- disse ele em dezembro de 1977,
quando as folhas j tinham todas cado e sido sopradas pelo vento ou varridas,
mas ainda assim, com a terra esperando para receb-las, no tinha havido
neve.
     -- Eu sei disso -- disse ela.
     -- E lecionar? Pensei que fosse esse o seu plano.
     -- Era -- reconheceu ela. Ela estava falando no telefone do escritrio da
vincola. As coisas estavam mais calmas depois da multido da hora do
almoo, mas cinco limusines de velhas senhoras, todas de pileque, eram
esperadas para dali a pouco. Ela ficou em silncio e depois disse alguma coisa
que ningum, muito menos o meu pai, poderia ter contestado: -- Planos
mudam.

                                               12
     Em Nova York, Ruth morava dentro do closet de uma velha senhora no
Lower East Side. Era a nica coisa que conseguia pagar, mas no tinha
inteno de passar muito tempo ali.Diariamente enrolava seu futon de solteiro
no canto para poder ter um pouco de espao onde se vestir. S visitava o
closet uma vez por dia, e nunca passava nenhum tempo ali, se pudesse evitar.
O closet era para dormir e ter um endereo, um poleiro slido embora
minsculo na cidade.
     Ela trabalhava em um bar e percorria cada centmetro de Manhattan nas
horas de folga. Eu a via marchar pelo cimento com suas botas desafiadoras,
certa de que mulheres estavam sendo assassinadas onde quer que fosse. Em
escadas subterrneas e l no alto dentro dos lindos arranha-cus. Ela escrevia
pequenas preces em seu dirio nos cafs e bares, onde parava para usar o
banheiro depois de pedir o item mais barato do cardpio.




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     Tinha se convencido de possuir uma segunda viso que ningum mais
tinha. No sabia o que faria com aquilo, a no ser tomar copiosas notas para o
futuro, mas tinha perdido o medo. O mundo de mulheres e crianas mortas
que via tinha se tornado to real para ela quanto o mundo em que vivia.


                                               12
     Na biblioteca de Penn, Ray lia sobre os idosos sob o ttulo em negrito "As
condies da morte". O trecho descrevia um estudo feito em asilos onde uma
grande porcentagem de pacientes relatava aos mdicos e enfermeiras que
viam algum no p de suas camas  noite. Muitas vezes essa pessoa tentava
falar com eles ou chamar seu nome. Algumas vezes os pacientes ficavam to
agitados durante essas vises que precisavam receber um sedativo ou ser
amarrados  cama.
     O texto prosseguia explicando que essas vises eram resultado de
pequenos derrames que muitas vezes precediam a morte. "O que o laico
geralmente considera o Anjo da Morte, caso isso seja discutido com a famlia do
paciente,deve lhes ser apresentado como uma srie de pequenos derrames que
intensifica um estado de declnio j pronunciado."
     Durante um instante, com o dedo marcando a pgina, Ray imaginou
como seria se, debruado sobre a cama de um paciente idoso, permanecendo
o mais aberto possvel a todas as possibilidades, ele pudesse sentir alguma
coisa roar nele como Ruth tinha sentido tantos anos atrs no estacionamento.


                                               12
     O sr. Harvey estava morando ao ar livre no Corredor Nordeste, das reas
adjacentes a Boston at a ponta norte dos estados do sul, onde ia para
encontrar trabalho mais fcil e menos perguntas e fazer uma eventual
tentativa de regenerao. Sempre tinha gostado da Pensilvnia e tinha
ziguezagueado pelo estado comprido, acampando algumas vezes atrs da loja
de convenincia logo abaixo da autoestrada local que vinha da nossa rea de
expanso, onde uma fileira de bosques sobrevivia entre a loja 24 horas e os
Trilhos do trem, e onde ele encontrava mais latas de conservas e pontas de
cigarro a cada vez que passava.



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     Quando podia, ainda gostava de passar de carro pelo antigo bairro. Corria
esses riscos de manh cedo ou tarde da noite, quando os faises selvagens,
outrora abundantes, ainda atravessavam a estrada e os faris do carro batiam
no brilho oco de seus olhos,enquanto eles corriam de um lado da estrada para
o outro. No havia mais adolescentes e crianas catando amoras at o limite
da nossa rea de expanso, porque a antiga cerca de fazenda onde cresciam
tantas delas tinha sido derrubada para dar lugar a mais casas. Ele tinha
aprendido a colher cogumelos selvagens e algumas vezes se banqueteava
com eles quando passava a noite nos campos altos de Valley Forge Park. Em
uma noite como essa, eu o vi se deparar com dois novatos que acampavam e
tinham morrido depois de comer os ssias venenosos dos cogumelos. Ele
delicadamente retirou todos os objetos de valor de seus corpos e depois
seguiu em frente.

                                               12
     Hal e Nate e Holiday eram os nicos que Buckley jamais tinha deixado
entrar em seu forte. A grama morreu debaixo das pedras e, quando chovia, as
entranhas do forte eram uma poa ftida, mas ele continuou ali, embora
Buckley o visitasse cada vez menos, e foi Hal quem finalmente lhe implorou
que fizesse melhorias.
     -- A gente tem de impermeabilizar o forte, Buckley -- disse Hal certo dia.
-- Voc est com 10 anos -- idade suficiente para manejar uma mquina de
calafetagem.
     E vov Lynn no conseguia se conter, ela adorava homens. Incentivou
Buckley a fazer o que Hal dizia, e quando sabia que Hal vinha visit-los
caprichava na roupa.
     -- O que voc est fazendo? -- perguntou meu pai certa manh de
sbado, atrado para fora de seu quartinho pelo cheiro adocicado de limo e
manteiga e pela massa dourada inchando em forminhas.
     -- Muffins -- disse vov Lynn.
     Meu pai fez uma avaliao de sanidade, encarando-a. Ele ainda estava de
roupo e faziam quase 32 graus s dez da manh, mas ela estava de meia-
cala e maquiada. Ento ele viu Hal de camiseta no quintal.
     -- Meu Deus, Lynn -- disse ele. -- Esse menino tem idade para ser...



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    -- Mas ele  de-li-ci-o-so!
    Meu pai sacudiu a cabea e sentou-se  mesa da cozinha.
    -- Quando  que os muffins de amor vo ficar prontos, Mata Hari?


                                               12
     Em dezembro de 1981, Len no queria receber o telefonema que recebeu
de Delaware, onde um assassinato em Wilmington tinha sido relacionado com
o corpo de uma menina encontrado em 1976, em Connecticut. Um inspetor,
trabalhando depois do horrio, tinha laboriosamente juntado o amuleto
encontrado no caso de Connecticut com uma lista de objetos perdidos do
meu assassinato.
     --  um arquivo morto -- disse Len ao homem do outro lado da linha.
     -- Gostaramos de ver o que vocs tm.
     -- George Harvey -- disse Len em voz alta, e os inspetores das mesas ao
redor se viraram para ele. -- O crime aconteceu em dezembro de 1973. A
vtima foi Susie Salmon, 14 anos.
     -- Algum corpo para a menina Simon?
     -- Salmon, igual ao peixe. Encontramos um cotovelo -- disse Len.
     -- Ela tem famlia?
     -- Tem.
     -- Connecticut tem dentes. Vocs tm a ficha dentria dela?
     -- Temos.
     -- Isso pode poupar sofrimento  famlia -- disse o homem a Len.
     Len caminhou de volta at a caixa de provas para a qual tinha esperado
nunca mais olhar.Teria de dar um telefonema para minha famlia.Mas esperaria
o mximo de tempo possvel, at ter certeza de que o detetive em Delaware
sabia de alguma coisa.

                                               12
     Durante quase oito anos depois de Samuel contar a Hal sobre o desenho
que Lindsey tinha roubado, Hal tinha discretamente usado sua rede de amigos
motoqueiros para encontrar George Harvey. Mas, assim como Len, ele tinha
jurado no relatar nada at ter certeza de que pudesse ser uma pista. E nunca




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tinha tido certeza. Quando certa noite bem tarde um Hell's Angel chamado
Ralph Cichetti, que admitia com facilidade ter passado algum tempo na priso,
disse pensar que sua me tinha sido assassinada por um homem para quem
alugava um quarto, Hal comeou a fazer suas perguntas habituais. Perguntas
que continham elementos de eliminao sobre altura e peso e interesses. O
homem no usava o nome de George Harvey, embora isso no quisesse dizer
nada. Mas o assassinato em si parecia muito diferente. Sophie Cichetti tinha 49
anos. Ela foi morta em casa com um objeto rombudo e seu corpo foi
encontrado intacto ali perto. Hal tinha lido livros policiais o bastante para
saber que assassinos tinham padres de comportamento, maneiras peculiares
e importantes de fazer as coisas. Ento, enquanto Hal ajustava a corrente do
distribuidor da desconjuntada Harley de Cichetti, eles conversaram sobre
outros assuntos, depois se calaram. Foi s quando Cichetti mencionou outra
coisa que todos os cabelos da nuca de Hal se eriaram.
     -- O cara construa casas de bonecas -- disse Ralph Cichetti.
     Hal ligou para Len.

                                               12
     Anos se passaram. As rvores do nosso quintal ficaram mais altas. Eu via
minha famlia e meus amigos e vizinhos, os professores que tinha tido ou que
tinha imaginado ter, o cientfico com o qual tinha sonhado. Sentada no
mirante, fingia que em vez disso estava sentada no galho mais alto do bordo
debaixo do qual meu irmo tinha engolido um graveto e ainda brincava de
esconde-esconde com Nate, ou ficava empoleirada na trave de uma escada
em Nova York e esperava Ruth passar perto. Eu estudava com Ray. Dirigia pela
autoestrada da costa do Pacfico em uma tarde quente de ar salgado com
minha me. Mas terminava cada dia com meu pai em seu quartinho.
     Eu espalhava essas fotografias na minha cabea, as fotografias colhidas
com minha constante observao, e podia ver como uma coisa -- minha
morte -- conectava essas imagens a uma nica fonte. Ningum poderia ter
previsto como minha perda mudaria pequenos momentos na Terra. Mas eu
me agarrava a esses momentos, eu os colecionava. Nenhum deles estava
perdido, enquanto eu estivesse ali olhando.



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     Certa noite, na hora das Vsperas, enquanto Holly tocava seu sax e a sra.
Bethel Utemeyer se juntava a ela, eu o vi: Holiday, passando correndo por um
samoiedo branco peludo. Ele tinha chegado a uma idade avanada na Terra e
dormido aos ps do meu pai depois de minha me ir embora, sem nunca
querer perd-lo de vista. Tinha ficado com Buckley enquanto ele construa seu
forte e tinha sido o nico com permisso para ficar na varanda enquanto
Lindsey e Samuel se beijavam. E, durante os ltimos anos de sua vida, todas as
manhs de domingo, vov Lynn fazia para ele uma panqueca de manteiga de
amendoim do tamanho da frigideira que colocava estendida no cho, sem
nunca se cansar de v-lo tentar peg-la com o focinho.
     Esperei ele sentir meu cheiro, ansiosa para saber se ali, do outro lado, eu
ainda seria a menininha ao lado de quem ele tinha dormido. No precisei
esperar muito: ele ficou to feliz ao me ver que me derrubou no cho.




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                                       Captulo 17




 A
              os 21 anos, Lindsey era muitas coisas que eu jamais seria, mas eu
              quase no me incomodava mais com essa lista. Mesmo assim, eu
              ia aonde ela ia. Peguei meu diploma da universidade e subi na
traseira da moto de Samuel, agarrada com os braos em volta de sua cintura,
apertando o corpo em suas costas para me aquecer...
     Tudo bem, aquela era Lindsey. Eu percebia isso. Mas, olhando-a, descobri
que conseguia me perder mais do que com qualquer outra pessoa.
     Na noite de sua formatura da Universidade de Temple, ela e Samuel
voltaram de moto para a casa dos meus pais, tendo prometido muitas vezes
ao meu pai e  vov Lynn que no tocariam no champanhe guardado no
compartimento da moto at chegarem em casa.
     -- Afinal, a gente est formado! -- disse Samuel. Meu pai confiava
piamente em Samuel -- anos tinham se passado sem que o rapaz tivesse feito
qualquer coisa que no fosse para o bem da sua filha sobrevivente.
     Mas na viagem de volta da Filadlfia pela estrada 30 comeou a chover.
Primeiro uma chuva leve, pequenas agulhadas atingindo minha irm e Samuel,
a oitenta quilmetros por hora. A chuva fria batia no asfalto quente e seco da
estrada e levantava cheiros que tinham ficado cozinhando o dia todo debaixo
do sol quente de junho. Lindsey gostava de descansar a cabea entre as
omoplatas de Samuel e sentir o cheiro da estrada e dos arbustos e moitas
esparsos dos dois lados. Estava se lembrando de como a brisa nas horas antes
da tempestade tinha inflado todas as becas brancas dos formandos
enfileirados do lado de fora de Macy Hall. Todos pareciam, por um instante,
prestes a sair flutuando.
     Finalmente, a treze quilmetros da sada que levava  nossa casa, a chuva
ficou pesada demais a ponto de machucar, e Samuel gritou para Lindsey que
ia parar.




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     Entraram em um pedao da estrada ligeiramente mais arborizado, do tipo
que existia entre duas reas comerciais e que gradualmente, por justaposio,
seria eliminado por outro centro comercial ou loja de acessrios para carros. A
moto derrapou, mas no caiu no cascalho molhado da curva. Samuel usou os
ps para ajudar a frear a moto, e depois, como Hal tinha lhe ensinado, esperou
minha irm saltar e se afastar alguns passos antes de ele prprio descer.
     Abriu o visor do capacete para gritar para ela.
     -- No adianta -- disse ele. -- Vou empurrar a moto at debaixo
daquelas rvores.
     Lindsey o seguiu, o som da chuva abafado dentro de seu capacete
forrado. Foram andando entre o cascalho e a lama, passando por cima de
galhos e lixo acumulados na beira da estrada. A chuva parecia estar ficando
ainda mais forte, e minha irm ficou feliz por ter trocado o vestido que tinha
usado na formatura pelas calas e casaco de couro que Hal tinha insistido em
lhe dar, apesar de seus protestos de que ela parecia uma pervertida vestida
daquele jeito.
     Samuel empurrou a moto at o abrigo de carvalhos perto da estrada, e
Lindsey foi atrs. Na semana anterior eles tinham ido cortar os cabelos no
mesmo barbeiro de Market Street, e embora os cabelos de Lindsey fossem
mais claros e mais finos do que os de Samuel o barbeiro tinha lhes feito cortes
idnticos, espetados. Um segundo depois de tirarem os capacetes seus
cabelos receberam as grandes gotas que passavam por entre as rvores, e o
rimei de Lindsey comeou a escorrer. Vi Samuel usar o polegar para limpar as
manchas da bochecha de Lindsey.
     -- Feliz formatura -- disse ele na escurido, e se inclinou para beij-la.
     Desde seu primeiro beijo em nossa cozinha, duas semanas depois da
minha morte, eu sabia que ele era -- como minha irm e eu tnhamos rido
com nossas Barbies ou vendo Bobby Sherman na TV -- seu nico amor.
Samuel tinha se comportado como um curativo para a carncia dela, e a liga
entre os dois tinha comeado a se soldar imediatamente. Tinham ido  Temple
juntos, lado a lado. Ele tinha odiado e ela o tinha feito ir at o fim. Ela havia
adorado e isso havia permitido a ele sobreviver.
     -- Vamos tentar encontrar a parte mais densa desses arbustos -- disse
ele.



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     -- E a moto?
     -- O Hal provavelmente vai ter que resgatar a gente quando a chuva
passar.
     -- Merda! -- disse Lindsey.
     Samuel riu e agarrou a mo dela para comear a andar. No instante em
que o fizeram, ouviram o primeiro trovo e Lindsey pulou. Ele a segurou com
mais fora. O relmpago ainda estava longe, e o trovo ficaria mais forte atrs
dele. Ela nunca tinha sentido por ele o mesmo que eu. Ele a deixava assustada
e nervosa. Ela imaginava rvores partidas ao meio e casas pegando fogo e
cachorros se encolhendo em pores pelos subrbios.
     Foram andando em meio aos arbustos, que estavam ficando encharcados,
apesar das rvores. Embora fosse o meio da tarde, estava tudo escuro a no
ser pela lanterna de emergncia de Samuel. Mesmo assim eles sentiam provas
da presena de pessoas. Suas botas esmagavam latas de alumnio e chutavam
garrafas vazias. Ento, atravs da folhagem densa e da escurido, ambos viram
as vidraas quebradas alinhadas na parte superior de uma velha casa vitoriana.
Samuel desligou a lanterna de emergncia imediatamente.
     -- Voc acha que tem algum l dentro? -- perguntou Lindsey.
     --  escuro.
     --  sinistro.
     Eles se entreolharam, e minha irm disse o que ambos estavam pensando.
     -- E seco!
     Deram-se as mos sob a forte chuva e correram em direo  casa o mais
rpido possvel, tentando no tropear nem escorregar na lama cada vez mais
abundante.
     Conforme se aproximavam, Samuel pde distinguir a inclinao
pronunciada do telhado de duas guas e o pequeno bando de madeira
esculpida que pendia da cumeeira. A maioria das janelas do andar de baixo
tinha sido fechada com madeira, mas a porta da frente balanava para a frente
e para trs nas dobradias, batendo na parede interna de gesso. Embora uma
parte dele quisesse ficar do lado de fora na chuva olhando para os beirais e
cornijas, ele correu para dentro da casa com Lindsey. Ficaram a alguns passos
da porta, tremendo e olhando para a floresta pr-suburbana que os cercava l
fora. Rapidamente vasculhei os cmodos da velha casa. Eles estavam sozinhos.



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Nenhum monstro assustador espreitava nos cantos, nenhum vagabundo havia
se instalado ali.
     Esses terrenos no renovados estavam desaparecendo cada vez mais
depressa mas, mais do que qualquer outra coisa, eles tinham marcado a minha
infncia. Ns morvamos em uma das primeiras reas de expanso serem
construdas nas fazendas convertidas da regio -- uma rea de expanso que
se tornou modelo e inspirao para o que agora parecia um nmero infinito
delas -- mas a minha imaginao sempre havia sido atrada pelo trecho de
estrada que no tinha sido preenchido com as cores brilhantes dos sarrafos e
calhas, das ruas caladas e das caixas de correio tamanho gigante. A de
Samuel tambm.
     -- Uau! -- disse Lindsey. -- Quantos anos voc acha que ela tem? A voz
de Lindsey ecoava nas paredes como se eles estivessem sozinhos uma igreja.
     -- Vamos explorar -- disse Samuel.
     As janelas do primeiro andar, lacradas com tbuas, no permitiam ver
quase nada, mas com a ajuda da lanterna de emergncia de Samuel eles
puderam distinguir uma lareira e o guarda-cadeiras nas paredes.
     -- Olha para o cho -- disse Samuel. Ele se ajoelhou, levando-a consigo.
-- Est vendo como as tbuas se encaixam umas nas outras? Essa gente tinha
mais dinheiro do que seus vizinhos.
     Lindsey sorriu. Da mesma maneira que Hal gostava do interior das
motocicletas, Samuel tinha se tornado obcecado por carpintaria. Ele correu os
dedos pelo cho e fez Lindsey fazer o mesmo.
     -- E uma velha runa esplndida -- disse ele.
     -- Vitoriana? -- perguntou Lindsey, dando seu melhor chute.
     -- Fico bobo de dizer isso -- disse Samuel -- mas acho que  revival
gtico. Reparei nas vigas diagonais no remate da cumeeira, ento isso quer
dizer que a casa foi construda depois de 1860.
     -- Olha -- disse Lindsey.
     No meio do cho algum tinha feito uma fogueira muito tempo atrs.
     -- Isso sim  uma tragdia -- disse Samuel.
     -- Por que eles no usaram a lareira? Todos os cmodos tm lareira.




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     Mas Samuel estava ocupado olhando para o buraco que a fogueira tinha
feito no teto, tentando identificar o padro do trabalho em madeira nas
molduras das janelas.
     -- Vamos subir -- disse ele.
     -- Parece que eu estou dentro de uma caverna -- disse Lindsey enquanto
eles subiam as escadas. -- Est to silencioso aqui que mal se consegue ouvir
a chuva.
     Enquanto subia, Samuel batia no gesso com a lateral do punho fechado.
     -- E possvel murar algum dentro deste lugar.
     E de repente ali estava um daqueles instantes desconfortveis que eles
tinham aprendido a deixar passar e eu vivia esperando que acontecessem.
     Ele trazia uma pergunta central. Onde eu estava? Eu seria mencionada?
Seria citada e discutida? Geralmente agora a resposta era um decepcionante
no. Na Terra no era mais dia de festa para Susie.
     Mas alguma coisa naquela casa e naquela noite -- acontecimentos
marcantes como formaturas e nascimentos sempre significavam que eu estava
mais viva, mais alto na escala de pensamento -- fez Lindsey pensar em mim
por mais tempo do que o instante durante o qual normalmente pensaria.
Ainda assim, ela nada disse. Lembrou-se da sensao de tontura que tinha tido
na casa do sr. Harvey e que muitas vezes desde ento -- a sensao de que de
alguma maneira eu estava com ela, em seus pensamentos e em seus membros
-- andando com ela como uma gmea.
     No alto das escadas eles encontraram a entrada para o quarto que tinham
visto l de baixo.
     -- Eu quero esta casa -- disse Samuel.
     -- O qu?
     -- Esta casa precisa de mim, eu posso sentir isso.
     -- Talvez voc devesse esperar o sol sair para decidir -- disse ela.
     -- Ela  a coisa mais linda que eu j vi -- disse ele.
     -- Samuel Heckler -- disse minha irm --, o homem que conserta coisas.
     -- Olha quem fala -- disse ele.
     Ficaram parados por um instante em meio ao silncio, sentindo o cheiro
do ar mido descer pela chamin e inundar o quarto. Mesmo com o barulho
da chuva, Lindsey ainda se sentia escondida, abrigada na segurana de um



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canto afastado do mundo com a nica pessoa que amava mais do que
qualquer outra.
     Ela o pegou pela mo, e viajei junto com eles at o vo da porta de um
pequeno cmodo bem na frente da casa. Ele ultrapassava o que devia ser o
hall de entrada do andar de baixo e seu formato era octogonal.
     --  uma sacada envidraada -- disse Samuel. -- As janelas -- ele se
virou para Lindsey -- quando so construdas assim para fora, como um
quartinho, isso se chama uma sacada envidraada.
     -- Isso te deixa excitado? -- perguntou Lindsey, sorrindo.
     Eu os deixei na chuva e na escurido. Perguntei-me se Lindsey percebeu
que quando ela e Samuel comearam a abrir os zperes de suas roupas de
couro o relmpago parou e o barulho na garganta de Deus -- aquele trovo
assustador -- cessou.

                                               12
     Em seu quartinho, meu pai estendeu a mo para pegar o globo de neve.
O vidro frio em seus dedos o reconfortava, e ele o sacudiu para ver o pinguim
desaparecer e em seguida ser lentamente descoberto pela neve que caa
suavemente.
     Hal tinha voltado da cerimnia de formatura em sua moto mas, em vez de
acalmar meu pai -- dando-lhe alguma garantia de que, se uma motocicleta
era capaz de atravessar a tempestade e depositar seu motorista com
segurana na porta da sua casa, outra tambm seria -- aquilo parecia
aumentar as probabilidades do contrrio em sua mente.
     Ele tinha experimentado o que se poderia chamar de doloroso deleite na
cerimnia de formatura de Lindsey. Buckley tinha se sentado ao seu lado,
avisando-o prontamente quando sorrir e quando reagir. Ele geralmente sabia
quando faz-lo, mas suas sinapses agora nunca eram to rpidas quanto as
das pessoas normais -- ou pelo menos era assim que ele explicava o fato para
si mesmo. Era como o tempo de reao nos pedidos de seguro que ele
revisava. Para a maioria das pessoas havia um nmero mdio de segundos
entre o instante em que percebiam alguma coisa -- outro carro, uma pedra
descendo de uma ribanceira -- e o instante em que reagiam. Os tempos de
resposta do meu pai eram mais lentos do que os da maioria das pessoas,



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como se ele se movesse em um mundo onde uma inevitabilidade esmagadora
o tivesse privado de qualquer esperana de ter uma percepo aguada.
      Buckley bateu na porta semiaberta do quartinho do meu pai.
      -- Entre -- disse ele.
      -- Eles vo ficar bem, pai. -- Aos 12 anos, meu irmo tinha se tornado
srio e preocupado. Mesmo que no pagasse pela comida nem cozinhasse,
era ele quem administrava a casa.
      -- Voc estava bonito de terno, filho -- disse meu pai.
      -- Obrigado. -- Isso era importante para o meu irmo. Ele queria deixar
meu pai orgulhoso e tinha demorado para se arrumar, chegando at a pedir
naquela manh para vov Lynn ajud-lo a aparar a franja que caa em seus
olhos. Meu irmo estava no estgio mais estranho da adolescncia-- no era
mais menino, ainda no era homem. Na maior parte do tempo escondia o
prprio corpo com enormes camisetas e jeans folgados, mas naquele dia tinha
gostado de usar o terno.
      -- O Hal e a vov esto esperando a gente l embaixo -- disse ele.
      -- J vou descer.
      Buckley fechou a porta at o fim desta vez, fazendo a lingeta entrar no
lugar.
      Naquele outono, meu pai tinha mandado revelar o ltimo filme que eu
havia guardado no meu armrio, na caixa de "filmes para guardar", e nessa
hora, como sempre fazia quando pedia s um minuto antes do jantar ou via
alguma coisa na TV ou lia algum artigo no jornal que fazia seu corao doer,
abriu a gaveta de sua escrivaninha e levantou delicadamente as fotos.
      Ele tinha feito vrios sermes para mim dizendo que o que eu chamava
de minhas "fotos artsticas" eram afoitas, mas o melhor retrato que ele jamais
teve foi um que eu tirei dele em um ngulo que, quando se segurava a foto,
fazia seu rosto encher o quadrado de 9 x 9 cm como se fosse um diamante.
      Eu deveria ter ouvido suas dicas sobre ngulos de mquina e composio
ao tirar as fotos que ele segurava agora. Ele no tinha ideia da ordem em que
os filmes estavam nem do que eram as fotos quando as revelou.
      Havia um nmero impressionante de fotos de Holiday, e muitos retratos
dos meus ps ou da grama. Bolas cinzas embaadas no ar que eram
passarinhos, e uma tentativa granulada de um pr-do-sol por cima do



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salgueiro. Mas em algum momento eu tinha decidido fazer retratos da minha
me. Depois de buscar o filme no laboratrio, meu pai ficou sentado no carro
encarando fotos de uma mulher que agora tinha a sensao de mal conhecer.
     Desde ento tinha olhado para aquelas fotos vezes sem conta, mas todas
as vezes que olhava para o rosto daquela mulher sentia alguma coisa nascer
dentro de si. Levou muito tempo para perceber o que era. S recentemente
suas sinapses feridas tinham lhe permitido dar nome ao sentimento. Ele estava
se apaixonando de novo.
     No entendia como duas pessoas que eram casadas, que se viam todos
os dias, podiam se esquecer da aparncia uma da outra, mas se ele tivesse de
descrever o que tinha acontecido, era isso. E as duas ltimas fotos do filme
forneciam a explicao. Ele tinha chegado em casa do trabalho -- lembro-me
de tentar manter a ateno da minha me enquanto Holiday latia ouvindo o
carro entrar na garagem.
     -- Ele vai sair -- disse eu. -- Fique parada. -- E ela ficou. Parte do que eu
amava na fotografia era o poder que ela me dava sobre as pessoas do outro
lado da mquina, mesmo meus prprios pais.
     Com o canto dos olhos, vi meu pai entrar no quintal pela porta lateral. Ele
estava carregando a pasta fina que, anos antes, Lindsey e eu tnhamos
investigado com sofreguido e encontrado muito pouca coisa de nosso
interesse. Enquanto ele largava a pasta, tirei a ltima foto solitria da minha
me. Seus olhos j tinham comeado a parecer distrados e preocupados,
mergulhando e reaparecendo de algum modo em forma de uma mscara. Na
foto seguinte, a mscara estava quase no lugar, mas ainda no totalmente, e
na ltima foto, onde meu pai se inclinava de leve para lhe dar um beijo na
bochecha -- ali estava a mscara.
     -- Fui eu quem fiz isso com voc? -- perguntou ele  imagem dela
enquanto olhava as fotos enfileiradas da minha me. -- Como foi que isso
aconteceu?

                                               12
    -- O relmpago parou -- disse minha irm. A umidade da chuva sobre
sua pele tinha sido substituda por suor.
    -- Eu te amo -- disse Samuel.



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     -- Eu sei.
     -- No, eu estou dizendo que te amo e quero me casar com voc, e
quero morar nesta casa!
     -- O qu?
     -- Aquele terror daquela faculdade acabou! -- gritou Samuel. O pequeno
cmodo absorveu sua voz, mal devolvendo um eco de suas grossas paredes.
     -- Para mim no acabou no -- disse minha irm.
     Samuel se levantou do cho, onde estava deitado ao lado da minha irm,
e se ajoelhou na frente dela.
     -- Casa comigo.
     -- Samuel?
     -- Cansei de fazer sempre a coisa certa. Casa comigo e eu deixo esta casa
linda.
     -- Quem vai sustentar a gente?
     -- A gente mesmo -- disse ele --, de algum jeito.
     Ela se sentou e depois se ajoelhou junto com ele.Ambos estavam seminus
e ficando com frio  medida que o calor de seus corpos comeava a se
dissipar.
     -- Tudo bem.
     -- Tudo bem?
     -- Acho que posso -- disse minha irm. -- Quero dizer, caso!
     Alguns clichs eu s entendia quando eles chegavam no meu cu a toda
velocidade. Eu nunca tinha visto uma galinha com a cabea cortada. Aquilo
nunca tinha significado muito para mim, exceto um animal tratado de um
modo bem parecido comigo. Mas naquele instante eu corri pelo meu cu
como... uma galinha com a cabea cortada! Fiquei to feliz que gritei, grite; e
continuei gritando sem parar. Minha irm! Meu Samuel! Meu sonho! Ela estava
chorando, e ele a abraou, ninando-a junto ao corpo.
     -- Voc est feliz, amor? -- perguntou ele.
     Ela balanou a cabea contra o peito nu dele.
     -- Estou -- disse ela, e ento congelou. -- Meu pai. -- Levantou a cabea
e olhou para Samuel. -- Eu sei que ele est preocupado.
     --  -- disse ele, tentando entrar na mesma sintonia que ela.
     -- Quantos quilmetros tem daqui at l em casa?



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      -- Uns dezesseis -- disse Samuel. -- Talvez treze.
      -- A gente consegue -- disse ela.
      -- Voc est louca.
      -- Nossos tnis esto no outro compartimento.
      Eles no conseguiam correr com a roupa de couro, ento ficaram de
roupa de baixo e camiseta, mais parecidos com aqueles malucos que entram
correndo em lugares pblicos do que qualquer pessoa da minha famlia jamais
ficaria. Como tinha feito durante anos, Samuel marcava um ritmo logo  frente
da minha irm para faz-la seguir em frente. Quase no tinha carros na
estrada, mas quando passava algum um muro de gua subia das poas perto
do acostamento e fazia os dois engasgarem para tornar a fazer entrar ar nos
pulmes. Ambos j tinham corrido debaixo de chuva, mas nunca de uma
chuva to forte. Ficaram brincando de quem conseguia se proteger mais
enquanto iam percorrendo os quilmetros, entrando e saindo de baixo de
qualquer rvore alta, enquanto a sujeira e a fuligem da estrada cobriam suas
pernas. Mas aos cinco quilmetros ficaram em silncio, empurrando os ps
para a frente em um ritmo que ambos conheciam havia anos, concentrando-se
no som da prpria respirao e no som de seus sapatos molhados batendo no
asfalto.
      Em algum momento, enquanto passava por uma poa grande, sem tentar
mais evit-las, Lindsey pensou na piscina do bairro da qual ramos scios
antes de a minha morte pr fim  vida pblica confortvel da minha famlia. A
piscina ficava em algum lugar naquela estrada, mas ela no levantou a cabea
para encontrar a conhecida cerca de arame. Em vez disso,teve uma lembrana.
Ela e eu estvamos debaixo d'gua com nossos maios de saiote de babados.
Ns duas estvamos de olhos abertos debaixo d'gua, uma coisa nova -- mais
nova para ela -- e olhvamos uma para a outra, nossos corpos separados
suspensos debaixo d'gua. Cabelos flutuando, saiotes boiando, nossas
bochechas infladas com o ar guardado. Ento, juntas, segurvamos uma na
outra e saamos da gua como dardos, rompendo a superfcie. Enchamos os
pulmes de ar -- ouvidos estalando -- e ramos juntas.
      Fiquei olhando minha linda irm correr, pernas e pulmes bombeando, e
a habilidade da piscina ainda presente -- lutando para ver atravs da gua,
lutando para manter as pernas se levantando no ritmo marcado por Samuel, e



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soube que ela no estava correndo de mim nem na minha direo. Como
algum que sobrevive a um tiro na barriga, a ferida estivera se fechando, se
fechando  tranando-se em uma cicatriz durante oito longos anos.
     Quando os dois estavam a um quilmetro e meio da minha casa, a chuva
tinha diminudo e as pessoas comeavam a olhar a rua pelas janelas.
     Samuel diminuiu o ritmo e ela o imitou. As camisetas estavam coladas em
seus corpos como uma pasta.
     Lindsey tinha lutado com uma cibra na lateral do corpo, mas conforme a
cibra ia passando comeou a correr com Samuel a toda velocidade. De
repente, se viu coberta de arrepios e sorrindo de orelha a orelha.
     -- A gente vai casar! -- disse ela, e ele parou de correr, segurou-a nos
braos, e eles ainda estavam se beijando quando um carro passou por eles na
estrada, motorista buzinando.
     Quando a campainha tocou na nossa casa eram quatro horas e Hal estava
na cozinha usando um dos velhos aventais de cozinheiro da minha me e
cortando brownies para vov Lynn. Ele gostava que o fizessem trabalhar,
gostava de se sentir til, e minha av gostava de us-lo. Eram um time
simptico. Enquanto Buckley, o menino guarda-costas, adorava comer.
     -- Eu atendo -- disse meu pai. Durante a chuva, ele tinha se aguentado
com highballs mexidos, sem medir, por vov Lynn.
     Agora estava leve, com uma espcie de graa frgil, como um bailarino
aposentado que preferia uma perna  outra, depois de longos anos de pulos
com um p s.
     -- Eu estava to preocupado -- disse ele ao abrir a porta.
     Lindsey tinha os braos cruzados na frente do peito, e at meu pai teve
que rir enquanto desviava os olhos e pegava depressa os cobertores
sobressalentes guardados no armrio da frente. Samuel enrolou um deles em
volta de Lindsey primeiro, enquanto meu pai cobria os ombros dele da melhor
forma possvel e poas se acumulavam no cho de pedra. Buckley, Hal e vov
Lynn entraram no hall.
     -- Buckley -- disse vov Lynn --, v pegar umas toalhas.
     -- Vocs conseguiram vir de moto nessa chuva? -- perguntou Hal,
incrdulo.
     -- No, a gente correu -- disse Samuel.



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    -- Vocs o qu?
    -- Entrem na sala ntima -- disse meu pai. -- Vamos acender a lareira.


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     Enquanto os dois ficavam sentados de costas para o fogo, tremendo no
comeo e bebendo as doses de conhaque que vov Lynn mandou Buckley
lhes servir em uma bandeja de prata, todos ouviram a histria da moto e da
casa e do cmodo octogonal com as janelas que tinham deixado Samuel
eufrico.
     -- E est tudo bem com a moto? -- perguntou Hal.
     -- A gente fez o melhor possvel -- disse Samuel --, mas vamos precisar
de um reboque.
     -- S estou feliz por vocs dois estarem bem -- disse meu pai.
     -- A gente correu para casa pelo senhor, sr. Salmon.
     Minha av e meu irmo tinham se sentado no outro canto da sala, longe
do fogo.
     -- A gente no queria que ningum se preocupasse -- disse Lindsey.
     -- A Lindsey no queria que o senhor se preocupasse, mais
especificamente.
     A sala ficou silenciosa por um instante. O que Samuel tinha dito era
verdade,  claro, mas tambm apontava com clareza demais para um fato
especfico -- que Lindsey e Buckley tinham passado a viver a vida em
proporo direta do efeito que ela teria sobre um pai frgil.
     Vov Lynn olhou minha irm nos olhos e deu uma piscadela.
     -- O Hal, o Buckley e eu fizemos brownes -- disse ela. -- E tenho um
pouco de lasanha congelada que posso descongelar, se quiserem. -- Ela ficou
em p e meu irmo tambm -- pronto para ajudar.
     -- Eu adoraria brownes, Lynn -- disse Samuel.
     -- Lynn? Gostei -- falou ela. -- Vai comear a chamar o Jack de "Jack"?
     -- Talvez.
     Quando Buckley e vov saram da sala, Hal sentiu um nervosismo no ar.
     -- Acho que vou l ajudar -- disse ele.




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     Lindsey, Samuel e meu pai ficaram escutando os barulhos da
movimentao na cozinha. Todos podiam ouvir o relgio batendo no canto,
aquele que minha me chamava de nosso "relgio rstico colonial".
     -- Eu sei que me preocupo demais -- disse meu pai.
     -- No foi isso que o Samuel quis dizer -- falou Lindsey.
     Samuel estava calado e eu estava olhando para ele.
     -- Sr. Salmon -- disse ele enfim --, ainda no estava realmente pronto
para dizer "Jack". -- Eu pedi a Lindsey em casamento.
     O corao de Lindsey estava na boca, mas ela no estava olhando para
Samuel. Estava olhando para o meu pai.
     Buckley entrou com uma bandeja de brownies e Hal o seguiu com taas
de champanhe penduradas nos dedos e uma garrafa de Dom Prignon 1978.
     -- Da sua av, pelo dia da sua formatura -- disse Hal.
     Vov Lynn entrou em seguida, de mos vazias exceto pelo highball. O
drinque capturava a luz e cintilava como um vidro de diamantes gelados.
     Para Lindsey, era como se no houvesse ningum ali a no ser ela e meu
pai.
     -- O que voc diz, pai? -- perguntou ela.
     -- Eu diria -- ele conseguiu dizer, levantando-se para apertar a mo de
Samuel -- que no poderia querer um genro melhor.
     Vov Lynn explodiu ao ouvir a ltima palavra.
     -- Meu Deus, ah, querida! Parabns!
     At Buckley se soltou,saindo do n que geralmente o prendia e deixando-
se levar por uma rara alegria. Mas eu via a linha fina e trmula que ainda unia
minha irm a meu pai. O cordo invisvel capaz de matar.
     A rolha da champanhe espocou.
     -- Perfeito! -- disse minha av para Hal, que estava enchendo os copos.
     Foi Buckley quem me viu, enquanto meu pai e minha irm se juntavam ao
grupo e ouviam os incontveis brindes da vov Lynn. Ele me viu de p debaixo
do relgio rstico colonial e me encarou. Estava bebendo champanhe. Havia
cordas estendidas a toda minha volta, esticadas, esvoaando no ar. Algum lhe
passou um brownie. Ele o segurou nas mos, mas no comeu. Via meu rosto e
minha forma, que no tinham mudado -- os cabelos ainda repartidos no




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meio, o peito ainda liso e os quadris estreitos --, e quis chamar meu nome. Foi
s por um instante, e depois eu desapareci.


                                               12
     Com os anos, quando me cansava de olhar, muitas vezes ficava sentada
atrs dos trens que entravam e saam do terminal suburbano da Filadlfia. Os
passageiros subiam e desciam enquanto eu escutava suas conversas
misturadas com os sons das portas do trem se abrindo e se fechando, dos
motoristas gritando os nomes das paradas, e do arrastar e estalar de solas e
saltos de sapatos passando do cimento para o metal, para o suave pof pof dos
corredores acarpetados dos trens. Era o que Lindsey, em seus exerccios,
chamava de descanso ativo; meus msculos ainda estavam trabalhando, mas
minha ateno relaxava. Eu ouvia os sons e sentia o movimento do trem e
algumas vezes, ao fazer isso, podia ouvir as vozes daqueles que no viviam
mais na Terra. Vozes de outros como eu, os observadores.
     Quase todo mundo no cu tem algum na Terra para quem olha, uma
pessoa amada, um amigo, ou mesmo um estranho que um dia foi gentil,
ofereceu comida quente ou um sorriso radiante quando um de ns precisou. E
quando eu no estava olhando podia ver os outros falando com os que
amavam na Terra: to inutilmente quanto eu, acho. Adulando e ensinando os
jovens em mo nica, amando e desejando parceiros em mo nica,
mandando um carto em mo nica que nunca podia ser assinado.
     O trem ficava parado ou saa da rua 30 para perto de Overbrook e eu
podia ouvi-los dizer nomes e frases: "Olhe, cuidado com esse vidro." ''Cuide do
seu pai." "Ah, olhe como ela parece crescida com esse vestido." "Estou com
voc, me." "... Esmeralda, Sally, Lupe, Keesha, Frank..." Tantos nomes. Ento o
trem ganhava velocidade, e conforme ia acelerando, o volume de todas essas
frases silenciosas vindas do cu aumentava cada vez mais; no volume mximo
entre duas estaes, o som da nossa saudade ficava to ensurdecedor que eu
precisava abrir os olhos.
     Espiando pelas janelas dos trens subitamente silenciosos eu via mulheres
estendendo ou recolhendo roupas do varal. Elas se inclinavam por cima de
cestos e depois estendiam lenis brancos ou amarelos ou cor-de-rosa. Eu




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contava as cuecas dos homens e as cuecas dos meninos e o conhecido
algodo estampado com pirulitos das calcinhas das meninas. E o som daquilo,
minha nsia e minha saudade -- o som da vida --, substitua o incessante
chamar de nomes.
     Roupa lavada mida: a tenso no varal, o peso molhado de lenis de
solteiro e de casal. Os verdadeiros sons trazendo de volta sons lembrados de
um passado quando eu me deitava embaixo das roupas pingando para
recolher a gua com a lngua ou corria entre elas como se fossem cones de
trnsito entre os quais eu perseguia Lindsey de um lado para o outro. E a isso
se juntava a lembrana da nossa me tentando nos passar um sermo sobre
como a manteiga de amendoim das nossas mos manchava os lenis bons,
ou sobre as manchas de bala de limo grudenta que tinha encontrado nas
camisas do nosso pai. Assim, a viso e o cheiro do real, do imaginado e do
lembrado se juntavam para mim.
     Depois de virar as costas para a Terra naquele dia, passeei nos trens at
s conseguir pensar em uma coisa:
     -- Segura firme -- dizia meu pai enquanto eu segurava o barco na
garrafa e ele queimava os barbantes que tinha usado para levantar o mastro e
libertava o veleiro em seu mar azul de resina. E eu esperava por ele,
reconhecendo a tenso daquele instante em que o mundo na garrafa
dependia unicamente de mim.




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                                       Captulo 18




   Q       uando seu pai lhe falou sobre o sumidouro ao telefone, Ruth estava
           no closet que alugava na Primeira Avenida. Ela enrolava o longo fio
           preto do telefone em volta do pulso e do brao e dava respostas
curtas, entrecortadas, para confirmar que estava ouvindo. A velha senhora que
lhe alugava o closet gostava de ouvir suas ligaes, ento Ruth tentava no
ralar muito ao telefone. Mais tarde, da rua, ligava para casa a cobrar e
combinava uma visita.
     Ela sabia que faria uma romaria para v-lo antes dos construtores o
fecharem. Seu fascnio por lugares como o sumidouro era um segredo que
mantinha guardado, assim como meu assassinato e nosso encontro no
estacionamento do colgio. Havia coisas de que no podia abrir mo em Nova
    York, onde via os outros contarem suas histrias embriagadas nos bares,
prostituindo suas famlias e seus traumas em troca de popularidade e birita.
Ela sentia que essas coisas no eram para ser distribudas como brindes de
festa fajutos. Respeitava um cdigo de honra com seus dirios e seus poemas.
     -- L dentro, l dentro -- sussurrava em voz baixa para si mesma quando
sentia o impulso de contar, e acabava dando grandes passeios pela cidade,
vendo em seu lugar o milharal de Stofulz ou uma imagem do pai olhando seus
pedaos de frisos de poca resgatados. Nova York formava um cenrio
perfeito para seus pensamentos. Apesar de suas caminhadas decididas pelas
ruas e vielas, a cidade em si tinha muito pouco a ver com sua vida interior.
     Ela no parecia mais atormentada, como no cientfico, mas, olhando seus
olhos de perto, era possvel ver a energia fugidia como a de um coelho que
muitas vezes deixava as pessoas nervosas. Seu rosto tinha a expresso de
quem estava constantemente procurando alguma coisa ou esperando algum
que ainda no tinha chegado. Seu corpo todo parecia se inclinar para a frente
em expectativa, e embora lhe tivessem dito no bar onde trabalhava que ela




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tinha belos cabelos ou belas mos ou, nas raras vezes em que algum de seus
patres a via sair de trs do balco, belas pernas, as pessoas nunca diziam
nada sobre seus olhos.
      Ela vestiu apressada uma meia-cala preta, uma saia preta curta, botas
pretas e uma camiseta preta, todas manchadas por servirem ao mesmo tempo
como roupas de trabalho e roupas de verdade. As manchas s eram visveis ao
sol, ento Ruth nunca prestava muita ateno nelas at depois, quando parava
em um caf ao ar livre para uma xcara de caf e baixava os olhos para a saia e
via as manchas escuras de vodca ou usque. O lcool tinha o efeito de tornar a
roupa preta mais preta. Aquilo a divertia; ela tinha anotado em seu dirio: "o
lcool afeta os tecidos do mesmo jeito que afeta as pessoas".
      Uma vez, do lado de fora, a caminho de uma xcara de caf na Primeira
Avenida, ela mantinha conversas secretas com os gordos cachorros de colo --
chihuahuas ou lulus-da-pomernia -- que as mulheres ucranianas seguravam
no colo sentadas em seus banquinhos. Ruth gostava daqueles cachorrinhos
rabugentos, que latiam com vontade quando ela passava.
      Ento ela caminhava, caminhava sem parar, caminhava com uma energia
vinda l do fundo da terra e entrando pelo calcanhar de seu p em
movimento. Ningum lhe dizia bom dia,exceto malucos, e ela ficava brincando
de quantas ruas conseguia atravessar sem parar em nenhum sinal. No
diminua o passo para outras pessoas e dissecava as multides de alunos da
NYU ou de velhas com carrinhos de roupa da lavanderia que passavam por
seus dois lados como um vento. Gostava de imaginar que, quando ela passava,
o mundo a seguia com os olhos, mas tambm sabia o quanto era annima.
Exceto quando estava no trabalho, ningum sabia onde ela estava em nenhum
momento do dia e ningum esperava por ela. Era um anonimato imaculado.
      Ela no podia saber que Samuel tinha pedido minha irm em casamento
e, a no ser que a notcia chegasse at ela por Ray, a nica pessoa do colgio
com quem ela mantinha contato, jamais saberia. Enquanto ainda estava em
Fairfax, soube que minha me tinha sado de casa. Uma nova onda de
murmrios tinha percorrido o cientfico, e Ruth tinha visto minha irm lidar
com eles da melhor maneira possvel. De vez em quando as duas se
encontravam no saguo. Ruth dizia algumas palavras de apoio, caso fosse
capaz de faz-lo sem fazer o que pensava ser prejudicar Lindsey falando com



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ela. Ruth conhecia seu status de maluca no colgio e sabia que sua nica noite
juntas no simpsio dos bons alunos tinha sido exatamente o que parecia ser
-- um sonho, onde os elementos soltos se juntaram espontaneamente longe
das regras draconianas do colgio.
     Mas Ray era diferente. Seus beijos e seus primeiros amassos eram coisas
que ela guardava em uma redoma de vidro -- lembranas que conservava. Ela
o via sempre que visitava seus pais e soube imediatamente que era Ray que
levaria consigo para visitar o sumidouro. Ele ficaria feliz pela folga em seu
ritmo de estudo constante e, se ela tivesse sorte, descreveria, como sempre
fazia, um procedimento mdico que tivesse observado. O modo de Ray
descrever aquelas coisas a fazia sentir que sabia exatamente a sensao que
aquilo provocava -- no s a aparncia que tinha. Ele era capaz de evocar
tudo para ela, com pequenas pulsaes verbais das quais no tinha a menor
conscincia.
     Rumando para o norte pela Primeira Avenida, ela podia assinalar todos os
lugares em que j tinha parado e ficado em p, certa de ter encontrado um
lugar onde uma mulher ou uma menina tinham sido mortas. Tentava list-los
no dirio ao final de cada dia, mas em geral ficava to considerada com o que
pensava poder ter acontecido nesta ou naquela sacada ou beco estreito que
ignorava os lugares mais simples, mais bvios, quando tinha lido sobre um
assassinato no jornal e visitado o que tinha sido o tmulo de uma mulher.
     Ela no tinha conscincia de que era uma espcie de celebridade no cu.
Eu tinha falado dela para as pessoas, do que ela fazia, de como observava
instantes de silncio por todos os cantos da cidade e escrevia pequenas preces
individuais em seu dirio, e a histria tinha corrido to depressa que as
mulheres faziam fila para saber se ela tinha encontrado o lugar onde tinham
sido mortas. Ruth tinha fs no cu, mas teria ficado decepcionada se soubesse
que muitas vezes essas fs, quando se reuniam, pareciam-se mais com um
bando de adolescentes folheando um nmero da TeenBeat do que com a
imagem que Ruth fazia de tnues lamentos sussurrados ritmados por
tmpanos celestiais.
     Cabia a mim seguir e olhar e, ao contrrio do coro ruidoso, eu geralmente
achava esses instantes ao mesmo tempo dolorosos e incrveis. Ruth captava
uma imagem e essa imagem ficava impressa em seu crebro. Algumas vezes



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eram s flashes brilhantes -- uma queda das escadas, um grito, um empurro,
mos se fechando em volta de um pescoo -- e outras vezes eram como um
roteiro inteiro se desenrolando em sua mente durante o tempo exato que a
menina ou a mulher levava para morrer.
      Ningum na rua reparava na moa vestida de preto da parte baixa da
cidade que parava no meio do trfego de pedestres do centro. Com seu
disfarce de estudante de artes, ela podia percorrer Manhattan inteira e, mesmo
no se misturando, ser classificada, e, portanto, ignorada. Enquanto isso, para
ns, ela fazia um trabalho importante, um trabalho que a maioria das pessoas
na Terra tinha medo demais para sequer pensar em fazer.
      No dia seguinte  formatura de Lindsey e Samuel eu fui caminhar com ela.
Quando ela chegou ao Central Park j passava muito da hora do almoo, mas
o parque ainda estava cheio. Casais estavam sentados na grama aparada do
campo. Ruth os espiou. Sua intensidade era intimidadora em uma tarde de sol,
e quando os rostos amigveis dos rapazes a viam, logo se fechavam ou
olhavam para o outro lado. Ela ziguezagueou pelo parque para cima e para
baixo. Tinha lugares bvios aonde ia, como as trilhas, para documentar a
histria de violncia ocorrida ali sem sequer sair de perto das rvores, mas ela
preferia os lugares que as pessoas consideravam seguros. A superfcie calma e
cintilante do lago de patos escondida no movimentado canto sudeste do
parque, ou o plcido lago artificial, onde velhinhos punham lindos barcos
feitos a mo para flutuar.
      Ela se sentou no banco de uma trilha que levava ao jardim zoolgico do
Central Park e olhou para o cascalho cheio de crianas com suas babs e
adultos solitrios lendo livros em vrios pontos de sombra ou de sol. Estava
cansada da caminhada at a parte alta da cidade, mas mesmo assim tirou o
dirio da bolsa. Colocou-o aberto no colo, segurando a caneta para ajud-la a
pensar. Ruth tinha aprendido que era melhor parecer que se estava fazendo
alguma coisa quando se mantinham os olhos fixos ao longe. Seno era
provvel que homens estranhos se aproximassem e tentassem falar com voc.
Seu dirio era seu relacionamento mais ntimo e mais importante. Ele continha
tudo.
      Na sua frente, uma menininha se afastou do cobertor onde sua bab
dormia. Estava se encaminhando para os arbustos que cobriam um pequeno



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declive antes de dar lugar a uma cerca que separava o parque da Quinta
Avenida. No instante em que Ruth estava prestes a entrar no mundo dos seres
humanos cujas vidas colidem com as dos outros chamando a bab, um tnue
fio, que Ruth no tinha visto, alertou a bab de que ela deveria acordar. Ela
imediatamente se sentou com um susto e vociferou uma ordem para a
menininha voltar.
     Em instantes como aquele ela pensava em todas as menininhas que
chegavam  idade adulta e  terceira idade como uma espcie de alfabeto
cifrado para todas as que no chegavam. Suas vidas, de algum modo, seriam
inextricavelmente ligadas a todas as meninas que tinham sido mortas. Fo:
ento, enquanto a bab arrumava a bolsa e enrolava o cobertor, preparando-
se para o que quer que fosse sua prxima atividade naquele dia, que Ruth a
viu -- uma menininha que tinha andando em direo aos arbustos certo dia e
desaparecido.
     Pelas roupas, podia ver que aquilo tinha acontecido algum tempo atrs,
mas era s. Fora isso, nada -- nenhuma bab nem me, nenhuma ideia de
noite ou dia, s uma menininha desaparecida.
     Fiquei ali com Ruth. Com o dirio aberto, ela anotou. "Hora? Menininha
no CP. some entre os arbustos. Gola de renda branca, elegante." Fechou o
dirio e o enfiou na bolsa. L perto ficava um lugar que a acalmava. A casa dos
pinguins no zoolgico.
     Passamos a tarde juntas ali, Ruth sentada no assento acarpetado na frente
do viveiro, com as roupas pretas deixando visveis no escuro apenas seu rosto
e suas mos. Os pingins cambaleavam e emitiam rudos e mergulhavam,
escorregando nas pedras que imitavam seu hbitat natural como simpticos
presuntos, mas vivendo debaixo d'gua como musculosas criaturas de
smoking. As crianas gritavam e berravam e apertavam o rosto no vidro. Ruth
contava as crianas vivas do mesmo jeito que contava as mortas, e nos limites
restritos da casa dos pinguins seus gritos alegres ecoavam nas paredes com
tamanha vibrao que, por pouco tempo, ela conseguia abafar os outros tipos
de gritos.

                                               12

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     Naquele fim de semana meu irmo acordou cedo, como sempre fazia. Ele
estava na sexta srie e comprava seu almoo no colgio e fazia parte da
equipe de debates e, como Ruth, era sempre escolhido em ltimo ou
penltimo lugar na aula de ginstica. No tinha se interessado por esportes
como Lindsey. Em vez disso, exercitava o que vov Lynn chamava de seu "ar
de dignidade". Sua professora preferida na verdade no era professora coisa
nenhuma, mas sim a bibliotecria do colgio, uma mulher alta e frgil de
cabelo spero que bebia ch de uma garrafa trmica e falava sobre ter
morado na Inglaterra quando jovem. Depois disso ele tinha simulado um
sotaque ingls durante alguns meses e demonstrado grande interesse quando
minha irm assistia ao seriado Masterpiece Theatre na TV.
     Quando ele perguntou ao meu pai naquele ano se podia recuperar o
jardim que minha me antes cultivava, meu pai disse:
     -- Claro, Buck, pode pirar.
     E ele pirou. Pirou de maneira extraordinria,insana, lendo velhos catlogos
da Burpee  noite quando no conseguia dormir e examinando os poucos
livros de jardinagem da biblioteca do colgio. Quando minha av sugeriu
respeitveis fileiras de salsa e manjerico e Hal sugeriu "algumas plantas
realmente importantes" -- berinjelas, meles, pepinos, cenouras e feijes --
meu irmo achou que ambos tinham razo.
     Ele no gostava do que lia nos livros. No via motivo para manter as
flores separadas dos tomates e as ervas segregadas em um canto. Tinha
plantado o jardim inteiro devagar com uma p, implorando diariamente a meu
pai para lhe trazer sementes e fazendo viagens  mercearia com vov Lynn,
onde o preo de sua extrema disponibilidade para pegar coisas era uma
parada rpida na floricultura para uma pequena planta florida. Agora estava
esperando seus tomates, suas margaridas azuis, suas petnias, amores-
perfeitos e slvias de todo tipo. Tinha transformado seu forte em uma espcie
de barraco de trabalho para o jardim, onde guardava suas ferramentas e
materiais.
     Mas minha av estava se preparando para o instante em que ele se desse
conta de que todas aquelas plantas no podiam crescer juntas e que algumas
sementes no nasceriam em determinadas pocas, que os finos cachos
sedosos de pepino poderiam ser abruptamente detidos pelo crescimento dos



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bulbos subterrneos de cenouras e batatas, que a salsa poderia ser escondida
pelas ervas mais recalcitrantes, e que os insetos que viviam por ali poderiam
fazer secar as delicadas flores. Mas ela esperava com pacincia. No acreditava
mais em conversas. Conversas nunca resgatavam nada. Aos 70 anos, minha
av tinha passado a acreditar apenas no tempo. Buckley estava subindo uma
caixa de roupas do poro at a cozinha quando meu pai desceu para tomar
caf.
      -- O que voc est carregando a, fazendeiro Buck? -- disse meu pai. Ele
sempre esteve em sua melhor forma de manh.
      -- Vou amarrar meus ps de tomate -- disse meu irmo.
      -- Eles j brotaram?
      Meu pai estava em p na cozinha com seu roupo de toalha azul e ps
descalos. Serviu-se de caf na mquina que vov Lynn ligava todas as
manhs e tomou um gole enquanto olhava para o filho.
      -- Acabei de ver hoje de manh -- disse meu irmo, radiante. -- Os
brotos esto enrolados como uma mo se abrindo.
      Foi s quando meu pai estava repetindo a descrio para vov Lynn no
balco da cozinha que viu, pela janela dos fundos, o que Buckley tinha tirado
da caixa. Eram as minhas roupas. Minhas roupas, que Lindsey tinha triado para
separar qualquer coisa que pudesse guardar. Minhas roupas, que minha av,
ao se mudar para o meu quarto, tinha encaixotado discretamente, enquanto
meu pai estava no trabalho. Ela as tinha guardado no poro com uma
pequena etiqueta que dizia simplesmente GUARDAR.
      Meu pai largou a xcara de caf. Passou pela varanda coberta de tela e
seguiu em frente, chamando o nome de Buckley.
      -- O que foi, pai? -- Ele percebeu o tom do meu pai.
      -- Essas roupas so da Susie -- disse meu pai com calma ao chegar perto
dele.
      Buckley baixou os olhos para meu vestido xadrez escuro que estava
segurando.
      Meu pai chegou mais perto, pegou o vestido da mo do meu irmo, e
ento, sem falar, juntou o resto das minhas roupas, que Buckley tinha
empilhado no gramado. Quando se virou em silncio em direo  casa, quase
sem conseguir respirar, apertando minhas roupas junto ao corpo, eu percebi.



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     Eu era a nica que via as cores. Bem perto das orelhas de Buckley e da
superfcie das bochechas e do queixo ele estava um pouco cor de laranja, um
pouco vermelho.
     -- Por que no posso usar as roupas? -- perguntou ele.
     Aquilo atingiu as costas do meu pai como um soco.
     -- Por que no posso usar essas roupas para amarrar meus tomates?
     Meu pai se virou. Viu seu filho ali em p, e atrs dele o quadrado perfeito
de terra lamacenta e revirada salpicada de minsculos brotos.
     -- Como voc pode me perguntar isso?
     -- Voc tem de escolher. No  justo -- disse meu irmo.
     -- Buck? -- Meu pai segurava minhas roupas contra o peito.
     Eu via Buckley se inflamar e se acender. Atrs dele estava a cerca-viva de
vara-de-ouro, duas vezes mais alta do que na poca da minha morte.
     -- Cansei disso! -- gritou Buckley chorando. -- O pai da Keesha morreu e
ela est bem!
     -- A Keesha  uma menina do colgio?
     -- !
     Meu pai estava congelado. Podia sentir o orvalho se acumulando em seus
tornozelos e ps nus, podia sentir o cho debaixo de si, frio e mido e cheio
de possibilidades.
     -- Sinto muito. Quando isso aconteceu?
     -- No  isso o que importa, pai! Voc no entende. -- Buckley virou as
costas e comeou a pisotear os delicados brotos de tomate com o p.
     -- Buck, para! -- gritou meu pai. Meu irmo se virou.
     -- Voc no entende, pai -- disse ele.
     -- Desculpa -- disse meu pai. -- Estas roupas so da Susie e eu s...
     Pode no fazer sentido, mas so dela -- so coisas que ela usou.
     -- Voc pegou o sapato,no pegou? -- disse meu irmo. Ele tinha parado
de chorar agora.
     -- O qu?
     -- Voc pegou o sapato. Pegou ele do meu quarto.
     -- Buckley, eu no sei do que voc est falando.
     -- Eu guardei o sapato do Banco Imobilirio e depois ele sumiu. Voc
pegou! Voc se comporta como se ela fosse s sua!



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      -- Me fala o que est querendo dizer. Que histria  essa sobre o pai da
sua amiga Keesha?
      -- Larga as roupas.
      Meu pai as ps no cho delicadamente.
      -- Isso no tem nada a ver com o pai da Keesha.
      -- Me diz com o que isto tem a ver. -- Meu pai agora s estava
preocupado com aquele instante. Voltou ao lugar em que tinha estado depois
de sua cirurgia no joelho, emergindo do sono entorpecido dos analgsicos
para ver seu filho, ento com cinco anos, sentado perto dele, esperando seus
olhos se abrirem vacilantes para poder dizer: "Bu, papai."
      -- Ela morreu.
      Aquilo nunca parava de doer.
      -- Eu sei disso.
      -- Mas voc age como se no soubesse. O pai da Keesha morreu quando
ela tinha 6 anos. A Keesha diz que mal pensa nele.
      -- Vai pensar -- disse meu pai.
      -- Mas e a gente?
      -- Quem?
      -- A gente,pai.Eu e a Lindsey. A mame foi embora porque no agentou.
      -- Calma, Buck -- disse meu pai. Ele estava sendo o mais generoso
possvel enquanto o ar de seus pulmes evaporava para dentro de seu peito.
      Ento uma vozinha dentro dele disse: Se solte, se solte, se solte.
      -- O qu? -- disse meu pai.
      -- Eu no disse nada.
      Se solte. Se solte. Se solte.
      -- Desculpa -- disse meu pai. -- No estou me sentindo muito bem.
      Seus ps tinham ficado inacreditavelmente frios na grama mida. Seu
peito parecia oco, insetos voando dentro de uma cavidade escavada. Tinha um
eco l dentro, e o eco retumbava em seus ouvidos. Se solte.
      Meu pai caiu de joelhos. Seu brao comeou a latejar como se estivesse
dormente. Formiguinhas subindo e descendo. Meu irmo correu at ele.
      -- Pai?
      -- Filho. -- Sua voz tremeu e ele estendeu a mo para o meu irmo.
      -- Vou chamar a vov. -- E Buckley saiu correndo.



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    Deitado de lado com o rosto virado na direo das minhas antigas
roupas, meu pai sussurrou debilmente:
    -- No d para escolher. Eu amei vocs trs.


                                               12
     Meu pai passou aquela noite deitado em uma cama de hospital, ligado a
mquinas que apitavam e zumbiam. Hora de rodear os ps do meu pai e subir
por sua coluna. Hora de me calar e conduzi-lo. Mas para onde?
     Acima de sua cama o relgio contava os minutos e eu pensei na
brincadeira que Lindsey e eu fazamos juntas no quintal: "bem-me-quer/mal-
me-quer", arrancando ptalas de margaridas. Eu podia ouvir o relgio
devolvendo para mim meus dois maiores desejos naquele mesmo ritmo:
"Morra para mim/no morra para mim, morra para mim/no morra para mim".
Parecia que eu no podia evitar pensar nisso, enquanto segurava seu corao
enfraquecido. Se ele morresse, eu o teria para sempre. Era to errado assim
querer isso? Em casa, Buckley se deitou na cama no escuro e puxou a coberta
at o queixo. No o tinham deixado passar da sala de emergncia para onde
Lindsey os tinha levado de carro, seguindo a sirene da ambulncia dentro da
qual estava nosso pai. Meu irmo tinha sentido um imenso peso de culpa se
abater sobre ele com os silncios de Lindsey. Com as duas perguntas que ela
ficava repetindo: "Sobre o que vocs estavam falando? Por que ele estava to
nervoso?"
     O maior medo do meu irmo caula era que a nica pessoa que tanto
significava para ele fosse embora. Ele amava Lindsey e vov Lynn e Samuel e
Hal, mas meu pai o fazia andar de mansinho, o filho monitorando
delicadamente o pai todas as manhs e todas as noites como se, sem essa
vigilncia, fosse perd-lo.
     Ficamos ali -- a filha morta e o filho vivo -- um de cada lado do meu pai,
ambos querendo a mesma coisa. T-lo conosco para sempre. Agradar a ns
dois era uma impossibilidade.
     Meu pai s tinha estado ausente na hora de dormir duas vezes na vida de
Buckley. A primeira depois de ter sado para o milharal  noite procurando o




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sr. Harvey, e agora ali deitado no hospital, sendo monitorado caso sofresse um
segundo infarto.
     Buckley sabia que deveria estar grande demais para aquilo ter
importncia, mas eu o entendia. O beijo de boa-noite era uma das
especialidades do meu pai. Quando ele chegava no p da cama depois de
fechar as venezianas e alis-las com a mo para ter certeza de que todas
estavam no mesmo ngulo -- nenhuma veneziana rebelde emperrada para
deixar entrar a luz do sol no quarto de seu filho antes de ele vir acord-lo --
meu irmo muitas vezes ficava com os braos e as pernas arrepiados. A
expectativa era deliciosa.
     -- Est pronto, Buck? -- perguntava meu pai, e algumas vezes Buckley
dizia "Positivo", outras vezes dizia "Decolar", mas quando estava mais
assustado e confuso e queria paz dizia apenas "Sim!" E meu pai pegava o fino
lenol de algodo de cima e o juntava nas mos tomando cuidado para
manter os dois cantos entre o polegar e o indicador. Ento ele o estendia de
modo que o lenol azul beb (se estivessem usando o de Buckley) ou cor-de-
lavanda (se estivessem usando o meu)caa em cima dele como um paraquedas
e suavemente,com uma lentido que parecia maravilhosa, flutuava at
embaixo e tocava as partes expostas de sua pele -- seus joelhos, seus
antebraos,suas bochechas e seu queixo.Tanto o ar quanto a coberta de algum
modo estavam no mesmo espao ao mesmo tempo -- aquilo parecia o mais
alto grau possvel de liberdade e proteo. Era incrvel, deixava-o vulnervel e
trmulo em uma espcie de beira de abismo e tudo o que ele podia esperar
era que, se ele implorasse, meu pai atendesse a seu desejo e fizesse aquilo de
novo. Ar e coberta, ar e coberta -- sustentando a conexo muda entre eles:
menino pequeno, homem ferido.
     Naquela noite sua cabea estava deitada no travesseiro, enquanto seu
corpo estava enrolado em posio fetal. Ele no tinha pensando em fechar ele
prprio as persianas, e as luzes das casas prximas salpicavam a colina. Olhou
para as portas de ripas de seu armrio do outro lado do quarto, de onde ele
um dia tinha imaginado que bruxas ms sairiam para se juntar aos drages
debaixo de sua cama. Ele no tinha mais medo dessas coisas.
     -- Por favor, no deixa o papai morrer, Susie -- sussurrou ele. -- Eu
preciso dele.



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                                               12
     Quando deixei meu irmo, passei pelo mirante e debaixo das luzes
pendendo como bagas, vi os caminhos de tijolo se estendendo conforme eu
avanava.
     Andei at os tijolos se transformarem em pedras chatas e depois em
pedras pequenas e pontiagudas e depois em nada alm de terra revirada por
quilmetros e quilmetros  minha volta. Fiquei ali. Fazia tempo suficiente que
estava no cu para saber que alguma coisa ia ser revelada. E enquanto a luz
comeava a diminuir e o cu se tingia de um azul escuro e espesso como na
noite da minha morte, vi algum andando na minha direo, to longe que no
comeo no consegui ver se era um homem ou uma mulher, uma criana ou
um adulto. Mas quando o luar bateu em seu rosto pude ver que era um
homem e, assustada agora, com a respirao acelerada, corri o suficiente para
poder ver. Seria o meu pai? Seria o que eu tinha desejado to
desesperadamente durante todo aquele tempo?
     -- Susie -- disse o homem enquanto eu me aproximava e parava a alguns
metros de onde ele estava. Ele levantou os braos para mim.
     -- Lembra? -- disse ele.
     Eu me vi pequena de novo, com 6 anos de idade, em uma sala de estar
em Illinois. Ento, como daquela vez, pus os ps em cima dos ps dele.
     -- Vov -- disse eu.
     E como estvamos sozinhos e ambos estvamos no cu, eu era leve o
bastante para me mexer como me mexia aos 6 anos e ele tinha 56, e meu pai
tinha nos levado para uma visita. Danamos bem devagar uma msica que na
Terra sempre tinha feito meu av chorar.
     -- Lembra? -- perguntou ele.
     -- Barber!
     -- Adgio para Cordas -- disse ele.
     Mas enquanto danvamos e rodopivamos -- nada dos esbarres
desajeitados da Terra -- o que eu me lembrei foi de como o tinha encontrado,
chorando ao som dessa msica e perguntado por qu.




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     -- Algumas vezes, Susie, voc chora, mesmo quando algum que voc
ama morreu h muito tempo. -- Ento ele tinha me abraado, um abrao
curto, e depois eu tinha corrido para fora para brincar de novo com Lindsey no
que parecia ser o enorme quintal do meu av.
     No falamos mais naquela noite, mas danamos durante horas naquela
noite azul fora do tempo. Eu sabia que enquanto danvamos alguma coisa
estava acontecendo na Terra e no cu. Uma mudana. Aquele tipo de
movimento que comea devagar e fica rpido sobre o qual tnhamos lido
certo ano na aula de cincias. Ssmico, impossvel, um rompimento e um rasgo
no tempo e no espao. Apertei o corpo no peito do meu av e senti seu cheiro
de velhinho, a verso com naftalina do meu prprio pai, o sangue na Terra, o
firmamento no cu. Cumquat, gamb, tabaco classe A.
     Quando a msica parou, parecia que estvamos danando desde o incio
dos tempos. Meu av deu um passo de costas, e a luz atrs dele ficou amarela.
     -- Vou indo -- disse ele.
     -- Para onde? -- perguntei.
     -- No se preocupa, querida. Voc est muito perto.
     Ele virou as costas e se afastou,desaparecendo rapidamente em pontinhos
e poeira. No infinito.




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                                      Captulo 19




  A
               o chegar na Vincola Krusoe naquela manh, minha me
               encontrou um recado  sua espera, rabiscado no ingls
               imperfeito do zelador. A palavra emergncia estava clara o
suficiente, e minha me pulou seu ritual matutino de beber uma xcara de caf
olhando as vinhas entrelaadas em fileiras e mais fileiras de resistentes cruzes
brancas. Abriu aparte da vincola reservada para a degustao do pblico. Sem
acender a luz do teto, localizou o telefone atrs do bar de madeira e ligou para
o nmero da Pensilvnia. Ningum atendeu.
     Ento ela ligou para o auxlio  lista da Pensilvnia e pediu o telefone do
dr. Akhil Singh.
     --  -- disse Ruana. -- O Ray e eu vimos uma ambulncia chegar h
algumas horas. Imagino que estejam todos no hospital.
     -- Quem foi?
     -- Sua me, talvez?
     Mas ela sabia pelo recado que sua me tinha telefonado. Era uma das
crianas ou ento era Jack. Ela agradeceu a Ruana e desligou. Pegou o pesado
telefone vermelho e o levantou de debaixo do bar. Uma pilha de fichas
coloridas que eles distribuam para os clientes -- "Amarelo limo =
Chardonnay Jovem, Cor de Palha = Sauvignon Blanc..." -- caiu no cho em
volta de seus ps de onde estavam seguras pelo telefone. Ela sempre chegava
cedo desde que tinha comeado naquele emprego, e nesse momento
agradeceu rapidamente por ser assim. Depois, s conseguiu pensar nos nomes
dos hospitais locais, ento ligou para aqueles onde tinha levado os filhos
pequenos com febres inesperadas ou possveis ossos quebrados depois de um
tombo. No mesmo hospital para onde eu um dia tinha levado Buckley.
     -- Um Jack Salmon foi atendido na emergncia e ainda est aqui.
     -- Pode me dizer o que aconteceu?




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     -- Qual  o seu parentesco com o sr. Salmon? Ela disse as palavras que
no dizia havia anos.
     -- Sou a esposa dele.
     -- Ele teve um infarto.
     Ela desligou o telefone e se sentou nas esteiras de borracha e rolha que
cobriam o cho do lado dos empregados. Ficou sentada ali at o gerente do
turno chegar e ela repetir as estranhas palavras: marido, infarto.
     Quando levantou os olhos mais tarde estava no caminho do zelador, e
ele, aquele homem silencioso que quase nunca saa da propriedade, dirigia a
toda velocidade rumo ao Aeroporto Internacional de So Francisco.
     Ela pagou a passagem e embarcou em um voo que pararia em Chicago,
onde ela pegaria outro voo que finalmente a faria desembarcar na Filadlfia.
Conforme o avio ganhava altura e eles entravam no meio das nuvens, minha
me ouviu ao longe as campainhas distintas do avio que diziam  tripulao
o que fazer ou para o que se preparar, e ouviu o carrinho de bebidas passar,
mas em vez dos passageiros ao seu lado ela via o fresco arco de pedra da
vincola, atrs do qual ficavam guardados os toneis de carvalho vazios, e em
vez dos homens que geralmente se sentavam ali para escapar do sol ela
imaginou meu pai sentado ali, estendendo-lhe a xcara Wedgwood quebrada.
     Ao aterrissar em Chicago com duas horas de espera pela frente, ela j
tinha se recuperado o suficiente para comprar uma escova de dentes e um
mao de cigarros e dar um telefonema para o hospital, desta vez pedindo para
falar com vov Lynn.
     -- Me -- disse minha me. -- Estou em Chicago a caminho da.
     -- Abigail, graas a Deus -- disse minha av. -- Liguei para a Krusoe de
novo e eles disseram que voc tinha sado para o aeroporto.
     -- Como ele est?
     -- Est perguntando por voc.
     -- As crianas esto l?
     -- Esto, e o Samuel tambm. Eu ia ligar para voc hoje e contar. O
Samuel pediu a Lindsey em casamento.
     -- Que maravilha! -- disse minha me.
     -- Abigail?




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        -- O qu? -- Ela podia ouvir a hesitao de sua me, o que era sempre
raro.
        -- O Jack est perguntando pela Susie tambm.


                                               12
     Ela acendeu um cigarro assim que saiu do terminal de O'Hare, vendo uma
numerosa excurso escolar passar por ela com pequenas malas para uma
noite s e instrumentos de banda, cada qual com uma etiqueta amarela
brilhante na lateral do estojo. LAR DOS PATRIOTAS, diziam as etiquetas.
     Estava abafado e mido em Chicago, e o escapamento fumegante dos
carros estacionados em fila dupla tornava o ar pesado venenoso.
     Ela fumou o cigarro em tempo recorde e acendeu outro, mantendo um
dos braos apertado com fora contra o peito e o outro estendido a cada
baforada. Vestia seu uniforme da vincola: jeans desbotados, mas limpos, e
uma camiseta cor-de-laranja clara com VINCOLA KRUSOE bordado em cima
do bolso. Sua pele agora estava mais escura, o que fazia seus olhos azuis
parecerem ainda mais azuis com o contraste, e ela havia se habituado a usar o
cabelo preso em um rabo de cavalo frouxo na nuca. Eu podia ver pequenas
mechas de cabelo grisalho perto de suas orelhas e nas tmporas.
     Ela se segurava nos dois lados de uma ampulheta e se perguntava como
isso era possvel. O tempo que ela havia passado sozinha tinha sido
circunscrito gravitacionalmente pelo momento em que seus laos a puxassem
de volta. E agora eles tinham puxado -- com as duas mos. Um casamento.
Um infarto.
     Do lado de fora do terminal, ela ps a mo no bolso de trs do jeans,
onde guardava a carteira de homem que tinha comeado a usar depois de
arrumar o emprego na Krusoe porque era mais fcil no se preocupar em
guardar uma bolsa debaixo do bar. Jogou o cigarro na pista dos txis e virou-
se para encontrar um lugar para se sentar na borda de um canteiro de
concreto, onde cresciam ervas daninhas e uma triste rvore nova sufocada
pela fumaa dos carros.
     Na carteira havia fotos, fotos que ela olhava todos os dias. Mas uma delas
ela mantinha virada de cabea para baixo em um compartimento de couro




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feito para guardar um carto de crdito. Era a mesma da caixa de provas da
delegacia, a mesma que Ray tinha guardado no livro de poesia indiana de sua
me. Minha fotografia de colgio que tinha sado no jornal e sido colocada
nos cartazes da polcia e nas caixas de correio.
      Oito anos depois,at para minha me, aquilo era como a foto onipresente
de uma celebridade. Ela havia se deparado com a foto tantas vezes que eu
havia ficado enterrada direitinho dentro dela. Minhas bochechas nunca foram
mais vermelhas, meus olhos nunca foram mais azuis do que na fotografia.
      Ela tirou a foto e a segurou de cabea para cima ligeiramente aninhada na
palma da mo. Sempre tinha sentido saudade dos meus dentes -- suas
serrinhas arredondadas sempre a tinham fascinado enquanto ela me via
crescer. Eu tinha prometido para minha me um sorriso bem aberto na foto
daquele ano, mas ficava com tanta vergonha na frente do fotgrafo que mal
tinha conseguido dar um sorriso de boca fechada.
      Ela ouviu a chamada do voo de conexo pelo alto-falante externo. Ficou
em p. Virando-se, viu a minscula e sofrida rvore. Deixou minha foto de
colgio apoiada em seu tronco e entrou depressa pelas portas automticas.
      No voo para a Filadlfia, ela se sentou sozinha no meio de uma fileira de
trs assentos. No podia evitar pensar em como, se estivesse viajando como
me, teriam dois assentos ocupados ao seu lado. Um para Lindsey. Um para
Buckley. Mas, embora fosse, por definio, uma me, tambm tinha deixado
de s-lo em determinado momento. No podia reivindicar esse direito e esse
privilgio depois de perder mais de meia dcada de suas vidas. Agora sabia
que ser me era uma vocao, algo que muitas meninas novas sonhavam em
ser. Mas minha me nunca tinha tido esse sonho, e tinha sido punida da
maneira mais horrvel e inimaginvel possvel por nunca ter querido me ter.
      Eu a via no avio e pedia s nuvens que ela fosse libertada. Seu corpo
estava ficando pesado com medo do que ia acontecer, mas nesse peso pelo
menos havia alvio. A aeromoa lhe estendeu um pequeno travesseiro azul e
ela dormiu um pouco.
      Quando chegou  Filadlfia, o avio taxiou pela pista e ela lembrou a si
mesma onde estava e que ano era. Percorreu depressa mentalmente todas as
coisas que poderia dizer ao ver seus filhos, sua me, Jack. E ento, quando o




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avio finalmente parou com um tranco, desistiu e concentrou-se apenas em
desembarcar.
     Mal reconheceu a prpria filha esperando no final da longa rampa. Nos
anos que haviam passado, Lindsey tinha ficado angulosa, magra, sem nenhum
pingo de gordura. E ao lado da minha irm estava o que parecia seu irmo
gmeo. Um pouco mais alto, um pouco mais de carne. Samuel. Ela encarava
tanto os dois, e eles a encaravam de volta, que de incio nem sequer viu o
menino gorducho sentado um pouco afastado no brao de uma fileira de
assentos de espera.
     Ento, logo antes de comear a andar em sua direo -- pois eles todos
pareceram suspensos e imveis durante os primeiros instantes, como se
tivessem sido presos em uma gelatina viscosa da qual s poderiam se libertar
movimentando-se -- ela o viu.
     Comeou a descer a rampa acarpetada. Ouviu chamadas sendo feitas no
aeroporto e viu passageiros, com seus cumprimentos mais normais, correndo
na sua frente. Mas v-lo era como entrar num tnel do tempo: 1944 no
Acampamento Winnekukka. Ela estava com 12 anos, tinha bochechas
rechonchudas e pernas pesadas -- tudo o que tinha agradecido pelas filhas
no herdarem seu filho agora precisava suportar. Tantos anos passados fora,
tanto tempo que ela jamais poderia recuperar.
     Se tivesse contado, como eu contei, ela saberia que com setenta e trs
passos tinha realizado o que tivera medo demais para fazer durante quase 7
anos.
     Foi minha irm quem falou primeiro:
     -- Me -- disse ela.
     Minha me olhou para minha irm e deu um salto de 38 anos para a
frente, desde quando era a menina solitria no Acampamento Winnekukka.
     -- Lindsey -- disse minha me.
     Lindsey a encarou. Buckley agora estava em p, mas primeiro baixou os
olhos para os prprios sapatos e depois olhou por cima do ombro, para o
outro lado da janela onde os avies estavam estacionados, descarregando
seus passageiros dentro de tubos sanfonados.
     -- Como est seu pai? -- perguntou minha me.




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     Minha irm tinha falado me e depois congelado. A palavra tinha um
gosto de sabo na sua boca, um gosto estranho.
     -- No est na melhor das formas, infelizmente -- disse Samuel. Era a
frase mais comprida que algum tinha dito at ento, e minha me se sentiu
desproporcionalmente grata por ela.
     -- Buckley? -- disse minha me, preparando-se para encar-lo. Para ser
quem era -- quem quer que isso fosse.
     Ele virou a cabea na direo dela como uma arma pronta para atirar.
     -- Buck -- disse ele.
     -- Buck -- repetiu ela suavemente e baixando os olhos para as prprias
mos.
     Lindsey queria perguntar: Onde esto seus anis?
     -- Vamos? -- perguntou Samuel.
     Os quatro entraram no comprido tnel acarpetado que os levaria do
porto de sada dela at o terminal principal. Estavam se dirigindo para a
cavernosa rea de coleta de bagagens quando minha me disse:
     -- Eu no trouxe nenhuma mala.
     Pararam em uma rodinha desconfortvel, Samuel procurando as
sinalizaes certas para redirecion-los para o estacionamento.
     -- Me -- tentou minha irm de novo.
     -- Eu menti para voc -- disse minha me antes de Lindsey poder dizer
qualquer outra coisa. Seus olhos se encontraram, e naquele fio de alta tenso
que ia de uma  outra eu juro que vi, como um rato inteiro dentro de uma
cobra, no-digerido: o segredo de Len.
     -- A gente tem que subir a escada rolante de novo -- disse Samuel --
depois pegar a passarela at o estacionamento.
     Samuel chamou Buckley, que tinha se afastado em direo a um grupo de
oficiais de segurana do aeroporto. Homens de uniforme nunca tinham
perdido o encanto para ele.
     Estavam na autoestrada quando Lindsey tornou a falar,
     -- Eles no deixam o Buckley ver o papai por causa da idade.
     Minha me se virou no assento.
     -- Vou tentar resolver isso -- disse ela, olhando para Buckley e tentando
dar seu primeiro sorriso.



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     -- Vai se foder -- sussurrou meu irmo sem levantar os olhos.
     Minha me congelou. O carro se expandiu. Cheio de dio e tenso uma
corredeira de sangue na qual seria possvel nadar.
     -- Buck -- disse ela, lembrando-se do apelido bem a tempo --, quer
olhar para mim?
     Ele olhou com dio para o banco da frente, perfurando-a com sua fria.
     Minha me acabou tornando a se virar e Samuel, Lindsey e meu irmo
podiam ouvir o som vindo do banco do carona que ela se esforava para no
fazer. Pequenos gemidos e um soluo engasgado. Mas no havia lgrimas
capazes de convencer Buckley. Diariamente, semanalmente, mensalmente,
anualmente, ele vinha guardando um estoque subterrneo de dio. Bem l no
fundo da pilha estava sentado o menino de 4 anos, com o corao piscando.
Corao em pedra, corao em pedra.
     -- Todo mundo vai se sentir melhor depois de ver o sr. Salmon -- disse
Samuel, e ento, como nem ele conseguia aguentar aquilo, inclinou-se para a
frente em direo ao painel e ligou o rdio.


                                               12
     Era o mesmo hospital aonde ela tinha ido 8 anos atrs no meio da noite.
Um cho diferente pintado de uma cor diferente, mas ela podia sentir aquilo a
envolv-la enquanto descia o corredor -- o que ela havia feito ali. A
arremetida do corpo de Len, suas costas imprensadas na parede rugosa de
estuque. Tudo nela queria fugir -- voar de volta para a Califrnia, de volta 
sua vida tranquila entre estranhos. Escondida nas dobras dos troncos das
rvores e das ptalas tropicais, abrigada na segurana de tantas plantas e
pessoas desconhecidas.
     Os tornozelos e os escarpins de sua me, que ela viu do corredor, a
trouxeram de volta. Uma das muitas coisas simples que tinha perdido ao se
mudar para to longe, o simples lugar-comum dos ps de sua me -- sua
solidez e seu bom humor -- ps de 70 anos de idade calando sapatos
ridiculamente desconfortveis.
     Mas quando ela entrou no quarto, todos os outros -- seu filho, sua filha,
sua me -- desapareceram.




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     Os olhos do meu pai estavam fracos, mas se abriram trmulos quando ele
a ouviu entrar. Havia tubos e fios saindo de seu pulso e do ombro. Sua cabea
parecia muito frgil no pequeno travesseiro quadrado.
     Ela segurou a mo dele e chorou baixinho, deixando as lgrimas rolarem
livremente.
     -- Oi, Olhos de Oceano -- disse ele.
     Ela balanou a cabea. Aquele homem traumatizado, maltratado -- seu
marido.
     -- Minha menina -- disse ele com dificuldade.
     -- Jack.
     -- Olhe o que precisei fazer para voc voltar para casa.
     -- Valeu a pena? -- disse ela, sorrindo com tristeza.
     -- Vamos ter de ver -- disse ele.
     V-los juntos era como a materializao de uma crena tnue.
     Meu pai podia ver brilhos, como as lascas de cor dentro dos olhos da
minha me -- coisas s quais se segurar. Ele as ficava contando entre as
madeiras e tbuas de um barco que, muito tempo atrs, tinha batido em algo
maior do que ele e afundado. S lhe restavam agora resqucios e artefatos.
Tentou levantar a mo e tocar a bochecha dela, mas seu brao estava fraco
demais. Ela chegou mais perto e encostou a bochecha na mo dele.
     Minha av sabia andar de salto sem fazer barulho. Saiu do quarto na
ponta dos ps. Quando recomeou a andar normalmente e se aproximou da
rea de espera, interceptou uma enfermeira com um recado para Jack Salmon
no Quarto 582. Nunca tinha encontrado aquele homem, mas conhecia seu
nome. "Len Fenerman vir fazer uma visita em breve. Deseja melhoras."
Dobrou o recado cuidadosamente. Logo antes de esbarrar com Lindsey e
Buckley, que tinham ido se juntar a Samuel na sala de espera, abriu a aba de
metal da bolsa e ps o papel entre o p compacto e o pente.




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                                     Captulo 20




  Q       uando o sr. Harvey chegou  cabana de telhado de zinco em
          Connecticut naquela noite, o cu prometia chuva. Ele tinha matado
          uma jovem garonete dentro da cabana anos atrs e depois
comprado uma cala nova com as gorjetas encontradas no bolso da frente de
seu avental. A essa altura o cheiro de podre j teria passado, e  verdade que,
quando ele se aproximou do lugar, no foi recebido por nenhum cheiro de
decomposio. Mas a cabana estava aberta e l dentro ele podia ver que a
terra tinha sido cavada. Respirou fundo e se aproximou da cabana com
cuidado.
     Adormeceu ao lado da cova vazia dela.


                                               12
      Em algum momento,para combater a lista dos mortos, eu tinha comeado
a fazer minha prpria lista dos vivos. Era uma coisa que percebia que Len
Fenerman tambm fazia. Quando estava de folga, ele observava as meninas e
velhas e todas as outras mulheres no leque entre elas e as listava no rol das
coisas que o mantinham vivo. Aquela menininha no shopping cujas pernas
plidas tinham ficado compridas demais para seu vestido j no to novo e
que tinha uma vulnerabilidade sofrida que tocava o corao de Len assim
como o meu. Mulheres idosas, apoiando-se em andadores, que insistiam em
pintar o cabelo com verses artificiais das cores que tinham na juventude.
Mes solteiras de meia-idade correndo para l e para c em mercearias
enquanto seus filhos puxavam sacos de balas das prateleiras. Quando eu as
via, eu contava. Mulheres vivas, respirando. Algumas vezes eu via as feridas --
as que tinham apanhado dos maridos ou sido estupradas por desconhecidos,
as filhas estupradas pelos prprios pais -- e desejava poder intervir de alguma
maneira.



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     Len via essas mulheres feridas o tempo todo. Elas eram visitantes assduas
da delegacia, mas mesmo quando ele ia a algum lugar fora de sua jurisdio
podia sentir quando elas se aproximavam. A mulher na loja de pesca no tinha
hematomas no rosto, mas se encolhia como um cachorro e falava com
sussurros temerosos. A menina que ele via andando pela estrada todas as
vezes em que ia ao norte do estado visitar as irms. A medida que passavam
os anos ela havia emagrecido, perdido a gordura das bochechas, e seus olhos
tinham se enchido de tristeza de um modo que os tornava pesados e
desesperanados dentro de sua pele arroxeada. Quando ela no estava l ele
ficava preocupado. Quando estava, ele ficava ao mesmo tempo deprimido e
revigorado.
     No teve muita coisa para escrever no meu arquivo durante muito tempo,
mas nos ltimos meses alguns itens tinham se somado ao registro de provas:
o nome de outra vtima em potencial, Sophie Cichetti, o nome de seu filho, um
nome falso de George Harvey. Havia tambm o que ele segurava nas mos:
minha pedra angular da Pensilvnia. Ele a moveu dentro do saco de provas,
usando os dedos, e novamente encontrou minhas iniciais. O amuleto tinha
sido examinado  procura de pistas e, a no ser por sua presena no local do
assassinato de outra menina, tinha se mostrado limpo sob o microscpio.
     Ele quis devolver o amuleto ao meu pai desde o primeiro instante em que
foi capaz de confirmar que era meu. Fazer isso era quebrar as regras, mas ele
nunca tinha tido um corpo para eles, s um caderno escolar encharcado e as
pginas do meu livro de biologia misturadas com o bilhete de amor de um
menino. Uma garrafa de Coca. Meu gorro de sininhos. Tudo isso ele tinha
catalogado e guardado. Mas o amuleto era diferente, e ele tinha a inteno de
devolv-lo.
     Uma enfermeira com quem ele tinha sado nos anos seguintes  partida
da minha me tinha telefonado para ele ao ler o nome de Jack Salmon em
uma lista de pacientes atendidos. Len tinha decidido ir visitar meu pai no
hospital e levar meu amuleto junto. Na cabea de Len, ele via o amuleto como
um talism capaz de acelerar a recuperao do meu pai.
     Eu no podia evitar pensar, olhando para ele, nos lates de fluidos txicos
que tinham se acumulado atrs da oficina de motos de Hal onde a vegetao
junto aos trilhos de trem tinha proporcionado s empresas locais um bom



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esconderijo para se livrar de um ou dois contineres perdidos. Tudo tinha sido
lacrado, mas coisas estavam comeando a vazar. Nos anos desde a partida da
minha me, eu tinha passado ao mesmo tempo a respeitar e a ter pena de
Len. Ele seguia pistas fsicas para tentar entender coisas impossveis de
compreender. Nisso, eu podia ver, parecia-se comigo.


                                               12
     Do lado de fora do hospital, uma menina vendia pequenos buqus de
narcisos, seus caules verdes amarrados por fitas cor-de-lavanda. Fiquei
olhando minha me comprar todo o estoque da menina.
     A enfermeira Eliot, que se lembrava da minha me de oito anos antes,
ofereceu-se para ajud-la quando a viu descendo o corredor com os braos
cheios de flores. Pegou mais jarras de gua em um armrio de mantimentos e
juntas, ela e minha me, as encheram de gua e espalharam as flores pelo
quarto do meu pai enquanto ele dormia. A enfermeira Eliot pensou que, se a
perda pudesse ser usada como medida de beleza em uma mulher, minha me
tinha ficado ainda mais bonita.
     Lindsey, Samuel e vov Lynn tinham levado Buckley para casa no incio da
noite. Minha me ainda no estava preparada para ver a casa. Estava
concentrada apenas no meu pai. Todo o resto teria de esperar, da casa com
sua reprimenda silenciosa a seu filho e filha. Precisava de alguma coisa para
comer e de tempo para pensar. Em vez de ir  lanchonete do hospital, onde m
luzes brilhantes s a faziam pensar nos esforos fteis que os hospitais faziam
para manter as pessoas acordadas  espera de mais notcias ruins -- caf
fraco, cadeiras duras, elevadores que paravam em todos os andares -- ela saiu
do prdio e desceu a calada inclinada onde desembocava a porta de entrada.
     Estava escuro l fora agora, e o estacionamento onde ela um dia havia
entrado no meio da noite de camisola tinha apenas alguns carros. Ela apertou
com fora em volta do corpo o cardig que sua me tinha deixado para ela.
     Atravessou o estacionamento, olhando para dentro dos carros escuros 
procura de sinais sobre quem eram as pessoas dentro do hospital. Um dos
carros tinha fitas-cassete espalhadas no banco do carona, outro a forma
volumosa de um assento de beb. Aquilo virou um jogo para ela, ver o que




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conseguia dentro de cada carro. Um jeito de no se sentir to sozinha e
estranha, como se fosse uma criana brincando de espio na casa dos pais de
um amigo. Agente Abigail para Misso Controle. Estou vendo um brinquedo
peludo em forma de cachorro, estou vendo uma bola de futebol, estou vendo
uma mulher! Ali estava ela, uma desconhecida sentada no banco do motorista
ao volante. A mulher no viu minha me olhando para ela, e assim que viu seu
rosto minha me voltou a ateno para outra coisa, concentrando-se nas luzes
brilhantes da antiga lanchonete que era seu objetivo. No precisou olhar para
trs para saber o que a mulher estava fazendo. Estava se preparando para
entrar. Ela conhecia aquele rosto. Era o rosto de algum que queria mais do
que tudo estar em qualquer outro lugar menos ali.
      Ela parou na faixa arborizada entre o hospital e a entrada da sala de
emergncia e sentiu vontade de fumar um cigarro. No tinha questionado
nada naquela manh. Jack tinha tido um infarto; ela voltaria para casa. Mas
agora, ali, no sabia mais o que tinha de fazer. Quanto tempo teria de esperar,
o que teria de acontecer at ela poder ir embora de novo? Atrs dela, no
estacionamento, escutou o som da porta de um carro abrindo e fechando -- a
mulher entrando.
      Nem viu a lanchonete direito. Sentou-se em uma mesa e pediu o tipo de
comida -- fil de galinha frito -- que parecia no existir na Califrnia.
      Estava pensando nisso quando um homem bem na sua frente a olhou. Ela
registrou cada detalhe de sua fisionomia. Era automtico e era algo que ela
no fazia na costa oeste. Quando ainda morava na Pensilvnia, depois do meu
assassinato, sempre que via um estranho em quem no confiava fazia uma
anlise imediata em sua mente. Aquilo -- honrar o pragmatismo do medo --
era mais rpido do que fingir que no devia pensar assim. Seu jantar chegou, o
fil de galinha frito e o ch, e ela se concentrou na comida, no gosto metlico
de ch velho. No achava que poderia suportar ficar em casa mais do que
alguns dias. Para onde quer que olhasse ela me via, e na mesa  sua frente via
o homem que poderia ter me matado.
      Terminou a comida, pagou e saiu da lanchonete sem levantar os olhos
acima do nvel da cintura. Um sino preso  porta tilintou acima dela, e ela
levou um susto, sentindo o corao subir at a boca.




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     Conseguiu atravessar a autoestrada s e salva, mas estava ofegante
quando tornou a atravessar o estacionamento. O carro da visitante apreensiva
ainda estava ali.
     Na recepo, onde as pessoas raramente ficavam sentadas, decidiu se
sentar e esperar sua respirao se normalizar.
     Passaria algumas horas com ele e, quando ele acordasse, se despediria.
Assim que sua deciso foi tomada, uma calma bem-vinda percorreu seu corpo.
O sbito alvio da responsabilidade. Sua passagem para uma terra distante.
     Era tarde agora, passava das dez, e ela pegou um elevador vazio at o
quinto andar, onde as luzes do corredor tinham sido diminudas. Passou pelo
balco da enfermagem, atrs do qual duas enfermeiras fofocavam baixinho.
Podia ouvir a cadncia animada de boatos alegres sendo compartilhados, o
som da intimidade descontrada no ar. Ento, no instante em que uma das
enfermeiras no conseguiu conter uma risada aguda, minha me abriu a porta
do quarto do meu pai e deixou que ela se fechasse novamente.
     Sozinha.
     Era como se a porta se fechando criasse um vcuo de silncio. Senti que
ali no era o meu lugar, que eu tambm deveria ir embora. Mas estava
petrificada.
     V-lo dormindo no escuro, com uma nica fraca luz fluorescente na
cabeceira da cama, ela se lembrou de estar naquele mesmo hospital e de
tomar providncias para se afastar dele.
     Quando a vi pegar a mo do meu pai, pensei na minha irm e em mim
sentadas debaixo do decalque de tmulo no corredor do andar de cima. Eu
era o cavaleiro morto que tinha ido para o cu com meu co fiel e ela era a
esposa, um fio desencapado.
     -- Como posso ficar presa pelo resto da vida a um homem congelado no
tempo? -- A fala preferida de Lindsey.
     Minha me ficou sentada segurando a mo do meu pai por muito tempo.
Pensou em como seria maravilhoso entrar dentro dos lenis frescos do
hospital e se deitar ao lado dele. E como seria impossvel.
     Chegou mais perto. Mesmo sob os cheiros dos antisspticos e do lcool,
conseguia sentir o cheiro de grama da pele dele. Ao ir embora, tinha levado a
camisa do meu pai de que mais gostava e algumas vezes se enrolava nela s



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para vestir alguma coisa dele. Nunca a usava fora de casa, para manter seu
cheiro pelo mximo de tempo possvel. Lembrava-se de certa noite, quando
mais tinha sentido saudade dele, t-la vestido em um travesseiro e a abraado
e apertado como se ainda fosse uma colegial.
     Ao longe, do outro lado da janela fechada, podia ouvir o zumbido do
trfego distante na autoestrada, mas o hospital estava fechando para a noite.
S as solas de borracha das enfermeiras noturnas faziam barulho quando elas
passavam pelos corredores.
     Naquele inverno mesmo ela tinha se pegado dizendo para uma moa que
trabalhava com ela no bar de degustao aos sbados que entre um homem e
uma mulher sempre havia um mais forte do que o outro.
     -- Isso no quer dizer que o mais fraco no ama o mais forte --
argumentou ela. A moa olhou para ela sem entender. Mas para minha me o
importante era que, enquanto falava, subitamente tinha se identificado como a
pessoa mais fraca. Aquela revelao a tinha deixado tonta. O que tinha
pensado durante todos aqueles anos a no ser o contrrio?


                                      Pedras, ossos;
                                       neve, gelo;
                                sementes, feijes, girinos.
                         Caminhos, gravetos, beijos em quantidade,
                      Todo mundo sabe de quem a Susie tem saudade...



                                               12
    Por volta das duas horas da manh comeou a chover, e choveu no
hospital e na minha antiga casa e no meu cu. Na cabana de telhado de zinco
onde o sr. Harvey dormia tambm estava chovendo. Enquanto a chuva batia
como pequenos martelos acima da sua cabea, ele sonhou. No sonhou com a
menina cujos restos tinham sido removidos e estavam agora sendo analisados,
mas com Lindsey Salmon, com o 5! 5! 5! chegando na cerca-viva de
sabugueiro. Tinha esse sonho sempre que se sentia ameaado. Era na imagem




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daquela camisa de futebol que a vida dele tinha comeado a ficar fora de
controle.

                                               12
     Eram quase quatro horas quando vi os olhos do meu pai se abrirem e o vi
sentir o calor do hlito da minha me na bochecha mesmo antes de saber que
ela estava dormindo. Juntos desejamos que ele conseguisse abra-la, mas ele
estava fraco demais. Havia outro jeito e foi o que ele fez. Ele contaria para ela
as coisas que tinha sentido depois da minha morte -- as coisas que lhe
vinham  mente com tanta frequncia, mas que ningum sabia a no ser eu.
     Mas no queria acord-la. O hospital estava silencioso, exceto pelo som
da chuva. A chuva o estava perseguindo, ele sentia, escurido e umidade --
pensou em Lindsey e Samuel no vo da porta, encharcados e sorrindo, depois
de correr o caminho todo para tranquiliza-lo. Muitas vezes se via repetindo
ordens dizendo a si mesmo para se centrar. Lindsey. Lindsey. Lindsey. Buckley.
Buckley. Buckley.
     A aparncia da chuva do lado de fora da janela, iluminada pelas manchas
circulares dos postes do estacionamento do hospital, lembrou-lhe os filmes a
que tinha assistido quando menino -- chuva de Hollywood. Ele fechou os
''olhos com o hlito da minha me soprando em sua bochecha, reconfortante, e
escutou a chuva, o leve tamborilar nas finas esquadrias de metal das janelas, e
depois ouviu o som de pssaros -- passarinhos trinando, mas no conseguia
v-los. E essa ideia, de que poderia haver um ninho bem do lado de fora de
sua janela onde filhotes de passarinho tinham acordado com a chuva e
descoberto que sua me tinha sumido, o fez querer resgat-los. Ele sentia os
dedos frouxos da minha me, que tinham se soltado no sono. Ela estava ali, e
daquela vez, apesar de tudo, ele a deixaria ser quem ela era.
     Foi ento que entrei dentro do quarto com minha me e meu pai. Eu
estava presente de algum modo, como uma pessoa, de uma maneira que
nunca tinha estado. Eu tinha sempre pairado, mas jamais ficado ao seu lado.
     Me fiz pequena na escurido, incapaz de saber se podia ser vista. Eu o
tinha deixado por horas todos os dias durante 8 anos e meio como tinha
deixado minha me ou Ruth e Ray, meu irmo e minha irm, e certamente o
sr. Harvey, mas ele, eu agora via, nunca tinha me deixado. Sua devoo a mim



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me tinha feito saber vezes sem conta que eu tinha sido amada. Na luz clida
do amor do meu pai eu tinha continuado a ser Susie Salmon -- uma menina
com a vida inteira pela frente.
     -- Pensei que se ficasse bem quieto poderia ouvir voc -- sussurrou ele.
-- Se ficasse imvel o bastante voc voltaria.
     -- Jack? -- disse minha me, acordando. -- Eu devo ter cado no sono.
     -- E maravilhoso ter voc de volta -- disse ele.
     E minha me olhou para ele. Todos os vus se romperam.
     -- Como voc consegue? -- perguntou ela.
     -- No existe alternativa, Abbie -- disse ele. -- O que mais eu posso
fazer?
     -- Ir embora, recomear -- disse ela.
     -- Funcionou?
     Eles se calaram. Estendi a mo e me dissipei.
     -- Por que voc no vem deitar aqui? -- disse meu pai. -- Ainda temos
algum tempo antes das intransigentes chegarem e tirarem voc.
     Ela no se mexeu.
     -- Elas foram legais comigo -- disse ela. -- A enfermeira Eliot me ajudou
a pr todas as flores na gua enquanto voc dormia.
     Ele olhou em volta e distinguiu o contorno das flores.
     -- Narcisos -- disse ele.
     --  a flor da Susie.
     Meu pai deu um lindo sorriso.
     -- Est vendo -- disse ele --,  assim. Voc encara os fatos de frente
dando uma flor para ela.
     --  to triste -- disse minha me.
     -- E -- disse ele --,  sim.
     Minha me teve de se equilibrar um pouco precariamente em um dos
quadris perto da beirada de sua cama de hospital, mas eles conseguiram.
Conseguiram se esticar juntos um do lado do outro para poderem se olhar nos
olhos.
     -- Como foi ver o Buckley e a Lindsey?
     -- Incrivelmente difcil -- disse ela.
     Ficaram calados por um instante e ele apertou a mo dela.



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     -- Voc est to diferente -- disse ele.
     -- Mais velha, voc quer dizer.
     Eu o vi estender a mo e pegar um cacho de cabelos da minha me e
coloc-lo atrs de sua orelha.
     -- Eu me apaixonei por voc de novo enquanto voc estava fora -- disse
ele.
     Percebi o quanto eu queria estar onde minha me estava. O amor dele
pela minha me no era olhar para trs e amar alguma coisa que nunca
mudaria. Era amar minha me por tudo -- por sua dor e por sua fuga, por ela
estar ali agora naquele momento antes de o sol nascer e de os empregados
do hospital entrarem. Era tocar aqueles cabelos com a lateral dos dedos, e
conhecer, mas mesmo assim se lanar sem medo nas profundezas de seus
olhos de oceano.
     Minha me no conseguiu dizer "Eu te amo".
     -- Voc vai ficar? -- perguntou ele.
     -- Por um tempo. Era alguma coisa.
     -- Que bom -- disse ele. -- Ento, o que voc dizia quando as pessoas
perguntavam sobre sua famlia na Califrnia?
     -- Em voz alta eu dizia que tinha dois filhos. Em silncio, dizia trs.
Sempre quis pedir desculpas a ela por isso.
     -- Falou que tinha um marido? -- perguntou ele. E ela olhou para ele.
     -- No.
     -- Caramba -- disse ele.
     -- Eu no voltei para fingir, Jack -- disse ela.
     -- Por que voc voltou?
     -- Minha me me ligou. Disse que voc tinha tido um infarto e eu pensei
no seu pai.
     -- Por que eu poderia morrer?
     -- .
     -- Voc estava dormindo -- disse ele. -- No viu.
     -- Quem?
     -- Algum entrou no quarto e depois foi embora. Acho que era a Susie.
     -- Jack? -- perguntou minha me, mas seu alerta estava apenas a meio-
mastro.



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     -- No me diga que voc tambm no v.
     Ela se entregou.
     -- Eu a vejo em todos os lugares -- disse ela, soltando ar, aliviada. -- At
na Califrnia ela estava em todos os lugares. Subindo nos nibus, ou nas ruas
perto dos colgios quando eu passava de carro. Eu via os cabelos dela, mas o
rosto no batia, ou via o corpo dela e seu jeito de andar. Via irms mais velhas
e seus irmos caulas, ou duas meninas que pareciam irms e imaginava o que
Lindsey no teria na sua vida -- toda a relao perdida para ela e para o
Buckley, e a isso me dava um soco, porque eu tambm tinha ido embora. A
coisa fugia de controle e ia parar em voc e at na minha me.
     -- Ela foi tima -- disse ele. -- Uma rocha. Uma rocha esponjosa, mas
uma rocha.
     -- E o que estou vendo.
     -- Ento, se eu disser para voc que a Susie estava no quarto dez minutos
atrs, o que voc diria?
     -- Diria que voc est louco e que provavelmente tem razo.
     Meu pai levantou a mo e acompanhou o contorno do nariz da minha
me e levou o dedo at em cima dos lbios dela. Quando fez isso, os lbios se
abriram bem de leve.
     -- Voc vai ter de se inclinar -- disse ele. -- Sou um homem doente.
     E eu vi meus pais se beijarem. Eles ficaram de olhos abertos enquanto o
faziam, e foi minha me quem chorou primeiro, as lgrimas escorrendo para as
bochechas do meu pai at ele tambm chorar.




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                                       Captulo 21




 D          epois de deixar meus pais no hospital, fui olhar Ray Singh.
            Tnhamos tido 14 anos juntos, ele e eu. Agora eu via sua cabea no
travesseiro, cabelo escuro sobre lenis amarelos, pele escura sobre lenis
amarelos. Contei os clios de cada olho fechado. Ele tinha sido meu quase,
meu poderia-ter-sido, e eu no queria deix-lo, no mais do que queria deixar
minha famlia.
     No andaime atrs do palco, com Ruth l embaixo, Ray Singh tinha
chegado perto o suficiente de mim para seu hlito ficar prximo do meu. Eu
podia sentir o cheiro da mistura de cravo e canela com a qual imaginava que
ele cobria seu cereal todas as manhs, e um cheiro escuro tambm, o cheiro
humano do corpo chegando perto de mim onde l no fundo havia rgos
suspensos por uma qumica diferente da minha.
     Do momento em que eu sabia que aconteceria at o momento em que
aconteceu, eu tinha tomado cuidado para no ficar sozinha com Ray Singh
dentro ou fora do colgio. Tinha medo daquilo que mais queria -- seu beijo.
Medo de no ser bom o bastante para se igualar s histrias que todo mundo
contava ou que eu tinha lido na Seventeen, na Glamour e na Vogue. Tinha
medo de eu no ser boa o bastante -- medo de o meu primeiro beijo rimar
com rejeio, no com amor. Mesmo assim, eu colecionava histrias de beijos.
     -- Seu primeiro beijo  o destino batendo  sua porta -- disse vov Lynn
ao telefone certo dia. Eu estava segurando o fone, enquanto meu pai ia
chamar minha me. Ouvi ele dizer na cozinha "ela est de pileque".
     -- Se eu tivesse de fazer tudo de novo, teria usado alguma coisa
estupenda -- como Fire and Ice, mas a Revlon ainda no fazia esse batom na
poca. Eu teria deixado minha marca naquele homem.
     -- Me? -- disse minha me na extenso do quarto.
     -- Estamos falando sobre beijos, Abigail.



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     -- Quanto voc bebeu?
     -- Porque sabe, Susie -- disse vov Lynn --, se voc beijar como um
limo, vai fazer limonada.
     -- Como foi?
     -- Ah, a pergunta do beijo -- disse minha me. -- Vou deixar vocs 
vontade. -- Eu tinha pedido a meu pai e a ela para contarem a histria mil
vezes para ouvir seus diferentes pontos de vista. O que consegui no final foi
uma imagem dos meus pais atrs de uma nuvem de fumaa de cigarro -- seus
lbios mal se tocando dentro da nuvem.
     Um instante depois, vov Lynn sussurrou:
     -- Susie, voc ainda est a?
     -- Estou, v.
     Ela ficou em silncio por mais um instante.
     -- Eu tinha a sua idade, e meu primeiro beijo foi com um homem adulto.
O pai de uma amiga.
     -- V! -- disse eu, sinceramente chocada.
     -- Voc no vai me entregar, vai?
     -- No.
     -- Foi maravilhoso -- disse vov Lynn. -- Ele sabia beijar. Eu no
conseguia suportar os meninos que me beijavam. Punha minha mo no peito
deles e os empurrava. O sr. McGahern sabia usar os lbios.
     -- O que aconteceu ento?
     -- O paraso -- disse ela. -- Eu sabia que no era certo, mas foi
maravilhoso -- pelo menos para mim. Nunca perguntei para ele o que ele
tinha achado, mas  verdade que nunca mais fiquei sozinha com ele depois
disso.
     -- Mas voc quis fazer de novo?
     -- Quis, eu passei a vida procurando esse primeiro beijo.
     -- E o vov?
     -- No beijava l muito bem -- disse ela. Eu podia ouvir o tilintar de
pedras de gelo do outro lado do telefone. -- Nunca me esqueci do sr.
McGahern, mesmo que tenha sido s um segundo. Tem um menino querendo
beijar voc?




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     Nem meu pai nem minha me tinham me perguntado isso. Agora sei que
eles j sabiam disso, que tinham adivinhado, que sorriam um para o outro
enquanto comparavam observaes.
     Engoli em seco do meu lado da linha.
     -- Tem.
     -- Qual o nome dele?
     -- Ray Singh.
     -- Voc gosta dele?
     -- Gosto.
     -- Ento qual o empecilho?
     -- Tenho medo de no saber beijar.
     -- Susie?
     -- O qu?
     -- Divirta-se, menina, s isso.


                                               12
     -- Os trs primeiros so o mesmo desenho, mas com setas diferentes
apontando para lugares diferentes e dizendo "camada superficial", "calcrio
rachado" e "pedra se dissolvendo". O ltimo tem uma grande legenda dizendo
"Aterrando" e embaixo diz "Concreto enche a garganta e argamassa preenche
as rachaduras".
     -- Garganta? -- disse Ray.
     -- Eu sei -- disse Ruth. -- Depois tem essa outra seta do outro lado como
se fosse um projeto to imenso que eles tivessem de fazer uma pausa para os
leitores entenderem o conceito, e essa seta diz: "Depois o buraco  enchido
com terra."
     Ray comeou a rir.
     -- Parece um procedimento mdico -- disse Ruth. -- Consertar o planeta
exige uma cirurgia delicada.
     -- Acho que buracos na terra despertam alguns temores bem primevos.
     -- Sem brincadeira -- disse Ruth. -- Os buracos tm gargantas, pelo
amor de Deus! Ei, vamos l ver isso.
     Mais ou menos um quilmetro  frente havia sinais de alguma construo
nova. Ray dobrou  esquerda e entrou nos crculos de estrada recm-asfaltada



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onde as rvores tinham sido retiradas e pequenas bandeiras vermelhas e
amarelas flutuavam a intervalos regulares no topo de sinalizadores de arame
que iam at a cintura.
      Assim que eles tinham se convencido de estarem sozinhos explorando as
estradas preparadas para um territrio ainda desabitado, viram Joe Ellis vindo
em sua direo.
      Ruth no acenou, nem Ray, nem Joe fez nenhum movimento para mostrar
que os tinha visto.
      -- Minha me diz que ele ainda mora na casa dos pais e no consegue
arrumar emprego.
      -- O que ele faz o dia todo? -- perguntou Ray.
      -- Cara de maluco, imagino.
      -- Ele nunca superou aquilo -- disse Ray, e Ruth olhou para as fileiras
interminveis de lotes vazios at Ray tornar a entrar na estrada principal e eles
tornarem a cruzar os trilhos do trem rumo  estrada 30, que os levaria na
direo do sumidouro.
      Ruth ps o brao para fora da janela para sentir o ar mido da manh
depois da chuva. Embora Ray tivesse sido acusado de estar envolvido com o
meu desaparecimento, tinha entendido por qu, sabia que a polcia estava
fazendo o seu trabalho. Mas Joe Ellis nunca tinha se recuperado de ser
acusado de matar os gatos e cachorros que o sr. Harvey tinha matado. Ele
ficava perambulando, mantendo uma boa distncia dos vizinhos e querendo
muito encontrar alvio no amor dos gatos e cachorros. Para mim a coisa mais
triste era que esses animais sentiam o cheiro de seu trauma -- o defeito
humano -- e mantinham distncia.


                                               12
     Na estrada 30, perto do pedgio de Eels Rod, em um ponto pelo qual Ray
e Ruth estavam prestes a passar, vi Len saindo de um apartamento em cima da
barbearia do Joe. Ele carregou uma mochila de estudante pouco cheia at o
carro. A mochila tinha sido presente da moa a quem o apartamento
pertencia. Ela o tinha convidado para tomar um caf certo dia depois de se
conhecerem na delegacia em um curso de criminologia do West Chester
College. Dentro da mochila havia vrias coisas -- algumas das quais ele



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mostraria ao meu pai e outras que nenhum pai de nenhuma criana precisava
ver. Essas ltimas incluam fotos dos tmulos dos corpos recuperados -- com
os dois cotovelos, nesse caso.
     Quando ele tinha ligado para o hospital, a enfermeira tinha lhe dito que o
sr. Salmon estava com sua mulher e sua famlia. Agora sua culpa aumentava
enquanto ele entrava com o carro no estacionamento do hospital e se sentava
por um instante com o sol quente entrando pelo para-brisa, assando no calor.
     Eu podia ver Len ensaiando como dizer o que tinha a dizer. Ele podia
trabalhar apenas com uma suposio em mente -- depois de quase sete anos
de um contato cada vez menos intenso, desde o final de 1975, o que meus
pais mais esperariam seria um corpo ou a notcia de que o sr. Harvey tinha
sido encontrado. O que ele tinha para lhes dar era um amuleto.
     Ele agarrou a mochila e trancou o carro, passando pela menina do lado de
fora com seu balde novamente cheio de narcisos. Sabia o nmero do quarto
do meu pai, ento no se preocupou em se anunciar no balco de enfermeiras
do quinto andar, mas apenas bateu de leve na porta aberta do meu pai antes
de entrar.
     Minha me estava em p, de costas para ele. Quando ela se virou, pude
ver a fora da presena dela atingi-lo. Ela estava segurando a mo do meu pai.
Subitamente me senti terrivelmente sozinha.
     Minha me se sentiu um pouco trmula ao olhar Len nos olhos, e depois
abriu a conversa com o que parecia mais fcil.
     -- Ser que alguma vez  maravilhoso ver voc? -- disse ela tentando
brincar.
     -- Len -- conseguiu dizer meu pai. -- Abbie, pode me levantar?
     -- Como est se sentindo, sr. Salmon? -- perguntou Len, enquanto minha
me apertava o boto da cama com a seta para cima.
     -- Jack, por favor -- insistiu meu pai.
     -- Antes que vocs fiquem esperanosos -- disse Len --, ns no o
pegamos.
     Meu pai desanimou visivelmente.
     Minha me rearrumou os travesseiros de espuma atrs das costas e do
pescoo do meu pai.
     -- Ento por que voc est aqui? -- perguntou ela.



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     -- Encontramos uma coisa da Susie -- disse Len.
     Ele tinha usado quase a mesma frase ao ir  minha casa com o gorro de
sininhos. Aquilo era um eco distante na cabea dela.
     Na noite anterior, quando minha me primeiro olhou meu pai dormir e
depois meu pai acordou para ver a cabea dela ao lado da sua no travesseiro,
ambos tinham evitado a lembrana daquela primeira noite de neve e granizo e
chuva e de como tinham se agarrado um ao outro, sem nenhum deles
pronunciar em voz alta sua maior esperana. Na noite anterior, fora meu pai
quem finalmente tinha dito:
     -- Ela nunca mais vai voltar para casa. -- Uma verdade clara e fcil que
todo mundo que tinha me conhecido aceitava. Mas ele precisava diz-la, e ela
precisava ouvi-lo dizer.
     --  um amuleto da pulseira dela -- disse Len. -- Uma pedra angular da
Pensilvnia com suas iniciais.
     -- Fui eu quem comprei isso para ela -- disse meu pai. -- Na estao da
rua Trinta, um dia quando fui  cidade. Tinha uma barraquinha e um homem
usando culos de segurana gravou as iniciais de graa. Comprei um para a
Lindsey tambm. Lembra, Abigail?
     -- Lembro -- disse minha me.
     -- Ns o encontramos perto de um tmulo em Connecticut.
     Meus pais ficaram subitamente imveis por um instante -- como animais
presos em gelo -- com os olhos abertos congelados e implorando a quem
quer que passasse por cima deles que os libertasse agora, por favor.
     -- No era a Susie -- disse Len, apressando-se em preencher o silncio.
     -- O que isso quer dizer  que o Harvey foi relacionado a outros
assassinatos em Delaware e em Connecticut. Foi no tmulo perto de Hartford
que encontramos o amuleto da Susie.
     Meu pai e minha me viram Len abrir com dificuldade o zper meio
emperrado de sua mochila. Minha me alisou o cabelo do meu pai para trs e
tentou olhar seus olhos. Mas meu pai estava concentrado na possibilidade
apresentada por Len -- a reabertura do meu caso. E minha me, bem na hora
em que estava comeando a sentir que pisava um cho mais firme, teve de
esconder o fato de que nunca mais queria que aquilo recomeasse. O nome
George Harvey a fez se calar. Ela nunca tinha sabido o que dizer sobre ele.



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Para minha me, relacionar sua vida  sua captura e  sua punio dizia mais
sobre viver com o inimigo do que ter de aprender a viver no mundo sem mim.
     Len tirou da mochila um grande saco plstico. No canto de baixo do saco
meus pais podiam ver o brilho do ouro. Len o entregou  minha me, e ela o
segurou na sua frente, ligeiramente afastado do corpo.
     -- Voc no precisa disso, Len? -- perguntou meu pai.
     -- Fizemos todos os testes possveis -- disse ele. -- Documentamos onde
ele foi encontrado e tiramos as fotos necessrias. Pode ser que chegue um dia
em que eu tenha de pedi-lo de volta, mas at l ele  seu.
     -- Abra, Abbie -- disse meu pai.
     Vi minha me abrir o saco e se inclinar sobre a cama.
     --  para voc, Jack -- disse ela. -- Foi um presente seu.
     Quando meu pai estendeu a mo, ela estava tremendo, e foi preciso um
segundo para ele sentir as extremidades pequenas e pontiagudas da pedra
angular com a ponta dos dedos. O modo como ele o retirou do saco me
lembrou de jogar o jogo Operao com Lindsey quando ramos pequenas. Se
ele tocasse as laterais do saco plstico, um alarme dispararia e ele teria de
desistir.
     -- Como vocs podem ter certeza de que ele matou essas outras
meninas? -- perguntou minha me. Ela encarou o pequeno pedao de ouro
na palma da mo do meu pai.
     -- Nada nunca  certo -- disse Len.
     E o eco retiniu mais uma vez nos ouvidos dela. Len tinha um repertrio
fixo de frases. Aquela era a mesma frase que meu pai tinha tomado
emprestado para tranqilizar sua famlia. Era uma frase cruel que apelava para
a esperana.
     -- Acho que quero que voc v embora agora -- disse ela.
     -- Abigail? -- espantou-se meu pai.
     -- No consigo ouvir mais.
     -- Estou muito feliz por ficar com o amuleto, Len -- disse meu pai.
     Len levantou um chapu imaginrio para o meu pai antes de se virar para
ir embora. Ele tinha feito um tipo de amor com minha me antes de ela ir
embora. O sexo como um ato de esquecimento voluntrio. Era o tipo que ele
fazia cada vez mais nos cmodos em cima da barbearia.



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'     Rumei para o sul em direo a Ruth e Ray, mas em vez disso vi o sr.
Harvey. Ele dirigia um carro cor-de-laranja que parecia uma colcha de retalhos,
consertado com tantas verses diferentes do mesmo fabricante e do mesmo
modelo que parecia um Frankenstein sobre rodas. Uma corda elstica
segurava o capo, que balanava para cima e para baixo impulsionado pelo ar
que entrava pela frente.
     O motor resistia a passar de um milmetro acima do limite de velocidade
por mais que ele pisasse no pedal do acelerador. Ele tinha dormido perto de
uma cova vazia, e enquanto dormia tinha sonhado com o 5! 5! 5!, acordando
perto do amanhecer para dirigir at a Pensilvnia.
     O contorno do sr. Harvey parecia estranhamente indefinido. Durante anos
ele tinha mantido afastadas as lembranas das mulheres que tinha matado,
mas agora, uma por uma, elas estavam voltando.
     A primeira menina que ele machucou foi por acidente. Ele ficou cora raiva
e no conseguiu se controlar, ou foi assim que comeou a pensar no
acontecido. Ela parou de ir ao colgio em que ambos estavam matriculados,
mas isso no lhe pareceu estranho. Aquela altura ele tinha se mudado tantas
vezes que imaginou que fosse isso que a menina tivesse feito. Tinha se
arrependido daquilo, daquele estupro discreto e abafado de uma amiga de
colgio, mas no o via como algo que ficaria na memria de nenhum deles
dois. Era como se alguma coisa fora dele tivesse resultado na coliso de seus
dois corpos certa tarde. Durante um segundo depois, ela havia mantido os
olhos fixos. Seu olhar no tinha fundo. Depois vestiu a calcinha rasgada,
prendendo-a na cintura da saia para mant-la no lugar. No disseram nada, e
ela foi embora. Ele se cortou com seu canivete nas costas da mo. Quando seu
pai perguntasse sobre o sangue, teria uma explicao plausvel. "Viu", ele
poderia dizer apontando para o corte na mo. "Foi um acidente."
     Mas seu pai no perguntou, e ningum veio procur-lo. Nenhum pai,
irmo ou policial.
     Ento o que vi foi o que o sr. Harvey sentia ao seu lado. Aquela menina,
que tinha morrido poucos anos depois quando seu irmo adormeceu
fumando um cigarro. Ela estava sentada no banco da frente. Perguntei-me
quanto tempo levaria at ele comear a se lembrar de mim.




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     Os nicos sinais de mudana desde que o sr. Harvey tinha me jogado no
sumidouro dos Fianagan eram os postes cor-de-laranja espalhados pelo lote.
Aquilo e as provas de que o sumidouro tinha se expandido. O canto sudeste
da casa estava inclinado, e a varanda da frente estava afundando
silenciosamente para dentro da terra.
     Por precauo, Ray estacionou do outro lado de Fiat Road, debaixo de um
trecho de cerca-viva alta. Mesmo assim, o lado do carona quase tocava a
calada.
     -- O que aconteceu com os Fianagan? -- perguntou Ray, enquanto
desciam do carro.
     -- Meu pai disse que a firma que comprou a propriedade deu um lugar
para eles morarem e eles se mudaram.
     -- Este lugar  sinistro, Ruth -- disse Ray.
     Eles atravessaram a estrada vazia. Acima deles, o cu estava azul-claro,
com algumas nuvens rarefeitas espalhadas pelo ar. De onde estavam podiam
discernir os fundos da oficina de motos de Hal do outro lado dos trilhos do
trem.
     -- Ser que o Hal Heckler ainda  o dono daquilo? -- disse Ruth. -- Eu fui
a fim dele quando a gente era mais novo.
     Depois ela se virou para o lote. Estavam em silncio. Ruth se movia em
crculos cada vez menores, tendo o buraco e seus limites indistintos como
objetivo. Ray seguia Ruth de perto enquanto ela ia  frente. De longe, o
sumidouro parecia inofensivo -- como uma poa de lama gigante comeando
a secar. Havia pedaos de grama e ervas daninhas em volta e ento, se voc
olhasse bem de perto, era como se a terra parasse e comeasse uma carne
cor-de-chocolate. Essa carne era macia e convexa, e engolia as coisas
colocadas em cima dela.
     -- Como voc sabe que isso no vai engolir a gente? -- perguntou Ray.
     -- A gente no  pesado o suficiente -- disse Ruth.
     -- Pra, se sentir que est afundando.
     Tive vontade de sair andando de baixo dos arbustos altos que quase
escondiam seu carro azul-gelo e atravessar a estrada e descer para dentro do



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buraco e subir de novo e bater de leve no ombro dela e dizer: "Sou eu! Voc
conseguiu! Bingo!"
     -- No -- disse Ray. -- Eu deixo isso com voc.
     -- Tudo est mudando aqui agora. Sempre que eu volto alguma coisa
que fazia este lugar no ser exatamente igual a todos os outros lugares do
pas sumiu -- disse ela.
     -- Quer entrar na casa? -- perguntou Ray, mas ele estava pensando em
mim. Em como tinha ficado a fim de mim aos 13 anos. Tinha me visto andando
para casa depois do colgio na sua frente, e foi uma srie de coisas simples:
minha saia plissada fora de prumo, meu casaco coberto de plos de Holiday, o
jeito como o que eu considerava meu cabelo cor-de-camundongo absorvia o
sol da tarde fazendo a luz se mover com fluidez de um ponto a outro
enquanto andvamos para casa. Ento, alguns dias depois, quando ele tinha
ido para a frente da sala na aula de cincias sociais e acidentalmente lido um
trecho de seu trabalho sobre Jane Eyre em vez da Guerra de 1812 -- eu tinha
olhado para ele de um jeito que ele achou simptico.
     Ray andou na direo da casa que logo seria demolida, e de onde o sr.
Connors j tinha removido certa noite bem tarde todas as valiosas maanetas
e torneiras, mas Ruth ficou perto do sumidouro. Ray j estava dentro da casa
quando aquilo aconteceu. Claro como o dia, ela me viu em p ao seu lado,
olhando para o ponto onde o sr. Harvey tinha me jogado.
     -- Susie -- disse Ruth, sentindo a minha presena com mais fora ainda
quando disse meu nome.
     Mas eu no disse nada.
     -- Eu escrevi poemas para voc -- disse Ruth, tentando me fazer ficar
com ela. O que ela tinha desejado durante a vida toda estava finalmente
acontecendo. -- Voc no quer nada, Susie? -- perguntou ela.
     Ento eu sumi.
     Ruth ficou ali tonta, esperando na luz cinza do sol da Pensilvnia. E sua
pergunta ecoava nos meus ouvidos: "Voc no quer nada?"


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     Do outro lado dos trilhos do trem, a oficina de Hal estava deserta. Ele
havia tirado o dia de folga e levado Samuel e Buckley a uma exibio de
motocicletas em Radnor. Eu podia ver as mos de Buckley alisando o pra-
lama dianteiro curvo de uma minibike vermelha. Logo seria seu aniversrio, e
Hal e Samuel olhavam para ele. Hal queria dar o sax alto de Samuel para o
meu irmo, mas vov Lynn tinha intervindo.
     -- Ele precisa bater nas coisas, querido -- disse ela. -- Guarde as mais
delicadas. -- Ento Hal e Samuel tinham feito uma vaquinha para comprar
uma bateria de segunda mo para o meu irmo.
     Vov Lynn estava no shopping tentando encontrar roupas simples, mas
elegantes, que pudesse convencer minha me a usar. Com os dedos destros
de anos de prtica, tirou um vestido quase azul-marinho de uma arara de
pretos. Pude ver a mulher perto dela encarar o vestido, verde de inveja.
     No hospital, minha me lia um antigo Evening Bulletin em voz alta para o
meu pai, e ele via seus lbios se mexerem sem ouvir de verdade. Querendo
beij-la em vez disso.
     E Lindsey.
     Eu podia ver o sr. Harvey fazer a curva para entrar no meu antigo bairro
em plena luz do dia, sem ligar mais para quem o visse, at apostando em sua
invisibilidade-padrao -- ali, no bairro em que tantas pessoas tinham dito que
nunca o esqueceriam, sempre o tinham considerado estranho, tinham
suspeitado facilmente que a mulher morta de quem ele falava usando nomes
alternados fora uma de suas vtimas.
     Lindsey estava em casa sozinha.
     -- Estou vendo que esto construindo alguma coisa no antigo milharal --
disse o sr. Harvey. E eu percebi ento que parte de mim podia se juntar s
outras, descer at a Terra em pedaos, cada parte do corpo que ele tinha
matado chovendo dentro do seu carro.
     -- Esto expandindo o colgio.
     -- Eu estava pensando que o bairro parece mais prspero -- disse ele,
pensativo.
     -- Talvez o senhor devesse ir saindo -- disse o policial. Ele estava
envergonhado pelo sr. Harvey com seu carro remendado, mas o vi anotar a
placa.



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      -- Eu no quis assustar ningum.
      O sr. Harvey era um profissional, mas naquele instante eu no estava
ligando. Com cada trecho de estrada que ele percorria, eu me concentrava em
Lindsey dentro de casa lendo seus livros, nos fatos pulando das pginas para
dentro de seu crebro, em como ela era inteligente e em como estava inteira.
Em Temple, tinha decidido virar terapeuta. E pensei na mistura de ar que era
nosso quintal da frente, uma mistura de luz do dia, me preocupada e policial
-- era uma convergncia de sorte que tinha mantido a minha irm segura at
ali. Cada dia era um ponto de interrogao.
      Ruth no contou a Ray o que tinha acontecido. Prometeu a si mesma
escrever no dirio primeiro. Quando atravessaram a estrada de volta para o
carro, Ray viu alguma coisa violeta na vegetao rasteira a meio caminho da
encosta do monte de terra que tinha sido largado ali por uma equipe de
obras.
      -- Aquilo  pervinca -- disse ele a Ruth. -- Vou colher um pouco para
minha me.
      -- Tudo bem, no precisa ter pressa -- disse Ruth.
      Ray se esgueirou para debaixo dos arbustos pelo lado do motorista e
subiu at a pervinca enquanto Ruth ficava ao lado do carro. Ray no estava
mais pensando em mim. Estava pensando nos sorrisos da me. A maneira mais
certa de consegui-los era encontrar-lhe flores silvestres como essa, lev-las
para ela em casa e v-la coloc-as para secar, abrindo primeiro suas ptalas
contra o fundo preto e branco de dicionrios ou livros de referncia. Ray foi
at o alto do monte e desapareceu do outro lado, esperando encontrar mais
flores.
      Foi s ento que senti um arrepio na espinha, quando vi seu corpo
desaparecer de repente do outro lado. Ouvi Holiday, seu medo armazenado l
embaixo no fundo da garganta, e percebi que no poderia ter sido por Lindsey
que ele tinha ganido. O sr. Harvey estava no alto do pedgio de Eels Rod e via
o sumidouro e os postes cor-de-laranja da mesma cor do seu carro. Ele tinha
jogado um corpo l dentro. Lembrou-se do pingente de mbar de sua me, e
de como ainda estava morno quando ela o tinha entregado para ele.
      Ruth viu as mulheres imprensadas dentro do carro com seus vestidos
sujos de sangue. Comeou a andar em sua direo. Naquela mesma estrada



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em que eu tinha sido enterrada, o sr. Harvey passou por Ruth. Tudo o que ela
conseguiu ver foram as mulheres. Depois: teto preto.
    Foi nesse instante que eu ca na Terra.




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                                     Captulo 22




  R        uth desabando na estrada. Disso eu tive conscincia. O sr. Harvey
           indo embora sem ser visto, sem ser amado, sem ser convidado --
isso eu perdi.
     Tropecei sem conseguir me segurar, com o equilbrio perdido. Ca pelo
vo aberto da entrada do mirante, atravessei o gramado e ultrapassei o limite
mais distante do cu no qual tinha vivido todos aqueles anos.
     Ouvi Ray berrando no ar acima de mim, sua voz gritando em um arco de
som.
     -- Ruth, voc est bem? -- Ento ele chegou perto dela e a agarrou.
     -- Ruth, Ruth -- berrava ele. -- O que aconteceu?
     E eu estava nos olhos de Ruth e olhando para cima. Podia sentir a curva
de suas costas encostando na calada, e arranhes dentro de suas roupas
onde a pele tinha sido ralada pelas pontas afiadas do cascalho. Sentia cada
sensao -- o calor do sol, o cheiro do asfalto --, mas no conseguia ver Ruth.
     Ouvi os pulmes de Ruth borbulharem, um revirar de seu estmago, mas
o ar ainda enchendo seus pulmes. Depois a tenso esticando o corpo. Seu
corpo. Ray l em cima, seus olhos -- cinzas, pulsando, olhando de um lado
para outro da estrada sem saber o que fazer, procurando uma ajuda que no
vinha. Ele no tinha visto o carro, mas tinha emergido dos arbustos radiante,
carregando um buqu de flores silvestres para a me, e ali estava Ruth,
deitada na estrada.
     Ruth empurrava sua pele, querendo sair. Estava lutando para sair e eu
estava l dentro agora, lutando com ela. Desejei que ela voltasse, desejei essa
divina impossibilidade, mas ela queria sair. No havia nada nem ningum
capaz de mant-la l embaixo. Voando. Eu olhava como tinha olhado tantas
vezes do cu, mas desta vez ao meu lado havia um borro. Era desejo e raiva
querendo subir.




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     -- Ruth -- disse Ray. -- Est me ouvindo, Ruth?
     Logo antes de ela fechar os olhos e de todas as luzes se apagarem e do
mundo ficar frentico, olhei para dentro dos olhos cinzas de Ray Singh, para
sua pele escura, para os lbios que eu um dia tinha beijado. Ento, como uma
mo soltando alguma coisa que segurava com fora, Ruth passou por ele.
     Os olhos de Ray me chamaram enquanto eu parava de olhar e comeava
a ser tomada por um doloroso desejo. Estar viva novamente nesta Terra. No
olhar l de cima, mas estar -- o melhor de tudo -- junto.
     Em algum lugar do Meio-Termo azul eu a tinha visto -- Ruth passando
por mim enquanto eu caa na Terra. Mas ela no era a sombra de uma forma
humana, no era um fantasma. Era uma menina esperta quebrando todas as
regras.
     E eu estava dentro de seu corpo.
     Ouvi uma voz me chamando do cu. Era a voz de Franny. Ela correu para
o mirante, chamando o meu nome. Holiday latia to alto que sua voz se
prendia e tornava a sair da base de sua garganta sem intervalo. Ento, de
repente, Franny e Holiday sumiram e tudo ficou em silncio. Senti alguma
coisa me segurando, e senti a mo de algum segurando a minha. Meus
ouvidos pareciam oceanos onde o que eu tinha conhecido antes, vozes, rostos,
fatos, comeava a se afogar. Abri os olhos pela primeira vez desde que tinha
morrido e vi olhos cinzas me olhando de volta. Fiquei imvel enquanto
percebia que o peso maravilhoso em cima de mim era o peso de um corpo
humano.
     Tentei falar.
     -- No fala -- disse Ray. -- O que houve?
     Eu morri, era o que eu queria dizer para ele. Como se diz: "Eu morri e
agora voltei para o mundo dos vivos"?
     Ray tinha se ajoelhado. Espalhadas ao redor dele e em cima de mim
estavam as flores que ele tinha colhido para Ruana. Eu podia ver as elipses
brilhantes de suas formas contrastando com as roupas escuras de Ruth. Ento
Ray encostou o ouvido no meu peito para me ouvir respirar. Ps um dedo na
parte de dentro do meu pulso para verificar meus batimentos cardacos.
     -- Voc desmaiou? -- perguntou ele, depois de ver que estava tudo em
ordem.



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     Assenti. Eu sabia que aquele privilgio na Terra no ia durar para sempre,
que o desejo de Ruth era s temporrio.
     -- Acho que estou bem -- tentei dizer, mas minha voz estava fraca
demais, distante demais, e Ray no me ouviu. Meus olhos ento encararam os
dele, abrindo-se o mximo de que eu era capaz. Alguma coisa me disse para
me levantar. Pensei que estivesse flutuando de volta para o cu, voltando, mas
estava tentando me levantar.
     -- Ruth -- disse Ray. -- No anda, se estiver se sentindo fraca. Posso
carregar voc at o carro.
     Sorri para ele, um sorriso de mil watts de potncia.
     -- Estou bem -- disse eu.
     Hesitante, observando-me com ateno, ele soltou meu brao, mas
continuou a segurar minha outra mo. Levantou-se junto comigo, e as flores
silvestres caram no asfalto. No cu, mulheres jogavam ptalas de rosas ao
verem Ruth Connors.
     Vi seu belo rosto se abrir em um sorriso espantado.
     -- Ento voc est bem -- disse ele. Com cuidado, chegou perto o
suficiente para me beijar, mas me disse que estava verificando minhas pupilas
para ver se estavam do mesmo tamanho.
     Eu estava sentindo o peso do corpo de Ruth, tanto o delicioso balano
dos seios e das coxas quanto uma imensa responsabilidade. Eu era uma alma
de volta  Terra. Numa curta ausncia sem permisso do cu, eu tinha
ganhado um prmio. Usando toda a minha fora de vontade, fiquei em p o
mais ereta possvel.
     -- Ruth?
     Tentei me acostumar com aquele nome.
     -- O qu? -- disse eu.
     -- Voc mudou -- disse ele. -- Alguma coisa mudou.
     Estvamos perto do meio da estrada, mas aquela era a minha deixa. Eu
queria tanto contar para ele, mas o que poderia dizer? "Eu sou a Susie, tenho
s pouco tempo." Estava com medo demais.
     -- Me beija -- disse eu em vez disso.
     -- O qu?




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     -- Voc no quer? -- Levantei as mos para o seu rosto e senti a leve
aspereza de uma barba que no existia oito anos atrs.
     -- O que aconteceu com voc? -- perguntou ele, siderado.
     -- Algumas vezes os gatos caem dez andares do alto de arranha-cus e
aterrissam em p. Voc s acredita nisso porque viu escrito em algum lugar.
     Ray ficou me encarando, atnito. Inclinou a cabea para baixo e nossos
lbios se tocaram delicadamente. L no fundo senti seus lbios frescos bem
dentro de mim. Outro beijo, pacote precioso, presente roubado. Seus olhos
estavam to perto de mim que vi os pontinhos verdes no meio do cinza.
     Peguei sua mo, e juntos andamos em silncio at o carro. Eu sabia que
ele estava ficando para trs, esticando o meu brao atrs de mim enquanto
continuvamos de mos dadas e verificando o corpo de Ruth para ter certeza
de que ela estava andando direito. Ele abriu a porta do lado do carona e eu
deslizei para dentro e pus os ps no cho acarpetado. Quando ele deu a volta
no carro e se sentou ao meu lado, tornou a me encarar com ateno.
     -- O que houve? -- perguntei.
     Ele me beijou de leve outra vez, nos lbios. O que eu tinha querido por
tanto tempo. O tempo ficou em cmera lenta, e eu o sorvi. A textura dos lbios
dele, a leve aspereza de sua barba na minha pele, e o som do beijo -- o leve
barulho de suco quando nossos lbios se separavam depois do primeiro
encontro e depois o afastamento mais brutal. Aquele som reverberava pelo
comprido tnel da solido e do meu conformismo em ver os outros se
tocarem e se acariciarem na Terra. Eu nunca tinha sido tocada daquela
maneira. S tinha sido machucada por mos sem nenhuma ternura. Mas
estendendo-se at o meu cu depois da morte houvera um raio de luar que
rodopiava e piscava, intermitente -- o beijo de Ray Singh. De alguma maneira,
Ruth sabia disso.
     -- Eles logo vo ter de mudar isso -- disse Ray enquanto passava
correndo pelo cascalho e subia at a estrada de terra. Os trilhos do trem
seguiam em direo a Harrisburg de um lado e  Filadlfia de outro, e em toda
sua extenso prdios estavam sendo demolidos e antigas famlias estavam se
mudando para dar lugar a ocupantes industriais.
     -- Voc vai ficar aqui -- perguntei -- depois de terminar a faculdade?
     -- Ningum fica aqui -- disse Ray. -- Voc sabe disso.



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     Essa escolha quase me cegou: a idia de que se eu tivesse ficado na Terra
poderia ter deixado esse lugar e abraado outro, poderia ter ido aonde
quisesse. Ento pensei: ser que no cu  a mesma coisa que na Terra? O que
eu no estava vendo era uma grande vontade de viajar que vinha do
desapego?
     Chegamos na estreita faixa de terra desobstruda que margeava os dois
lados da oficina de motos de Hal. Ray parou e freou o carro.
     -- Por que aqui? -- perguntou Ray.
     -- A gente est explorando -- disse eu. -- Lembra?
     Eu o conduzi at os fundos da oficina e estiquei a mo por cima do
batente da porta at sentir a chave escondida.
     -- Como voc sabe sobre isso?
     -- Vi centenas de pessoas esconderem chaves -- disse eu. -- No precisa
ser nenhum gnio para adivinhar.
     L dentro tudo era como eu me lembrava, o ar pesado com o cheiro de
graxa de moto. Eu disse:
     -- Acho que preciso de um banho. Por que voc no fica  vontade?
     Passei pela cama e acendi a luz no cordo -- ento todas as luzinhas
brancas em cima da cama de Hal cintilaram, e eram a nica luz ali com
exceo da claridade empoeirada entrando pela pequena janela dos fundos.
     -- Aonde voc vai? -- perguntou Ray. -- Como voc conhece este lugar?
-- Sua voz tinha um tom histrico que no estava presente no instante
anterior.
     -- Me d s um tempinho, Ray -- disse eu. -- Depois eu explico.
     Entrei no pequeno banheiro, mas deixei a porta um pouco aberta.
Enquanto tirava as roupas de Ruth e esperava a gua esquentar, desejei que
Ruth pudesse me ver, pudesse ver seu corpo como eu o via, sua beleza viva
perfeita.
     Dentro do banheiro estava mido e mofado, e a banheira estava
manchada por ter tido tudo menos gua despejado em seu ralo. Entrei na
banheira com ps em forma de garras e fiquei debaixo d'gua. Mesmo na
temperatura mais alta possvel, a gua ainda parecia fria. Chamei o nome de
Ray. Pedi-lhe para entrar no banheiro.
     -- Posso ver voc atravs da cortina -- disse ele, desviando os olhos.



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     -- Tudo bem -- disse eu. -- Eu gosto. Tira a roupa e entra aqui comigo.
     -- Susie -- disse ele --, voc sabe que eu no sou desse tipo.
     Meu corao deu um pulo.
     -- O que voc disse? -- perguntei. Focalizei meus olhos nos dele atravs
do forro branco translcido que Hal chamava de cortina -- ele era uma forma
escura com centenas de pequenos pontos de luz ao seu redor.
     -- Eu disse que no sou desse tipo.
     -- Voc me chamou de Susie.
     Houve um silncio, e um instante depois ele afastou a cortina, tomando
cuidado para s olhar para o meu rosto.
     -- Susie?
     -- Entra aqui comigo -- disse eu, com meus olhos se enchendo de
lgrimas. -- Por favor, entra aqui comigo.
     Fechei os olhos e esperei. Pus a cabea debaixo d'gua e senti seu calor
fazendo arder minhas bochechas e meu pescoo, meus seios e minha barriga
e meu sexo. Ento o ouvi mexendo nas roupas, ouvi seu cinto bater no cho
frio de cimento e as moedas carem de seus bolsos.
     Tive a mesma sensao de expectativa que tinha algumas vezes em
criana quando me deitava no banco de trs e fechava os olhos enquanto
meus pais dirigiam, certa de que estaramos em casa quando o carro parasse,
que eles me pegariam no colo e me carregariam para dentro. Era uma
expectativa nascida da confiana.
     Ray afastou a cortina. Virei de frente para ele e abri os olhos. Senti um
maravilhoso puxo na parte interna das coxas.
     -- Est tudo bem -- disse eu.
     Ele entrou na banheira devagar. No comeo no tocou em mim, mas
depois, hesitante, acompanhou com o dedo uma pequena cicatriz na lateral
do meu corpo. Juntos olhamos seu dedo descer pelo ferimento comprido.
     -- O acidente de vlei da Ruth, 1975 -- disse eu. Tive outro calafrio.
     -- Voc no  a Ruth -- disse ele, com o rosto cheio de incredulidade.
Peguei a mo que tinha chegado ao final do corte e a coloquei debaixo do
meu seio esquerdo.
     -- Eu olho vocs h anos -- disse eu. -- Quero que voc transe comigo.




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     Seus lbios se abriram para falar, mas o que estava em seus lbios agora
era estranho demais para ser dito em voz alta. Ele roou meu mamilo com o
polegar, e puxei a cabea dele na minha direo. Nos beijamos. A gua caa
entre nossos corpos e molhava os plos esparsos em seu peito e em sua
barriga. Eu o beijei porque queria ver Ruth e queria ver Holly e queria saber se
elas podiam me ver. No chuveiro eu podia chorar e Ray podia beijar minhas
lgrimas, sem nunca saber ao certo por que eu as estava derramando.
     Toquei e segurei cada parte do seu corpo. Envolvi seu cotovelo com a
palma da mo. Estiquei seus plos pbicos com os dedos at ficarem lisos.
Segurei aquela parte dele que o sr. Harvey tinha enfiado em mim  fora.
Dentro da minha cabea eu disse a palavra carinho, e depois disse a palavra
homem.
     -- Ray?
     -- Eu no sei como chamar voc.
     -- Susie.
     Levei meus dedos aos lbios dele para impedir sua pergunta.
     -- Voc lembra do bilhete que me escreveu? Lembra de ter assinado o
Mouro?
     Durante um instante ficamos os dois ali em p, e eu via a gua formar
gotas descendo por seus ombros, depois escorregar e cair.
     Sem dizer mais nada, ele me levantou e passei as pernas em volta de seu
corpo. Ele se desviou do jato d'gua para se apoiar na beirada da banheira.
Quando ele entrou em mim, agarrei seu rosto com as duas mos e o beijei
com a maior fora de que era capaz. Um minuto depois, ele afastou o corpo
do meu.
     -- Me conta como .
     -- Voc alguma vez pensa nos mortos, Ray? Ele piscou os olhos e olhou
para mim.
     -- Eu estudo medicina.
     -- No estou falando de cadveres, nem de doenas, nem de rgos que
param de funcionar, estou falando daquilo de que a Ruth fala. Estou falando
da gente.
     -- Algumas vezes penso -- disse ele. -- Sempre tive dvidas sobre isso.




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     -- A gente est aqui, sabe -- disse eu. -- O tempo todo. Voc pode falar
com a gente e pensar na gente. No precisa ser uma coisa triste nem
assustadora.
     -- Posso tocar em voc de novo? -- Ele sacudiu o lenol de cima das
pernas para se sentar.
     Foi ento que vi alguma coisa no p da cama de Hal. Era nebuloso e
imvel. Tentei me convencer de que era um estranho efeito da luz, uma massa
de partculas de poeira presa no sol poente. Mas quando Ray estendeu a mo
para me tocar, eu no senti nada.
     Ray chegou mais perto de mim e me beijou de leve no ombro. No senti
nada. Me belisquei debaixo do cobertor. Nada.
     Ento a massa nebulosa no p da cama comeou a tomar forma.
Enquanto Ray se levantava da cama e ficava em p, vi homens e mulheres
enchendo o quarto.
     -- Ray -- disse eu logo antes de ele chegar no banheiro. Eu queria dizer
"Vou sentir saudades", ou "no vai", ou "obrigada".
     -- O qu?
     -- Voc precisa ler os dirios da Ruth.
     -- Eu no deixaria de ler nem que me pagassem -- disse ele.
     Olhei atravs das formas sombreadas dos espritos que formavam uma
massa no p da cama e o vi sorrir para mim. Vi seu lindo corpo frgil se virar e
passar pela porta. Uma lembrana tnue e sbita.
     Enquanto o vapor comeava a vazar para fora do banheiro, andei devagar
at a pequena escrivaninha de criana onde Hal empilhava contas e registros.
Comecei a pensar em Ruth de novo, em como eu no tinha previsto nada
daquilo -- a maravilhosa possibilidade com a qual Ruth sonhava desde o
nosso encontro no estacionamento. Em vez disso, via como era a esperana
que tinha me mantido viva no cu e na Terra. O sonho de ser fotgrafa da vida
selvagem, o sonho de ganhar um Oscar no primeiro ano do cientfico, o sonho
de beijar Ray Singh mais uma vez. Olhe o que acontece quando voc sonha.
     Na minha frente vi um telefone e o peguei. Sem pensar, disquei o nmero
da minha casa, como uma fechadura cuja combinao voc s sabe quando
gira o mostrador.
     No terceiro toque, algum atendeu.



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     -- Al?
     -- Oi, Buckley -- disse eu.
     -- Quem ?
     -- Sou eu, a Susie.
     -- Quem est falando?
     -- A Susie, querido, sua irm mais velha.
     -- No estou escutando -- disse ele.
     Encarei o telefone por um minuto, e ento os senti. O quarto agora estava
cheio daqueles espritos silenciosos. Entre eles havia crianas e adultos.
     -- Quem so vocs? De onde vocs vieram? -- perguntei, mas o que
tinha sido minha voz no produziu nenhum som no quarto. Foi ento que
percebi. Eu estava sentada olhando os outros, mas Ruth estava cada em cima
da escrivaninha.
     -- Pode me jogar uma toalha? -- gritou Ray depois de desligar o
chuveiro. Quando eu no respondi ele afastou a cortina. Ouvi-o sair da
banheira e chegar at a porta. Ele viu Ruth e correu at ela. Tocou seu ombro
e, sonolenta, ela se levantou. Olharam um para o outro. Ela no precisou dizer
nada. Ele sabia que eu tinha ido embora.
     Lembrei-me de certa vez, com meus pais e Lindsey e Buckley, passar
dentro de um tnel em um trem, de costas. Foi essa a sensao de deixar a
Terra pela segunda vez. O destino de certo modo inevitvel, a paisagem vista
de passagem tantas vezes. Mas dessa vez eu estava acompanhada, no tinha
sido arrancada, e sabia que estvamos fazendo uma viagem muito longa para
um lugar muito distante.
     Deixar a Terra de novo foi mais fcil do que tinha sido voltar. Pude ver
dois velhos amigos se abraando nos fundos da oficina de motos do Hal,
nenhum deles preparado para dizer em voz alta o que lhes tinha acontecido.
Ruth estava ao mesmo tempo mais cansada e mais feliz do que jamais tinha
estado. Quanto a Ray, ele estava apenas comeando se dar conta do que tinha
vivido e das possibilidades que isso abria para ele.




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                                      Captulo 23




 N              a manh seguinte, o cheiro da comida de sua me tinha subido
                pelas escadas e entrado no quarto de Ray, onde ele e Ruth
                dormiam juntos. Da noite para o dia, seu mundo tinha mudado.
Era simples assim.
     Depois de ir embora da oficina de motos de Hal, tomando cuidado para
eliminar qualquer vestgio de sua presena ali, Ray e Ruth voltaram de carro
em silncio para a casa de Ray. Mais tarde naquela noite, quando Ruana
encontrou os dois dormindo juntos abraados e completamente vestidos,
ficou feliz por Ray ter pelo menos aquela amiga esquisita.
     Por volta das trs da manh, Ray tinha acordado. Sentou-se e olhou para
Ruth, para seus compridos membros esguios, para o lindo corpo com o qual
tinha feito amor, e sentiu-se invadido por um sbito carinho. Estendeu a mo
para toc-la, e nesse instante um raio de luar se espalhou pelo cho vindo da
janela onde eu o tinha visto sentado estudando durante tantos anos. Ele o
seguiu. Ali, no cho, estava a bolsa de Ruth.
     Tomando cuidado para no acord-la, ele desceu da cama e foi at a
bolsa. L dentro estava o dirio dela. Ele o pegou e comeou a ler:
     "Nas pontas das penas tem ar e na base: sangue. Eu seguro ossos; queria
que, como o vidro partido, eles retivessem a luz... mesmo assim tento juntar
essas peas de novo, firm-las, fazer as meninas assassinadas tornarem a
viver."
     Ele pulou mais para a frente.
     "Estao de Penn, banheiro, luta que levou  pia. Mulher mais velha."
"Domstico. Avenida C. Marido e mulher." "Telhado em Mott Street,
adolescente, tiro."
     "Hora? Menininha no CP. some entre os arbustos. Gola de renda branca,
elegante."




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                                               12
    Ele comeou a sentir muito frio no quarto, mas continuou a ler, s
levantando os olhos quando ouviu Ruth se mexer.
    -- Eu tenho tanta coisa para te contar -- disse ela.


                                               12
     A enfermeira Eliot ajudou meu pai a se sentar na cadeira de rodas
enquanto minha me e minha irm se agitavam pelo quarto, juntando os
narcisos para levar para casa.
     -- Enfermeira Eliot -- disse ele --, vou me lembrar da sua gentileza, mas
espero no ter de v-la por muito tempo.
     -- Eu tambm espero -- disse ela. Ela olhou para minha famlia reunida
no quarto, sem saber o que fazer em seguida. -- Buckley, as mos da sua me
e da sua irm esto ocupadas. E com voc.
     -- Vai com calma, Buck -- disse meu pai.
     Vi os quatro comearem a descer o corredor rumo ao elevador, Buckley e
meu pai na frente, enquanto Lindsey e minha me seguiam atrs, com os
braos cheios de narcisos curvados.
     Descendo no elevador, Lindsey ficou olhando para dentro das flores
amarelas brilhantes. Lembrou-se de que Samuel e Hal tinham encontrado
narcisos amarelos no milharal na tarde da primeira homenagem  minha
morte. Nunca souberam quem os tinha posto l. Minha irm olhou para as
flores e depois para minha me. Podia sentir o corpo do meu irmo tocando o
seu, e nosso pai, sentado na brilhante cadeira de hospital, com aspecto
cansado, mas feliz por estar indo para casa. Quando chegaram ao trreo e as
portas se abriram, eu sabia que era a coisa certa eles estarem ali, os quatro,
sozinhos.

                                               12
    Enquanto as mos de Ruana iam ficando molhadas e inchadas
descascando uma ma depois da outra, ela comeou a dizer a palavra em sua
cabea, a palavra que tinha evitado durante anos: divrcio. Alguma coisa na



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posio encolhida e abraada de seu filho e Ruth a tinha finalmente libertado.
Ela no conseguia se lembrar da ltima vez em que tinha ido dormir ao
mesmo tempo que o marido. Ele entrava no quarto como um fantasma e
como um fantasma se enfiava debaixo dos lenis, quase sem vinc-los. Ele
no era aquele tipo desagradvel de que a televiso e jornais estavam cheios.
Sua crueldade era sua ausncia. Mesmo quando chegava em casa e se sentava
 mesa do jantar e comia a comida dela, ele no estava presente.
     -- Hal?
     -- Eu vou ensinar o Buck a tocar bateria.
     Vov Lynn segurou a lngua a respeito da questionvel sobriedade de
conhecidos mestres do jazz.
     -- Bem, que tal trs cintilantes copos d'gua?
     Minha av voltou para a cozinha para pegar as bebidas. Eu tinha passado
a am-la mais depois da morte do que jamais a tinha amado na Terra. Gostaria
de poder dizer que naquele instante na cozinha ela decidiu parar de beber,
mas agora eu via que beber era parte do que a fazia ser quem era. Se a pior
coisa que ela deixasse na Terra fosse um legado de apoio inebriado, para mim
isso era um bom legado.
     Ela levou o gelo do freezer para a pia e foi generosa com os cubos. Sete
em cada copo alto. Abriu a torneira para deixar a gua sair o mais fria possvel.
Sua Abigail estava voltando para casa de novo. Sua estranha Abigail, que ela
amava.
     Mas quando levantou os olhos e olhou pela janela, jurou ter visto uma
menina usando as roupas de sua juventude sentada ao lado do barraco de
jardinagem de Buckley e olhando para ela. No instante seguinte a menina
tinha sumido. Ela tirou aquilo da cabea. O dia estava cheio. Ela no contaria a
ningum.

                                               12
    Quando o carro do meu pai chegou na frente da casa, eu estava
comeando a me perguntar se era aquilo que eu tinha estado esperando,
minha famlia chegar em casa, no mais por mim, mas uns pelos outros, sem
mim.




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     Na luz da tarde, meu pai parecia de alguma maneira menor, mais magro,
mas seus olhos demonstravam uma gratido que no exibiam havia anos.
     Quanto  minha me, ela estava pensando um instante de cada vez que
poderia ser capaz de sobreviver a voltar para casa.
     Os quatro saltaram do carro ao mesmo tempo. Buckley veio do banco de
trs ajudar meu pai, talvez mais do que ele precisasse ser ajudado, talvez o
protegendo da minha me. Lindsey olhou para o nosso irmo por cima do
capo do carro -- seu habitual modo de verificao ainda operante. Sentia-se
responsvel, do mesmo jeito que meu irmo se sentia, do mesmo jeito que
meu pai se sentia. Ento, ela se virou e viu minha me olhando para ela, com o
rosto iluminado pela luz amarelada dos narcisos.
     -- O que foi?
     -- Voc  o retrato encarnado da me do seu pai -- disse minha me.
     -- Me ajuda com as bolsas -- disse minha irm.
     Elas andaram juntas at a mala, enquanto Buckley conduzia meu pai at a
porta de casa.
     Lindsey encarou o espao escuro da mala. Ela s queria saber uma coisa.
     -- Voc vai machuc-lo de novo?
     -- Vou fazer todo o possvel para no fazer isso -- disse minha me --,
mas desta vez no prometo nada. -- Esperou Lindsey levantar o rosto e olhar
para ela, seus olhos desafiadores como os de uma criana que tinha crescido
rpido, corrido rpido desde o dia em que a polcia tinha dito sangue demais
na terra, sua filha/irm/menina est morta.
     -- Eu sei o que voc fez.
     -- Estou avisada.
     Minha irm levantou a bolsa.
     Elas ouviram gritos. Buckley correu para a varanda da frente.
     -- Lindsey! -- disse ele, esquecendo sua atitude sria, com o corpo
pesado tomado de alegria. -- Vem ver o que o Hal me deu!
     Ele bateu. E bateu e bateu e bateu. E Hal foi o nico que continuou a
sorrir depois de cinco minutos. Todos os outros tinham vislumbrado o futuro,
e o futuro era barulhento.
     -- Acho que agora seria uma boa hora de apresentar a vassourinha para
ele -- disse vov Lynn. Hal fez o que ela dizia.



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     Minha me tinha entregado os narcisos para vov Lynn e subido quase
imediatamente para o andai de cima, usando a desculpa de que precisava ir ao
banheiro. Todo mundo sabia onde ela estava indo: ao meu antigo quarto.
     Ficou parada na porta, sozinha, como se estivesse diante do Oceano
Pacfico. O quarto ainda era cor-de-lavanda. Com exceo de uma cadeira
reclinvel da minha av, os mveis eram os mesmos.
     -- Eu te amo, Susie -- disse ela.
     Eu tinha ouvido essas palavras tantas vezes do meu pai que elas agora me
chocavam; sem saber, eu tinha estado esperando ouvi-las da minha me. Ela
havia precisado de tempo para saber que esse amor no a destruiria, e eu,
agora eu sabia, tinha lhe dado esse tempo, podia lhe dar esse tempo, pois
tempo era o que eu tinha em maior quantidade.
     Ela reparou em uma fotografia em cima da minha antiga penteadeira, que
vov Lynn tinha posto em um porta-retratos dourado. Era a primeira foto que
eu tinha tirado dela -- meu retrato secreto de Abigail antes de sua famlia
acordar e de ela passar batom. Susie Salmon, fotgrafa de vida selvagem,
tinha conseguido clicar uma mulher com os olhos perdidos por cima de seu
enevoado gramado suburbano.

                                               12
      Ela usou o banheiro, puxando a descarga com grande estardalhao e
mexendo nas toalhas. Soube imediatamente que minha av tinha comprado
aquelas toalhas -- cor creme, uma cor ridcula para toalhas -- e bordadas com
monogramas -- outra coisa ridcula, pensou minha me. Mas ento, com a
mesma rapidez, riu de si mesma. Estava comeando a se. perguntar o quo til
sua poltica da terra arrasada tinha sido para ela durante todos aqueles anos.
Sua me era amorosa, embora fosse cachaceira, era slida, embora fosse ftil.
Quando  que ela conseguiria desistir de mudar no apenas os mortos, mas
tambm os vivos -- aprender a aceitar?
      No era no banheiro, na banheira, nem na torneira; eu no residia no
espelho acima de sua cabea e no havia uma miniatura de mim na ponta de
cada cerda da escova de dentes de Lindsey ou de Buckley. De algum jeito que
eu no conseguia explicar -- ser que eles tinham atingido um estado de
felicidade? Ser que meus pais estavam juntos de novo para sempre? Ser que



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Buckley tinha comeado a falar de seus problemas com algum? Ser que o
corao do meu pai ficaria realmente curado? -- eu tinha parado de ansiar por
eles, de precisar que eles ansiassem por mim. Embora ainda fosse faz-lo.
Embora eles ainda fossem faz-lo. Sempre.
     No andar de baixo, Hal segurava o pulso de Buckley, que segurava a
vassourinha.
     -- Passa ela de leve em cima da caixa. -- E Buckley passou e levantou os
olhos para Lindsey, sentada do outro lado do sof na sua frente.
     -- Bem legal, Buck -- disse minha irm.
     -- Parece uma cascavel.
     Hal gostou da comparao.
     -- Exatamente -- disse ele, com vises da banda de jazz de seus sonhos
danando em sua cabea.
     Minha me voltou ao andar de baixo. Quando entrou na sala, viu primeiro
meu pai. Em silncio, tentou faz-lo compreender que ela estava bem, que
ainda estava inspirando o ar, adaptando-se  altitude.
     -- Muito bem, todo mundo! -- gritou minha av da cozinha. -- O Samuel
tem um anncio a fazer, ento sentem-se!
     Todos riram e antes de voltarem a suas atitudes mais circunspectas -- j
que estar juntos assim era muito difcil para eles, mesmo sendo o que todos
queriam -- Samuel entrou na sala junto com vov Lynn. Ela segurava uma
bandeja de taas de champanhe prontas para serem enchidas. Olhou
rapidamente para Lindsey.
     -- A Lynn vai me ajudar a servir -- disse ele.
     --  uma das especialidades dela -- disse minha me.
     -- Abigail? -- disse vov Lynn.
     -- O qu?
     -- Tambm  bom ver voc.
     -- Pode servir, Samuel -- disse meu pai.
     -- Eu queria dizer que estou muito feliz por estar aqui com todos vocs.
     Mas Hal conhecia o prprio irmo.
     -- Voc ainda no terminou, orador. Buck, vassourinha. -- Dessa vez
     Hal deixou Buckley tocar sem ajuda, e meu irmo criou o fundo musical
para Samuel.



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      -- Eu queria dizer que estou feliz pela sra. Saimon estar em casa, e pelo sr.
Saimon estar em casa tambm, e que estou honrado por me casar com sua
linda filha.
      -- Viva! Viva!
      Minha me se levantou para segurar a bandeja para vov Lynn, e juntas
distriburam os copos pela sala.
      Olhando minha famlia beber champanhe, pensei em como sua vida tinha
se aproximado e se afastado da minha morte e depois, como eu via agora,
enquanto Samuel tomava coragem para beijar Lindsey em um recinto cheio de
parentes, partido  deriva para longe dela.
      Eram esses os restos angelicais que tinham nascido da minha ausncia: as
conexes -- algumas vezes tnues, algumas vezes criadas com muito custo,
mas com freqncia magnficas -- que aconteceram depois de eu morrer. E
comecei a ver as coisas de uma maneira que me permitia conceber o mundo
sem mim dentro dele. Os acontecimentos gerados pela minha morte eram
apenas os restos de um corpo que ficaria inteiro em algum momento
imprevisvel no futuro. O preo do que passei a ver como meu corpo
miraculoso tinha sido a minha vida.
      Meu pai olhou para sua filha em p ali na sua frente. A sombra da outra
filha tinha sumido.
      Com a promessa de que Hal lhe ensinaria a dar rufos de tambor depois
do jantar, Buckley largou a vassourinha e as baquetas e os sete comearam a
passar pela cozinha at a sala de jantar, onde Samuel e vov Lynn tinham
usado os pratos bonitos para servir a marca registrada dela: macarro
congelado da Stouffer's, e cheesecake congelado da Sara Lee.
      -- Tem algum l fora -- disse Hal, vendo um homem pela janela. -- E o
Ray Singh!
      -- Deixa ele entrar -- disse minha me.
      -- Ele est indo embora.
      Todos, com exceo do meu pai e da minha av, que ficaram juntos na
sala de jantar, comearam a ir atrs dele.
      -- Ei, Ray! -- disse Hal, abrindo a porta e quase pisando em cheio na
torta. -- Espera a!
      Ray se virou. Sua me estava no carro com o motor ligado.



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     -- A gente no queria interromper -- disse Ray para Hal. Lindsey e
Samuel e Buckley e uma mulher que ele reconheceu como a sra. Salmon
estavam todos amontoados na varanda.
     -- Aquela  a Ruana? -- perguntou minha me. -- Por favor, pede para
ela entrar.
     -- No precisa, srio -- disse Ray, e no fez nenhum movimento para se
aproximar. Ele se perguntava A Susie est vendo isso?
     Lindsey e Samuel se afastaram do grupo e chegaram perto dele.
     Aquela altura minha me tinha descido da varanda e andado at o carro,
onde estava debruada na janela conversando com Ruana.
     Ray olhou para sua me de relance enquanto ela abria a porta do carro
para entrar na casa.
     -- Nada alm de torta para ns dois -- disse ela para minha me
enquanto andavam em direo  porta.
     -- O dr. Singh est trabalhando? -- perguntou minha me.
     -- Como sempre -- disse Ruana. Ela ficou olhando Ray entrar, com
Lindsey e Samuel, pela porta da casa. -- Voc vai vir fumar uns cigarros
fedorentos comigo de novo?
     -- Combinado -- disse minha me.


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     -- Ray, seja bem-vindo, sente-se -- disse meu pai quando o viu chegando
vindo da sala de estar. Como o menino que tinha amado sua filha, ele tinha
um lugar especial no seu corao, mas Buckley se sentou na cadeira ao lado
do meu pai antes de qualquer outra pessoa conseguir chegar perto.
     Lindsey e Samuel encontraram duas cadeiras de encosto reto na sala de
estar e as trouxeram para se sentar perto do aparador. Ruana se sentou entre
vov Lynn e minha me e Hal se sentou sozinho em uma das cabeceiras.
     Percebi ento que eles no saberiam quando eu fosse embora, do mesmo
modo que podiam no saber s vezes o quanto eu tinha estado presente em
determinado cmodo. Buckley tinha falado comigo e eu tinha falado com ele.
Mesmo que eu no tivesse pensado estar falando com ele, estava. Eu me
manifestava em qualquer coisa que eles quisessem que fosse eu.




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     E ali estava ela de novo, sozinha, andando pelo milharal enquanto todas
as outras pessoas importantes para mim estavam sentadas juntas na mesma
sala. Ela sempre me sentiria e pensaria em mim. Eu podia ver isso, mas no
havia mais nada que eu pudesse fazer. Ruth tinha sido uma menina
atormentada e agora seria uma mulher atormentada. Primeiro por acidente, e
agora por escolha. Tudo aquilo, a histria da minha vida e da minha morte, era
dela caso quisesse cont-la, mesmo que fosse para uma pessoa de cada vez.


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     A visita de Ray e Ruana estava adiantada quando Samuel comeou a falar
da casa em estilo revival gtico que Lindsey e ele tinham encontrado em um
trecho abandonado da estrada 30. Enquanto ele contava os detalhes para
Abigail, descrevendo como tinha percebido que queria pedir Lindsey em
casamento e viver ali com ela, Ray se viu perguntando:
     -- Essa casa tem um buraco grande no teto da sala dos fundos e janelas
legais em cima da porta da frente?
     -- Tem -- disse Samuel, enquanto meu pai ia ficando preocupado. --
Mas d para consertar, sr. Salmon. Tenho certeza.
     -- Essa casa  do pai da Ruth -- disse Ray.
     Todos ficaram em silncio por um instante e ento Ray continuou.
     -- Ele pediu um emprstimo, dando sua firma como garantia, para
comprar casas velhas que no estejam j listadas para demolio. Quer
restaurar essas casas -- disse Ray.
     -- Meu Deus -- disse Samuel.
     E eu fui embora.




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                                           RESTOS



     Vocs no percebem os mortos indo embora quando eles decidem
abandon-los de verdade. No mximo os sentem como um sussurro ou a
onda de um sussurro indo para baixo. Eu os compararia a uma mulher nos
fundos de uma sala de conferncia ou de um teatro, que ningum nota at ela
sair discretamente. Nessa hora s os que esto eles prprios perto da porta,
como vov Lynn, percebem; para os outros  como uma brisa inexplicvel em
um quarto fechado.
     Vov Lynn morreu anos depois, mas ainda no a vi por aqui. Posso
imagin-la tomando todas no seu cu, bebendo mint juleps com Tennessee
Williams e Dean Martin. Ela vai chegar quando for a sua hora, tenho certeza.
     Para ser honesta com vocs, ainda saio de fininho para olhar minha
famlia de vez em quando. No posso evitar, e algumas vezes eles ainda
pensam em mim. Eles no podem evitar.
     Depois de se casarem, Lindsey e Samuel foram se sentar na casa vazia na
estrada 30 e beberam champanhe. Os galhos das rvores grandes demais
tinham entrado pela janela do andar de cima, e eles se aninharam debaixo
deles, sabendo que os galhos precisariam ser cortados. O pai de Ruth tinha
prometido lhes vender a casa com a condio de Samuel lhe pagar em
trabalho como seu primeiro empregado em um negcio de restaurao. No
final daquele vero, o sr. Connors j tinha limpado o terreno com a ajuda de
Samuel e Buckley e montado um trailer, que durante o dia era sua oficina e
durante a noite podia ser o quarto de estudo de Lindsey.
     No comeo era desconfortvel a falta de encanamento e eletricidade,
assim como ter de ir  casa de algum de seus pais para tomar banho, mas
Lindsey mergulhou de cabea nos estudos e Samuel mergulhou de cabea em
sua procura pelas maanetas e cordinhas de luminrias da poca certa. Foi
uma surpresa para todo mundo quando Lindsey descobriu estar grvida.




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   -- Eu achei que voc estava mais gorda -- disse Buck, sorrindo.
   -- Olha quem fala -- disse Lindsey.
   Meu pai sonhou que um dia poderia ensinar outra criana a amar barcos
em garrafas. Sabia que isso lhe causaria tanto tristeza quanto felicidade; que
sempre traria um eco de mim.

                                               12
      Eu gostaria de lhes dizer que aqui  lindo, que eu estou, e vocs estaro
um dia, seguros para sempre. Mas este cu no  segurana assim como, em
sua graa, no  uma cruel realidade. Ns nos divertimos.
      Fazemos coisas que deixam os humanos confusos e gratos, como fazer o
jardim de Buckley brotar certo dia, toda sua louca profuso de plantas
nascendo ao mesmo tempo. Fiz isso por minha me que, tendo ficado em
casa, viu-se novamente diante da questo do quintal. Maravilhada foi o que
ela ficou ao ver todas as flores e ervas e brotos nascendo. Maravilhada era o
que ela mais ficava depois de voltar -- com as viradas que a vida dava.
      E meus pais deram meus objetos que tinham sobrado para uma
instituio de caridade, junto com as coisas da vov Lynn.
      Continuaram a compartilhar as vezes em que me viam. Estar juntos
pensando e falando sobre os mortos tornou-se uma parte perfeitamente
normal de suas vidas. E eu escutava meu irmo, Buckley, enquanto ele tocava
bateria.
      Ray virou o dr. Singh, "o verdadeiro doutor da famlia", como Ruana
gostava de dizer. E ele teve mais e mais instantes em que decidiu no
desacreditar. Mesmo que ao seu redor houvesse cirurgies e cientistas srios
que governavam um mundo onde preto era preto e branco era branco, ele
no descartava a seguinte possibilidade: dos estranhos guias que apareciam s
vezes para os moribundos no serem resultado de derrames; de ter chamado
Ruth pelo meu nome, e de ter, de fato, feito amor comigo.
      Quando duvidava, ele ligava para Ruth. Ruth, que tinha sido promovida
de um closet para um conjugado do tamanho de um closet no Lower East
Side. Ruth, que ainda tentava encontrar uma maneira de escrever sobre quem
via e sobre suas experincias. Ruth, que queria que todos acreditassem no que
ela sabia: que os mortos realmente falam conosco, que no ar ao redor dos



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vivos espritos flutuam e ondulam e riem conosco. Eles so o oxignio que
respiramos.

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     Agora estou no lugar que chamo de imenso e gigantesco Cu, porque ele
inclui todos os meus desejos mais simples, mas tambm os mais humildes e os
mais grandiosos. A palavra que meu av usa  conforto.
     Ento aqui tem bolos e travesseiros e cores para dar e vender, mas
debaixo dessa colcha de retalhos mais bvia esto lugares como um quarto
silencioso onde voc pode ir e segurar a mo de algum sem precisar dizer
nada. Sem contar nenhuma histria. Sem pedir nada. Onde pode viver dentro
de si mesmo pelo tempo que desejar. Esse imenso e gigantesco Cu  feito de
pregos de cabea chata e da penugem macia das folhas novas, de montanhas-
russas incrveis e de bolas de gude que caem, depois ficam suspensas no ar,
depois levam voc a lugares que jamais poderia ter imaginado em seus
sonhos do pequeno cu.

                                               12
      Certa tarde eu estava olhando a Terra com meu av. Vamos os pssaros
pularem de copa em copa dos mais altos pinheiros do Maine e tnhamos as
sensaes dos pssaros enquanto aterrissavam, depois levantavam voo, depois
aterrissavam de novo. Acabamos em Manchester, visitando uma lanchonete da
qual meu av se lembrava dos dias em que subia e descia a costa leste a
trabalho. O lugar tinha ficado mais sinistro durante os ltimos 50 anos, e
depois de dar uma olhada fomos embora. Mas no instante em que virei as
costas eu o vi: o sr. Harvey descendo pelas portas de um nibus.
      Ele entrou na lanchonete e pediu uma xcara de caf no balco. Para os
no iniciados, ele ainda tinha a aparncia mais comum possvel, exceto ao
redor dos olhos, mas ele no usava mais lentes de contato e ningum se
preocupava mais em olhar atravs das grossas lentes de seus culos.
      Enquanto uma garonete mais velha lhe entregava um copo de isopor
cheio de caf fervendo, ele ouviu uma sineta em cima da porta atrs de si
tilintar e sentiu uma rajada de ar frio.




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     Era uma adolescente que tinha estado sentada algumas fileiras na sua
frente durante as ltimas horas, escutando seu walkman e cantarolando junto
com as msicas. Ele ficou sentado no balco at ela acabar de usar o banheiro,
depois a seguiu at o lado de fora.
     Eu o vi segui-la pela neve suja da lateral da lanchonete at os fundos do
terminal de nibus, onde ela estaria ao abrigo do vento para fumar. Enquanto
estava ali, ele se juntou a ela. Ela nem sequer ficou surpresa. Era s mais um
velho chato malvestido.
     Mentalmente, ele calculou suas aes. A neve e o frio. A ravina ngreme
que se abria imediatamente  sua frente. A mata fechada do outro lado. E
puxou conversa com ela.
     -- Viagem comprida -- disse ele.
     Primeiro ela olhou para ele como se no pudesse acreditar que ele estava
falando com ela.
     -- Ah -- disse ela.
     -- Voc est viajando sozinha?
     Foi ento que eu os vi, suspensos acima de suas cabeas em uma fileira
comprida e abundante. Pingentes de gelo.
     A menina apagou o cigarro na sola do sapato e se virou para ir embora.
     -- Velho nojento -- disse ela, e saiu andando depressa.
     Um instante depois, o pingente caiu. Seu peso frio o desequilibrou apenas
o suficiente para ele tropear e cair para a frente. Seria preciso semanas antes
de a neve da ravina derreter o bastante para ele ser encontrado.


                                               12
     Mas agora me deixem falar-lhes sobre algum especial: Em seu quintal,
Lindsey fez um jardim. Eu a via limpar o comprido e largo canteiro de flores.
Seus dedos se torciam dentro das luvas enquanto ela pensava nos pacientes
que via todos os dias em seu consultrio -- em como ajud-los a entender as
cartas que a vida lhes dava, em como aliviar sua dor. Lembrei-me de que as
pequenas coisas eram as que muitas vezes fugiam ao entendimento do que eu
considerava seu grande intelecto. Ela levou uma eternidade para entender que
eu sempre me oferecia para aparar a grama dentro da cerca, porque podia




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brincar com Holiday enquanto trabalhvamos no quintal. Ento ela se lembrou
de Holiday, e eu segui seus pensamentos. Como dentro de alguns anos seria
hora de comprar um cachorro para seu beb, quando a casa estivesse
arrumada e cercada. Ento pensou em como agora existiam mquinas com
cordas resistentes capazes de aparar uma cerca viva de um canto a outro em
minutos -- coisa que levvamos horas reclamando para conseguir fazer.
     Ento Samuel saiu da casa em direo a Lindsey, e ali estava ela no colo
dele, minha linda nenm gordinha, nascida 10 anos depois dos meus H anos
na Terra: Abigail Suzanne. Para mim ela era a pequena Susie. Samuel ps Susie
em cima de uma manta perto das flores. E minha irm, minha Lindsey, deixou-
me em sua lembrana, onde era o meu lugar.


                                               12
     E dentro de uma casinha a oito quilmetros dali um homem mostrava
minha pulseira de amuletos incrustada de lama para sua mulher.
     -- Olha o que eu encontrei na antiga zona industrial -- disse ele. -- Um
cara da obra disse que eles estavam demolindo o lote todo. Esto com medo
de outros sumidouros como aquele engolirem os carros.
     Sua mulher lhe serviu um pouco de gua da bica enquanto ele apalpava a
minscula bicicleta e a sapatilha de bale, o cesto de flores e o dedal. Ele lhe
estendeu a pulseira enlameada enquanto ela punha o copo na mesa.
     -- Essa menininha j deve estar crescida -- disse ela.
     Quase.
     No exatamente.
     Desejo a todos vocs uma vida longa e feliz.




                                          1Fim2


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                               AGRADECIMENTOS


           Tenho uma dvida com meus entusiasmados primeiros
      leitores: Judith Grossman, Wilton Barnhardt, Geoffrey Wolff,
      Margot Livesey, Phil Hay e Michelle Latiolais. E tambm com a
      oficina da Universidade da Califrnia em Irvine.
           Com aqueles que chegaram tarde na festa, mas trouxeram as
      bebidas mais espetaculares: Teal Minton, ]oy Johannessen e
      Karen Joy Fowler.
           Com os profissionais: Henry Dunow, Jennifer Carlson, Bill
      Contardi, Ursula Doyle, Michael Pietsch, Asya Muchnick, Ryan
      Harbage, Laura Quinn e Heather Fain.
           Agradecimentos eternos a: Sarah Burnes, Sarah Crichton e 
      gloriosa Colnia MacDowell.
           Uma medalha de honra de esperteza para meus informantes:
      Dee Williams, Orren Perlman, dr. Carl Brighton e para o
      essencial time de pesquisa de Bud e Jane.
           E para meu trio permanente, cuja amizade duradoura e as
      rigorosas leituras e releituras foram, junto com tapioca e caf, o
      que me permitiu funcionar em regime dirio: Aimee Bender,
      Kathryn Chetkovich, Glen David Gold.
           E um au! para Lilly.




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voc estar incentivando o autor e a publicao de novas obras.



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